Tag Archives: mito

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

A queda dum mito

Alcino dá-nos a ler um texto repleto de metáforas e de ironias, pelo qual descreve em traços incisivos o que nos trouxe o final deste verão quente, dramático e mediático.

Ó vós tresmalhados dos ensinamentos que vos leguei…

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O mito

O filósofo português António Braz Teixeira acaba de publicar um interessantíssimo ensaio, sob a epígrafe «A teoria do mito na filosofia luso-brasileira contemporânea».

O Bandarra de Trancoso

O Bandarra de Trancoso

Os mitos e a Europa

Poetas e prosadores, ensaístas e filólogos, não se têm dado sossego na análise e aprofundamento do conceito de mito.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaPara Fernando Pessoa o mito é o nada que é tudo, para Almeida Garrett, trata-se de palavra grega que em tudo se mete e com a qual se procura explicar o que não tem explicação; os dicionários consideram-no feito fabuloso atribuído a divindades ou personagens que são divindades desfiguradas, para ensaístas, trata-se de narração de factos ou tempos que a história não esclarece e contendo ora um facto real convertido em noção religiosa, ora a invenção de um facto com o auxílio de uma ideia.
Mais aprofundadamente, há quem o defina como preciência, ou seja como um estádio que acabará por desembocar no conhecimento racional, depois de visionado profética e simbolicamente.
Quanto à Europa, numerosos mitos constam da Epos: o do nascimento (filha de Agenor e Telefasa, reis para lá do Ponto Euxino); o das suas relações de parentesco (irmã, pelo menos, de Fénix e de Cadmo); o de objecto de rapto, atribuído a Júpiter disfarçado de touro; o do encontro das tábuas do destino; o da rememoração de êxtase genesíaco e o invento da vaca amoldável; o do nascimento do Minotauro; a cornucópia da amalteia…
Esta última, por símbolo de todas as abundâncias, parece ter ficado para sempre ligada à ideia de Europa.
Assim, pelo menos, a têm encarado os filhos dos demais continentes, em corolário a ela recorrentes nas épocas de crise.
Aliás, a imagem vem de longe e nem sequer Camões, mau grado a sua precária existência, lhe sofreou reflexos.
A de portadora, não das tábuas da lei, que talvez mais legitimamente se podia arrogar, mas de detentora das chaves do destino mundial é prerrogativa que se julga real, até quando os planos de domínio se gizam extramuros, como aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial com os eixos do poder desfocados para a América ou a Rússia, mais asiática que europeia.
Aqui, regressa-se a outro mito: o das origens. Filha de Fenícios, irmã da própria Fénix, a Europa sempre guarda alguma coisa de asiático, mesmo que seja por simples reacção.
Cadmo também deixou marcas. Mais uma vez nos socorremos de Camões:

Ó míseros cristãos, pela ventura,
Sois os dentes de Cadmo desparzidos
Que uns aos outros vão dando a morte escura
Sendo todos de um só ventre produzidos.

As guerras entre europeus, os mestres as apelidavam de guerras civis. Por vezes, a identidade de objectivos assume a natureza de falácia.
Eu e o meu Primo Francisco I, dizia Carlos V, temos uma ideia que nos une: ambos queremos Milão… Só que esta união gerava o fratricídio.
Simultaneamente, fastos e nefastos se revelavam também os mitos ligados ao touro joviano e suas repercussões.
A Europa corre o mundo sobre o rapto de Júpiter; ou nostálgica de genesíaca sensação… suas redomas.
As atitudes diametralmente opostas nasceram da mesma ideia.
A vaca amoldável em que a Europa se refugiava para novamente atrair o touro divino assemalha-se às couraças materiais com que pretende acobertar-se; ou a desvirtuamento espiritual que algumas vezes torna a regra.
União monstruosa gerou para a lenda do Minotauro, para a História tem já sido a origem de inenarráveis tragédias.
Os conflitos internacionais (e bastará citar as chamadas guerras dos cem, trinta e dos sete anos, as campanhas napoleónicas, a primeira e segunda grandes guerras), as questões religiosas e ideológicas que repetidamente têm ensanguentado a túnica que se pretenderia branca e inconcussa desta velha Alma Mater de civilizações, não passam de monstruosas criações geradas por cópulas igualmente monstruosas.
Para as evitar, urge purificar os mitos e, passando-os da fase presciente à do pleno conhecimento substituí-los pelas grandes ideias que estão na base do europeísmo: a cultura greco-latina, as sublimidades do cristianismo, o primado do espírito.
Não para combater a técnica e a revolução material. Mas para as colocar no seu papel de servidores do homem.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire