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José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Os banhos dos rapazes da aldeia

Nos anos 60, tomar banho era coisa que não apoquentava ninguém no Inverno. Estava frio, a água era fria, pronto, ninguém tomava banho. Nem fatalidade era. Era assim mesmo todos os anos e para todos.

Chegados a Maio íamos tomar banho em bando

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

As vindimas na minha casa

Por volta de fins de Agosto notei sempre que algo de anormal se passava em nossa casa, com algumas correrias… Havia mulheres da vizinhança que traziam loiças, muitos pratos de alumínio, que mais tarde vi iguais na tropa, talheres de cabo de madeira, grandes panelões de ferro e outras coisas.

Era tempo de vindimar

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

D. Afonso V, Rei de Portugal

Vou descrever alguns factos históricos verídicos sobre o nosso rei D. João V, sem colocar datas com muito rigor. Passou-se tudo desde o ano 1450.

D. Afonso V

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

As janeiras no meu tempo na aldeia

A pedinchice tradicional das Janeiras na Aldeia era ao fim de semana ou durante os outros dias, tanto dava, mas sempre à noite.

Vale da Senhora da Póvoa

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

A Visita Pascal na Aldeia

Lembro-me das Visitas Pascais no Vale da Senhora da Póvoa porque participei nelas em dois anos consecutivos.

Visita Pascal

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Natal de 1964 no Vale da Senhora da Póvoa

Havia vários dias que se notava grande azáfama lá por casa. Eu não percebia bem de início, mas como se tratava de fazer comidas, eu já andava cheio de alegria. Havia uma dança de tachos, panelas, conchas, colheres, garfões.

O Dr Jaime Lopes Dias oferecia ao Povo da Aldeia, no seu Lagar, uma grande jantarada de batatas com bacalhau, couves e vinho

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Vasco da Gama

Vasco da Gama (VG) – A nossa História elogia muito este Navegador. Descobriu o caminho marítimo para a Índia e outras coisas. Fui tirar isto a pratos limpos. Descobri que o “nosso” VG era do estilo Bin Laden ou até pior. Vou descrever uma das suas estórias muito sanguinárias.

Vasco da Gama

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Patrulhas na aldeia

Havia em 1960 dois grupos nas noites de Vale de Lobo, que já era Vale da Senhora da Póvoa há três anos.

Vale da Senhora da Póvoa

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

Ser da Moita e também ser do Vale de Lobo

Tenho uma teoria sobre a Moita, aldeia que viu nascer a minha Mãe em 1920. É que nesta Aldeia o ar é puríssimo, mais antigamente do que agora, por causa da poluição geral. A situação geográfica da Aldeia faz circular o ar puríssimo que vem da Serra da Estrela. Atrevo-me até a dizer que o frio ali é diferente.

Moita – casa dos azulejos verdes

José Jorge Cameira - Vale de Lobo e Moita - © Capeia Arraiana

A minha instrução primária na aldeia

Corria o ano 1958, a Aldeia tinha mudado de nome havia um ano. Em vez de Vale de Lobo agora era Vale da Senhora da Póvoa. Porque um pastor quando olhava as cabras numa póvoa (terreno de bom pasto e boas águas) encontrou um boneco e parecendo-lhe ser uma santa, levou-a para a aldeia.

Antiga escola primária de Vale de Lobo

O dia (a noite) do baile nas Inguias

Acabou aquele ano escolar e prantei-me em casa no Vale da Senhora da Póvoa com metade do 5ºano de Letras feito e logo com média de 15 valores, conseguido no difícil Liceu da Guarda. Foi um feito do caraças!

José Jorge CameiraAs minhas tias e o meu Padrinho ficaram todos contentes, porque assim eu já tinha DIPLOMA suficiente (disseram todos) para me empregar na Câmara Municipal de Lisboa, com a cunha do Dr. Jaime Lopes Dias. De certeza também contentes porque o pestinha da casa ia para Lisboa empregar-se…
Não sei o que aconteceu, mas o meu Padrinho decidiu que continuaria a estudar, pelo menos tentar tirar o resto do 5º ano….
E não só! O meu Padrinho presenteou-me com CEM PAUS! Até me lembro que o meu coração pulava de contente por ter tanta massa…
No outro dia de manhã fui apanhar às 8h30 a camioneta da carreira que me levaria ao Sabugal, onde tinha alguns amigos.
Fui à Vila porque queria comprar um presente a mim mesmo, por ter feito TAMANHA façanha escolar. Aliás ainda hoje costumo oferecer um presente a mim mesmo quando faço qualquer coisa especial e de valor… incentivo-me, entenda-se!
Comprei no Sabugal um belo facalhão, do tipo que o David Crocket usava para explorar a floresta canadiana no Séc. XVIII. O punho tinha tiras de cabedal enrolado, parecia encerado e desenroscava-se um botão de onde saíam anzóis, fios, botões, eu sei lá o que mais! E a lâmina? Brilhante, aço puro, com uma serrilha que até metia medo…
Era com esse punhal que eu me pavoneava pela aldeia, todos queriam tocar, mexer, invejava. Um dos quais mais gostava desse brinquedo era o moleiro, recém-chegado à Aldeia e que moía as sementes na Moagem a seguir ao Lagar do Dr Jaime…
O moleiro às vezes pedia-me emprestado o garboso objecto e em troca emprestava-me a sua bicicleta, do tipo chocolateira das mais recentes… até já tinha farolim! Eu passeava-me pela Aldeia, ia até ao recinto da Senhora da Póvoa, à Serrinha, subia à Fonte Santa… ah se eu adorava pedalar naquilo! Com esses passeios até fui descobrindo onde havia meloais, árvores carregadas de frutos… bem, essa é outra estória!
Num desses dias o Ângelo, que é Cameira como eu, chamou-me e fez-me uma proposta.
Mas antes de escrever qual foi, devo dizer que o Ângelo era e é figura muito estimada no Vale da Senhora da Póvoa, era o acordeonista que – a troco de trezentos paus – alegrava a juventude nos bailes organizados nos domingos entre as 15 e as 19, hora que tocava o sino da Igreja para chamar as pessoas para o terço e as mães levantavam-se dos mochos num ápice e gritavam às filhas:
– Mariaaaaa, vamô bóra pó terço…
Elas bastante contrariadas lá iam, embora puxadas pelas mãos suadas da rapaziada que não as queria deixar ir…
Uma vez o bailarico acabou bem mais cedo que as 7 horas. Nesse domingo o baile fez-se na eira detrás da Escola Primária das raparigas, frente à casa do Zé Nabais e do Ângelo. Embora já tenham passado mais de 50 anos ainda me lembro: de um lado a formação alinhada de toda a rapaziada já salivando e em frente separado pelo cimentado da eira, o grupo das raparigas de pé, com os seus vestidinhos e lenços na cabeça, ao lado das mães já sentadas nos mochos, aqueles bancos feitos de folhas de cortiça.
Enquanto o acordeonista, o Ângelo, não se aprontava para iniciar o bailarico, alguém da rapaziada mostrava a todos uma erva com minúsculos frutos em forma de coração que continham dentro umas quase microscópicas sementes. Era a erva-caralheira.
– Cuidado, elas para obrigarem um gajo a casar, oferecem uma maçã onde fizeram uns buraquinhos e metem estes grãozinhos que nos «hipotenizam»…
Naquele tempo, lembro-me, também se falava muito nas «sopas amarelas» que tinham os meus objectivos: obrigar um rapaz a casar…
A rapaziada nesses anos de 1965 e tais andava toda pelos 16, 17 ou mesmo 18 anos. No grupinho das raparigas havia uma especial: era a Sílvia (nome fictício), com 25 anos, vinha de Lisboa para férias no Vale, corpo roliço e bem feito, mesmo de longe exalava aquele perfume natural de fêmea pronta. Todos deitavam o olhinho naquela mulher inatingível! E a dançar era um regalo vê-la e quando soprava um ventinho amigo, as formas do seu corpo desenhavam-se à frente e atrás!
Ninguém se atrevia a convidá-la para dançar. Entre todos desafiávamo-nos a ver quem se atrevia a tal. O Tó, talvez com um copinho a mais, disse-nos:
– Aqui não há mas nem meio mas, vou eu mesmo, a gaja não me há-de dar porrada… e se der logo se vê!
Perante a nossa aflição, foi direito a ela, com ar gingão, atravessou a eira de mãos nos bolsos, sabe-se lá segurando o quê. Foi assim o curto diálogo, que se ouviu bem porque fez-se silêncio total.
– Ó Silvia, vamos a batê-las?
– Contigo? Eu cá não danço com garotos! Era o que faltava e respeitinho, ouvistes?
– Eu, garoto? Olha bem para isto tudo e vê lá se eu sou um garoto?
De repente baixou as calças até aos joelhos, mostrando a fruta ornamentada com grandes e fartos pêlos negros! Sem ceroulas, porque ninguém ia aos bailes com entraves desses… liberdade total de gestos, cum catano! Tinham de sentir nos tangos tocados pelo Ângelo que éramos machos ….
Foi o CAOS completo! As mães começaram a gritar, fingindo tapar os olhos com o xaile, benzendo-se e beijando a cruzinha do Jesus, chamando pelas filhas, pegando nos mochos, arrastando as saias, levantando o pó da eira, clamando «aqui d’el rei»:
– Vamos embora, filhá, tá aqui o demónio, cruz canhoto, ta renego…
Acabou o baile com esse alvoroço e nós rindo com um misto de gozo malandro e chateados porque a esfrega da semana nem sequer começara!
Lembro-me de termos comentado todos com o Tó:
– Sabes o que fizeste? Esta noite as mulheres da aldeia não vão dormir por tua causa… não é todos os dias que elas vêm disso…
Quando o baile era junto ao Chafariz, é claro que o Ângelo lá em cima naquela varandinha onde tocava ia topando os esquemas todos, quem se encostava mais, quais as moças que deixavam ou não deixavam «achegar-se»…
Uma vez chamou-me após terminar uma moda:
– Ó Zé Jorge, essa tua sorte, olha que eu vi a Francisca (nome fictício) agarrar a tua mão e pô-la no sobre a blusa dela…
Doutra vez fizemos um baile ao domingo fora dos lugares habituais – o Ângelo sentou-se numa cadeira com o seu acordeon no meio daquela rua a subir para a Igreja. Depois da minha casa, quem desce, a primeira rua à direita. No gaveto existe uma casa com colunas, uma varanda e por baixo da entrada, ao nível da rua, um vão que dá acesso ao palheiro da casa, tudo em granito. Ainda hoje gosto imenso dessa casa.
Portanto o espaço para dançar era algo esquisito. Como a letra T. No meio da rua dançávamos e o Ângelo no meio da ladeira a tocar…
Muito naturalmente as raparigas foram para aquela varanda e por ser lugar alto, tinham uma visão abrangente do bailarico, comentando algo que viam com aqueles conhecidos risinhos de meninas…
A intenção da malta fazer ali o baile desse domingo era outra!
Enquanto as raparigas estavam lá em cima olhando os pares do baile, nós íamos à vez àquele vão de acesso ao palheiro da casa e através dos interstícios das lajes de granito, espreitávamos para as pernas e as cuecas das meninas que descontraidamente se inclinavam na dita varanda…
Bem, ainda hoje lá estaríamos, não fora o irmão de uma dessas meninas que deu um berro cá de baixo para a irmã:
– Maria, sai daí que te estão a ver as pernas!
Foi um alarido e uma gritaria geral das meninas a fugirem da varanda e pela ladeira acima em direcção à Igreja…
Acabou o baile, é claro, mas ficámos todos inchados, gordos de prazer… tínhamos todos visto as pernas e as cuecas de quase todas as raparigas do Vale da Senhora da Póvoa…
O Ângelo e eu tão amigalhaços éramos que mais tarde, uns anos depois em Castelo Branco ele aprendeu comigo rudimentos de inglês que precisava para emigrar para a Austrália, onde ainda vive, e no meio desses ensinamentos comíamos batatas fritas com alheiras assadas e ovo a cavalo naquele restaurante por baixo do Cinema, recordando sempre peripécias da nossa parvónia…
A tal proposta era no sábado seguinte irmos às INGUIAS, também terra de muitos Cameiras, porque havia feira e baile…
– Ó Zé Jorge, vamos às Inguias no sábado, vai haver baile e há muitas garotas jeitosas, gajas boas. Tu pedes emprestada a bicicleta ao moleiro e eu levo a minha mota, nas subidas eu ato uma corda da mota à bicicleta e puxo-te quando for preciso…
Ora o que era preciso era aventura para quebrar aquela monotonia do Vale… e tudo parecia lógico, fazia sentido.
Saímos da aldeia pelas 10 da noite e até ao Terreiro das Bruxas eram apenas 2 kms a subir, o que era fácil de fazer a pedalar…
Mais fácil foi aquela descida vertiginosa até ao Casteleiro e depois virar à direita para as Inguias, cerca de 15 kms a sentir o fresco agradável da noite na cara, praticamente sem pedalar….
Chegámos às Inguias e o que vi foi o Ângelo ser recebido como um rei e senhor por todo o mulherame presente… ele bem mas apresentava, mas atão… elas queriam era o Ângelo!
Lá nos surrafámos o mais possível contra aquelas lindas mulheres, bebemos uns copos e já eram umas 3 da madrugada quando decidimos regressar, sujos e cheios de pó, que o baile foi em terra batida…
Bem, regressar seria o inverso: subir e pedalar os tais 15 kms, bastando ao Ângelo acelerar com o punho da mota…
Pusemos a tal corda unindo os dois «burros metálicos» e lá fomos…
Fomos, mas não muito longe, porque havia curvas e contracurvas, estava escuro e a velocidade era diferente…
Para mim, vá de trambolhões… vários… um deles até caí por uma ravina e o Ângelo teve que me pescar com um ramo de esteva…
Já tinha as calças rasgadas, camisa esfrangalhada, joelhos a sangrar… todo rôto por fora e por dentro… estava feito!
O pior foi a bicicleta… o farolim partiu-se, os pára-lamas caíram e por lá ficaram… várias vezes o guiador torcido, sempre a ser endireitado entre os joelhos!
Para cúmulo até a corda de rebocar se partiu… e nem os nossos dois cintos atados ajudaram muito!
Um TORMENTO para mim, principalmente… e durante 15 kms!
Chegámos ao Povo já eram quase 5 horas da matina, fui pôr a bicicleta encostada à porta da moagem, de certeza que o moleiro ia ter um xelique perante tanto estrago…
Fui pintalgar-me de mercúrio-cromo nas feridas e dormir.
De manhã tinha que resolver o assunto da bicicleta e o que decidi, doeu um bocado, mas teve de ser mesmo…
Fui falar com ele e para pagar os prejuízos… dei-lhe o FACALHÃO !!!!
Acho que ele não esperava tanto, notei nos olhos!
Não sei se ficou satisfeito, o que é certo é que sempre me falou e bem!…
– Ó Ângelo, ganda maka aquela!!! Nem mais enguias, nem mais irozes, po…rra!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

