Tag Archives: contrabando

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Minha Nossa Vossa Terra

Subi ao alto das torres de menagem dos nossos castelos, ao cimo das montanhas – assim começa o texto poético de Alcínio, onde se misturam sentimentos de nostalgia, revolta e inconformismo face ao estado das nossas aldeias e ao futuro que as espera.

Pintura de Alcínio - o castelo do Sabugal

Pintura de Alcínio – o castelo do Sabugal

Emigração clandestina no concelho do Sabugal (20)

Nas décadas de 1960 e 1970 a emigração clandestina para França teve por principal palco a zona raiana do concelho do Sabugal, onde a fronteira se atravessava «a salto», usando os «serviços» de passadores experientes. Continuamos a falar da importância da experiência do contrabando para a prática da emigração clandestina, abordando agora como operavam as redes organizadas de contrabando.

A maior parte do contrabando era transportado às costas por trilhos clandestinos

A maior parte do contrabando era transportado às costas por trilhos clandestinos

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

Negócio Digno de Quadrazenho

Que os quadrazenhos tinham vocação para o negócio é facto que ninguém contesta. A vida tinha-os ensinado. Mas alguns usavam meios anedóticos para impingir a mercadoria às freguesas. Um desses era o X.

Quadrazais

Quadrazais

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O Mito do Contrabando 3

Todas as terras da raia faziam contrabando semelhante àquele a que a maioria dos quadrazenhos se dedicava. A diferença é que era em maior quantidade em Quadrazais porque Quadrazais era a freguesia com maior população, por vezes suplantada pelo Soito.

Quadrazais

Quadrazais

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O Mito do Contrabando (2)

Todas as terras da raia faziam contrabando semelhante àquele a que a maioria dos quadrazenhos se dedicava. A diferença é que era em maior quantidade em Quadrazais porque Quadrazais era a freguesia com maior população, por vezes suplantada pelo Soito.

Quadrazais

Quadrazais

Franklim Costa Braga - Capeia Arraiana

O Mito do Contrabando (1)

Todas as terras da raia faziam contrabando semelhante àquele a que a maioria dos quadrazenhos se dedicava. A diferença é que era em maior quantidade em Quadrazais porque Quadrazais era a freguesia com maior população, por vezes suplantada pelo Soito.

Quadrazais

Quadrazais

Hoje destacamos... - © Capeia Arraiana (orelha)

Contrabandistas dos Fóios no Museu da Guarda

O Museu da Guarda recebe no dia 18 de Outubro um encontro sobre contrabando, onde estarão presentes ex-contrabandistas dos Fóios (concelho do Sabugal), que darão testemunhos das suas experiências.

Edifício do Museu da Guarda

Edifício do Museu da Guarda

Raia do Sabugal - Capeia Arraiana (orelha)

Contrabando ou o crime sem pecado (3)

Carlos Alberto Rocha da Encarnação, estudante do curso de Direito da Universidade do Minho, elaborou nesse âmbito um trabalho sobre o Contrabando na Raia Central, na cadeira de Criminologia. Nele desenvolve a tese de que o contrabando praticado antigamente pelos homens simples da raia assentava numa conduta que, apesar de ilegal e criminalizada, acontecia em circunstâncias que levavam a considerar os actos ilícitos pouco graves, por terem origem em razões sempre desculpantes. Publicamos, com a devida vénia, o essencial do trabalho do madeirense Carlos Encarnação, que é desde há muito um apaixonado pelas terraras raianas do concelho do Sabugal.

Contrabando na Raia Central

Contrabando na Raia Central

Raia do Sabugal - Capeia Arraiana (orelha)

Contrabando ou o crime sem pecado (2)

Carlos Alberto Rocha da Encarnação, estudante do curso de Direito da Universidade do Minho, elaborou nesse âmbito um trabalho sobre o Contrabando na Raia Central, na cadeira de Criminologia. Nele desenvolve a tese de que o contrabando praticado antigamente pelos homens simples da raia assentava numa conduta que, apesar de ilegal e criminalizada, acontecia em circunstâncias que levavam a considerar os actos ilícitos pouco graves, por terem origem em razões sempre desculpantes. Publicamos, com a devida vénia, o essencial do trabalho do madeirense Carlos Encarnação, que é desde há muito um apaixonado pelas terraras raianas do concelho do Sabugal.

Contrabando na Raia Central

Contrabando na Raia Central

Raia do Sabugal - Capeia Arraiana (orelha)

Contrabando ou o crime sem pecado (1)

Carlos Alberto Rocha da Encarnação, estudante do curso de Direito da Universidade do Minho, elaborou nesse âmbito um trabalho sobre o Contrabando na Raia Central, na cadeira de Criminologia. Nele desenvolve a tese de que o contrabando praticado antigamente pelos homens simples da raia assentava numa conduta que, apesar de ilegal e criminalizada, acontecia em circunstâncias que levavam a considerar os actos ilícitos pouco graves, por terem origem em razões sempre desculpantes. Publicamos, com a devida vénia, o essencial do trabalho do madeirense Carlos Encarnação, que é desde há muito um apaixonado pelas terraras raianas do concelho do Sabugal.

Contrabando na Raia Central

Contrabando na Raia Central

Joaquim Manuel Correia - © Capeia Arraiana

Memórias sobre o Concelho do Sabugal (37)

:: :: QUADRAZAIS (1) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais se um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja do Cemitério de Quadrazais - Sabugal - Capeia Arraiana

Capela de Santo António em Quadrazais – Sabugal

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Respigos da Memória (2)

João das Armas deitara-se cedo, quando o sol ainda mal se escondera no horizonte. Tinha planos para esta noite.

As voltas da vida - pormenor de um quadro de Alcínio

As voltas da vida – pormenor de um quadro de Alcínio

O farnel e a mesada – dinheiros de contrabando

Antes da difusão generalizada dos chamados lares académicos, um dos problemas mais complicados que se punham às famílias que pretendiam matricular filhos no ensino secundário e residiam fora dos centros populacionais onde não existiam liceus ou colégios, era o do alojamento.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaOs hotéis e até as pensões, mesmo humildes, eram manifestamente inacessíveis para a quase totalidade das bolsas, além de não condizentes com o ambiente pretendido.
A solução foi propiciada por muitos particulares que, recebendo estudantes, obtinham reforço para os seus orçamentos, por via de regra magros.
E havia até pessoas, muitas vezes viúvas ou filhas-família, que, por qualquer razão, não haviam casado, para as quais esta actividade era a única fonte de rendimentos.
Os candidatos a hóspedes eram na generalidade descendentes de lavradores meãos que, tendo embora abundância do que a terra lato sensu ia dando, padeciam já de uma endémica falta de dinheiro. Daí que o alojamento fosse em parte sustentado pelo fornecimento de determinados víveres. Aliás, em casos extremos, o pagamento poderia ser feito unicamente com géneros.
Era o regime do farnel, que habitualmente se compunha de batatas, feijões, chicharos, gravanços, toucinho, enchidos, queijos, ovos, aves de capoeira e até caça.
As hospedeiras controlavam os regimes de modo a equilibrar os gastos.
Genericamente, vigorava uma divisão equitativa entre as duas formas de pagamento. Mas eram raros, raríssimos mesmo, os casos em que o dinheiro era o único meio.
Nisto se distinguiam os filhos dos contrabandistas, ou mais precisamente dos empresários de contrabando, que mesmo de pequenos negócios – e os grandes eram raridade – dispunham de dinheiro fresco e vivo. E que, para além de pagarem ao contado, por vezes até adiantadamente, deixavam nos bolsos dos estudantes mesadas que os distinguiam do comum.
Sob este duplo aspecto, os filhos dos contrabandistas eram um escol.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Os guias

