Em Abril mais de mil

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Abril marca o início do tempo ameno, cabido no ciclo das sementeiras, das sachas e regas, que culmina com as colheitas.

Borda d'ÁguaDiz o povo que a rês perdida em Abril cobra vida, em sinal de que vem o tempo primaveril, em que a Natureza tudo revigora. Também o muito badalado dito de Abril, águas mil, nos dá a medida de um tempo de chuva abundante, essencial ao desabrolhar da vida campestre. Há mesmo quem diga que este mês é a chave do ano, ainda que álgido seja: Abril frio e molhado enche a tulha e farta o gado, ou, como variante, Abril frio traz pão e vinho.
Nos tempos idos, em que sobretudo se vivia da lavoura, chegado Abril esvaziava-se a aldeia durante o dia. O aldeão largava para o campo, onde andava de sol a sol. Ainda sob a frialdade da manhã jungia as vacas para lavrar a folha. A seu tempo a mulher viria com a cesta da merenda, altura em que, já com a ajuda da dona, se lançava na tarefa da sementeira, botando ao ventre da terra a batata e o feijão. Para mais tarde ficaria o milho, que apenas podia ir à terra quando a rola, o mais atrasado dos pássaros migrantes, arribasse e cantasse do alto dos carvalhos.
Faziam-se os regos que dividiam as belgas e serviriam o correr da água nas regas. Ao seu redor, em carreira, plantavam-se couves, alfaces e beterrabas, vindas do alfobre. Também era neste mês, se as geadas não persistissem, que o camponês plantava as leiras de pimentos, cebolas e tomates, para que no tempo tórrido houvesse fartura de saladas.
Para a canalha este também era tempo de folias. Mau grado os pais os fizessem desandar para os campos a ajudar nas lides, havia sempre a oportunidade de uma escapadela ao bosque mais próximo, à cata de ninhos. Dizia-se quem em Abril haveria mais de mil, e o garoto percorria de olhar afiado toda a folhagem envolvente a ver se aumentava a conta de ninhos sabidos, que depois vigiaria com sete olhos, quando não lhe desse para rapinar os ovos e com eles fazer uma gemada.
O lavrador tem neste mês especial preocupação. Sabe que a água virá, o que lhe assegura o sucesso da sementeira e o bom desabrochar dos mimos, mas teme que o vento cieiro, sempre acompanhado por uma onda de frio e de secura, lhe invada os campos e impeça a lavoura de dar as suas primícias. Por isso se diz, que uma seca em Abril deixa o lavrador a pedir. E é por este ser o mês que tem a chave do ano, que nele se depositam as maiores esperanças, pois é necessário entrar bem para o resto do ciclo da vida agrária, de onde dependia a economia local.
Ainda não há muito tempo que na aldeia tudo o que se consumia era fruto da produção dos campos, regados com o suor do povo. Mau grado os tempos serem outros, isso perdura na memória dos homens da Beira, tão ligados ao seu terrunho, por conhecerem os esforços que a sua gente sempre fez por lograr salvar em cada dia a casa da fome e da miséria.
Abril, não é apenas a época das flores e do chilreio dos pássaros, em que um passeio pelo campo causa especial sedução. É sobretudo tempo em que a chuva e o sol se entrecruzam. Antigamente era nas abertas que o lavrador lançava a semente ao âmago da terra. Os assomos de sol garantiriam o desabrochar da semente, e isso era quanto bastava para contentar o camponês. Um saber clássico, passado de pais para filhos, dizia-lhe: o que Abril deixa nado, Maio deixa-o espigado.
Paulo Leitão Batista

2 Responses to Em Abril mais de mil

  1. Susana Falhas diz:

    Olá! Foi por acaso, em conversa com a senhora Natália, gerente da Loja do Castelo, tive conhecimento deste blogue.

    Dou os parabéns a todos os colaboradores deste blogue que mostram ao mundo a alma de Sabugal e da região das beiras.

    Sou natural da Mêda e estou a fazer investigação sobre as Aldeias Históricas de Portugal, pelo facto de ter uma grande paixão por elas. Face à pouca divulgação e conhecimento dos portugueses , resolvi dinamizar um blog para falar sobre as aldeias, em Fevereiro deste ano.
    Todas as segundas-feiras ,sensivelmente pelas 17 horas da tarde, convido os meus leitores a iniciar uma viagem pelas nossas belíssimas aldeias. Começámos em Fevereiro por Marialva, em Março andámos por Castelo Rodrigo e muito em breve está prevista a passagem por Sortelha (depois da visita a Almeida e Castelo Mendo).
    Convido os ilustres autores deste blog a participar nesta viagem e contribuir com os vossos conhecimentos sobre elas.
    E porque nunca é demais a informação e divulgação das Aldeias ,venho também informar que a Associação de Desenvolvimento Turistico das Aldeias Históricas já lançaram o site oficial: http://www.aldeiashistoricasdeportugal.com

    Mais uma vez, parabéns!
    Susana Falhas

    http://www.aldeiashistoricasdeportugal.blogspot.com

  2. joao valente diz:

    Este texto, lembrou-me o meu tempo feliz dos ninhos e dos sonhos…

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