O sino

Conto hoje uma estória curiosa do Alentejo – Aconteceu mesmo! (Não digo o nome da aldeia, senão quando for lá, «mamo-as»!).

José Jorge CameiraHá uns 80 ou mesmo 90 anos a Aldeia dos Alguidares (nome fictício) tinha muita fama de ser comunista. É que refilavam muito com os donos dos latifúndios de centenas ou mesmo milhares de hectares de terras existentes à volta da Povoação. No tempo da Outra Senhora era coisa grave. Por isso a Diocese não mandava para lá nenhum Padre. Ou não fosse ele ficar também comunista ou era por castigo desse povo ser herege. Mas um dia um sacerdote mais afoito ofereceu-se ao Bispo para «cristianizar» essas gentes desencaminhadas do Divino Redil. E lá foi ele para o sertão…
Encontrou uma Igreja limpa e a brilhar. Por aqui as Gentes do Sul costumam caiar as casas uma vez por ano. Isso então não falha!
Mas faltava-lhe o sino. A Diocese não forneceu nenhum, porque não havia Padre para chamar os fiéis e também porque era parte do castigo para aquelas Almas desavindas. Não era preciso, nem mereciam!
Este Senhor Prior lá se foi aguentando e o horário da Missa, Terço era por passa-palavra. Casamentos havia poucos ou nenhuns, porque aqui o costume era ajuntarem-se, assim não se gastava dinheiro em bodas e festanças de um dia!
As mulheres gostavam de se ir confessar. Desabafavam as suas diabruras de fêmeas, havia confiança absoluta porque o que diziam na Confissão não podia ser divulgado e… tem de se dizer, o Senhor Prior era para elas um belo pedaço de homem, sendo bem olhado pelos buraquinhos do confessionário! Sempre lavadinho e penteado, unhas limpas. Nada parecido com os respectivos companheiros, sempre tresandando a suadouro do trabalho dos campos, quando não era também os cheiros mijalosos das vacas, ovelhas, cabritos e suínos!
Desse modo o Reverendo foi sabendo os pecados da Freguesia e à força do tempo, foi conhecendo o ambiente da aldeia.
Um dia uma Comissão de Moradores foi falar com o Padre, manifestando-lhe o desejo de terem um sino no alto do campanário, tal como todas as aldeias em redor. Desconfio eu, à distância do tempo, que a intenção não era lá muito pela fé, mas sim para os trabalhadores do campo ouvirem de longe o toque de recolher a casa…
– O Senhor Bispo diz que não tem dinheiro para dar um sino. Assim sendo, a única solução é o Povo fazer uma subscrição e eu mesmo me encarrego de ir a Lisboa comprar um sino de bronze, um bem bonito, com uma cruz e nome da nossa Aldeia.
Assim foi. Passados uns meses, essa tal Comissão de Moradores foi entregar ao Senhor Padre uma boa mão cheia de notas a fim de ele comprar o tal sino.
E lá foi o Ministro de Deus até Lisboa com o bolso da batina atafulhado das notas…
Passou-se um mês, dois meses…e nada de sino nem de padre.
Já o Povo desconfiava de marosca, quando numa bela manhã de domingo, ali junto ao Largo da Aldeia pára uma camioneta e o chauffeur pergunta ao primeiro aldeão:
– Aqui é que á a Aldeia dos Alguidares? Trago aqui um caixote pesado com ordens para deixar aqui na Aldeia…
Depressa se espalhou a notícia pela Aldeia e gritaram uns para os outros:
– Chegou o nosso sino!
Aquilo foi uma correria de todo o Povo para verem o seu sino. Ninguém quis ficar em casa. Todos queriam assistir ao abrir do pesado caixote.
Não havia maneira de abrir o caixote, tão bem pregado ele estava. Mas diziam: «isto abana muito…»
Com uma alavanca conseguiram tirar as tábuas cimeiras e após removerem o papelão protector, eis que fica destapada a mercadoria:
Então não é que o caixote estava completamente cheio de cornos! Isso mesmo: cornos de carneiros, de bodes, de bois…às dezenas, qual deles o mais torcido!
Bem. Nunca nenhuma pessoa do Mundo foi tão injuriada e difamada como esse Padre. Era filho disto, filho daquilo, cabrão, filho de uma folha de alface, paneleiro…
Até o ameaçaram com juras que se voltasse à Aldeia seria capado das partes inúteis!
O caixote cheio de cornos ali ficou especado ao sol uma porção de dias, à vista de todos. E o pior era que os carros e camionetas que passavam pela Aldeia eram obrigadas a olhar o caixote, estava rente à estrada…
Depressa o Povo converteu o acontecimento em brincadeira.
As mulheres, durante a semana, passavam pelo caixote e diziam umas às outras:
– Olha… aqueles ali parecem os do teu homem!
– Pelo menos é o mais bonito par de cornos, os do teu nem cabem no caixote…
Ainda hoje, volvidos quase cem anos, se alguém passa pela aldeia e pergunta pelo sino a algum habitante, de certeza que é corrido à pedrada!