Se para ser cargueiro não se exigia mais que uma mediana robustez de peito e pernas e para ser empresário o problema era de fundo de maneio e capacidade de relacionamento, o guia, só o poderia ser, se aliasse a um perfeitissimo conhecimento do terreno, uma velocidade e capacidade de carga que a Natureza só concede excepcionalmente e, acima de tudo, uma coragem a roçar o temerário.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaEste vocábulo guia, na sua simplicidade dissilábica é dos que mais linhas exige dos dicionaristas e dos que mais nótulas e comentários lhes suscita.
Comum de dois, quando relativo a pessoas – que podem ser celícolas, como o anjo da guarda, simplesmente feminino quando referido a autorizações de marcha ou despacho – os tratadistas dizem, para a primeira hipótese, que guia é pessoa que conduz outra ou outras, a ou as acompanha e lhe ou lhes mostra o caminho.
Para a segunda hipótese, tanto pode ser roteiro que indica o caminho que se há-de seguir, como obra que encerra instruções; como a famosa carta de guia de casados do nosso Dom Francisco Manuel de Melo,,,
Nas operações de contrabando, a primeira tarefa é a da escolha da rota – caminho pouco simpático e acessível às patrulhas fiscais, de horizontes muito curtos e com obstáculos naturais a corridas de perseguição.
Mas, porque há sempre o receio de qualquer iscariotes que faça denúncias ou se espera comunicação dos vigilantes de serviço que inculquem perigo para o delineado trajecto, logo desde a primeira hora se estabelecem alternativas. E, conjecturando-se sempre a hipótese de aparecimento de guardas ou carabineiros, estudam-se cenários de diversão, a partir dos possíveis nós de intervenção.
Iniciada a travessia, o lugar da frente pertence sempre a um guia, que leva uma pseudo-carga, logo abandonada a voracidade dos homens do fisco, caso apareçam.
Mas o guia não foge do perigo, busca-o mesmo para decobrir e entreter possíveis apreensores. A carga serve de negaça. Mas quando dela se despoja, atira para os ares com um fortíssimo ahhuu que alerta toda a fila.
Os cargueiros, embora no encalce, vão separados um a um por algumas dezenas de metros. E, enquadrados – de tantos a tantos, segundo o valor das cargas, podendo ser um para dois, no caso de mercadorias muito caras – por outos guias, que à ordem de debandada, fornecem aos seus protegidos, novo itinerário. Aliás, quando um cargueiro, por mais timorato ou acossado, perde a carga, o seu guia tudo fará para recuperá-la.
Meu pai, que foi guarda fiscal, contou muitas vezes, apontando o autor comum dos mais famosos guias de toda a Raia, que o Zé Júlio, das Batocas, se safou com três cargas de estanho, de vinte e cinco quilos cada uma, fugindo com elas pelos brejos…
Houve muitos guias que deixaram fama, como o Chicata, das Naves, o Berrnau, que sendo da Bismula, passava por batoqueiro, em virtude de viver amancebado com uma estalajadeira das Batocas… Os mais decantados de todos foram, no entanto, os quadrasenhos.
Porque alguns morreram crivados de balas pelos civiles que, vindos das crueldades da Guerra Civil de Espanha, tinham pouco respeito pela vida – sua e dos outros…
Os folhetos de cegos davam-se conta dos insucessos:
Era valente e sem manha
Amado pelos cargueiros
Quando ia para Espanha
Foi morto pelos carabineiros

Assim rezava o libreto, alusivo ao Aristides Perricho, que se podia transcrever só com mudança do identificativo para Leu, Léi, Balhé ou Balecho, nome de alguns dos caídos nas ravinas de Gata e Gredos.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

O contrabando

O contrabando era nas terras raianas um modo de vida legitimado pela comunidade e fonte de receitas para quase todos.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAmigos meus, que, no Sabugal, exerceram funções de magistrados judiciais – juízes de direito e procuradores – me relataram repetidamente que, inquirindo, aos costumes, em sede processual, réus, queixosos e simples testemunhas, quanto à profissão exercida, muitas vezes ouviram a resposta: «sou contrabandista».
Pessoas, que viveram longos anos como cargueiros de jorna, não se haviam tais depoentes apercebido da ilegalidade da condição, pelo que se lhes afigurava tão legítimo ser contrabandista como pastor ou cavão, moço de servir ou carregador de número.
Aliás, para um raiano, de qualquer extracto social ou grau académico, a actividade sempre será de baixo delito e nunca será pecaminosa para aqueles que arriscam a vida como carregueiros e guias e, nem mesmo desqualifica socialmente os que se sujeitam à perda de património.
Outro tanto não se poderá já dizer de onzeneiros que se aproveitam das aflições ou debilidade financeira dos operacionais, para engrossar a conta, emprestando a juros altíssimos dinheiro próprio ou adrede sacado na banca, com exorbitâncias inimagináveis.
Comecemos a nossa análise pelos cargueiros de jorna, recrutados noite a noite para levarem a bom termo uma dada porção de mercancia – cinquenta quilos nas de valor semelhante ao da uva mijona, vinte a vinte e cinco nas de valor mediano e cargas levíssimas quando a coisa era valiosa. De café, artigo permanente numa transacção de séculos, as cargas rondavam os vinte quilos. Mas a incursão aventurava-se muito para além da linha de fronteira por dez léguas ou mais.
Durante a Segunda Grande Guerra, a Espanha, conotada com as potências do Eixo e devedora para com a Alemanha dos meios de combate propiciados a Franco, sofria internamente de terríveis carências e queria propiciar a Berlim materiais que lhe eram vedados, mas se poderiam obter em Portugal.
Minérios de estanho e volfrâmio, além de outros de grande raridade, passaram a Raia de Poço Velho aos Fóios, ocupando todas as noites centenas de cargueiros alombando cada um os seus vinte e cinco quilos.
A viagem era curta e de pouco risco, que, do lado espanhol, não havia apreensões e do lado de cá o trânsito só era condicionado quase rente ao limes.
Aos milhares de toneladas, mas em cargas individuais de quintal, passavam todas as noites para centros de armazenagem que iam dos Campanários de Azaba a Sant Esteban de Bejar deperdícios de borracha – da virgem à das ligas mais pobres – e de cornos de qualquer animal que os tivesse ostentado.
Foi meia década de pleno emprego.
O rapazola que acabara de tomar corpo cabonde podia ganhar a jorna todas as noites. E os homens feitos enquanto aguentassem dispunham de igual oportunidade.
A jorna ia dos vinte escudos na veniaga dos cornos aos cinquenta na dos minérios. Atendendo a que um cavador ganhava ao dia dez escudos a seco e cinco a de comer, trabalhando de sol a sol, e que neste jornadear, Espanha vai, Espanha vem, o percurso se faria, correndo tudo bem em quatro, cinco horas, a paga era tentadora.
E até estudantes em férias se atreviam a experimentar embora depois as pernas e sobretudo as costas dessem de si.
Com a rendiçao incondicional da Alemanha, acabou aquele ciclo.
E uma nova era de quase emprego só surgiu com o contrabando de vacas mas já no fim da era do escudo.
Cada passador trazia só uma rez e recebia, se a operação se finalizava com êxito, cinco contos de reis. Os rapazes da Confraria dos Solteiros não queriam outro modo de vida e muitos bons e honrados pais de família obtiveram um excelente reforço para os seus quase sempre muito baixos orçamentos de passigo.
«O concelho», história e etnografia das terras sabugalenses, por Manuel Leal Freire

