Direito à indignação dos sabugalenses

Após um tempo de reflexão e análise aos dados disponíveis sinto que, enquanto sabugalense, não posso calar a minha indignação carregada de dúvidas em relação ao tratamento subjectivo dos valores do estudo sobre a qualidade de vida nos municípios portugueses que coloca o Sabugal na posição 278.

Outdoors do SabugalUm espantoso estudo sobre «Qualidade de Viva» assinado por um professor e um técnico do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior, difundido pela Comunicação Social, coloca o concelho do Sabugal na posição 278 (e última) da tabela dos municípios portugueses.
Como o Sabugal aparece em último lugar uma primeira dúvida me assaltou de imediato. 278? Mas são 308 os concelhos portugueses. O que é feito dos outros? Os insulares não são portugueses? Bom, mas continuemos… O estudo baseou-se, segundo os autores, num anuário estatístico publicado em 2004 pelo Instituto Nacional de Estatística. Em 2004? E foi apresentado em 2008? Chamem a ASAE. Com quatro anos de atraso já deve estar fora de prazo… (mas o assunto é sério e vou tratá-lo com seriedade).
De acordo com os autores de tão arrojado estudo as palavras-chave são qualidade de vida, bem-estar e desenvolvimento regional. Tudo factores interpretativos e subjectivos que variam de pessoa para pessoa. No entanto a ficha técnica faz referência à medição do bem-estar com recurso à utilização de sofisticados programas, como por exemplo, o teste Kaiser-Meyer-Olkin, o teste de esfericidade de Bartlett ou o método Varimax. Elucidativo!
Em Direito da Comunicação aprendi que em publicidade é proibido falar em sabor porque o sabor não é comparável de pessoa para pessoa. Outros tempos!
Nas conclusões do estudo o ilustre professor afirma que «de uma maneira geral, os resultados obtidos não apresentam surpresas relevantes em relação aos resultados esperados tanto no que diz respeito aos primeiros lugares como aos últimos mas convém salientar que estes resultados dependem da selecção dos indicadores previamente realizada pelo que este ranking pode ser facilmente alterado mediante a alteração de um indicador». Importa-se de repetir?
Fundamental, credível e reconhecido unanimemente por todas os executivos camarários é o Indicador de Desenvolvimento Municipal (IDM) elaborado pela Municípia, S.A. que permite hierarquizar os 308 municípios portugueses em termos de desenvolvimento tendo em conta sete indicadores sectoriais especifícos devidamente descriminados e justificados. Aqui vos deixo as posições nacionais do concelho do Sabugal em três deles: Ambiente e Qualidade de Vida, 54.º; Índice de Investimento Municipal, 36.º; e Cidadania, 34.º
Apesar de revoltado não resisto a transcrever uma passagem de um artigo publicado em «www.jornalregional.com»: «Os cartazes a anunciar actividades populares nos Fóios pendurados nas paredes do gabinete na Universidade da Beira Interior (UBI) revelam a forte ligação que o professor mantém à terra natal. Na pequena aldeia do concelho do Sabugal, preserva a casa que herdou dos pais e sempre que pode é para lá que vai, para recuperar forças: ‘É o meu refúgio. A minha mulher até costuma dizer que sempre que estou doente e vou para a aldeia venho de lá melhor’, conta a sorrir. O professor confessa que gostaria de ver noutra posição o concelho onde nasceu, mas salienta que nesse trabalho ‘não foram contabilizadas variáveis que seriam mais penalizantes para os grandes centros, como sejam o tráfego e os vários tipos de poluição. Estes dados não estão disponíveis nem são facilmente, quantificáveis, por isso, não fizeram parte do estudo. Mas se fizessem, os municípios do interior estariam numa posição bem melhor”, conclui.» Elementar meu caro…
Afirmações lapidares e surpreendentes e que, se não fosse caso sério, podiam ser intituladas de «Portugal no seu melhor». Não acredito que seja um estudo encomendado mas é difícil fazer pior pelo concelho do Sabugal.
Umas palavras finais para todos os sabugalenses e em especial os que têm responsabilidades no nosso concelho:
– A Câmara Municipal do Sabugal deve aproveitar esta tentativa de negativizar o nosso concelho e potenciar as nossas (muitas) qualidades de vida.
– A Assembleia Municipal tem a dever de votar o «assunto».
– A Mesa das Juntas de Freguesia deve reunir e tomar uma posição de repúdio a tal «estudo».
– As associações do concelho encabeçadas pela ADES têm a obrigação de publicitar a sua indignação com a mesma convicção com que pedem apoios e subsídios.
Enquanto sabugalense atento registarei com muito interesse quem resolver assobiar para o ar ou enterrar a cabeça na areia.
Viva o ar puro do Sabugal! Viva a qualidade de vida do Sabugal! Vivam os verdadeiros sabugalenses!
«A Cidade e as Terras», opinião de José Carlos Lages

jcglages@gmail.com

3 Responses to Direito à indignação dos sabugalenses

  1. Ramiro Matos diz:

    Totalmente de acordo!

    Mas atenção, que alguns destes “senhores professores” têm um poder grande sobre as Autarquias da Beira Interior.

    Quem fez o “projecto” da ligação à A23?
    Quem apoia a Câmara no Cró?
    Quem faz protocolos para a utilização das habitações sociais no Sabugal?

    Hoje ser professor numa Universidade nem sempre é sinónimo de qualidade. Ou será que alguém acredita que a culpa é só dos alunos ou do Governo?

    Aquele Estudo tem o valor que tem – um zero à esquerda de um número.

    E se os nossos órgãos de informação não andassem à cata do escândalo e do efeito fácil, nem seria digno de divulgação.

    Estou contigo no direito à indignação!…

    Ramiro Matos

  2. josnumar diz:

    Mais uma voz se vai juntar ao protesto. Eu li a notícia e fui pesquisar na internet acerca do assunto. De facto, o resultado do estudo foi largamente publicitado através dos meios de comunicação social , incluindo as rádios.
    Os concelhos que ficaram bem na fotografia tirada pelos professores da UBI estão em pulgas e vão fazendo a festa como se tivessem recebido um grande prémio. Eu, como natural do concelho do Sabugal, fiquei derrotado e triste. Os resultados eram mesmo de arrasar qualquer um e mais ainda os autores do estudo eram docentes na Universidade da Covilhã-nunca coloquei os resultados em causa.Mudei de ideias depois de ler o post aqui colocado, bem como os comentários Mas ao ler este texto e os comentários feitos pelo senhor Ramiro Matos, fiquei com vontade de berrar bem alto:”Viver com qualidade e tranquilidade em Portugal, é no concelho do Sabugal!”

  3. Também manifesto aqui a minha repugnância e indignação pelos resultados desse “estudo” que, pelo que constactei, não tem rigor nem qualidade científica.

    De todo o modo, poderá servir para justificar maior e fundamentada reivindicação de “discriminação positiva” para o Concelho do Sabugal junto do governo.

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