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O meu cruzeiro no paquete Funchal (4)

Ir a Casablanca e não visitar um local de Culto, é como ir a Roma e não ver o Papa, diz-se. Não é bem assim, eu já fui a Roma e nem me lembrei desse «assunto»…

José Jorge CameiraFomos então cerca de 50 turistas do Cruzeiro visitar a Medina.
De facto, é algo imponente. O Minarete apontado para o Céu onde está o Alá, com rendilhados arquitectónicos notáveis, pintado de amarelo-ocre. À volta, uma série de edifícios que me pareceram residenciais ou equivalentes árabes. No redondel de vez em quando um grupo de pessoas ajoelhavam-se na direcção dessa «Igreja» e faziam vénias de braços estendidos, quase deitados.
Nessas tais residenciais havia em semicírculo uns alpendres, uma espécie de galerias.
Fui aí colocar-me para ter um melhor ângulo de visão para as fotografias, sempre com essa mania das fotos…
Numa dessas galerias reparei que o chão estava cheio de fezes, caca humana. Era tanta a quantidade que tinha de saltar para evitar pisar essa javardice…
Onde é que já se viu haver gente crente, fanática até, cagando na frente do seu Alá?
Foi então que tive vontade de fazer ali mesmo uma mijice. No meio da imundície, um pouco de rega nem se notaria…
Ainda não tinha escondido a mangueirazita de carne dentro do esconderijo, eis que oiço uma apitadela estridente atrás de mim!
Era um polícia marroquino! Com uma pistola apontada para mim…
– Já estou tramado!
– Você não pode fazer as necessidades neste local sagrado, está preso!
– Estou preso, o tanas, olhe a merda toda que vocês fizeram aqui – disse eu apontando para o chão encardido daquilo.
– Isto é merda de pássaros, de gaivotas! Não é de pessoas. Aquilo ali sujo é que é seu…
O polícia continuou soprando o apito com força, feito que nem uma puta histérica, até que apareceu outro colega.
Este outro polícia tinha uma máquina fotográfica.
O primeiro gritou para mim, sempre em francês:
– Tira a tua pille para fora!
– Repetez o gesto de urinar na parede para moi faire une photo!
O gajo insistia comigo, abanando o cano da pistola na minha direcção.
Eu já me estava a passar com aquela cena toda. Então o merdas do polícia queria que repetisse a cena mictória para ter uma prova do delito ou para ver o meu coiso?
O pior daquilo eram os gritos daquela «besta», estavam a atrair vários árabes, desses vestidos com lençóis brancos e um gorro colorido na cabeça.
Eu já a ver-me dentro dum calaboiço árabe a comer arroz branco deslavado durante o dia e originando um incidente diplomático entre Portugal e Marrocos…
Sair nos jornais de Portugal o meu gesto de mijar junto a uma parede da Medina seria uma vergonhice….
Tive um certo medo porque nessa altura Portugal apoiava a autodeterminação do Povo Saarauí cujo território está ocupado militarmente por Marrocos e qualquer gesto destes seria um pretexto para a Diplomacia marroquina se «vingar».
Mas mais uma vez os Deuses do Olimpo (estes sim, os verdadeiros) estiveram do meu lado.
O guia do autocarro procurava aflito por mim. Eu não entrara com os outros, o barco já tinha avisado que queria zarpar para Lisboa e não podia fazê-lo sem mim!
O guia finalmente encontrou-me, levou as mãos à cabeça, gesticulou com os polícias num linguajar do mais esquisito, mais parecendo um cabrito a levar uma naifada mortal no pescoço! E disse-me em espanhol:
– Usted tienes 50 dólares? Paga-lhe!
Assim terminou a minha prisão de cinco minutos em Marrocos. Uma mijadela na parede de uma Mesquita árabe custou-me então 50 dólares!
Acabou-se a aflição, fui para o camarote e decidi ficar quietinho até chegar a Lisboa…
Mijar numa Igreja… nunca mais! Melhor será fazer outra necessidade, assim passará por guano de pássaros…

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O meu cruzeiro no paquete Funchal (3)

Durante o primeiro e segundo dia, de pura navegação, pensei: vou fazer uma corridinha à volta do navio. Decepção: em 10 minutos estava a volta feita!

José Jorge CameiraFoi então que tive o primeiro incidente, que poderia ter sido um acidente bera para mim. No deck superior está a piscina. Sempre com muitas pessoas dentro de água ou por ali perto.
Eu não sei nadar. Bem, nadar normalmente, não sei. Mas ainda ninguém me explicou porque cargas de água eu nado e bem durante muito tempo debaixo de água. À tona de água, é como um prego, vou logo ao fundo…
Vou à piscina com os tais calçanitos bermudas floreados e jogo-me para dentro do tanque. Isso foi o pensei, era um tanquezinho. Mas não… era fundo e bem fundo! Então não é que vi jeitos de ali mesmo morrer afogado?
Safei-me porque criei uma técnica para uma emergência destas: bati com os pés no fundo da Piscina e fazendo mola com as pernas, impulsionei-me para cima!
Mesmo assim, ainda engoli uns pirolitos de água, porque na ascensão ainda fui batendo com a cabeça nuns e noutros…
Portanto, piscina… estava confessado!
Finalmente e após dois dias de navegação só vendo mar (era já um fastio da prisão), chegámos à Ilha de Lanzarote, pertencendo às Canárias, arquipélago insular pertencente a Espanha.
Foi aqui que se refugiou até falecer o grande Escritor de Língua Portuguesa e Prémio Nobel da Literatura, José Saramago e a sua Pilar.
Um grupo onde eu estava inserido foi visitar a ilha: aquilo é tudo cinzento ou mesmo negro. De origem vulcano-basáltica.
Ninguém podia apanhar uma pedrinha para recordação – assim o Guia informou! Isso para Portugueses não é válido. Tenho a certeza que só por causa desse aviso todos encheram os bolsos de pedras negras, houve um esvaziamento na Ilha de muitos quilos de pedras negras…. porque a Malta Lusa quer sempre recuerdos, nem que seja para deitar fora no outro dia!
No meio da Ilha é curioso ver-se centenas de pequenos lotes quadrados cercados de pedras negras. São vinhas! Produz-se vinho no meio daquelas cinzas!
Após mais dois dias de navegação, eis-nos à vista do Continente Africano, que eu já não via há muitos anos. Marrocos ali à nossa frente.
Nesse momento lembrei-me de um acontecimento trágico da História de Portugal que se desenrolou a alguns quilómetros para dentro daquela orla marítima:
Em 1580 o Rei português D. Sebastião, praticamente adolescente e doente, comandando um grande exército com alguns Portugueses e destes muitos Nobres e Fidalgos, os restantes mercenários contratados por toda a Europa tenta conquistar Marrocos enfrentando em Alcácer-Quibir um Rei Árabe. Foi um desastre completo. O Rei desaparece criando o mito do Sebastianismo que perdura até hoje. O Rei de Castela apodera-se de Portugal e os inimigos dos espanhóis sentem-se assim no direito de atacar o Brasil e Angola, colónias portuguesas. Durou 60 anos este cataclismo para Portugal!
Mal chegamos a Marrocos, logo ali no Porto de Casablanca se organizaram excursões à cidade. À entrada dum feirão vi um pórtico e uma rampa por onde se subia para a dita feira.
Reparei que corria permanentemente um líquido por essa rampa em direcção ao mar. Estranhei, porque era Agosto, mês seco e não havia indícios de ter chovido. Diz-me o Luis:
– Ó Zé Jorge, não vês que é mijo? Toda aquela gente que está vendendo na feira tem de mijar nalgum lado…
Passados uns momentos, ficando eu sozinho com a Sofia porque o Luís foi comprar cigarros, chega-se junto a mim um árabe com ar de rico, bem vestido e diz-me em francês (a segunda língua deles):
– Monsieur, quer vender esta mulher (apontando a Sofia)?
– Vender? Nem sequer é minha mulher…
– Dou-lhe 50 camelos por ela!
Em Marrocos ter um camelo é sinónimo de riqueza e posição social. É um animal de enorme utilidade, carrega muito peso e é capaz de atravessar o Deserto sem beber água. Acumula água num saco no interior do seu corpo e a bossa é gordura que colmata as necessidades energéticas. Animais desses foram exportados para a cidade de Natal no Brasil, onde é possível vê-los hoje em Genipabu passeando gringos, isto é, turistas estrangeiros.
Não sendo a Sofia minha mulher e em brincadeira eu respondo ao árabe rico, sem ela perceber patavina do teor das «negociações»:
– Vendo-lha por MIL CAMELOS! – Esta quantidade de dromedários é incomportável para qualquer árabe, eu sabia isso de antemão…
Com ar contrariado, o muçulmano retira-se barafustando com ambas as mãos: ainda não seria desta que teria uma mulher branca, grande ambição de qualquer árabe, rico ou pobre.
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O meu cruzeiro no paquete Funchal (2)

Quando o barco zarpou do Mar da Palha, fui vendo Lisboa ficar cada vez mais longe. Lembrei-me nesse momento daqueles Navegadores que nos séculos XV, XVI, XVII e XVIII partiram em caravelas do tipo casca de noz, visão igual a esta de Lisboa que a maior parte desses marujos não tornaram a ver!

