Agostinho da Silva, saiu de Barca d’Alva e correu para o mar, tal como o Rio Douro.

Jesué Pinharanda - Carta DominicalAgostinho da Silva, sério pensador, gostava de se esconder por debaixo de pseudónimos. Há multidão de escritos assinados por nomes que só alguns conseguem identificar como sendo de Agostinho. Um desses escritos remete-nos para Barca d’Alva e o autor identifica-se como João Cascudo de Morais. Editou dois fascículos, que pagou de seu bolso, e distribuiu gratuitamente por conhecidos e amigos, ainda que no verso do fascículo pusésse a tiragem e o que pagou à tipografia, na esperança de que os bafejados pela oferta, lhe remetessem o equivalente, quer dizer, o preço da unidade, que se obtinha dividindo o custo pela tiragem. No caso, 300 exemplares, custaram (há quantos anos) 2.400$, pelo que Agostinho esperava receber oito escudos.
Agostinho destinava estes fascículos à imprensa regional. Depois que voltou do Brasil e de ter sido entrevistado na RTP, recebeu pedidos dos jornais para colaborar e alguns até se prontificaram a pagar. Mas Agostinho não estava disposto e, para compensar, publicava estes fascículos, autorizando os jornais a transcreverem deles o que quiséssem. De uma forma geral versava problemas de actualidade. Ora, o que mais importa é o seu regresso imaginado à terra onde cresceu, junto de seus pais, Barca d’Alva, a última terra da nossa Raia beiroa, e última estação portuguesa antes de os comboios terem de subir a dramática vertente da Fregeneda em que, indo o comboio muito carregado, eram precisas duas locomotivas.
Agostinho manteve a fidelidade às raízes. Correu para o mar, tal como o Rio Douro. Cresceu na Barca e nela vogou, ao alvor, rumo ao Porto, onde se doutorou. E, depois, vogou para o Atlântico. Via-se português do mundo mas não ibérico. Chegou a defender, por escrito, que o maior acto da nossa história foi, não a gesta dos Descobrimentos, mas a libertação do jugo castelhano. Quis Portugal puro e real, e de Barca d’Alva o levou para o Brasil. A barca, chamada de alva, porque era logo ao nascer da aurora, que passava as pessoas de um lado para o outro do rio, serviu a Agostinho para navegar no mar profundo e levar com ele a barca de uma nova alva.
É raiano, mas ecuménico.
«Carta Dominical» de Pinharanda Gomes

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