Turismo Rural de qualidade em Quadrazais

No concelho do Sabugal há empreendimentos turísticos de elevada qualidade. Nesta crónica vou dar a conhecer o «Meia Choina» em Quadrazais que tem a particularidade de ter dado a uma das habitações o nome «Maria Mim» imortalizado pelo escritor raiano Nuno de Montemor no épico romance que retrata a vida «terrível» dos quadrazenhos do século passado.

(Clique nas imagens para ampliar.)

Quando vi neste blogue a notícia de que «a Câmara Municipal do Sabugal decidiu fomentar o alojamento local nas terras do concelho, em alternativa às unidades hoteleiras tradicionais, como forma de potenciar o Turismo Rural», fiquei contente e veio-me à memória um empreendimento turístico rural do nosso concelho. Estou a falar de um empreendimento – o «Meia Choina» em Quadrazais (terra de contrabandistas e uma das 40 freguesias do nosso extenso concelho) – que, aquando da minha recente visita me deixou impressionadíssima.
Em conversa com a sua promotora, Colette Borrega Correia, esta informou-me de que este empreendimento oferece quatro casa de turismo em espaço rural – casas de campo e uma casa de prova e venda de produtos regionais –, Casa do Manego, Casa da Maria Mim, Casa da Meia Choina, Casa da Forja Frágua e Casa do Cusco.
A casa já recuperada, concluída e classificada é a Casa do Manego, tendo tido como primeiro nome «Casa da Fábrica», por outrora ter sido uma pequena fábrica de sabão pertencente José Manuel Pires Correia, avô paterno da empresária. Tal nome não pode ser registado por já existirem três idênticos em Portugal.
A tradição do contrabando deixou marcas inegáveis que perduram ainda na localidade. O dialecto quadrazenho ou gíria utilizada pelos contrabandistas é uma fenómeno linguístico único na região, daí o ter utilizado vocábulos oriundos da gíria para batizar o espaço e as ditas casas.
A casa do Manego tem uma área coberta de 180 m2 e capacidade para 8 pessoas. Possui 4 quartos, dois deles com casa de banho privativa, dois duplo, duas casas de banho sociais, uma área de convívio e cozinha. O espaço exterior tem como cenário a Serra da Malcata, a privacidade e a grande área exterior permite ao visitante uns dias de repouso e total descontração, a região oferece também algum potencial nomeadamente o Rio Côa, para a pesca desportiva e e algumas praias fluviais.
Isilda Silva

Filado pelos fuscos das Batocas

Ainda era rapazote quando, numa noite de lua nova, vinha de Espanha nas lidas da candonga na carava do meu machito, azangado com uma carga de fazenda. Conhecedor dos atalhos, afoitara-me a usar o macho no carrego da mercancia, ciente de que carabineiros e guardas não dariam fé da passagem.

Avezado a menear no breu nocturno, lá ia entre chavascais, por carreiros esconsos onde o mais afinado não se afoitaria. Mas a um passo, o raio do macho assustou-se e deu pulo para a banda, caindo numa barroca.
Olhei ao deslado e nada vi nem ouvi que justificasse o sobacão do animal, que me arranjara contratempo. Bem lhe puxei pela prisão, a ver se o ajudava a sair do barranco, mas a coisa estava jossa.
Magicava em ir pedir uma demão ao povo mais próximo, quando suou uma voz forte, vinda do negrume:
– Tem-te quedo, ladrão!… Larga a carga!
Lancei o olhar e reparei nuns botões a luzir. Ia agarrar a cachaporra que sempre me acompanha, quando me seguraram o braço…
– Fica sossegado Tosca, que desta não escapas.
Era o Amadeu Cuco, cabo da Guarda Fiscal, que ainda há dias me fizera largar o carrego, mas que nunca me puzera as mãos em riba. Desta levara a melhor, o alma de seiscentos, pois ali me tinha rodeado, da companhia de mais duas praças.
– Agora filei-te! Um dia tinha de suceder… Estás tramado!
Ainda cuidei em dar salto para os silvados, onde sabia que me não apanhariam, mas deu-me dó deitar à margem o meu pobre machinho, companheiro de tantas labutas, e apus-me, com a ajuda dos fuscos, à tarefa de o retirar do chavascal. Aliviámo-lo da carga, atámos uma corda ao rabicho da albarda e, puxando todos à mesma vez, arrupámos o animal da barroca.
Já com a carga refeita no lombo da besta, levaram-me a caminho das Batocas, direitinho ao posto.
Pelo caminho pus-me a malucar em como sair daquela embrulhada. E não me atarantei. Sendo cristão juramentado, sabia que Deus escreve direito por linhas ínvias, e acreditei que me haveria de escapulir.
Já amanhecia quando avistámos o casario das Batocas, ocasião ugada para desengaçar o meu plano. Cheguei-me à roda do Cuco e dei-lhe falas mansas:
– É que está um códão! Isto só aquenta com um gorcho de aguardente.
– Deixa-te ir caludo. Anda ligeiro que já aquentas.
O lafaruz não queria dar parte de fraco.
– Pinga da boa tem-na lá a Maria Fachana. Aquilo deixa um home a botar fumo… Damos lá uma saltada que sou eu quem paga. Não é agora por mor de dois tostões que vamos deixar de tomar o mata-bicho. E vós bem o mereceis, que sois gente de bem e cumpridores do dever.
Os outros fuscos, que gostavam da pinga, davam tento ao que eu dizia.
– Ora, e não hemos de lá ir, nosso cabo? Sempre se aquenta o corpo! – disse um deles ao comandante.
O cabo, que também era amante da pinga, concordou e, a meio do povo, entrámos na taberna.
– Vamos lá, rapaziada! Um dia não são dias, e o de hoje é de beber.
Ali se prantaram a deborcar toda a copa de aguardente que apanhavam entre os dedos. Pela minha parte, ia-lhes dando paleio e mantendo a copita cheia, fingindo que bebia. Demos ao lambarão sobre o tempo, a lavoura e a vida difícil das autoridades nestas terrinhas de Cristo, tão a deslado do mundo. E a ti Maria sempre de cabaça pronta, atestando os copos aos meus captores, parecendo adivinhar que os queria bem encharcados de aguardente.
Quando os apanhei já bem toldados e a cantar à desgarrada, escancarei as portas e ala, botei o pé para fora da venda. Ainda tive tempo de desatar o macho, e dar-lhe uma palmada na traseira, sabedor de que me levaria a carga ao curral. E larguei a correr para o lado contrário ao que tomara o macho, galgando que nem uma lebre levantada do poisadoiro.
O cabo Amadeu, ao dar fé no imbróglio, veio à rua e ainda deu uma carreira no meu encalço, berrando para uns homens que vinham ao cimo do povo:
– Agarrem-no! Agarrem-no! C’ainda tem de pagar mais umas copas.
Era o agarras! Estava livre e salvara também a montada e a carga daqueles rapinantes.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