José Jorge CameiraAos altifalantes chamavam os «fregueses» para o almoço. Que já tardava, a barriga dava horas há muito…
Era uma mesa redonda, com nove pessoas. Todos impiriquitados, excepto eu que vestia uma vulgar camisa e calças azuis jeans. Já nesse tempo tinha este vício destas roupas…
As madames ricas, mas pirosas, cheirando a esses sprays dos cabelos e a Channel 5 de feira, aproveitam esses momentos para mostrarem umas às outras os seus vestidos chiques, com colares e anéis brilhantes, sei lá se eram pichebeques…
À frente de cada um de nós havia seis pratos empilhados, quatro copos de cristal e um montão de talheres de todo o feitio, talvez uns 20. Lembro-me de ter pensado – isto deve ser já a contar com o jantar!!
Uma Madame do Puerto diz em voz alta, antes de servirem o enfardanço:
– Vou adivinhar a idade de todos!
A Balzaquiana comigo espalhou-se e bem. Enganou-se em nove anos. Disse-lhe: ao jantar trago o meu BI e poderá conferir.
A partir desse momento nunca mais me olhou com bons olhos. Pois… queria à força ser a mais nova do Grupo da Mesa!
Bem, o almoço foi aquilo a que eu posso chamar de PECADO. De facto foram necessários todos os pratos, todos os copos e todos os talheres!
Foi um empanturramento como eu nunca tinha visto. Comida de todo o género:
Carnes, peixes, grelhados, fritos, guisados… e servido a mais de 300 pessoas ao mesmo tempo, gulosos como eu!
Aquilo era digno de ser ver: empregados de luvas brancas, fardados, iam e vinham com grandes tabuleiros repletos de manjares enfeitados de flores, com acompanhamento musical de uma orquestra!
Ao jantar, a mesma farturaça. Comezaina em quantidade e qualidade. Na minha mesa, as Balzaquianas mudaram a roupagem e os pichebeques. E eu com os mesmos jeans. Devem ter cochichado entre elas:
– Coitado, é pobre, sempre com a mesma roupa, deve ter pago o cruzeiro em 100 prestações…
Até hoje ainda não sabem que tenho umas 10 calças jeans azuis e outras tantas camisas também azuis, algumas das feiras, confesso…
No primeiro dia devo ter engordado uns dois quilos pelo menos. Nesses 12 dias ia ser uma engorda forçada ou seja, como se diz no Alentejo: comer que nem umas bestas!
Depois dos jantares, então acontecia sempre uma Festa de arromba: dançar, anedotas sobre alentejanos e sobre os políticos… até as tantas da noite!
Foi na primeira noite de festança que encontrei o Luis e a Sofia, um casal da minha cidade!
– Que estão vocês aqui a fazer? perguntei eu.
– O mesmo te perguntamos!
Como é pequeno este Mundo!
Estávamos os três sentados a beber uns cocktails esquisitos, desses que têm coloridas sombrinhas chinesas, quando ouço o Animador anunciar bem alto:
-Vamos chamar aqui ao Palco todos os que viajam sozinhos!
Tive que ir, pois chamaram-me e ouvi uma salva de palmas, o que me cheirou a mariolice.
Tratava-se de juntar os viajantes masculinos e femininos solitários a fim de haver companhia total e ninguém se sentir isolado.
Seriam esses que iniciariam o primeiro baile!
Diz-me o Luís de longe, com ar de quem já sabia da coisa:
– Ó Jorge, pode ser que seja a tua independência!
Estava ele querendo dizer que podia acontecer calhar-me como par uma senhora cheia de grana, ricalhaça, ouro no baú e muitas propriedades e farmes.
Não foi nada disso: o «meu par» era uma senhora já com uns anitos largos, quadris de quem pariu cem vezes, com o cabelo loiro por cima e no meio cinzento, pelo menos com 70 anos, cheirando a Água de Colónia made in Spain
É bom de se ver que de repentemente deu-me uma dor no tendão de Aquiles e por isso tinha de me sentar!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O meu cruzeiro no paquete Funchal (1)

Naquele fim de manhã de Março de 1995 estava no Banco onde eu trabalhava e entra a Cristina, filha do meu colega Luciano e pespega-se à minha frente, dizendo: «Ó Zé Jorge, queres ir fazer um cruzeiro num grande paquete durante 12 dias? Tudo pago, comes e bebes, só tens que ir ao porto de Lisboa e entrar no barco…»

José Jorge CameiraFoi o mote para eu me rir. Fechado naquele banco sete horas por dia, contando o dinheiro dos outros e com pouco dele nas algibeiras, só aquela proposta me faria rir…
Também por que não estava a ver a Cristina convidar-me para fazer um Cruzeiro COM ELA, ou então se me enganava neste raciocínio herege, nem tão pouco fazer uma férias «à grande e à francesa» num desses barcos de luxo, tal como na famosa série televisiva «O Barco do Amor»… Loves in the air, bla-bla-bla…
– É assim – esclareceu ela – dás uma pequena entrada, pagas todos os meses um tanto, fazes o Cruzeiro nas férias de Agosto e depois continuas a pagar todos os meses um tanto até ficar tudo saldado…
Sentindo o corpo aquecer só com a visão das coisas boas que via na tal série televisiva, decidi logo:
– É lá… Assim o caso muda de figura! Põe aí já o meu nome e quanto dinheiro é que tenho de te dar agora…
Nesses dias subsequentes, a minha imaginação ficou mais fértil: rememorizando «O Barco do Amor», aquilo seria só dolce-farniente diário. Gajas boas, de todo o Mundo, lindas, esguias, benfeitonas de todas as cores e idades, sempre em biquinis caidiços ou trajes com rasgões provocantes nos vestidos de soirées, festas loucas, comida farta, estirado ao sol nas espreguiçadeiras contando as gaivotas no ar, os golfinhos em competição com o boat e principalmente olhando as fêmeas na piscina soltando gritinhos com aqueles decibéis que só elas usam nas traqueias…
Que mais podia ambicionar um pobre empregado bancário como eu, do que sentir-se MILIONÁRIO no meio da grã-finagem internacional durante apenas 12 dias do ano?
Lá fui até Lisboa cheio de nervo por tão grande aventura que ia viver. Meus netos e bisnetos irão dizer, olhando as fotos em kodakcolor: tivemos um antepassado ricaço que até fez um Cruzeiro num Transatlântico! Ora bem!
Outra sedução deste passeio seria o facto de porventura eu não conhecer ninguém e ninguém me conhecer naquela Ilha de Ferro Flutuante… Bolas, seria algo incrível eu encontrar alguém conhecido, quando todas as pessoas que conheço no Mundo deverão andar por outros milhões de locais igualmente atraentes e nem todos serão «MILIONÁRIOS» como eu…
Foi no porto de Lisboa que eu fiquei a saber qual era o Paquete Transatlântico no qual eu ia gozar o tal Cruzeiro: era o Paquete Funchal, um montão de ferro velho esticado construído em 1961, embelezado e modernizado para levar turistas papalvos como eu, fazendo de conta serem ricalhaços, a dar uma volta por essas águas mornas espreitando o Mediterrâneo junto às Colunas de Hércules e junto à Costa de África!
Estava eu preparado para subir o escaler do navio com as sacolas, então não é que vejo um casal amigo e cliente do banco descendo com as maletas? Mau… agora lá na cidade já vão saber que afinal um bancário ganha balúrdios de cacau e por isso fui fazer um Cruzeiro! Bem, o que me causou algum engulho foi eles, após saudarmo-nos, olharem para mim e rirem-se com discrição das bermudas que eu tinha vestido: tinham umas flores e umas palmeiras desenhadas!
Um tripulante fardado à polícia-sinaleiro de outros tempos conduziu-me ao meu quarto, um camarote-suite situado ABAIXO da linha de água do barco, por isso era mais barato. Disse-me ele com ar de gozo, apontando a vigia, uma janelinha redonda com vista para o fundo do mar:
– Enquanto viajamos, o senhor pode ver os peixinhos, já viu a sorte que teve?
Pois. Preferiria uma suite mais acima onde se vê o Sol e a vastidão do Oceano. Mas seria o dobro do encargo.
No quarto, sobre uma escrivaninha, estava um Manual de Instruções do Passeio Marítimo. Fui de imediato ver o Calendário das Refeições:
Pequeno-almoço – Lanche – Almoço – Lanche – Jantar – Ceia.
Senti-me feliz, porque comer é um dos meus desportos preferidos!
(Continua)

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O Toino Cuica e o Baltar Remexido

O Toino e o Baltar eram dois serventes na famosa Mina de Aljustrel, a tal do oiro amarelo casado com a pirite verde. Faziam tudo o que era preciso: levavam, traziam, punham, compunham, partiam, desfaziam, transportavam…eram pau para toda a colher!

