Ao comemorarmos o dia 25 de Abril, falamos exactamente da restituição de muitas liberdades arredadas do quotidiano comum, fruto de uma ditadura que durou perto de 50 anos.

Largo do Carmo - 25 de Abril de 1974 (foto de Esteves Carreirinha)Naquela manhã, ao ouvirmos a rádio, anunciando o golpe dos Capitães de Abril, não foi propriamente uma surpresa, pois em Lisboa, naquela altura já se prenunciava algo do género, no seguimento da primeira tentativa, havida cerca de dois meses antes, iniciada nas Caldas da Rainha, com a sublevação militar do Quartel desta Cidade, caminhando em direcção a Lisboa, sendo esta marcha parada à entrada de Lisboa e presos os principais responsáveis.
Apesar dos avisos para nos mantermos em casa, nada disso, fomos para o trabalho, onde fomos dispensados, devido ao golpe de estado que estava a decorrer em todo o País e mais intensamente, em Lisboa.
A manhã foi passada a ler os matutinos, ouvir atentamente a rádio e dar uma espreitadela à televisão.
Largo do Carmo - 25 de Abril de 1974 (foto de Esteves Carreirinha)Após o almoço, a ansiedade era tanta que não resistimos e, ala, de abalada para o Quartel do Carmo, onde uma multidão de pessoas se concentrou, gritando palavras de ordem, indiferente ao perigo e rajadas de metralhadoras contra a parte frontal do dito Quartel, pois foi onde se refugiou Marcelo Caetano, o último Presidente do Conselho de Ministros, até à chegada do General Spínola que havia de receber o Poder, tendo Marcelo Caetano sido evacuado num Chaimite do Exército das Forças Armadas, rumo a local desconhecido, nesse mesmo dia. Iria para a Madeira e daí para o exílio no Brasil.
Passado o testemunho e com a consumação do Golpe dos Militares, deu-se a debandada do Largo do Carmo.
Depois do jantar, a espera interminável até cerca das 2 da manhã, quando a Junta de Salvação Nacional surgiu na TV lendo um comunicado e explicando o que já todos sabíamos. O Governo tinha sido substituído por uma Junta de Salvação Nacional, escolhida pelos Militares, que iria governar interinamente e proporcionar as primeiras eleições livres para aprovar uma nova Constituição da República.
Já lá vão muitos anos, é verdade, mas conservamos esse dia na memória, pois as peripécias foram muitas, aliados a alguns perigos, mas valeu bem a pena este dia cheio de emoções que restituiu a liberdade e a alegria a um povo, bem carente delas.
Esteves Carreirinha