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António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

D. Miguel – O Travesso

Não irei escrever da sua orientação e actuação políticas, mas sim da sua conduta pessoal. Filho de de D.João VI e da espanhola Carlota Joaquina de Bourbon, teve uma educação nada condizente com a sua posição. Um inglês que nessa altura vivia no Paço e era secretário particular de Dona Carlota, disse o seguinte: «Se dessem a este menino a educação que precisava viria a ser um herói… assim será um tigre, o flagelo dos que tiverem de aturá-lo.»

D. Miguel, O Travesso - Capeia Arraiana

D. Miguel, O Travesso

Uma Real História

O nosso rei D. João VI foi, segundo os historiadores, um fraca figura e um governante indeciso na hora de tomar decisões importantes para o Reino. A favor dele, se isso se pode considerar a favor, foram os tempos conturbados de finais do século XVIII e, o período do século XIX em que governou, até à sua morte em 1826. Mas não ficaram por aí os problemas do desventurado rei.

António EmidioOs pactos e alianças da Corte portuguesa com a Corte espanhola, ou entre as casas reais, como queiram, arranjaram-lhe um casamento com uma espanhola. Quando isso aconteceu, a espanholinha, que viria a ser Dª Carlota Joaquina, tinha apenas 10 anos de idade. Era uma menina irrequieta e desobediente, muitas vezes foi necessária a intervenção da rainha Dª Maria para a meter na ordem. Convém dizer que a espanholinha veio viver para a Corte portuguesa.
Aos 15 anos «fez-se pública a visita mensal», menstruação, assim se exprimiu o cronista de Xabregas, um frade que vivia na Corte. Foi uma festa! Dª Carlota Joaquina foi nesse dia (ou noite) acompanhada ao quarto do esposo (que esteve cinco anos à espera!!!) por um séquito de cortesãs e princesas. Mas também começaram os problemas conjugais de D. João VI.
Os filhos foram nascendo, mas tudo indica que alguns, talvez a maior parte, não eram dele. Raul Brandão, chega mesmo a dizer que dos nove filhos que teve, só três ou quatro foram do marido, D. João VI. Vejamos: D. Pedro e Dª Isabel Maria, foram mesmo dele. Dª Ana era de João dos Santos, caseiro da quinta do Ramalhão, já falarei nela mais à frente. Dª Maria Francisca era filha do general Luís de Motta Feo. D. Miguel, do Marquês de Marialva, mentira, já falarei nele mais à frente também. Dª Maria da Assunção, outra filha do caseiro João dos Santos, e diz que dos outros nem se conhece o pai. O próprio D. João VI declarou a vários membros do Corpo Diplomático que não se considerava pai do recém-nascido D. Miguel, porque há dois anos que não tinha relações com a mulher.
D. Miguel, dizia-se que era provavelmente filho do Marquês de Marialva, um dos amantes preferido de Dª Carlota Joaquina, mas o povo, que já tinha ouvido tanta coisa, não acreditava e, dizia que D. Miguel era filho da tal caseiro da quinta do Ramalhão, João dos Santos – a quinta que D.João comprou para enviar para lá Dª Carlota Joaquina, sinal de problemas entre os dois – o povo cantava este refrão:

Não é filho do Marquês
E menos de D. João
É filho sim do caseiro
Da Quinta do Ramalhão

Quem ao de leve fala na quinta do Ramalhão e, de uma maneira nada abonatória, é Camilo, no seu livro – A Brasileira de Prazins – é esta a cena: O tenente coronel realista, Vasco Cerveira Leite, estava casado com Dª Honorata, um pouco levantada da cabeça e, que se tinha feito mulher na quinta do Ramalhão, fora açafata de Dª Carlota Joaquina e, amada segundo ela, Dª Honorata, pelo Conde de Vila Flor, outro dos que frequentavam a quinta… O Vasco Cerveira, quando estava com a sua bebedeira diária e, ela lhe «chateava a cabeça», disciplinava-a militarmente com uns pontapés no rabo e lançava-lhe à cara este piropo: «ainda tens saudades dos bordéis do Ramalhão, aqueles pagodes reais?».
Dª Carlota Joaquina estava sempre contra o marido politicamente, age contra ele até nos últimos anos da vida dele. Tinha grandes ambições politicas próprias, era como que o líder do Partido «Contra Revolucionário», anti-liberal e apoiante do filho D. Miguel. Uma mulher assim querido leitor, nem ao maior inimigo se deseja.
O que eu não acredito é que tenha sido uma atrasada mental qualquer, nem uma vulgar mulher, ela devia ter sido inteligente, mas teve o azar de ter sido dada a D. João VI.
Vejam esta, queridos leitores(as)! É de mestre…
Era necessário reanimar a causa realista, nada melhor do que um milagre. Então a Virgem «apareceu» a duas pastorinhas em Carnaxide, possivelmente em 1822, dizendo-lhes que Portugal sobreviveria ao ateísmo maçónico (Liberalismo) e, outras coisa próprias para a ocasião. Dª Carlota Joaquina patrocinou grandes peregrinações a esse lugar «sagrado». O povo e a nobreza estavam unidos nessa devoção. Mas a coisa não pegou e as pastorinhas e a Virgem depressa foram esquecidas. Quase cem anos depois, a mesma jogada, mas desta vez pegou mesmo, embora noutro lugar…
Compreendo que espíritos mais puritanos não aceitem estas coisas de bom grado. Mas o que está feito não se pode desfazer. Li a história, não só uma, todas, com pequenas cambiantes dizem o mesmo. Tinha de ser assim, eu não vivi na Corte de D. João VI, nem tive acesso aos mais privados aposentos de Dª Carlota Joaquina, nem às conversas que ela teve com os frades da Corte, bispos e cardeais.
Voltando às aparições, o leitor já notou que estas aparições da Virgem acontecem quando surgem dois regimes políticos que a Igreja abominou, Liberalismo e República?
«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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