José Jorge CameiraDeviam ser muita competentes, pois entraram na Empresa sem cunhas!
Quando foram contratados tiveram que dar o nome certo lá nos papéis de muitas linhas. Na verdade eram António e Baltazar mas como estavam no Alentejo, para ficar mais rápida a conversa comeram-se as letras e ficaram Toino e Baltar.
Como eram de outras paragens, bem longe de Aljustrel, logo se tornaram companheiros inseparáveis, quer no serviço ou fora dele, nos passeios e deambulâncias pelas ruas a subir e a descer da vila.
Depressa se organizaram para o dormir, os comes e os bebes.
À noite, depois da banhoca debaixo de uma mangueira presa com arames, acomodavam-se num contentor metálico que fora esquecido perto da entrada da Mina por uma Empresa Metalúrgica do Barreiro. Com uma gambiarra puxaram a luz com uma ligação manhosa da Mina, embrulhada em plásticos. Assim poupavam uns tostanitos de renda de casa e a luz era à borliú.
Nas bebidas, é claro que estavam quase sempre apoisados na Taberna do Filipe. Sentados numa das mesas, com um pouco de linguiça, azeitonas ou uma fatia de queijo de ovelha do verdadeiro e o casqueiro que traziam nos bolsos, iam emborcando copos de tinto, daquele pesado que só há aqui no Alentejo.
O resto da malta na tasca já não ligava ao paleio deles – daquela mesa só vinham impropérios e bocas das venenosas, a toda a hora:
– Cabrões! Filhos dum cabrão! Puta cos pariu! Paneleros!
Já sabiam que se referiam a algum chefe ou então ao Bochechas, que era quem mandava nessa altura no Rectângulo.
O Toino e o Baltar estavam preocupados com a mansão onde viviam. No inverno a coisa ainda se gramava, pois o frio afastava-se com mais ou menos peso das mantas. Mas vinha o Verão e aqui a caloraça não perdoa. Nos telejornais bem que falam em 35 graus para não assustar mas na verdade no pino do Verão a agulha bate sempre acima dos 40… upa, upa!
Ora o Tê Zero que tinham era de ferro e sabiam que seria impossível dormir lá dentro com calor a dobrar.
É então que o Toino tem uma ideia brilhante:
– Ó Baltar, atão e se fizéssemos uma casinhota de madeira… há por aqui caídas tantas tábuas e das boas… Fazíamos uma casa inda melhor que aquele trambeque de ferro!
– Pois, mas para isso precisamos de autorização do Chefe do Material, o Engenheiro Almeida, para nos servirmos das tábuas, pedir emprestado o sarrote, o martelo e pregos dos grandes.
Nesse momento começou uma zanga entre eles. Um dizia ao outro para ir pedir o material ao Engenheiro. Discutiam sobre quem ia quem.
– Toino, tu tens mais jeito que eu para lidar com essa gente finória! Eu cá ando sempre com a barba por fazer…
O Toino lá se decidiu que seria ele a falar com o Engenheiro, mas pôs condições:
– Eu cá vou falar com ele, mas tenho de treinar o que hei-de dizer ao gajo…
Assim foi. Todas as noites, junto ao contentor e competindo com a sinfonia da grilada do campo, o Toino inventava os gestos e as palavras que teria de usar, logo que batesse na porta do escritório do Engenheiro.
Ou por ser mesmo verdade, por travessura ou por sádica malvadez, o Baltar ia dizendo:
– Não tá bem, Toino… tens que ser mais forte, mais directo!
– Toino, porra, se falas assim, ele diz-te que estás com os copos!
– Olha, dessa maneira, o gajo pôe-te logo na rua!
Durante duas semanas foi assim o arrazoado: um falando, outro desfazendo…
Ao fim desse tempo, o Toino já andava danado, porque ainda não tinha encontrado o palavreado certo para conseguir o empréstimo do material.
Numa dessas tardes que por acaso já tinha passado pela Taberna do Filipe, encheu-se de nervo, vai direito que nem uma lança ao escritório do Engenheiro Almeida, entra de rompante, joga a boina num repente ao chão e diz… melhor, grita:
– Ó Chefe, só venho aqui pra dizer que faça o favor de meter no olho do c… o sarrote, o martelo e os pregos!… E aprovete, vá-se fo…. também!
Após este desaforo, sai num repente do escritório, pegando na boina caída no chão, deixando o Engenheiro de boca aberta, sem saber nem perceber patavina do que se passava! Que afinal nada se tinha passado…
O Toino chega a «casa» e conta ao Baltar o acontecido.
– Porra… e ele não te disse nada? Não te mandou prender?
– Nadaaaaa…
– Então é por que gostou! Temos de celebrar essa nossa grande vitória! Derrubámos o Chefe! Ficou manso, o bicho…
– Tás cá um revolucionário, no fim és comunista…
Foram à mercearia da Ti Mariana e compraram duas garrafas de tinto de Reguengos, dessas com duas medalhas nos dizeres do papel colado, com mais de 14 graus…
Cantando e bebendo, lá foram pela estrada afora, seguindo em frente, aquela que vai dar ao Carregueiro, são 9 quilómetros e onde havia uma Estação de Caminho de Ferro para recolha da semente de trigo e ser transportado para as torres da Epac de Beja.
Com aquela pomada de Reguengos, ao fim de 2 ou 3 quilómetros, já a alegria era grande, sempre se sentindo vitoriosos da façanha do Toino!
– Ó Toino, és cá um grande revolucionário…!
Quase sem darem por isso, estavam na tal Estação CP do Carregueiro, já era noite.
Como a «bobadera» era grande, mal viram um vagão aberto, subiram para ele e assim adormeceram, sem conseguirem esvaziar as garrafas.
No outro dia acordaram já eram 10 horas. Sentia-se calor e olhando por uma e outra porta do vagão, apenas viram aqueles extensos campos amarelos já ceifados, apenas restolho…
– Ó Baltar, queres ver que o cambóio levou-nos para longe? Estamos em Espanha…
De repentemente, passa quase em frente deles um moiral com um rebanho de ovelhas e o Baltar pergunta:
– Ó Senhor espanhol, isto é Espanha? Estamos pierto de Sevilha?
– Isto aqui é o Carregueiro, seus bêbados dum cabrão!
Ganharam esta resposta, que mais esperavam?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Os holandeses, a dobrada e os caracóis

Conto esta estória que eu mesmo vivi no passado a propósito de um dia destes ter comido um pratinho de feijanito com dobrada na Tasca do Tomé.

José Jorge CameiraHá já um belo par de anos fui ao Aeroporto de Lisboa buscar dois holandeses – desses quase iguais, loiros e de olhos verdes. Vieram investir no Alentejo.
Como era hora do almoço, parei com eles em Setúbal num restaurante perto do Bonfim. Pediram que eu escolhesse por eles… Então, vá de feijão com dobrada para os três…
Os amarelos só diziam:
Very good! Good taste! Nice! – e outros elogios no linguajar deles…
Quase no fim, um deles pergunta-me, segurando no garfo um bocadinho de dobrada, pois queriam a receita:
What’s that, George… so wonderful taste???
Como eu não sabia dizer «intestinos» em inglês, comecei a fazer com uma lapiseira no papel da mesa o desenho dos intestinos, os nossos, aquela tripagem enrolada várias vezes…
Foi o bom e o bonito!
Os dois marmelos olharam um para o outro, de amarelos passaram a vermelhos… E, mudos, começaram a afastar com o garfo os restantes naquinhos de dobrada.
No outro dia em Beja, fomos petiscar ao Capitél.
Aí os Dutches tiveram um segundo choque!
Em todas as mesas comiam-se caracóis, com o palitinho…
Perguntaram-me qual o recheio dentro dos snails e eu, antevendo a carga de nojice que aí vinha, com um palito puxei lentamente o corpão que saía de uma caracoleta, com duas belas antenas bem à vista…
Foi um quase caos. Mexeram-se nas cadeiras, de um lado para o outro, parecia que tinham bichos-carpinteiros.
Por educação ficaram ali firmes, esmifrando batata-frita com ketchup…
Que gente!
Então no País deles (do tamanho do Alentejo) não comem peixes (arenques) crus?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Visita ao mercado de Manaus

De regresso a Manaus, eu mesmo programei o dia seguinte. Fui visitar o famoso Mercado de Manaus: do peixe, da carne, da fruta, passarada, cobras secas, verduras esquisitas, de tudo…