E a gorra chegou ao Casteleiro!

Quando eu era pequeno, a malta da minha idade toda tinha uma gorra – os rapazes, claro. Ter gorra era como ter caderno para levar para a escola: era obrigatório. Mas o que era a gorra, de onde vinha, como chegou até nós?

A palavra gorra vem do espanhol e as gorras vinham da Espanha. Uma gorra é uma boina. Mas não uma boina qualquer. Nada como as boinas dos Páras, dos Comandos ou dos Fuzileiros. Nada como as boinas que hoje as meninas usam.
Gorra que se prezasse era preta, à medida da cabeça, tinha um atilhozinho no cocuruto e andava meio de lado. Assim como depois todos vimos nas fotos de posteridade do Che Guevara. Essa era a gorra que nos anos 50 inundava o Casteleiro.
Mas, se falo do objecto, é também para falar da pessoa que as trazia para a nossa terra.
Não sei o nome dela. Era uma contrabandista. Chamávamos-lhe a Ti’ Quadrazenha. Imagino que era de Quadrazais, claro – mas nem sei se era, porque, para nós, tudo o que fosse para lá de Santo Estêvão era arraiano e, mais provavelmente ainda, se vendia coisas que vinham da Espanha, era quadrazenho.
E o que é que vinha da Espanha, para lá da gorra?
Vários bens de contrabando. Atravessavam a fronteira clandestinamente, eram baratos e muito úteis. Exemplos de que todos se lembrarão: caramelos, cacau, chocolate, alpercatas («alpragatas» – era assim que se dizia), entre outros.
De cá para lá, atravessavam café e tabaco, leio num trabalho publicado sobre o tema – que pode consultar aqui e ler algo interessante na pág. 25, nota 8, sobre o Soito, muito dinheiro e o contrabando…
Da Espanha, pela mão da Ti’ Quadrazenha, chegavam-me ainda as celebradas galletas. Coisa boa, saborosa, doce e macia…
Assim era há mais de 50 anos no Casteleiro: uma senhora vinha da Raia e era muito bem-vinda porque nos trazia algumas delícias e guloseimas espanholas. Ah, e trazia sempre as tais gorras com que tapávamos a cabeça: uma imagem de marca que se perdeu nos confins do Tempo…

Nota
Coincidência interessante: andava este texto a bailar-me na cabeça e uma manhã sento-me e despejo para as teclas. Quando vou à procura da minha «assinatura» editada pelo PLB, abro o «Capeia» e qual o artigo de frontpage? Uma peça sobre contrabando. Ri-me – mas mantenho o que já tinha escrito, mesmo arriscando a imagem de in-orignalidade temática… A verdade é a coincidência: porque elas, as coincidências, existem, sim. Agora vejo que sim…

«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

Aventuras de um velho contrabandista

José Tosca, arraiano façanhudo, homem dos quatro costados, senhor de si e dos seus, deu brado por aquela coroa de povos de Riba-Côa e Beira-Serra.

Guedelha solta, cara bem talhada, pele tisnada pela resca e olhar de ratão, ei-lo de meanha estatura e genica que bonda para ninguém lhe pôr a mão em riba com cuidados em domá-lo. A ventura está-lhe no sangue, corre-lhe na mona o malucar constante em galgar o mundo à cata de fortuna. Preado contrabandista, feirão errante, lavrador das horas mortas, futriqueiro quanto baste para burlar e zombar do mais esperto dos comparsas. Um basófias de nomeada que conhece os caminhos chegados a Castela de lés a lés e se gaba à boca cheia de seus feitos e aventuras nas terras da raia. Ciente de responsabilidades, justo quanto basta, temente a Deus e ao Dianho, também é judeu no trato com quem o empulhe. Duas lérias mal mandadas, à maneira de chalaça, e logo trabalha a naifa ou a cacheira para domar e castigar o tratante.
Conta as suas estórias a quem passa e lhe dá um migalho de atenção, sentado num velho mocho, frente ao seu casebre, à gostosa soalheira. Salta à vista o ar farfante de quem se considera um herói da bárbara e agreste terra beirã. Senhor de manhas e artimanhas, pôs vulto em terras de Riba-Côa e fez-se notar, junto com outros tisudos arrraianos, no maralhal de gentalha anónima de que as rudes aldeias abarrotavam. Fala das façanhas como se as vivesse no momento e sente em si o orgulho das arteirices que armava, com o ar destemido de quem sabe que foi senhor do seu mundo.
Nos dias que correm, os povoados raianos estão desertos de gente. Restam apenas, em muitos, os vestígios de outras eras, o pardo casario de granito ou xisto, em ruínas, quelhas de piso maldanamoso, esbarrondado pelo farto correr das águas. Um desmazêlo. Já não soa o chirriar do antigo carro de madeira, o trautear das modas ao balanço de lutas e labutas, tão-pouco o ralhar dos feros lavradores tornando as juntas, nem o berregar desenfreado da canalha a jogar ao eixo e à cabra cega.
José Tosca, com suas facécias, faz renascer do borralho mortiço, ainda que por fugazes instantes, os tempos idos das aldeias perdidas em silêncios confrangedores, implorando vida e ardor. Ouvir estas lérias é recordar parte desse pequeno mundo venturoso e simples que a modernidade quase derriscou e que ainda não substituiu por mais feliz vivência.
Paulo Leitão Batista, «Aventuras de um velho contrabandista»

leitaobatista@gmail.com

Inicia-se agora no Capeia Arraiana a publicação de uma série de episódios, tipo folhetim, que constituem as «Aventuras de um velho contrabandista». Este primeiro acometimento afigura-se uma espécie de prefácio às estórias que se irão seguir semanalmente e que demonstram o espírito venturoso do arraiano José Tosca.
plb

Carregos voltam à Serra

O Jorge Esteves e o Ismael Marcos, dois repórteres da RTP Guarda, estiveram nos Foios para levarem a efeito uma reportagem sobre o contrabando. Foi hoje, dia 4 de Junho.

