Category Archives: Politique d’ Abbord

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

As grandes riquezas de África – opulência e miséria

Mau grado a enorme extensão de terras desérticas e pantanosas que cobrem quase um terço daquele continente, a África é, mesmo sob o ponto de vista agrícola, muito rica.

África (foto D.R.)

África (foto D.R.)

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

A partilha de África

O primeiro país europeu a preocupar-se com o conhecimento da África Subsariana, tanto a ocidente como a oriente, foi indiscutivelmente Portugal.

Conferência de Berlim, onde se dividiu a África

Conferência de Berlim, onde se dividiu a África

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Não uma África, mas muitas Áfricas

Histórica, cultural, étnica, económica e culturalmente, África é um continente heterogéneo, muito heterogéneo mesmo. Do Cairo ao Cabo, da Mauritânia ao Suez, de Bissau ao Corno ou de Angola à Contra-Costa, são extraordinárias as diferenças ou mesmo frisantes os contrastes.

Continente Africano

Continente Africano

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Um libelo anti-republicano

A França é a mais velha república europeia dos tempos modernos. No entanto, têm surgido naquele país os doutrinadores monárquicos mais destacados e os mais celebrados críticos do regime, nomeadamente os teorizadores da chamada «Action Francaise».

Maurice Pujo (à esquerda) no escritório de Maurras

Maurice Pujo (à esquerda) no escritório de Maurras

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

A reconquista dos espíritos

No admirável prefácio que deu ao livro «Souvenirs de Prison de Charles Maurras», o grande politólogo belga Gustave Thibon explica como o maurrassismo não é um sistema fechado, ou não é sequer um sistema, na acepção habitual do termo.

Gustave Thibon

Gustave Thibon

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Um novo estado de espírito

O académico francês Jules Lemaitre, que chefiava no seu país a resistência intelectual à conspiração das esquerdas, publicou no Outono de 1903 um opúsculo a que deu precisamente o título «Un Nouvel État d’Esprit».

Jules Lemaitre

Jules Lemaitre

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Um libelo anti-republicano

A França é a mais velha república europeia dos tempos modernos. No entanto, têm surgido naquele país os doutrinadores monárquicos mais destacados e os mais celebrados críticos do regime, nomeadamente os teorizadores da chamada «Action Francaise».

Henri Vaugeois

Henri Vaugeois

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O eclipse total da democracia

Numa conferência proferida na já remota era de mil novecentos e sessenta e cinco, o politólogo Jean Ousset considerava como um dos fenómenos mais curiosos da segunda metade do século XX o desaparecimento da democracia que apenas subsiste no aspecto formal e a sua substituição por tecnocracias ocultas.

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Maçonaria e progressismo – uma velha aliança

Ainda antes de 1793, data da Revolução Francesa, já esquerdistas e franco mações conspiravam juntos.

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Da essência dos partidos

Os partidos não são mais do que facções da opinião pública, ganhas por determinada corrente de pensamento. Eles podem ser numerosos e turbulentos e então a nação vive dividida e agitada. Como podem ser poucos e tolerantes, vivendo a nação em perfeito equilíbrio, embora instável. E um deles pode impor-se com tal poder de convicção que se identifique com a nação, monopolizando-a.

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Um drama

«La grande presse ayant passé tout entière entre les mains de l’argent, la liberté de l’esprit s’est réfugiée dans les lettres confidentielles de petits journaux locaux et des hebdomadaires politiques qui arrivent dificilement à vivre.»

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

As peias dum deputado

O menos que se pode dizer de um deputado é que ele não é livre. Para começar o rol de subserviências, dir-se-á, desde logo, que não goza de qualquer autonomia ante o seu partido que o fez eleger e o subvenciona e que, em troca, lhe exige disciplina de voto.

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Incompetência

Na democracia parlamentar é o parlamento quem governa. Depositário da vontade popular é a ele que estão confiados não apenas os interesses dos cidadãos, mas também o destino, a grandeza ou a miséria, a vida ou a morte da nação.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Como funciona a plutocracia

A plutocracia existe. Não é uma mera figura de retórica.

