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José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

O papel, o digital, as pessoas

Preservar o conhecimento em papel ou noutro suporte físico de idêntica natureza é ainda uma das formas mais fiáveis de o preservar. Complementado com o digital democratiza-se o conhecimento. O conhecimento vivo, as pessoas, ainda não conseguimos preservar.

Destruição de livros pelo fogo

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

O Livro

«O Livro é a única Moral que ainda existe» – Manuel da Silva Ramos (“Jornal do Fundão”).

Começar o Novo Ano a ler mais e melhor

Os meus livros

Hoje vou abrir uma excepção nos meus artigos, vou falar de algo que me pertence, os meus livros, livros que foram escritos por mim. Também vou ser presunçoso! Para escrever é preciso ter valor, para ter valor é necessário ter valores. Quero com isto dizer querido leitor(a) que quem escreve um livro, um artigo, um poema, ou algo relacionado com literatura, tem de ter valor e valores. Excepto, claro! As canetas mercenárias, as que escrevem para quem mais lhes der, as que estão à disposição de quem mais pagar.

António EmidioVoltemos aos meus livros. Tenho a avisá-lo querido leitor (a), que não são recomendados, nem muito menos apoiados pelos consórcios da indústria da cultura. Compreende-se, são actos vandálicos literários, escritos por um agitador social, sem contar com um fraco estilo literário, inúmeras gralhas e pontuação duvidosa. Mas têm uma coisa, são mais éticos que estéticos, quis construir imagens concretas da vida e contar boas histórias, não escrevi para mercados, nem sei.
Vejamos um pouco do que escrevi num deles já em 2008:
«(…)
– O que é a modernidade?
– É a revolução tecnológica, a revolução informática, a revolução da informação, dos transportes, das mentalidades. Neste mundo moderno já não há mais espaço para o paternalismo do Estado, o Estado social como o vimos nas últimas décadas, tem que desaparecer, esse espaço tem que ser ocupado pelas empresas privadas, mas atenção! – exclamou – empresas essas viradas para a concorrência! Porque se não tiverem capacidade de competirem com as estrangeiras, perdem-se mercados para os nossos produtos e a partir daí vem o desemprego. É preciso que os trabalhadores tenham isso em mente, só os baixos salários podem fazer com que uma empresa seja competitiva, os salários altos aumentam os custos laborais e de produção. Isso reflecte-se nas exportações.
– Mas isso não é socialismo é capitalismo. Todas essas revoluções de que tu falas são dirigidas pelo poder financeiro.
– Chama-lhes o que quiseres, mas cada vez mais os políticos têm que obedecer ás ordens do mercado, e cada vez menos aos anseios dos seus povos, melhor dizendo, cidadãos, estes têm que compreender que vão passar a depender cada vez mais do sector privado, tanto nos salários, na doença, na segurança social e nas poupanças.
– Se bem compreendo, tudo se resume a isto. Baixos salários, desaparecimento do Estado social, privatização de todas as fatias que possam dar lucro, como a segurança social, por exemplo.
(…)»
Este pequeno extracto de um dos meus livros mostra que eles também são uma defesa de um ideal próprio e da sociedade que eu desejo para o meu País, embora este ideal e este desejo colidam com os interesses dos senhores do poder. Não lhes estou sujeito, fiz-me «escritor» não para os bajular, mas sim para enviar mensagens de alerta, dizendo que se não acordarmos como povo, só nos resta o abismo.
Dizia Arthur Rimbaud, poeta francês, que a mão que maneja a caneta tem tanto valor como a que maneja o arado, é uma realidade que não consegue ser vista por aqueles e, também aquelas que vivem cegos pela arrogância, pela vaidade e pela ambição.
Quase todos os homens de letras portugueses, poetas, filósofos, ensaístas, escritores, se preocuparam com Portugal, Portugal para eles foi o tema principal do seu pensamento e dos seus argumentos, Camões, Pessoa, Quental, Oliveira Martins, Raul Proença, António Sérgio, entre outros. António Sérgio também dizia: «a minha arma de combate é só a pena.» Por isso, a palavra dita e a palavra escrita ombreiam lado a lado na nossa História com as grandes obras valorosas que nos distinguiram dos outros povos.
Sou um utópico? Sem dúvida, mas com o passar do tempo, uma vida sem utopia torna-se irrespirável. E a sociedade que não concebe uma utopia e não se agarra a ela, está ameaçada de ruína.
Sou um radical? Sem dúvida, mas se não gritarmos bem alto e bem forte, adormeceremos embalados pelos lindos cânticos, como os da corrupção, do autoritarismo, da ignorância, do consumismo, do lucro, dos lacaios mediáticos do mundo das finanças, dos políticos que se vendem aos mercados, e de todos aqueles que nos vão destruindo.
Os livros são bens da alma, e como as pessoas, também os há bons, maus e péssimos. Os meus livros dei-os quase todos, não me preocupou o lucro, mas sim a mensagem que eles transmitem.
Dizem que a revolução Francesa foi uma revolução de leitores. É uma realidade. Foi impressionante o número de publicações, folhetos e jornais que se publicaram por essa altura, vivia-se uma avidez de leitura. Havia muitas sociedades de leitura e anúncios como este de um sapateiro que colocou à porta da sua pequena oficina um cartaz que dizia: «Aqui lêem-se os jornais em voz alta todas as tardes das sete ás oito.»
Um verdadeiro revolucionário.