José Jorge CameiraMas que coisa incrível esse Mercado! Vem gente de todo o interior vender os seus produtos.
Vi bancas cheias de peixões enormes, 50…100… 200 quilos!! Peixes do mais esquisito que já vi, cabeças tortas, torcidas, barbas aqui, barbichas ali… cortavam bifes desses peixes com mais de um quilo, que vendiam por 2 reais…
Naquele Mercado é tudo em grande! Carapauzinhos dos nossos? Nada disso! Nem para os gatos…
Cá fora, nas paredes – tudo se vende. Chás para todas doenças, tachos, panelas, malas…
À noite aquele Mercado transfigura-se: cá fora passa a ser poiso de Putas e Veados (gays). Às centenas, tudo alinhado à espera do freguês como naquelas filas à espera de táxi. Um cliente chega e não escolhe: é quem está a seguir, seja bonito ou feio, novo ou velho.
Em Manaus é vulgar o sol esconder-se de repente e cai uma formidável chuvada, todos se molham mas parece que ninguém se rala, pois a seguir o sol desponta, seca tudo e todos. Aquela cidade é a descair em direcção ao rio – então nesses momentos de chuvada as estradas de asfalto transformam-se em rios velozes correndo até o rio grande.
As ruas da Cidade, muitas delas exalam um perfume que me agradou muito – por volta do meio-dia inúmeros restaurantes começam a grelhar nacos grandes de carne de boi só com sal. Comi uma pratada dessa carne, tinha que ajeitar com a mão para não cair e apenas paguei 5 reais (2 euros).
No meu deambular pelas ruas da cidade, dois detalhes da vida amazónica me ocorreram.
No Séc. XVI na altura em que Portugal perdeu a Independência para Espanha, as possessões portuguesas tornaram-se por esse facto «colónias espanholas», ficando rasgado automaticamente o Tratado de Tordesilhas. Daí que inúmeros aventureiros, exploradores e militares daquele país (e de outros então inimigos de Espanha) tivessem penetrado nas entranhas da Amazónia, não para colonizar mas tão somente para procurar ouro. E faziam-no como procederam no México, Perú, etc: locupletavam-se com o vil metal à custa de chacinas dos indígenas. As populações indígenas locais estranharam esses comportamentos, diferentes dos usos lusitanos, que mesmo explorando as riquezas, também promoviam militantemente a miscigenação!
Militares e aventureiros espanhóis frequentemente subiam e desciam o Rio Amazonas. Eram atacados por indígenas, algumas vezes ao lado de portugueses.
Ficou conhecida uma célebre tribo índia, vivendo perto de Nhamundá – várias centenas de quilómetros a leste de Manaus – cujos soldados eram só mulheres. Estas guerreiras que causaram grande mortandade no meio da soldadesca espanhola, cortavam o seio direito para melhor manobrarem o arco e as flechas! Assim seriam mais eficazes nos ataques…
Frente a Nhamundá, do lado sul do Rio, está a cidade de Parintins. É famosíssima pelas suas grandes festas carnavalescas, embuídas de autêntico espírito decorrente da cultura amazónica…
Fui a um barbeiro, tinha de preencher os tempos mortos: cortar o cabelo e lavar, isso eu pedi. E sem pedir apararam-me os pêlos do nariz, dos ouvidos, arranjaram-me as unhas das mãos e dos pés com massagem, sentindo ser alvo de todos os olhares por ser «ave rara» – tudo por 15 reais (6 euros).
No último dia fui de táxi ver o mais famoso edifício de Manaus – o Teatro Amazonas, onde está a Ópera de Manaus, construído em 1896.
Manaus teve o seu auge de riqueza no tempo da procura da borracha. Foi dali que saíu pela primeira vez essa matéria-prima, com o trabalho quase escravo dos seringueiros (um pouco como a recolha da resina dos pinheiros em Portugal). Houve muito dinheiro, mas como sempre, mal dividido e mal gasto.
Daí que alguém rico se lembrou de construir na cidade o maior, o melhor e o mais bonito edifício onde se realizassem Concertos, Óperas e actividades afins, em ambiente rico e snob! Mesmo de avião se vê essa magnífica construção encimada por uma maravilhosa cúpula verde-dourada. Por dentro, não há palavras para descrever os tectos, os frescos, as pinturas, as colunas, adornado com o amarelo do ouro.
Todos os mais famosos tenores do Mundo ali actuaram, entre eles o Luciano Pavaroti…
Regressando a Natal (para mim a melhor cidade do Brasil para os Europeus) tive uma última surpresa: o avião sobrevoou a Amazónia para sul, até Brasília, onde após 5 horas regressei ao relativo sossego da cidade potiguar. Vi de novo um imenso e quase infindável mar verde da selva amazónica, o Pulmão do Planeta!
Já visitei essa maravilha da Natureza que é a Amazónia! – assim pensei no fim do périclo, como se fosse um dever cumprido! Dever de gozo, entenda-se!!!!
Veja aqui o mapa da região visitada.

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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Visita à cidade Presidente Figueiredo

Chegado à Pousada, tenho um recado: o organizador do passeio daquele dia convidava-me , a troco de 100 reais (40 euros) no dia seguinte à mesma hora, visitar a cidade Presidente Figueiredo, 120 kms a norte de Manaus, na Estrada Nacional (BR no Brasil) que vai em direcção a Caracas, Venezuela. Claro que aceitei, estava ali para a aventura…

José Jorge CameiraA viagem foi num ónibus luxuoso (autocarro) pelo interior da verdadeira floresta amazónica, a norte. Que força senti naquela violência de verde, naquele infindável mar de arvoredo bem alto, lutando entre si para obter a maior quantidade possível de raios solares!
Chegado a Presidente Figueiredo diversas surpresas me esperavam.
Foi anunciado o almoço num determinado restaurante onde havia como ementa (cardápio no Brasil) comida à discrição, havendo carne de boi assada na brasa e sardinhas assadas em óleo, portanto fritas. Assadas, dizem eles…
Sardinhas, aqui nesta lonjura? Vou já atacar!
Eram sardinhas sim, mas outras… de água doce, sabor bom mas totalmente diferente das sardinhas portuguesas. Que não, as verdadeiras são aquelas, disseram-me! O que é certo toda a gente preferiu comer sardinhas (com arroz de feijão preto) a comer carne de boi assado.
Vi toda a gente do passeio comendo à farta: sardinhas, picanha, carne de sol (carne dessalgada antes de cozinhar), picanha, saladas, frutas diversas…
O que vou contar é surpreendente, eu vi com os meus olhos: toda aquela gente que comeu «à la gardère» e durante mais de uma hora… de seguida foram todos mergulhar num pêgo das tais águas negras e que havia ali ao lado de um rio. Mergulharam várias vezes e ficaram horas a fio dentro de água!! Chamaram-me para entrar na água, recusei obviamente, invocando o receio de congestão. Riram-se todos:
– Isso é mania de europeu, não mata, não…
Fiquei quedo e mudo e o que é certo todos regressaram a Manaus vivos, sem congestões das tais que pelos visto só existem na Europa!
Enquanto o grupo se refastelava dentro de água com a barriga cheia , fui pesquisar o ambiente.
Outras surpresas! Na outra margem do rio, vi diversas mulheres baixar as cuecas (calcinha no Brasil) e com o rabo virado para cá faziam as suas necessidades para dentro do rio… como a água corre rápida, a respectiva limpeza era automática… havia crianças e muitas outras pessoas, ninguém ligava nem olhavam, só eu, o gringo portuga olhou…
Esse rio é de águas velozes. A água corre em plano inclinado acentuado. Vi com os meus olhos esbugalhados muitos rapazolas fazerem surf sobre a água, de pé ou sentados, sem prancha, apenas com o corpo estendido de costas!
Podem crer – no regresso, dentro do ónibus, ainda se riram de mim, porque não fui tomar banho depois do almoço… caprichos de europeu, dizia um, riam-se todos – troçando sem ofender o gringo-portuga!
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica)

José Jorge Cameira

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Passeio pelo rio Amazonas

Estando em Manaus, na Amazónia, como contei na última crónica, fui com muita excitação ao passeio no rio, pensando: antes de morrer, poderei vangloriar-me de que já naveguei no Rio Amazonas!