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A Bíblia de L’Action Francaise e do Integralismo

Falando na Bíblia Universal de L’Action Francaise e do Integralismo Lusitano, referimo-nos ao livro de Charles Maurras que tem por título «Enquete sur la Monarquie», onde o autor disserta longamente sobre a forma como pensamento e acção se interligam no movimento.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Ainda L’Action Francaise

Debruçamo-nos um pouco longamente sobre este tema, por causa da forte influência que os seus teoricizadores exerceram sobre dois grandes movimentos de ideias que marcaram a primeira metade do nosso século dezanove, ou sejam o CADC – Centro Académico da Democracia Cristã – de que saíram Salazar, Cerejeira, os irmãos Dinis da Fonseca, Mário de Figueiredo…

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Os vícios do partidarismo

Os homens são todos homens, mas os do meu partido são muito mais homens que os dos outros.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O caso do Mali

Os relatos, ultimamente vindos a lume, sobre a necessidade de intervenção de forças da antiga potência colonizadora para a normalização da vida nesta pequena república do centro-ocidente africano, levou-nos a meditar sobre um livro escrito já nos idos anos sessenta do século passado pelo politólogo Jacques Ploncard D’Assac, que, a si próprio, se atribuía o título de «La Voix de L’Occident».

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Action Francaise

Foi o politólogo Maurice Pujo quem criou a expressão «Action Francaise». Estava-se em 1898.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O Parlamento na democracia representativa

Para aquilatar da importância das críticas movidas ao Parlamentarismo, torna-se necessário recordar o papel daquela instituição nos regimes políticos da maior parte do Mundo.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Politique d’abord – Charles Maurras

Charles Maurras, um ensaísta praticamente desconhecido no nosso tempo, foi o mais influente guia do pensamento político direitista mundial nas primeiras décadas do século passado.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Os grandes inimigos da Europa

Ao tempo de Camões: a própria Europa, dilacerada pelo protestantismo e a guerra dos trinta anos; a rivalidade Carlos Quinto/Francisco Primeiro; o Grão-Turco.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Em defesa da Europa

Em defesa da Europa, ou ainda a diatribe camoneana sobre a irrupção do protestantismo.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Visceral incompatibilidade

Ao sair duma audiência que lhe havia sido concedida por João XXIII, o genro de Krouchtchev, ao tempo satrapa de todas as Rússias, reconhecia, aliás com a maior das honestidades, não ser possível qualquer coexistência entre a doutrina comunista e a religião católica.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

Opiniões

Uma empresa britânica de sondagens, chamada Mass Observation procedeu há anos a um inquérito junto do seu povo – obviamente o inglês. Tratava-se de saber o que é que o homem da rua, o inglês médio, retinha de tudo o que os jornais, a rádio e a televisão todos dias e a toda a hora lhe davam como informação sobre as mais altas personalidades políticas.

Manuel Leal Freire - © Capeia Arraiana

O valor dos símbolos e o reino latino de Jerusalém

Balduíno de Bolonha, conde de Edessa, chega a Jerusalém com um magro punhado de cavaleiros, mas com o firme propósito de enaltecer o seu título, invocando ser descendente dos vinte monarcas, que, até então, tinham governado a França. Iria ele próprio criar um trono e sentar-se nele.

A partilha do mundo

Qualquer iniciado em História sabe que, ciclicamente, se apresentam duas potências rivais, tendentes a disputarem, entre si, o domínio do mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProcuremos fixar alguns desses grandes momentos.
Por vezes pode tratar-se de mera hegemonia espiritual, como no dissídio Babilónia-Sião, lucubrado na toada:
Sobolos os rios que vão
Por Babilónia me achei
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião
E quanto nela passei
Então um rio corrente
Foi de meus olhos manado
E tudo bem comparado
Babilónia ao mal presente
Sião ao tempo passado.

Quase sempre, porém, é a luta pela hegemonia política e o domínio territorial.
Comecemos por Tróia.
Recordemos a poética causa belli:
Quando se viu ao espelho
A bela Helena chorou
Por causa dum rosto velho
É que Tróia se arrasou.

