Como me tornei sabugalense adoptivo

A minha visita ao Sabugal aconteceu na sequência do convite que enviei para a sessão de lançamento em Lisboa do meu último livro «Breve História dos Judeus em Portugal». Entre as respostas recebidas uma ex-aluna lamentava não poder estar presente por razões profissionais, mas enviava-me o link de uma página electrónica onde alguém se tinha referido a um dos meus anteriores livros da trilogia «Portugal e os Judeus». Cliquei e deparei com o Capeia Arraiana. Tratava-se de um post do Kim Tomé sobre a descoberta de uma alegada Arca Sagrada (Aron HaCodesh) na Casa do Castelo.

Jorge Martins - Casa do Castelo - Sabugal

Tendo ficado admirado por não ver os poderes locais divulgarem e integrarem o achado nos seus roteiros turísticos e/ou culturais, resolvi fazer um comentário e oferecer-me para ajudar quem estava a tentar divulgar o achado e a bela ideia defendida pelo Kim Tomé da criação de um Roteiro Judaico do Sabugal. É uma ideia que muito me agrada, pois tenho trabalhado em Roteiros da Lisboa Judaica. Foi o meu primeiro contacto com o Sabugal.
Já nem me recordo de como começou o contacto entre mim e a Natália Bispo, a proprietária da Casa do Castelo, mas, e-mail para lá e e-mail para cá, ficou agendada uma sessão de lançamento do meu livro no Sabugal para dia 17 do corrente mês de Outubro. Pensei: serão uns duzentos e tal quilómetros, não há problema!
Entretanto, as maiores surpresas estavam para vir. Recebo um e-mail da Natália a dizer-me que o mundo é pequeno e que nada acontece por acaso. Pois é, um dos amigos da Casa do Castelo era um colega e amigo Carlos Alberto, que tinha umas lojas na Pontinha, onde vivo. À primeira tentativa não vislumbrei tal colega. Mas, logo de seguida, recordei-me do Carlos Gomes. Ficaria acordado que seria ele a apresentar o meu trabalho.
Mas, a coisa não ficou por aqui. Uns dias após a divulgação dessa sessão no meu blogue, recebo um e-mail do meu amigo Albino Silva a perguntar se sabia onde era o Sabugal. Respondi-lhe que fora ver ao mapa e que teria muito gosto em levá-lo comigo. Aceitou o desafio, porque tinha uma casa em Penamacor, na freguesia de Aranhas. E assim lá fui eu com o Albino Silva e a Maria Helena, a sua esposa, a caminho do Sabugal. Eu, que sou um fervoroso admirador do Interior do país, exultei com esta série de circunstâncias e juntei o útil ao agradável.
Para além da deliciosa e intimista sessão na Casa do Castelo, onde me senti em casa, pude banquetear-me, na companhia de uma série de amigos da Natália Bispo, que se esmerou para oferecer o que de melhor têm os sabugalenses: a hospitalidade e o orgulho pela sua terra… e um manjar irrepreensível. Claro que, feitas as apresentações, numa mesa de arqueólogos, escritores, professores, figuras locais e os meus amigos Albino e Helena, logo após o almoço fomos ao Bardo do Kim Tomé beber um jazz de todo inimaginável e, já agora, uma cafezinho para rematar. Depois de tudo isto, pensei se seria indispensável fazer a apresentação do meu livro. Obviamente, o Carlos não perdeu tempo e pôs a cereja em cima do bolo: levou-me ao Castelo de Cinco Quinas, orgulho maior dos sabugalenses. Simplesmente inesquecível!
Para os forasteiros, devo informar que, ao sair da Casa do Castelo, viramos à esquerda e estamos no Bardo, que tem um ambiente de fazer inveja a muitos bares de Lisboa. Uns poucos metros à frente fica o imponente castelo. Já imaginaram um largo como este – o Largo de St.ª Maria do Castelo –, onde se realiza uma imperdível Feira Franca? Na próxima escapadinha, ou nas próximas férias, não deixem de dar uma saltada ao Sabugal, com paragem obrigatória na Casa do Castelo, para adquirir lembranças regionais e no Bardo, para se refrescarem, a olhar para o castelo. Conseguem mesmo imaginar? Não? Então, vão lá confirmar.
E ainda havia a sessão de apresentação do livro, que correu muito bem. No pequeno espaço, da maior dimensão humana possível, amontoavam-se algumas dezenas de pessoas. Há sessões que têm mesmo que ser assim: conferencista e assistência face a face. Ainda por cima, tínhamos a celebrada Arca Sagrada a um palmo de distância. No fim da sessão era indisfarçável a satisfação de todos os presentes. Um judeu de Belmonte orou frente à Arca, fechando com chave de ouro a cerimónia.
Faço aqui uma interrupção na narração, para criar ainda mais a água na boca daqueles que estarão a cogitar uma visita ao Sabugal. Não é que os meus amigos Albino e Helena andaram a fazer de cicerones por terras das Beiras? Levaram-me a Penamacor, a Penha Garcia, a Monsanto, às Termas de Monfortinho, a Idanha-a-Nova, a Idanha-a-Velha e a Constância, em cujas redondezas comi uns bolinhos de «queijo» (uma partida em que caí redondo), gulosos até mais não. Fiquei a saber que, no primeiro fim-de-semana de Novembro há uma festa em Idanha-a-Velha. E, não sei não, mas talvez me vejam por lá, se a vida profissional mo permitir.
Regressemos às despedidas da Casa do Castelo. Propositadamente, não vos contei que costumo repetir a todos os amigos que não nasceram em Lisboa que tenho desgosto de não ter terra e uma inveja de todos os que a têm para visitar na Páscoa e trazer a bagageira do carro cheia de cebolas e batatas. Lisboa, onde nasci, é bonita, mas não cumpre este desiderato. Disse isso mesmo à Natália Bispo e ela desafiou-me a ser adoptado pelo Sabugal. Aceitei o desafio. Na despedida da Casa do Castelo, a Natália pegou em dois sacos e disse-me: «Aqui tem as batatas e as cebolas! Agora, já tem terra.»
Fiquei desarmado e convencido: tornei-me sabugalense. Subi ao piso de cima e assinei o livro dos Amigos da Casa do Castelo. A partir do dia 17 de Outubro de 2009 passei a ter uma terra adoptiva: o Sabugal. E por lá me continuarão a ver. Até porque me comprometi a ajudar a Casa do Castelo a divulgar o património que possui e a colaborar na feitura de um Roteiro Judaico do Sabugal.
Não quero terminar sem um detalhe. Uns dias antes de ir ao Sabugal fui entrevistado pelo José Carlos Lages para o Capeia Arraiana. A empatia com os sabugalenses, que já existia à distância, cimentou-se logo ali, tal foi a conversa animada em que se transformou a entrevista. O meu entrevistador só dizia: «E eu que não trouxe o gravador!»
Haverá maiores motivos para me sentir adoptado como sabugalense?
Pontinha, 22 de Outubro de 2009
Jorge Martins