José Jorge CameiraO barco é parecido com aqueles cacilheiros antigos que faziam Lisboa/Cacilhas, antes de haver a Ponte. Na parte de cima havia um lanchinho com muita fruta, queijo e fiambre (presunto, no Brasil). Música, sempre muita música, como em todo o Brasil…
Havia o guia, um cara «légáu», todo cheio de simpatias com este gringo portuga – coisa rara de ser vêr por ali, disse ele. E um outro cara com uma filmadora (máquina de filmar) para gravar todo o passeio e vender as cassetes respectivas a cada um de nós, por 80 reais…
De facto, estar por cima do exacto lugar onde se juntam as águas, ver aquele remoinho de plantas, é visão impossível de esquecer…
O barco acostou numa espécie de grande barcaça ancorada perto da margem (mas que margem, se só via água e plantas?). De um lado uma grande Sala de Venda de Artesanato; do outro a Sala de Refeição onde me fartei de provar os inúmeros petiscos locais, penso que até havia cobra frita.
Depois da refeição fomos ao IGAPÓ, ou seja, parte da floresta inundada pela subida das águas do Rio. O recuo das águas do rio, deixando o leito lamacento à vista, é o IGARAPÉ. Fomos por uma ponte, espécie de jangada comprida, olhar e fotografar as Vitoria-Regiae, mais conhecidas por Nenúfares. Eu, que tenho 1,80m de altura, à vontade me deitava sobre uma e sobrava espaço, portanto uns dois metros de diâmetro. Lindas, verdes, com nervuras castanhas bem nítidas. Por baixo, escondem-se peixinhos… que são procurados pelas piranhas, os famosos peixes dentuços comedores de tudo o que mexe…
Num determinado momento viu-se um grande vulto a 100 metros de distância: era um enorme peixe-boi (mesmo grande como um boi) a devorar um nenúfar…
No regresso para o barco, o guia dá um grito – Ei, meu povo, párem todos!
Uma cobra comprida, totalmente verde, fina, esguia e venenosa viajava de ramo em ramo, passando sem medo mesmo a uns metros do grupo. Côr verde, aviso de veneno…
Houve ainda um passeio de pirogas pelo meio do igapó e outra surpresa nos prepararam – vários meninos vieram ter connosco em barquinhos pequenos trazendo toda a espécie de bichos da selva. Por um real, colocaram-me à volta do meu pescoço uma enorme anaconda, que só eu preferi em vez de uma preguiça ou um saguim (macaco do tamanho da palma da mão).
Olhando as pouco perceptíveis margens do Grande Rio, tão longe estavam, lembrei-me da imensa tarefa «faraónica» que os indígenas de antanho tiveram para tornar produtivas as terras do lado norte do Rio. Não querendo sair das margens por causa da abundância de peixe, transportaram do interior durante séculos grandes quantidades de terra de boa qualidade a fim de terem as suas hortas, regadas pela água ali mesmo à mão. Ainda hoje se descobrem tesouros arqueológicos debaixo dessas terras, entre os quais os conhecidos Vasos Antropormóficos que continham as cinzas dos seus defuntos, vasos esses que são património de elevada protecção pelo Ibama.
Navegando em direcção à foz pode-se visitar cidades fundadas por Portugueses, todas com mais de um milhão de habitantes: Santarém, Arraiolos, Alter do Chão…
Já no barco, de regresso, vejo quase no meio do rio, algo distante, vários barquinhos a motor que se deslocavam para uma barcaça grande presa a uns troncos de algo que parecia ser uma ilhota no meio do rio. Explicou-me o guia que era uma Escola Primária para a criançada. Lá vivia permanentemente uma professora e os pais levavam os filhos de manhã e traziam-nos de volta a casa à tarde, fazendo as refeições nessa ilhota.
Mas que maravilha de organização, pensei eu! Que amor pelas crianças!

Visitar a Amazónia e concretamente a cidade de Manaus foi o concretizar de um sonho da minha juventude. Durante as férias de Agosto passadas na minha Aldeia, um dos passatempos que tinha era a leitura. Foi assim que «vi» a primeira vez o «Pulmão do Mundo» lendo A Selva, de Virgílio Ferreira, e principalmente Os Velhos Marinheiros, obra fantástica de Jorge Amado, escritor brasileiro que deveria ter ganho o Prémio Nobel da Literatura e que influenciou decisavamente a minha personalidade. Nesse livro é impossível esquecer aquela imagem do capitão à força de um barco cujo verdadeiro Capitão morreu na viagem. Na chegada ao Porto de Manaus esse capitão substituto mandou prender o navio com todas as cordas, sendo motivo de chacota na cidade ver-se um navio todo amarrado! Só que nessa noite houve uma tão tremenda tempestade que todos os barcos foram ao fundo menos aquele!
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

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Aventura em Manaus – Amazónia

Estava eu bem espojado no areal fino da praia de Ponta Negra, em Natal (cidade de povo potiguar), gozando das belas visões de coisas semelhantes a passagens de modelos, ali passando «provocatoriamente» à minha frente, e bebendo o doce líquido quase gelado do quinto coco verde (líquido que médicos garantem ser equivalente a soro fisiológico), quando olhei para trás e vi um reclame de uma agência de viagens onde se podia ler de longe a palavra «Amazónia».

José Jorge CameiraDe repente lembrei-me que estava no país onde existe a famosa Amazónia! Pensei: por que não vou até lá? Fui à tal agência e ao fim de meia-hora tinha na mão um bilhete de ida e volta até Manaus e que me custou o equivalente a 500 euros, só a viagem.
É o meu hábito, quando viajo para algum lado a primeira vez, não marco nada, não reservo nada. Quando chego ao aeroporto, sento-me na primeira cadeira e então organizo mentalmente tudo. Onde dormir é sempre a primeira meta a resolver. O resto é por arrastamento dinâmico.
A viagem teve a durabilidade anunciada de 6 horas. Viajei num pequeno mas moderno avião da TAM, com uns 150 lugares que aterrava em cada cidade importante, para sairem uns e entrarem outros passageiros. Saindo de Natal, aterrou em Fortaleza; daqui até S.Luis; S. Luis – Belém; Belém-Santarém e desta cidade finalmente Manaus.
Curioso: em S.Luis (cidade de origem francesa mas com cheiro da arquitetura pombalina) uma pessoa entrou com uma gaiola que continha uns pássaros esquisitos e fez-me uma grande vénia – será que eu lhe pareci algum fiscal do Ibama (o nosso IPAR), que controla também as aves raras de todo o Brasil?
O que me fez lembrar esta viagem? Os comboios em Portugal! Às tantas tive a sensação de viajar na Linha de Comboio da Beira Baixa: sai de Lisboa passa por todas as Estações junto ao Rio Tejo até morrer em Castelo Branco. Portanto no Brasil viajar de avião entre cidades parece uma viagem vulgar de comboio em Portugal. É a força das distâncias naquela Potência Emergente, como agora se diz.
Foi fascinante voar sobre a Amazónia na sua parte leste – ver lá de cima aquele imenso mar verde de árvores, aqui e ali o serpentear de rios ziguezagueando. Bem saliente e dominador, o grande e misterioso Rio Amazonas, bem castanho de suas águas.
Vêr a cidade de Manaus por cima foi para mim uma grande surpresa – estava a contar com uma cidadezinha do interior para ali esquecida, rodeada por florestas cheias de bichos, com 50 ou 60 mil pessoas, casas modestas, essas coisas bem simples dos interiores. Afinal o que vi foi uma cidade de grandes dimensões (nem sei quantas vezes maior que Lisboa), estendendo-se pelas margens do Grande Rio. Imensos arranha-céus, quase tocando no avião no momento da «aterrissagem». Muitos reclames luminosos piscantes de conhecidas multinacionais. Milhões de pessoas, 4, …5, …sei lá ao certo! Um verdadeiro espanto! Junto às margens do rio, imensas casas-palafitas, essas com pernas bem altas para aguentar a subida das águas, onde a toda a hora a criançada mergulha.
No Aeroporto de Manaus fui bem claro ao taxista – Por favor leve-me para uma Pousada boa, o mais perto possível do Rio.
Fiquei na «Sol e Mar» (descobri que tinha comissão combinada), onde por 60 reais diários (25euros) tive uma suite e café-da-manhã bem farto (o pequeno-almoço no Brasil). Instalei-me, tomei de imediato um banho, a humidade ali é alta pois comecei a suar logo após a chegada – qual sauna grátis!
Fui jantar a um restaurante ali perto – o Fiorentina. Tive ali a primeira surpresa. Servi-me duma travessa onde estava um grande peixe cozinhado, a empregada pôs no meu prato um naco bem grande, misturado com um arroz saboroso que ainda hoje não sei que tempero tinha.
Quando comecei a comer o peixe, deparo com uma enorme espinha lateral, uma costela… algumas maiores que o meu dedo indicador! E outras mais apareceram, que guardei e ainda as tenho comigo. Comecei a ver que naquela região era tudo em tamanho grande!
A empregada, com rosto de índia, que olhava atónita para mim, disse-me que foi a primeira vez que viu um Português em pessoa. Porventura um descendente de descobridores ou colonos, terá pensado. Joga-me esta pergunta:
– Posso tocar na mão do «Sior»? Eu nunca vi um Português na minha frente…
Atendeu-me especialmente e o preço também foi especial – uns 15 reais por um jantar farto (6 euros).
Antes de recolher ao quarto, ainda deu para ir descobrir o que seria aquele enorme e persistente barulho que se ouvia cá fora e irradiava uma grande luminosidade para o céu.
Era nem mais nem menos uma grande feira ou mercado ao ar livre e ocupava vários quarteirões, talvez o equivalente a duas ou três cidades de Beja. Ora, como feiras é comigo…fui logo até lá!
Percorri aquilo tudo e valeu-me a boa forma física que geralmente tenho. Tudo por lá se vendia: calçado, roupas, loiças, artesanato indígena, muitas ervas para chás, chás com efeitos iguais ao viagra, mas com garantia de eficácia, vidros, cobres… tudo! Também bicheza da Floresta, mas escondida!
Comprei artesanato e algo que só há naquela região. Existe no Rio Amazonas um peixe enorme e comprido, o pirarucu, que atinge os 200 quilos de peso. Por conseguinte tem escamas grandes. Os artesãos com essas escamas fazem máscaras, escudos de guerra, punhos de lanças. E em cada escama desenham casas, árvores, de pássaros… uma maravilha! Essa máscara que se vê em anexo é feita dessas escamas sobrepostas.
O quarto na Pousada tinha dois níveis. O inferior com a cama e, três degraus acima, estava a casa de banho (no Brasil diz-se banheiro), separados por um lancil de 5 centímetros de altura (coisa esquisita, pensei eu). Mais tarde notei a utilidade.
Antes de me deitar e para não ligar o ar condicionado, deixei a janela da casa de banho aberta, porque me garantiram que não havia mosquitos em Manaus (não acreditei, mas vi que é verdade, escreverei o motivo).
Bem… nessa noite caiu uma trovoada imensa com relâmpagos que iluminavam por completo o quarto! De meter medo ao mais corajoso. Impossível dormir com tanto barulho! Mais luminosidade que aquelas bombas ianques sobre Bagdade! Foi «uma guerra» quase toda a noite…
Não podendo dormir, levantei-me para ir verter águas à casa de banho…
Mal ponho o pé depois do tal lancil, senti água até precisamente 5 cms acima dos meus pés! Tinha entrado água no banheiro, as minhas sandálias boiavam, quais barquinhos….
De manhã, um sol quente, céu limpo e azul, como se nada tivesse acontecido!
Programei com o rapaz da recepção para a manhã seguinte às 9 horas um passeio pelo famoso Rio – a minha grande aventura: ver e navegar no maior rio do Mundo! Preço 70 reais (28 euros) incluindo lanchinho no barco e almoço durante o passeio, virem-me buscar e trazerem-me à Pousada numa Bésta (minibus).
É o chamado Passeio «Encontro das Águas» para os Turistas. Na verdade, em frente a Manaus correm dois rios: O Solimões, de águas barrentas e o Rio Negro, de águas negras. Águas negras, por quê? Porque transporta areias negras ácidas diluídas e o vapor emergente mata tudo o que é mosquito, ovos, larvas… daí não haver mosquitos em Manaus!
Os dois rios viajam paralelamente e 12 quilómetros após Manaus juntam-se, e acontece um momento ímpar na junção – as duas cores fundem-se numa só, num suave remoinho de folhagem… então verdadeiramente e só nesse momento se chama Rio Amazonas.
(A aventura na Amazónia continua na próxima crónica…).

