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Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

A cor e a voz do vento

Se a vida for um sopro nós existimos no veemente brotar do vento ante a sucinta fluência do tempo. Partem e volvem os nossos dias nos sussurros da ventosidade. Enegrecem e aclaram as nossas noites na sua flutuação. No seu seio sonhamos os nossos sonhos e advogamos os nossos arbítrios.

As cores e as vozes do vento transmutam no contínuo escoar do tempo

Tempestade tranquilizadora!

Era domingo e a tarde, apressada, esgotava-se deixando-me (curto) tempo para um velho hábito, o de observar.

Fernando Capelo - «Terras do Jarmelo»Ora, é sabido que, para vendavais, não há fins de semana e, apesar do domingo, levantava-se um vento espanhol, forte e tempestuoso fazendo viajar no seu sopro, escassas gotas de chuva que voavam velozes e azuis no ar cinzento magoando os rostos muito mais do que molhavam.
Eu insistia, resistia, no meu posto, no cume da escarpa verificando o Côa bem ao fundo. Virado ao rio vigiava, pelo canto do olho, em ângulo difícil, aferindo distâncias. A pequena aldeia de Mido, de tons amarelados, brancos e vermelhos, trepava a meia encosta denunciando ânsias de subir mais alto. Apesar disso, Mido, não consegue enxergar o rio que, qual cobra cinzenta/brilhante nesta tarde sem sol, furava o frio empurrada por bafos fortes de vento gelado e sob uma ameaça seríssima de chuva.
Se, nesse momento, eu tivesse uma flor, teria descido e, tê-la-ia colocado sobre as águas, para amenizar o ar da tempestade, para criar uma imagem mágica que lhe pudesse resistir. Pedir-lhe-ia, ao rio, que protegesse a flor, que a fizesse sobreviver ao vento, à chuva e à corrente, que a levasse e que a transformasse num símbolo andante posterior ao mau tempo provando que a bonança regressará sempre.
Mas não, não era época de campos com flores e era tarde de vendaval que acabou por envolver os montes, entortando árvores, arrancando folhas, levando-as, varrendo-as.
O som das folhas caídas e arrastadas parecia criar uma canção livre, liberta das grades do tempo e, assim, me lembrei das cantigas de infância que, no Inverno, eram cantadas ao calor da lareira. Eram diferentes dessas outras cantigas de infância, as da Primavera, cantadas no exterior já quente, quando as flores pintavam os prados, sobre ou entre as ervas. Nessa altura estaria o rio tão próximo do meu coração quanto ainda está hoje!
Mas voltaria, agora, a provar o vendaval! Voltei a ver os pastos altos, os cabelos de erva que, diante dos meus olhos, voltaram a provocar-me espanto. Entendi as pancadas fortes do vento como pancadas de Molière.
Estava perante a paisagem austera do Côa, sob temporal, com árvores a vergarem-se e pastos a ondular. Era uma paisagem dinâmica por entre rochas inertes… Senti-me, de novo, espectador de um palco, de um teatro que já vi milhentas vezes. Não vi flores nem ouvi palmas mas revi retalhos da minha vivência, numa paisagem digna de televisão ou de cinema.
Por outro lado, era como entregar ao vento preocupações ou sofrimentos. Era como descarregá-los na visão de um filme, e depois de os largar, voltar a sorrir distraindo-me com tudo o que estava em meu redor. Porque ela, a paisagem austera do Côa, apesar da tempestade tinha essa arte, a de me fazer festas tranquilizadoras.
E o vendaval apenas ensaiava o seu papel, fazendo mergulhar tudo num tremendo temporal animado pelos sons e abanos do vento e pelas ameaças da chuva mas, tudo, resistiria como se resistisse a um cerco.
E a Primavera haverá de chegar como quem põe flores sobre a mesa!
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo