Remeniscências da presença judaica em Cima-Côa

A presença judaica em território nacional é antiga; existindo já nos últimos tempos do império Romano, atravessando a dominação Visigótica e Muçulmana, para constituir no séc. XV cerca de 10 por cento da população, num total de 150.000 almas.

João ValenteA presença judaica em Cima-Côa, especialmente no Sabugal, está documentada na chancelaria de D. Dinis, que a taxou em 50 libras anuais.
A população judaica aumentou consideravelmente no século XV depois do massacre de Sevilha em 1391, no qual pereceram 4.000 judeus e do édito dos reis católicos de 1492, que expulsou 170.000 judeus, dos quais teriam entrado em Portugal, cerca de 60.000, a maioria deles em territórios de fronteira, como Bragança e Beira, onde já havia numerosas comunidades judaicas, como Alfaiates, Sabugal, Celorico, Trancoso, Guarda e Covilhã.
A política de conversão forçada de D. Manuel, que nas palavras de Samuel Usque e Damião de Góis, arrastou pelas barbas, cabelos, a poder de punhadas e espancamentos, numerosos judeus à pia baptismal e o terror infundido pela inquisição instaurada em 1536, levaram a prática do judaísmo à clandestinidade.
Mesmo depois da abolição da inquisição e da política pombalina que acabou com a distinção de iure entre cristãos-velhos e cristãos-novos, os judeus continuaram a realizar as suas práticas clandestinamente, sem sacerdotes, sem livros, transmitido apenas pela via oral, que foi paulatinamente empobrecendo os ritos e as fórmulas, que foram contaminados pelo cristianismo.
Algumas das suas cerimónias públicas, como a circuncisão, festa dos tabernáculos ou imolação sacrificial dos animais desapareceram, bem como o conhecimento do hebraico, passando as orações a ser rezadas em português, através da tradição oral, cada vez mais afastada da sua pureza inicial.
Muitas dessas orações aprecem no quotidiano do nosso povo sem sentido intelectivo, estropiadas muitas vezes, embora rezadas com a mesma noção religiosa que costumava acompanhar, nas palavras de Leite de Vasconcelos, a dicção de algumas fórmulas mágicas.
A persistência deste culto hebraico nota-se em Trás-os-Montes e na Beira, especialmente em muitas das nossas aldeias, terras por onde entraram a maioria dos judeus espanhóis e permanecerem, longe do controle e fiscalização do poder central.

Duas orações com sabor judaico, entre outras, ouvi eu recitar na minha infância à minha avó, que lhe foram transmitidas também oralmente pela minha bisavó:
Ao levantar
«Levanta-te alma minha a dar graças ao Senhor, que perdoa os nossos pecados no seu Divino amor.»
Desta oração dá-nos Leite de Vasconcelos a seguinte versão recitada em 1933 por um tal Emília Morão, Judia de Penamacor:
«Assim que me levantei com alma e vida, ao Senhor louvarei. Andarei neste dia para que o Senhor me livre do fogo e do tormento quem no Senhor confia.»

Ao lavar
«(colocando a mão direita sobe a face, cobrindo os olhos) Volvei Senhor a vossa divina face para nós e com esta água que purifica o meu corpo, (lavando as mãos, começando pela direita) purificai a minha alma, protegei-me dos meus inimigos e deitai a vossa santa bênção (fazendo o sinal da cruz) sobre mim, e sobre todos os que vivem nesta casa.»
Desta oração dá-nos também Leite de Vasconcelos a seguinte versão que ouviu a judeus de Trás-dos-Montes:
«(colocando a mão direita na testa) Adonai, Senhor, volvei vossa santa e divina face à minha. Vós diante, ou detrás de vós, não terei medo nem pavor, nem causa mal me emperecerá. Serei guiado e governado pelo grande Deus Adonai (e corre-se a mão até ao peito) Deus me deite a sua santa e divina bênção sobre mim, sobre o meu homem e sobre os meus filhos.»

O cripto-judaísmo permaneceu nas terras remotas da Beira e Trás-dos-Montes influenciando os costumes e tradições; o sangue judeu corre nas veias de muitos dos beirões, sem que tenham consciência disso.
Eu cá por mim, tenho quase a certeza pelas tradições da minha família, dos quais dei, entre outros, apenas aqueles dois exemplos concretos, que nas minhas veias corre algum sangue judeu.
E acreditem; não tenho qualquer preconceito nisso!
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

5 Responses to Remeniscências da presença judaica em Cima-Côa

  1. Kim Tomé diz:

    🙂
    O conhecimento só adquire valor no momento em que é partilhado e, a partilha do conhecimento promove desenvolvimento.
    É bom quando as vontades se juntam e criam comunidades que ao partilhar livremente o conhecimento promovem o desenvolvimento, é assim nas comunidades Open Source. 🙂
    Parece ser evidente que temos uma Jóia (*) que tem sido desvalorizada, parece ser também evidente que valoriza-la é um dever e uma obrigação de todos, pois a todos pertence.
    À parte das razões pelas quais esta Jóia(*) tem sido desvalorizada, o importante é que as pessoas entendam que todos temos o dever e a obrigação de contribuir para a descoberta da sua história, para a sua qualificação e para a sua promoção.
    Olho para este texto, aprendo coisas novas e reforço a minha convicção de que com exemplos de partilha como este, podemos todos aprender e criar conteúdos que serão sem duvida uma mais valia para o Sabugal.
    João, Boa!
    🙂

    (*) – A Jóia – A Rota Judaica do Sabugal
    A Judiaria do Sabugal em conjunto com Alfaiates, Vilar maior, Vila de touro, Sortelha e muitos outros locais no Concelho e os inúmeros documentos que vão surgindo, são ténues sinais que resistiram à poeira dos tempos e à intolerância de mais de 300 anos.
    São sinais que nos permitem adivinhar a possibilidade de criar no Concelho do Sabugal, uma rota de sítios de interesse histórico e cultural relacionado com a cultura Judaica, esta é uma Jóia que temos o dever de cuidar.

  2. António Moura diz:

    Porquê Cima-Côa em vez de Riba-Côa, das “Terras de Riba-Côa” ?…

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