José Manuel Campos - Presidente Junta Freguesia Fóios - Capeia ArraianaEste trabalho foi, previamente, combinado com a Junta de Freguesia pelo que houve tempo para preparar os carregos e toda a restante logística.
As duas dezenas de pessoas que participaram neste evento chegaram junto do nascente do rio Côa por volta do meio dia tendo-se, todas elas, envolvido na confecção do almoço convívio que foi servido, nas gigantescas mesas graníticas, a partir das 13 horas.
Por volta das 15 horas, enquanto os repórteres da RTP preparavam os equipamentos, também os contrabandistas e os guardas-fiscais se preparavam para que todas as cenas se aproximassem, o mais e melhor possível, da realidade.
Enquanto as mulheres colocavam os produtos nas respectivas cestas os homens preparavam e colocavam os carregos nas costas de modo a que a viagem pudesse decorrer da melhor maneira.
A viagem iniciou-se e tudo se passava dentro da normalidade até que surgiu, do meio das canaveiras – torgas – um guarda-fiscal que parecia esperar e espreitar os contrabandistas tal como também o lince espera e espreita a sua presa favorita. Os coelhos.
O guarda fiscal apareceu, tão surpreendentemente, que não deu hipótese dos contrabandistas se pudessem ter escapado.
O guarda fiscal procurou fazer o serviço que lhe competia e os contrabandistas procuraram sensibilizar o guarda para que não lhes apreendessem os artigos que transportavam ou então que lhes deixasse algumas coisinhas para a desgraça não ser tão sentida.
As cenas foram, na verdade, muito engraçadas e próximas da realidade, e todos os participantes ficaram com vontade de repetir.
Anexo uma série de fotografias que ilustram bem a realidade dos factos.
O repórter Jorge Esteves ficou de nos confirmar o dia e hora em que o programa irá para o ar. Disse que será, provavelmente, segunda-feira, dia 6.
«Nascente do Côa», opinião de José Manuel Campos

(Presidente da Junta de Freguesia de Foios)
jmncampos@gmail.com

Crianças do Sabugal na Rota do Contrabando

As crianças das escolas do Sabugal viajaram nas rotas da história do contrabando nos Fóios. Reportagem da jornalista Andreia Marques com imagens de Miguel Almeida da Redacção da LocalVisãoTv (Guarda).

LocalVisãoTv - © Capeia Arraiana

LocalVisãoTv - © Capeia Arraiana
Autoria: LocalVisãoTV posted with Galeria de Vídeos Capeia Arraiana

jcl

Reviver o contrabando

Há cerca de dois meses fui contactado pela Dr.ª Ana Morgado, da Câmara Municipal de Sabugal, a solicitar a minha colaboração relativa a umas jornadas de convivência com alunos dos dois lados da fronteira.

José Manuel Campos - Presidente Junta Freguesia Fóios - Capeia ArraianaContactámos com o Ayuntamiento de Navasfrias e a Mancomunidad del Alto Águeda e marcou-se uma reunião com autarcas, professores e funcionárias desta última instituição.
Foi com muito gosto que, passados alguns dias, acompanhei a Dr.ª Ana Morgado, as professoras Maria do Céu Chapeira, Fátima Bárbas e a funcionária Silvina tendo sido efectuada uma reunião com autarcas espanhóis, professoras e técnicas da Mancomunidad del Alto Águeda que tem sede em Fuenteguinaldo.
Para quem não souber o que é a Mancomunidad informo que é uma associação das localidades dessa zona que se designa por Alto Águeda. Dezanove pueblos.
O principal objectivo da parte portuguesa era levar as crianças a tomarem contacto com a linha de fronteira e também com a realidade do contrabando.
Para que tudo corresse na perfeição, como correu, uma semana antes fizemos o percurso tendo visitado a casa dos contrabandistas. É um enorme barroco com uma cavidade onde cabem cerca de vinte pessoas.
Os quatro autocarros que transportaram as cento e sessenta crianças chegaram à praça de Foios por volta das dez e meia e depois de devidamente estacionados todas as crianças saíram tendo tomado o pequeno almoço junto do edifício do Centro Cívico que teve as portas abertas para que crianças e adultos pudessem usas as casas de banho.
A Junta de Freguesia de Foios teve o prazer e honra de oferecer os cafés a todos os adultos. Professoras, auxiliares, condutores e alguns pais.
Por volta das onze e meia os autocarros chegavam a um largo existente no alto da Serra das Mesas.
Depois de devidamente estacionados todas as pessoas desceram e ouviram as explicações que lhes foram transmitidas.
De seguida fez-se o percurso até à casa dos contrabandistas cuja distância é apenas de cerca de cento e cinquenta metros.
As crianças, acompanhadas pelas respectivas professoras e educadoras, fizeram esse pequeno percurso algo amedrontadas porque sabiam que iam visitar, em plena serra, a casa dos contrabandistas.
Confesso que foi muito bonito. As professoras e funcionárias que prepararam e executaram a peça (drama) estão, na verdade, de parabéns.
Duas fardadas de guardas-fiscais e mais três vestidas de contrabandistas executaram uma peça de se lhe tirar o Chapéu.
Quando as crianças iam chegando à dita casa eis que saem as três contrabandistas, com os respectivos carregos quando, num ápice, são surpreendidas e apanhadas pelos dois guardas fiscais (obrigado a quem lhes emprestou as fardas).
As crianças estavam algo surpreendidas e um pouco assustadas quando a cerca de cinquenta metros foi disparado um tiro, para o ar, sem que até eu soubesse de onde tinha vindo e quem teria disparado.
Os guardas-fiscais tentavam arrebatar os carregos às contrabandistas e estas choravam e suplicavam dizendo-lhes que eram pobres e que tinham os filhos em casa a pedir pão.
No meio de tanta barafunda os guardas-fiscais acabaram por compreender a situação, daquelas três pobres contrabandistas, e a história acabou com um final feliz.
Após a cena, com um megafone, explicou-se tudo muito bem às criancinhas tendo todas compreendido a situação e agradeceram com uma grande salva de palmas.
Da casa dos contrabandistas fez-se o percurso até à nascente do rio Côa onde a maioria das crianças beberam água.
Foi-lhes dada uma breve explicação, relativamente à nascente, que começa brotando uma pequena quantidade de água indo depois engrossando até chegar a Vila Nova de Foz Côa onde desagua no rio Douro.
Recordo-me de uma criança ter dito que esse não podia ser o rio que passava na Rapoula uma vez que aí já era muito grande.
Houve ainda tempo para se lhe mostrar um marco fronteiriço que tem numa das faces o P de Portugal e noutra face o E de España.
Visto que já era um pouco tarde e porque os espanhóis nos esperavam no parque “El Bardal”, mais concretamente no Centro de Interpretação da Natureza, os quatro autocarros, um carro da Câmara, a carrinha da Junta de Freguesia de Foios e um jipe dos Bombeiros do Soito, rumam todos até Navasfrias, via Aldeia do Bispo, onde chegámos apenas com um quarto de hora de atraso.
Junto do Centro de Interpretação da Natureza encontravam-se as autoridades autárquicas, técnicas da Mancomunidad del Alto Águeda, vários fotógrafos e elementos da Rádio Televisão da província de Salamanca.
Já dentro do Centro de Interpretação o Sr. Alcalde, Celso Ramos, proferiu umas palavras de boas vindas tendo agradecido o facto de se ter escolhido esse bonito parque. «EL BARDAL».
Após esta recepção toda a gente entrou no coração do parque, onde se encontram imensas mesas distribuídas como que a esperar por tanta gente.
Depois do almoço, e tal como estava combinado, os quatro autocarros deslocaram-se à zona das minas de volfrâmio, que dista três quilómetros de Navasfrias, na direcção de El Payo.
Como a visita às minas só pode ser feita por grupos de quinze ou vinte alunos, enquanto uns faziam as visitas outros faziam jogos que intercambiavam com outros alunos espanhóis.
Assim terminou uma bonita e proveitosa jornada pedagógica que certamente ficará guardada, para sempre, na mente dos alunos e adultos que nela participaram.
Informo ainda que estas actividades se vão prolongar pelos dias de amanhã quinta feira, 26 e sexta feira 27.
Vão, naturalmente, participar outros alunos e professores e haverá outras contrabandistas e guardas fiscais.
Estas importantes jornadas são, naturalmente, apoiadas pelo Agrupamento de Escolas de Sabugal, Câmara Municipal, Junta de Freguesia de Foios, Ayuntamiento de Navasfrias, Mancomunidad del Alto Águeda e Associação Humanitária dos Bombeiros do Soito.
Faço votos para que nos dois dias restantes o bom tempo nos continue a acompanhar.
Parabéns a quem organizou e a quem participou.
Fora das quatro paredes muito se aprende!
«Nascente do Côa», opinião de José Manuel Campos

