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Lince da Malcata - © Capeia Arraiana

Segunda ninhada de linces junto ao Guadiana

Uma segunda ninhada de linces foi localizada e fotografada no vale do Guadiana por técnicos ambientais. A informação foi divulgada esta quinta-feira, 12 de Maio, num comunicado do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Lagunilla depois de caçar um coelho - Foto: D.R. - Capeia Arraiana

Lagunilla depois de caçar um coelho (foto: D.R.)

Que 2010 nos traga o Lince!

No final de um ano difícil para todos, (talvez nem todos) é hora de olhar para trás, para o caminho percorrido e efectuar o balanço do que de bom e mau se passou. Mas é também hora de fazer votos de um excelente Ano de 2010 para este território raiano e para todos os que nele encontraram laços e afectos.

Lince Ibérico - Malcata

António Cabanas - «Terras do Lince»Entre as muitas realizações que todos queremos ver concretizadas, umas da competências dos poderes públicos, central ou autárquicos, outras da sociedade civil, ou seja de cada um de nós, pela minha parte, gostaria especialmente que o primeiro lince a colocar em liberdade, o fosse já em 2010, na Reserva da Malcata.Se esse desiderato for conseguido, o Ministério do Ambiente e o ICNB ficarão redimidos dos erros e omissões cometidos em anos anteriores em prejuízo desta área protegida (Ap).
Ao longo das últimas décadas as populações da sua envolvente têm abdicado de tirar da serra proveitos que, naturalmente, não resolveriam os nossos problemas, mas poderiam, com outras opções de uso, ajudar a minimizá-los. Entre muitos outros possíveis, darei apenas dois exemplos:
1. A Serra da Malcata foi, ancestralmente, refúgio de fauna de pequeno e grande porte, potencialmente indutora do desenvolvimento da actividade cinegética, que sempre se praticou nas suas vertentes. Para se aferir dessa histórica actividade leia-se «Caçadas aos javalis» do Dr. Framar.
Caso se tivesse seguido a opção cinegética, a serra poderia albergar hoje uma série de zonas de caça turística, muito rentáveis e geradoras de emprego. Geridas de forma empresarial, as grandes herdades da serra por certo estariam povoadas de veados e corços, muflões e javalis para atrair os mais endinheirados amantes da arte da caça.
2. Outro valioso recurso a aproveitar poderia ser a energia eólica. Com várias cumeadas de altitudes próximas dos 1000 metros, só uma alternativa muito mais valiosa justificará que qualquer país desenvolvido abdique deste enorme potencial energético.
Não quero mencionar sequer outras alternativas de aproveitamento, designadamente, florestal, para não abrir outras frentes de opinião fracturante.
Já defendi, sem qualquer tibieza, a compatibilidade entre a energia eólica e a conservação do Lince, opinião alias, publicada na comunicação social nacional. Não é agora o momento de esgrimir tais argumentos.
A Malcata podia ser um parque natural, alargado a outras zonas dos dois concelhos, podia até ser o 2.º parque nacional do país, mas não é uma coisa nem outra: é antes uma reserva natural. Sendo uma reserva, é a conservação das espécies, em especial o Lince e não as paisagens o seu principal valor.
São essencialmente dois os impactes apontados pela corrente de opinião que rejeita a exploração eólica nas Aps, o visual e a perturbação da avifauna. O primeiro é obviamente subjectivo, o segundo precisará de ser melhor estudado e comprovado.
Os que, legitimamente, acham que os aerogeradores descaracterizam e empobrecem as paisagens naturais, não podem usar esse argumento na Malcata: primeiro porque ela já está rodeada deles, depois porque o seu plano de ordenamento restringe a visitação, sinal claro de que não se pretende a fruição das suas paisagens. E as paisagens só são belas perante o nosso olhar.
Por ironia, os espanhóis preparam-se para encher de torres eólicas a cumeada de fronteira, onde o recurso energético devia ser comum. Os molinos ficarão a uns centímetros da reserva, cujo Regulamento os proíbe terminantemente! Os grifos e abutres negros, que com frequência cruzam a fronteira, ficarão sujeitos ao seu alegado impacte.
Assim a Malcata ficará com os dois «temíveis» impactes ambientais, mas não receberá um cêntimo de compensação! Temos que afirmar que os seus interesses e os das espécies que ali se preservam foram mal defendidos.
Teria sido mais vantajoso negociar contrapartidas em favor do lince, por exemplo. E que contrapartidas!? Num estudo solicitado pela Câmara de Penamacor a uma empresa eólica, a Malcata poderia render, em energia, cerca de 40 milhões de euros anuais (1 milhão seria para as autarquias).
Nunca fui de ideias fixas. O que hoje nos parece correcto, pode amanhã, com melhor conhecimento, parecer-nos incorrecto e as opções de curto prazo nem sempre se revelam vantajosas a longo prazo. Mas estas são dúvidas que teremos sempre, sejam quais forem as opções.
Há porém valores – e os valores são perenes – que temos obrigação de defender. Os valores da justiça e da solidariedade devem estar sempre presentes nas políticas públicas. A defesa e preservação do Lince, é um desafio nacional que deve ser custeado pelo todo nacional, tal como o TGV ou o aeroporto de Lisboa. Não é justo que alguns paguem um benefício que é de todos.
Penamacor e Sabugal nunca foram compensados por contribuírem para um objectivo nacional e até supranacional. Pior, relativamente à questão do Lince, nos últimos anos a nossa região tem sido preterida, em favor de outras regiões, o que significa uma falta de ética e de respeito pelos investimentos feitos na Malcata em estudos e aquisição de terrenos.
Não temos nada contra o Algarve nem contra o Alentejo, até gostamos muito dessas regiões, mas não podemos permitir que o ICNB perca o azimute, traçado ao longo de mais de duas décadas. Não podem os interesses políticos sobreporem-se aos interesses da conservação.
A reintrodução do Lince na Malcata terá de ser uma medida prioritária da Conservação da Natureza a nível nacional, não apenas no discurso. Como não acreditamos na sorte resta-nos estar activamente atentos e vigilantes.
«Terras do Lince», opinião de António Cabanas

kabanasa@sapo.pt