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Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Os ratinhos da Beira

Eram designados de «ratinhos» os beirões que, em grupo, trabalhavam no latifúndio alentejano, colmatando a crónica falta de mão-de-obra nas grandes e colectivas tarefas agrícolas daquela província do sul de Portugal. Vários autores escreveram sobre esta gente pobre que era mal-amada pelos povos, igualmente pobres, dos lugares onde aportavam.

As ceifas no Alentejo

O caldo verde de Luís Coelho Albernaz

Acabo de ler um livro que há uns anos comecei a folhear e depois pousei, agarrando-me a outras leituras de ocasião. Trata-se de «Os Ratinhos», de Luís Coelho Albernaz, um romance social de raiz regional, cuja acção se desenvolve na Beira e no Alentejo, tendo por pano de fundo os movimentos migratórios de beirões que debandavam para o Sul à cata de sustento, sujeitando-se a uma vida dura e cruel.

Diria que é um romance demasiado cândido, que reporta a vida de um pobre mas inteligente rapaz que foge à miséria e aos maus-tratos do patrão e vai à aventura, de mistura com os «ratinhos» que demandam o Alentejo. Trabalhador, honesto e ambicioso o jovem trepa a pulso na vida, trabalhando e estudando sob a protecção de um padre rico que com ele simpatizou. Formado em Direito, o narrador deixa de lhe chamar António, passando a referir-se-lhe como o Doutor António, e coloca-o a ir de volta às berças, onde ajuda financeiramente a família e os amigos de infância e recupera o amor da Emilinha, que o julgava desaparecido para sempre.
A par do cultivo das virtudes de quem sobe duramente na vida, transformando-se de pobre em rico, em prémio da inteligência e do trabalho, o livro fala-nos da epopeia dos desventurados da Beira que desciam ao Alentejo. Lá trabalhavam durante meses a fio, envolvendo-se nas tarefas sazonais. Seguiam em grupo, orientados por um capataz que tinha a responsabilidade de falar com os latifundiários e os seus feitores, de manter a coesão do grupo e de a todos trazer de volta no final da campanha.
Trabalhavam arduamente e viviam em condições miseráveis. Dormiam em tarimbas, sobre palha impregnada de percevejos, arranchavam onde calhava, comendo papas e migas, servindo-se todos da mesma gamela:
«Naquele dia cozeram feijões com saramagos e carne de porco, mais gorda que magra. Pronto o cozinhado, foi este distribuído por pequenos recipientes onde os Ratinhos de casqueiro numa mão e colher na outra, se iam servir.»
Muito trabalho e mau passadio para estes beirões que iam para terra alheia em busca de melhor vida, mas de onde regressavam com apenas alguns cobres, que mal chegavam para pagar as dívidas.
No que toca à gastronomia, é digna de nota a referência ao saboroso caldo verde que o «Doutor António» deglutiu quando regressou à aldeia, em casa da própria irmã, que o não reconheceu dados os anos que passaram, o seu vestir escrupuloso e os óculos que usava e lhe davam um ar selecto.
«A Sara chamou:
– Vamos para a mesa. O senhor Doutor fica ali – e indicou-lhe a parte cimeira da mesa. – Não sei se lá para o Alentejo fazem deste caldo, mas é uma das especialidades cá da Beira. Há quem lhe deite umas rodelas de chouriça, mas eu penso que isso vai tirar o verdadeiro gosto do caldo verde. Tira-lhe o que tem de melhor que é precisamente o sabor inconfundível das folhas verdes da couve galega. Deitar chouriça no caldo verde, é como quem deita aguardente no bom café: estraga uma coisa e outra.
Sentaram-se. O Doutor viu tanta sopa naquele prato grande e profundo que julgou impossível caber-lhe no estômago. Ia tentar comer metade para a irmã não ficar desgostosa, já que nenhuma cozinheira gosta que comam pouco dos seus cozinhados.
O Doutor comer a sopa toda e lambeu os beiços. (…) Em seguida chegou o arroz de cabrito que foi repetido por todos.»
«Sabores Literários», crónica de Paulo Leitão Batista

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