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
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O «Camboio» do Ti Valdemar

Conto agora a verdadeira estória do comboio comprado por alguém de Vale de Lobo, o Vale da Senhora da Póvoa de hoje, no tempo da exploração do Volfrâmio.

José Jorge CameiraO Ti Valdemar tinha um problema com os estamportes, quando tencionava sair do Vale de Lobo para ir à cidade comprar qualquer coisa….
Ouviu falar que ali para os lados da Fatela, havia uma Estação de Caminho de Ferro que servia Penamacor e o concelho e na qual havia comboios e concerteza que haveria de haver um à venda. Com um cambóio, as suas viagens estariam facilitadas, era pouco digno para ele viajar sentado na albarda do burro!
Lá foi até à tal Estação, não sem antes atafulhar os bolsos com notas de Mil Escudos, aquilo era pesado, ouvira dizer, portanto devia ser caro…
Na Fatela estava um varredor, pacientemente limpando os trilhos paralelos de ferro com uma vassoura de estevas. O Ti Valdemar chega-se à fala com ele e podemos imaginar o diálogo, porque o que sucedeu… aconteceu mesmo!
– Ó Ti Homem, ouvi dizer que há aqui um cambóio para vender…
– Vem mesmo na hora certa, está aqui este, é de mercadorias, já não serve e vendem.
– Faça um preço justo que eu compro.
O homem vendo que estava ali um lorpa e paspalho, alambazou-se logo para cima:
– Vendo-lho por cem mil réis e olhe que está muito barato.
– Pegue lá já o dinheiro e quando é que posso vir buscá-lo?
– Quando vossemecê quizer…
O Ti Valdemar pensou numa maneira de levar o comboio para a terra:
-Trago um carro de bois, 2 ou 3 calabres (cordas) dos mais fortes e reboco o meu cambóio…
Um vizinho, o Ti Tó Nabais tinha o «Borisca» e a «Cereja», uma parelha valente de bois que bem picados puxariam facilmente aquela bisarma andante.
Passados 15 dias o Ti Valdemar voltou à Estação para levar o «seu» cambóio, mas na verdade já não estava lá, tinha seguido o caminho para que fora feito: levar e trazer mercadorias…
O varredor por certo mudou-se para uma vida mais confortável, porque com CEM MIL RÉIS poderia viver sem fazer nada durante alguns anos…
O Ti Valdemar Carolo quando morreu, estava desdentado – com o fim da guerra e a derrota dos maus, acabou-se a procura de volfrâmio.
Para comer e beber foi arrancando e vendendo os dentes um a um, por fim o cravelhame fora-se todo….

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita

Irei contar neste espaço do Capeia Arraiana algumas estórias verdadeiras vividas no Vale da Senhora da Póvoa, as quais me chegaram por duas vias.

José Jorge CameiraA minha Tia Ana (irmã do meu Avô) nasceu em 1886 e faleceu com 99 anos. Era uma mulher perspicaz, alta e forte, de quem eu confesso que tinha medo, uma chapada dela matava-me de certeza e por isso tive de aprender a correr muito. Juntamente com outras irmãs, irmãos e sobrinhos, naquelas noites de Inverno gélido características da região, ficavam à roda do lume de chão, com as panelas de ferro onde se fazia o comer e normalmente dependuradas pelas trempes negras de fumo que surgiam dos interiores já bem encarvoados da lareira. Foi nessas noites que ela me contou algumas estórias que ainda recordo.
Outra fonte foi o Ti Manel Adriano era homem alto, corpulento, mas perneta. Vivia de fazer vassouras e vendê-las ao povo. Tinha uma perna de pau e apoiava-se num grande e ameaçador bordão. No Inverno usava um grande e pesado capote amarelado, que mais parecia um cobertor de pápa. Quando se ouvia o toc-toc da perna postiça nas pedras da Rua Direita já se sabia que ele ia para casa. Era então que a moçada ia atrás dele injuriando-o e atirando-lhe pedrinhas. Ele então virava-se para trás, fazia zunir no ar o bordão em círculo e lançava um grito pior que um rugido de leão:
– ARREDA QUE VAI DA PÓSTA!
E os passarinhos em forma de gente fugiam chilreando pela ladeira da Igreja acima…
Eu, ou por lhe ter medo ou por pensar que fosse contar ao meu Avô (o tenente Cameira, então Presidente da Junta de Freguesia) que eu também o «judiava», o que originaria as inerentes sevícias, nunca me meti com ele. O que me valeu ser pessoa, melhor dizendo menino, com elevado estatuto de confiança junto de si.
Daí que ele me contou muitas das estórias que guardava na memória. As narrações aconteciam numa escadaria de recanto que havia do lado esquerdo de quem desce a Rua Direita, antes do Chafariz. Mas algo insólito aconteceu um dia comigo e com ele. Ainda hoje não sei os porquês, uma tarde o Ti Manel Adriano pede lá em casa que me deixem ir jantar à casa dele…
Vestiram-me um calçanito branco ou beje e lá fui todo lampeiro, até levei uma garrafa de vinho, lá na nossa casa havia várias pipas cheias.
O Ti Manuel Adriana fez-me sentar num mocho (esses banquinhos baixos, feitos de folhas grossas de cortiça) enquanto o crepitar da lareira fazia o guisado de carne. Assim foi, comi daquilo à farta, sabe melhor na casa dos outros e ainda mais por insistência dele. Pelas 11 da noite, sonolento, voltei para casa e no outro dia havia risada da grande por parte das minhas primas!
É que na retaguarda dos meus calções estava desenhado a negro da fuligem o tal mocho onde me sentara na casa do Ti Manel Adriano!
Decorriam os anos de 1940 e havia imensas convulsões políticas, sociais e bélicas por essa Europa. Acabara uma guerra que fora um balão de ensaio para outra bem mais mortífera.
Em Portugal reinava esse Cônsul déspota de nome Salazar, que urdia planos camaleónicos – ora autorizava os ingleses e americanos a utilizarem os Açores e a Madeira, para apoio logístico de aviões e barcos carregados de bombas nos bojos, ora vendia ao III Reich de Hitler e Goering, alguns produtos alimentares em conserva e determinado minério, matéria prima necessária para os fabrico de blindados Panzers para o Africa Corps do nazi Himmler no Norte de África.
Esse minério – o volfrâmio – sempre o houve no Vale da Senhora da Póvoa, já os Romanos, Celtas e Mouros sabiam disso!
Houve um conterrâneo do Vale de Lobo (em 1955 mudou o nome para Vale da Senhora da Póvoa), o Ti Valdemar Carolo (nome fictício), que passava a vida apascentando as suas cabras um pouco mais acima da Ermida da Senhora da Póvoa, em Sortelha-a-Velha, nos contrafortes de cá da Serra da Opa, vigiando-as não fosse o demo empurrá-las para dentro de uns buracos que por ali havia tapados por silvas. O rebanho era controlado por estridentes assobiadelas e o zurzir sonante das varas de marmeleiro e por um possante cão rafeiro, que malhava dentadas nos animais mais ariscos.
Tornou-se dono desses tais buracos onde os antigos extraíam essa «coisa» pesadota, bem escura e de cheiro pestoso.
Há uma estória – será lenda? – em que um dia o Ti Valdemar terá visto uma alcateia de lobos descer a encosta da Serra da Opa, vindo dos lados do Anascer. Tendo enxotado as suas cabras em direcção à aldeia, atraiu para si esses predadores, empoleirando-se no alto de uma árvore e ali permanecendo dois dias e duas noites, até que os bichos abalaram, cansados de tanta espera…
Será que vem daí o nome «Vale de Lobo»?

José Jorge Cameira

«Estórias de um filho de Vale de Lobo e da Moita»
mailto:jjorgepaxjulia4@hotmail.com

Esta e outras «estórias» que se seguirão nesta coluna serão contadas semanalmente pelo José Jorge Cameira, um filho do Vale da Senhora da Póvoa (que noutro tempo se chamou Vale de Lobo) e da Moita, que está radicado na cidade de Beja, onde vive e trabalha há muitos anos.
jcl e plb