Aqui deixamos um grande abraço raiano a Jorge Martins. E uma certeza: ainda tem muito para descobrir no concelho do Sabugal. O nosso bem-haja por aceitar ser embaixador de uma terra que, apesar de adoptiva, também já considera sua.
jcl

6 Responses to Como me tornei sabugalense adoptivo

  1. Fui um dos felizes contemplados (mais os meus amigos) da hospitalidade da Sra. Nátalia que felizmente se tornou um hábito sempre que me desloco lá com os meus amigos ou mesmo sozinho, oferecendo-nos o almoço, um verdadeiro manjar dos Deuses, que refastelados que saímos todos de lá e nunca são suficientes as palavras para agradecer à Sra. Natália a sua simpatia.

    Tenho a dizer que partilho consigo o sentimento de adopção da terra do Sabugal, cheio de história, paisagens e o que o torna melhor – as pessoas. Não passo um dia sem conhecer lá algo novo, sem conhecer uma pessoa nova que me acolhe e faz-me sempre perguntas sobre o meu trabalho e de onde venho e para onde vou e onde me posso perder horas à conversa com ela…
    Ver a neve no inverno e nadar no côa de verão, ver “nuestros hermanos” espanhóis cá e lá.
    Conseguir _ver_ as estrelas à noite sem a poluição das luzes citadina e sentir o ar fresco das montanhas logo pela manhã.

    E isto tudo porque tive a felicidade de me cruzar com o kim tomé, dono do O bardo, que me deu a oportunidade de conhecer o que essas terras têm de melhor, seja em riquezas históricas, quer gastronómicas, quer pessoais.

    Confesso que fiquei deveras orgulhoso com o kim tomé, pois sei que ele sempre foi um apoiante da questão da rota judaica e da história dos judeus no sabugal (quantas vezes nao paramos para vermos marcas judaicas), e, passado centenas de anos um judeu rezar no altar da casa do castelo é sem dúvida um marco importantissimo que me ficará marcado na memória.

    Muitos parabéns a quem lutou por esta iniciativa cheia de sucesso e que a rota dos judeus se concretize.

    David Negreira.

  2. Ramiro Matos diz:

    Como já havia escrito na minha crónica das quintas-feiras esta foi uma tarde memorável.
    E descrita pela pena do “sabugalense novo” (desculpe a brincadeira, mas esperemos que não surjam os inquisidores…) Prof. Jorge Martins tem ainda mais sabor.

    Será, estou certo, sempre bem-vindo.

    Ramiro Matos

  3. Jorge Clemente diz:

    Prof. Jorge, todos os Portugueses devem estar gratos pelo seu trabalho não só no Sabugal como também pela divulgação e intresse pelo “Portugal esquecido…” desde às terras de Riba-côa à Beira-Baixa que são das zonas mais desertas do Pais em que ninguém quer saber delas, se não forem divulgadas através dos seus trunfos que é a cultura… só lhes resta uma solução que é serem entregues a Castela!! Mas, Prof. Jorge em Lisboa também há réplicas do Sabugal, desde a Casa do Concelho à Capeia e bem próximo em Novembro a Confraria do Bucho Raiano, onde espero encontrá-lo para lhe dar um abraço de Parabéns por tudo o que tem feito pelo PORTUGAL ESQUECIDO.

  4. Obrigado amigo Ramiro Matos. E, pelo que se percebe das palavras de David Negreira, ainda não vi nada do Sabugal. Obviamente, adopto-o!

  5. joao valente diz:

    Quem come cebolas e batatas da terra, é da terra. Só um conselho: as águas da Côa gozam fama de duras e provocarem dores de cabeça e febres (a acreditar numa célebre corografia do séc. XVIII). Nunca, em caso algum, devem ser bebidas. Para a sede, vinho fresco de adega e de preferência em boa companhia!

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