(Presidente da Junta de Freguesia de Foios)
jmncampos@gmail.com

«Três Vidas ao Espelho» apresentado no Sabugal

O romance «Três Vidas ao Espelho», do escritor Manuel da Silva Ramos, vai ser apresentado por Fernando Paulouro Neves, director do «Jornal do Fundão» no dia 8 de Maio, no Auditório Municipal do Sabugal.

Três Vidas ao Espelho - Manuel Silva RamosFernando Paulouro Neves, director do «Jornal do Fundão» apresenta no sábado, dia 8 de Maio, às 15.30 horas, no Auditório Municipal do Sabugal, o romance «Três Vidas ao Espelho» do escritor Manuel da Silva Ramos.
A obra, editada pela Dom Quixote, tem interesse acrescido por relatar com muito realismo a história das comunidades da Beira Alta (Bismula, Quadrazais, Sabugal e povoados da Serra da Malcata) ao longo das décadas de 50 e 60.
«O livro é um elogio do contrabandista e uma reconstituição da vida duma aldeia da Raia nos finais dos anos 40 do século passado e acredito que interessará a muito raianos», disse o autor ao Capeia Arraiana.
Miguel Real escreveu na revista «Visão» que o romance, constituído por três partes, animadas por dois narradores permanentes «é dramático, carregado de miséria e dor, escrito, porém, num estilo irónico, não raro sarcástico e, por vezes, jocoso, que, como os restantes romances do autor, aborda mordazmente a vida trágica dos excluídos de Portugal, compondo-a de sangue e beleza».
«A primeira história narra a vida aventurosa do contrabandista Manuel Brigas, personagem real, de quem é apresentado a certidão de óbito, morto por Canário, guarda espanhol de fronteira. (…) A segunda parte narra a história de Diamantino Alves, natural de Fornos de Ledra, emigrante em Bungui, capital da República do Centro Africana, governada pelo ditador Bokassa. (…) e finalmente a terceira parte é a história de François da Silva, nascido em Paris, filho de emigrantes beirões», decifra Miguel Real na sua análise à obra.
A terminar Manuel da Silva Ramos aproveitou para convidar «todos os fãs do Capeia Arraiana e outros raianos a estarem presentes no próximo sábado no Auditório Municipal do sabugal na apresentação do livro».
jcl

Fóios e Valverde del Fresno na Tv Extremadura

O programa do Canal Extremadura «2 en Raia» fez uma reportagem na freguesia dos Fóios, no concelho do Sabugal, e em Valverde del Fresno do outro lado da Raia.

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Freguesia de Quadrazais - Sabugal - © Capeia Arraiana (orelha)

Gíria de Quadrazais na TVI

Esta quinta-feira, 11 de Março, no programa «Você na Tv!» da TVI marcam presença alguns quadrazenhos para falar da gíria e do contrabando. A não perder!

TMG - Teatro Municipal da Guarda - © Capeia Arraiana

Disco Cicatr-izando apresentado no TMG

No Café Concerto do TMG-Teatro Municipal da Guarda, foi apresentado no dia 22 de Janeiro – «CICATR-IZANDO» – o novo disco de Américo Rodrigues.

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Na sessão de apresentação no café-concerto do TMG do disco «Cicatr-izando» de Américo Rodrigues actuou um grupo constituído por Victor Afonso, César Prata, Eduardo Martins, Tiago Rodrigues e o próprio autor.
O disco regista o som de acções poéticas a partir de elementos da tradição oral portuguesa (romance, lengalengas, orações, adivinhas, ditos, alcunhas e vocabulário de uma gíria).
«À cata da gíria» – Viajo até uma localidade da raia onde se recorda uma gíria de contrabandistas. Durante a viagem ouvimos músicas do Mundo. Não respeito as indicações de percurso. Telefono a um filósofo e filólogo para me explicar de onde vem aquele linguajar. Regresso. (acção realizada no dia 11 de Agosto de 2009 entre a Guarda e Quadrazais).
A maior surpresa é a voz de Pinharanda Gomes que aparece nesta acção à cata da Gíria de Quadrazais.
Todos os temas tiveram por base uma intervenção concreta em cujo processo se usaram tecnologias rudimentares de gravação, comunicação e amplificação da fala e da voz. O som obtido nas acções foi depois alvo de montagem com edição de «Bosq-íman:os records».
A obra musical tem o apoio da Luzlinar, e do IELT – FCSH/ Universidade Nova de Lisboa.
O disco encontra-se à venda na Casa do Castelo na cidade do Sabugal.
Natália Bispo

As ocultas veredas…

…ou os trilhos dos contrabandistas, se poderia intitular esta Carta Dominical.