Para terminar um pequeno esclarecimento: se por acaso não faço comentários a artigos de outros colaboradores, que gostaria de fazer, e não respondo a pessoas que os fazem aos meus, é porque depois de escritos, e ao tentar enviá-los, não saem dos computadores onde os escrevo, digo computadores porque já tentei em vários e o resultado foi sempre igual. A minha péssima relação com a informática traz-me alguns problemas.
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

ant.emidio@gmail.com

«Os Meus Amores» de Trindade Coelho

Trindade Coelho nasceu no Mogadouro, distrito de Bragança, em 1861. Magistrado de profissão, iniciou a sua actividade na vila do Sabugal enquanto Delegado do Procurador Régio, em 1886.

O livro de Trindade CoelhoFoi na vila raiana do Sabugal que o jovem magistrado Trindade Coelho recebeu correspondência do consagrado escritor Camilo Castelo Branco, que via nele um promissor homem de letras, dizendo-lhe que intercedera por si junto do Ministro da Justiça, para que lhe arranjasse colocação numa cidade capital de distrito. Não tardou assim que Trindade Coelho saísse do Sabugal, rumando a Portalegre, onde passou a exercer funções.
Para além de excelente jurista, Trindade Coelho foi mestre na arte de narrar. Seguindo as apertadas regras que ao contista são exigidas, deixou-nos autênticas obras-primas, as mais significativas reunidas no excelente volume «Os Meus Amores», que são uma referência da literatura portuguesa.
Os seus contos, de grande esplendor estilístico e apurado rigor narrativo, inspiram-se nas vivências populares que ele, filho do povo, tão bem conhecia. Alguns deles, mais do que contos, são poemas, ou, diríamos mesmo, odes. Odes à harmonia da Natureza e à sublimidade do amor. Poucos escritos tem a nossa literatura que emparceirem com Trindade Coelho na profundidade emocional. Descreve o amor sincero entre as pessoas, numa simbiose perfeita entre o seu afecto mútuo e o quadro natural que as envolve. Aborda os diversos quadros da vida colectiva, em que o povo simples e agreste aparece numa onda de humildade e de abnegação, que comovem.
No que se refere a quadros etnográficos, o maior registo está no conto «À Lareira», que descreve um antigo serão na aldeia. Com as cores vivas de uma espátula, Trindade Coelho pinta em tela o convívio de tempos idos, quando escasseavam as formas de passar o tempo. As mulheres fazem meia ou, munidas da roca, fiam o linho. Já os homens dedicam-se à bisca, enquanto que os mais novos se vão entretendo com jogos infantis ou ouvindo as conversas dos adultos. Dirigidas às crianças soltam-se catadupas de adivinhas, cabendo-lhes encontrar a solução. Também para elas vão os contos e as fábulas antigas, herdadas de tempos distantes, passadas de geração em geração, ali à roda da lareira, nos vetustos serões da província.
plb