Pinharanda Gomes - Carta DominicalOcultas veredas, porque era sinal de sabedoria e de prudência, manter em segredo os caminhos e veredas que os contrabandistas calcurreavam para chegarem a bom porto, quer dizer, ao sítio onde poderiam dar por bem concluído um trabalho que era, em todos os casos, uma séria aventura.
Com a Europa livre, o conceito de contrabando alterou-se.
Hoje em dia, é contrabando o que, comprado e vendido nos países da Comunidade e dela originários, não tenham prova de pagamento do IVA. O contrabando era isso, porque as mercadorias não pagavam as taxas alfandegárias. De modo que, não sabemos se o contrabando, por falta de pagamento do IVA, terá aumentado ou não.
Quanto ao antigo, elogiamos a iniciativa dos Fóios, que vai revelar as ocultas veredas, entre o lado de cá e os pueblos de Valverde del Fresno e de Navasfrias.
Quem tiver pedalada, bem se pode entregar a um desporto de, através de trancos e barrancos, percorrer um mínimo de umas quase três léguas, a pé.
Agora, não a salto, nem temor dos fuscos, mas livres e encantados.
«Carta Dominical», opinião de Pinharanda Gomes

pinharandagomes@gmail.com

Contrabando de gado na Raia do séc. XVI

Há dias veio-me parar à mão a Lei da Passagem de Gado de 1564, uma interessante lei do tempo de D. Sebastião, sobre o contrabando de gado.

João ValenteA Lei da Passagem de Gado de 1564 era muito equilibrada para o tempo. Estabelecia, mecanismos eficazes de controle, fiscalização e penas dissuasoras, ao mesmo tempo que protegia o pequeno produtor e incentivava a grande criação de gado:
a) Todas as pessoas moradoras nas terras dentro de dez léguas da raia, deviam escrever, de Abril até ao dia de S. João Baptista, todo o gado, à excepção das ovelhas, num livro camarário;
b) No ano seguinte, e nas mesmas datas, descarregariam o que vendessem ou lhes morresse e acrescentariam o que adquirissem por compra, herança ou criação;
c) Os lavradores que levassem os gados a pastar dentro ou fora dessas dez léguas, tinham de se acompanhar de uma certidão ou carta-guia do seu gado. E retornando, se o vendessem sem licença seriam indiciados como passadores;
d) Os lavradores de fora destas dez léguas que viessem com o seu gado pastar nelas, deviam também escrever os seus gados na sua câmara e fazê-lo acompanhar de carta-guia sob pena de serem indiciados como passadores. Quando regressassem, deviam descarregá-lo no mesmo livro, sob pena de serem indiciados como passadores.
e) Em caso algum, era permitido vender gado dentro dessas dez léguas sem prévia licença e descarrego no livros de assentos camarários;
f) Todos os livros de assentos deviam estar disponíveis e em ordem para serem fiscalizados pelos juízes do rei ou juízes de fora, que tinham o poder de proceder contra qualquer irregularidade ou falta detectada;
g) Estavam apenas isentas destas regras de registo as pessoas que não tivessem mais de duas reses ou vinte cabeças de gado miúdo e até cinco porcos;
h) As penas eram o confisco de todo o gado e de todos os bens móveis;
i) No caso de pastores ou maiorais que colaborassem na passagem de gado ou não denunciassem os amos, eram desterrados por dois anos para África;
j) Quem denunciasse a situação recebia como recompensa 1/3 dos bens confiscados;
k) Quem pretendesse comprar gado fora do lugar onde fosse morador, tinha de levar declaração de quanto gado ia comprar e depois registá-lo no livro, sob pena de ser indiciado como passador;
l) Quem pretendesse fazer varas de porcos, devia declará-lo até ao dia 15 de Setembro de cada ano nos livros da câmara, sob pena de ser indiciado como passador;
m) A partir de Junho, não se podia trazer com as ovelhas, borregos ou carneiros, salvo sementais ou capados, sob pena de se perderem metade para o denunciante e outra metade para a câmara;
n) Quem de cem vacas tivesse por ano cinquenta crias; de mil ovelhas, duzentas e cinquenta crias; de mil cabras, quinhentas crias, beneficiava, demonstrando o facto pelo registo no livro, gozavam do privilégio de não serem presos em ferros ou cadeia pública, bem como dos mesmos privilégios dos cavaleiros e de não sofrerem penas de açoite.

Frontispício da Lei da Passagem de Gado de 1564De facto, o contrabando na fronteira terrestre era geral de Norte a Sul e praticado desde fidalgos da casa real, até ao mais humilde lavrador, a ponto de, sendo o país grande criador de gado, haver no século XVI muita falta de carne, por causa dele.
O contrabando na raia, já era antigo e as primeiras notícias remontam ao tempo de Sancho II e prosseguiu, como sabemos, até aos nossos dias, mas foi mais importante nos séculos XIV a XVI.
Era essencialmente o gado e a moeda que saíam para Castela e os panos que entravam em Portugal.
A vigilância económica sobre estes espaços de fronteira, fossem eles rios, ou pontos de passagem (portos), cabia a várias instâncias: Autoridades territoriais (Alcaides das «terras dos extremos», e fronteiros) e homens do fisco (siseiros, dizimeiros ou portageiros) ou aos homens das sacas (alcaide das sacas, escrivão das sacas, rendeiro das sacas).
Os impostos a solver pelas transacções inter-fronteiriças eram as sisas, dízimos e as portagens e este direito aduaneiro estava consagrado nos forais antigos, nas ordenações e nas decisões das cortes.
As formas de controlar este contrabando que se fazia nas terras de fronteira, designadamente de gado, foram as mais diversas: Assentamento num livro camarário do número de cabeças de gado de cada proprietário; guias de marcha emitidas pelas autoridades municipais quando o gado se deslocava, licenças de venda, penas de confisco do gado e de bens móveis e de raíz, desterro para os pastores (decisões das cortes de Lisboa, Santarém e Torres Novas).
As justiças, neste caso eram bastante rigorosas, havendo por vezes, excesso de zelo das autoridades, que muitas vezes, além de corruptas, por manobras espoliadoras, muitas vezes atropelavam as regras processuais e os direitos individuais.
Um tal Luis Gonçalves, da Reigada, quis ir comprar ovelhas de criação à Guarda, informando os juízes do lugar de que ia buscar gado, para depois lhe fazerem o assento no livro da câmara, conforme impunha a lei.
Na Guarda foi assaltado, não chegando a comprar qualquer cabeça e mesmo assim foi acusado de passar gado. Refugiando-se numa Igreja, os juízes foram buscá-lo e mantiveram-no em cativeiro um mês. Saíu porque os vigários da Guarda cominaram com as censuras eclesiásticas os juízes. Já em casa, o juiz prendeu-o e deixou-o a penar mais mês e meio no cárcere, onde gastou tudo o que tinha, até que fugiu.
Tais situações originavam sucessivas queixas ao rei, como a do povo da comarca da Beira a D. Afonso V, que acusava os oficiais das sacas de se «regerem por afeições» e não pelo cumprimento da Lei, o que levava o rei a conceder várias amnistias colectivas, como a que concedeu aos moradores de Castelo Rodrigo.
As medidas consagradas nesta célebre lei extravagante, que respondia ao fenómeno do contrabando de gado na raia, demonstra bem a dimensão que este atingiu no século XVI.
«Arroz com Todos», opinião de João Valente

joaovalenteadvogado@gmail.com

Gíria dos contrabandistas de Quadrazais

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Gíria de Quadrazais. Um contrabandês falado mas nunca escrito. Calcantes, pesunhos e manápulas. Mais uma vaca púrpura esquecida por todos aqueles (irresponsáveis) que deixam (e deixaram) morrer aos poucos as nossas aldeias.
jcl

Gíria do contrabando de Quadrazais

Caso único em Portugal, a gíria do contrabando fez esta manhã dia 1 de Abril uma vez mais, prova de curiosidade jornalística na emblemática aldeia que a viu nascer na forma de uma reportagem da SIC proveniente de uma delegação da Covilhã.

Contrabando em QuadrazaisA reportagem consistiu numa recolha de imagens junto de alguns Quadrazenhos mais idosos, cuja prontidão em participar forneceu avultada matéria de trabalho aos jornalistas. Histórias do contrabando contadas na primeira pessoa, conversa em gíria entre dois antigos contrabandistas, cantares em gíria de umas rijas Quadrazenhas de 87 anos deram o mote final à entrevista.
Tenho pessoalmente alguma dificuldade em falar desta gíria, provavelmente devido à minha «nacionalidade Quadrazenha», e por ela representar para um dos símbolos máximos desta terra juntamente com a emigração.
Ela terá sempre que ser tida em conta em qualquer abordagem socioeconómica com o intuito de explicar o presente, não só da aldeia, como do próprio concelho do Sabugal. As razões que levaram ao seu aparecimento, uso e desuso, devem ser motivo de maior reflexão para entendermos o presente estado disfuncional da nossa população, tanto do ponto de vista etário como cultural. É uma reflexão para esta e outras aldeias, para o próprio concelho do Sabugal, a sua excessiva desagregação e desenraizamento ao longo da história (com invasões e imigrações sucessivas) terá colocado em cena a actual situação. Falta na minha opinião, nestas terras de Riba-Côa, ao contrário daquilo que por vezes é ventilado, uma cultura de orgulho que beba em raízes verdadeiramente tradicionais e agregadoras de uma alma comum, sem a qual não se pode arrumar a casa.
António Moura

Falta um museu para a memória raiana

José Robalo – «Páginas Interiores»

Em conversa com um velho trancador de baleias na Calheta de Nesquim, concelho de Lajes do Pico, ilha do Pico, este homem do mar com os olhos no horizonte de saudade dizia-me: «Se existe céu na terra, o céu está aqui.»

Os velhos baleeiros

Eu vi os barcos parados prisioneiros
na sede de um museu. E os arpões
pendurados. E gravadas
em dentes de baleia as passadas navegações
dos velhos baleeiros.

E vi os olhos daquele que falava
da última baleia como quem
remasse ainda sobre a onda brava
para um mar onde nunca mais ninguém.

Manuel Alegre

Trancador de BaleiasDe facto, neste fim de tarde numa conversa amena com um velo trancador de baleias respira-se serenidade, num olhar que repousa no infinito do Atlântico, da Atlândida, sempre na expectativa de lá ao fundo encontrarmos sinais de um cachalote. Hoje que a caça à baleia está proibida, por aqui a visita às baleias virou a negócio normalmente explorado por pessoas estranhas a este triângulo dos Açores, que envolve a ilha do Pico, Faial e S. Jorge.
Na Calheta de Nesquim, terra de baleeiros, os trancadores, oficiais, mestre de lancha, remador, cigana e construtor naval, profissões ligadas a esta actividade, caíram em desuso e hoje são figuras de museu.
Longe vai o tempo em que sentado no cais da Calheta de Nesquim conversei sobre esta temática com o Manuel Pereira de Lemos, o Manuel Alfaiate, que obsessivamente e de forma recorrente desfiava a sua memória sempre à volta desta temática. A proibição legal e a emigração para a América que fica lá bem longe no horizonte, transformaram esta gente em coisa inútil confinando-os à vida do campo.
As autoridades locais nesta ilha, onde se sente um grande cuidado com as coisas da cultura, reabilitaram estes espaços de transformação de cachalotes, erigindo museus, lembrando ao visitante que por estas terras existe gente de coragem. Os museus de S. Roque do Pico e das Lages do Pico, são o orgulho desta gente do mar onde «nunca mais ninguém».
O trancador de baleias pela sua coragem e atitude destemida ao enfrentar animais que pesam toneladas em condições adversas em alto mar e em pequenos botes, traz-me à memória a coragem das gentes da raia que sobreviveu ao contrabando. A coragem das nossas gentes mede-se também na forma destemida como enfrentam um touro em pontas com o forcão. Está aí mais um mês de Agosto e em boa hora pelas freguesias da raia encontramos capeias e festas populares que continuam a prender os nossos emigrantes ao concelho.
Penso que é chegado o momento para que alguém (uma junta de freguesia, ou município), aproveitando os novos fundos comunitários, se proponha avançar com a criação de um espaço museológico reavivando actividades e tradições raianas, uma vez que todos temos orgulho no nosso passado e na nossa memória colectiva.

:: :: PARA LER :: ::
«Mar pela proa», de Dias de Melo, Chão da Palavra.
«Mau tempo no Canal», de Vitorino Nemésio, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

:: :: PARA OUVIR :: ::
«L. A. Woman», The Doors.

«Páginas Interiores» opinião de José Robalo
joserobaload@gmail.com

Soito convida a conhecer os trilhos do contrabando

Percorrer os velhos trilhos do contrabando a pé, a cavalo ou de bicicleta é a proposta da Associação Cultural e Desportiva do Soito para 27 de Abril.

Desbravar os velhos trilhos raianos apenas conhecidos dos contrabandistas soitenses é a proposta da Associação Cultural e Desportiva do Soito para o fim-de-semana alargado do final de Abril.
No domingo, dia 27, às nove horas da manhã será dada a partida para as bicicletas todo-o-terreno e para o passeio equestre. Uma hora mais tarde inicia-se o passeio a pé que terá um percurso de cerca de 10 quilómetros.
A saudável jornada de convívio que percorrerá a história contrabandista da raia sabugalense do século XX terminará por volta das 13 horas com um almoço para todos os participantes. Na parte da tarde os miúdos e os graúdos terão à sua disposição insufláveis e animações de rua.
A organização está a cargo da Associação Cultural e Desportiva do Soito em colaboração com a Câmara Municipal do Sabugal, Santa Casa da Misericórdia do Soito e a Associação Promotora do Ensino Profissional da Beira Transmontana (Escola Profissional de Trancoso).
As inscrições são limitadas e podem ser feitas até ao dia 25 de Abril no Bar Lele Cavaca, Bar Azul, Bar dos Bombeiros e Restaurante Zé Nabeiro.

Aqui recordamos um sábio pensamento: «O contrabando não é um crime, é um delito à luz da lei vigente na altura.»
jcl