Agamemenao, o pastor de todos os povos do Ocidente conglobara e concitara exércitos para se vingar de Paris e Poicena.
Arma virunque cano Troia ab oris.
Tróia arde, mas Eneias, filho de Vénus e Anquises, desloca-se para Ocidente.
Entretanto, a querela renasce perto de onde Tróia tinha sido antes de arder.
São as guerras medicas ou persas, onde gregos e medos se disputam o domínio do Bósforo, símbolo do domínio mundial.
Atenas e Esparta tentam dividir um mundo à sua moda.
Como depois, a Macedónia de Alexandre, o Magno, e os seus quarenta generais, partindo o nó gordio, abriu caminho até ao Oriente quase último.
A questão renasce com as guerras púnicas, já que Anibal, o grande peno, filho de Amílcar e neto de Asdrubal, disputa o domínio dos povos mediterrânicos, a única parte do mundo que interessava, à Roma pré-imperial.
Séculos depois, quando os herulos, chefiados por Odiacro, apeiam Augustulo dum trono que já não existia, ninguém aspirou à hegemonia mundial, que a barbaria obstava a qualquer projecto de união, indispensável a intentos de domínio à escala mesmo dum pequeno mundo.
Breve renasceriam os sonhos imperiais e com elas as perspectivas de partilha.
Os sucessores de Carlos Magno e de Otao Grande dividem as respectivas heranças, dividindo a parte do Mundo que, ao tempo, interessava – o coração da Europa.
Mas o Império Romano renasce, tetrárquico ou diárquico.
E depois de as suas duas metades – Roma e Constantinopla – se haverem disputado primasias, eis que aparece um terrível émulo a exigir a divisão do Orbe – o Império Turco.
Que passa da intenção à acçao, tomando Constantinopola, que mais uma vez muda de nome e avançando até às costas dalmáticas.
Entretanto surgem as duas potências ibéricas – Portugal e Castela – que, depois de delimitarem os velhos continentes, dividem em Tordesilhas o Mundo ainda por achar.
A hegemonia tornou-se duradoira e ainda hoje as três Américas, da Florida à Patagónia dão sinal da validade da partilha.
Temporalmente muito próxima de nós, à distância efectivamente de pouco mais de um século, foi a partilha de África, onde vingou a bicefalia Inglaterra-França.
A primeira conseguiu a ligação Cairo-Cabo, bastante à custa dos nossos direitos que iam de Angola à contra-costa em Moçambique.
A segunda alijou para regiões inóspitas as ambições alemãs e italianas e coartou lesivamente a influência espanhola a Norte e Ocidente.
Com a Segunda Grande Guerra, foram duas novas potências que se impõem a todo o Mundo… Estados Unidos e União Soviética.
Foi o tempo da chamada guerra fria que só se aquietou com a queda do chamado Muro de Berlim e o desmoronar do Império Bolchevista e a irrupção de algumas dezenas de novos estados, grandes uns, como a Ucrânia e a Bielo-Russia, médios alguns, embora territorialmente vastos, minúsculos muitos deles, mas correspondendo a bem vincadas nacionalidaddes.
O sonho de hegemonia mundial dissipou-se.
Mas não há tempo para vacaturas.
E, no seu lugar, está para já de pedra e cal, o colosso chinês, apostado também no domínio económico-financeiro do nosso orbe já pequeno para tanta ambição…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O expansionismo chinês

A longa viagem de mais de dois meses que o então chefe do governo chinês Chou En Lai levou a cabo em África na parte final de mil novecentos e sessenta e três marca uma data importante, pois foi por ela que aquela potência que começava a ter intenções de hegemonia mundial saiu do seu próprio continente, para potenciar o movimento revolucionário no chamado Terceiro Mundo.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaJá antes, em em mil novecentos e quarenta e nove, Liu Shao Chi, que havia de ser presidente da república, defendera a tese de que a via chinesa é a via que devem tomar todos os países coloniais e semicoloniais no seu combate para a independência nacional. Era a formação de frentes nacionais.
Os elementos de vanguarda da luta revolucionária, preconizava, devem atrair a si os elementos patriotas da burguesia nacional e formar com eles uma frente tão larga quanto possivel. Mas a direcção dessa Frente deve pertencer à classe operária, leia-se ao partido comunista.
Porque a partilha do poder com a burguesia nacional não conduziria ao triunfo da Revolução, mas à prevalência de interesses burgueses.
Ponto essencial era também o da necessidade da luta armada, relembrando os ensinamentos de Mao Tse Toung, segundo o qual o poder está sempre nos canos das espingardas.
Mas esta luta só de per si é insuficiente e não pode ser levada a cabo só pelos povos colonizados. É fundamental o auxílio dos países socialistas
Enfim, os povos da Ásia, da África, da América Latina devem aplicar na sua luta contra os colonizadores a técnica revolucionária que o povo chinês praticou e se encontra sintetizada nas lições de Mao.
Tem de ser assim, dizia o compêndio.
Para o Egito, a Argélia, Marrocos, o Quénia, as três Guinés, o Mali, a Somália, o Tanganica, Zanzibar, o Iemen, a Palestina, o Paquistão, o Ceilão, nas Antilhas, nas Caraíbas, no Peru, na Nova Caledonia…
Como se vê, não há limites geográficos para o expansionismo chinês.
Poderá perguntar-se das razões pelas quais Pequim decidiu intrometer-se tão larga e profundamente por todo o Terceiro Mundo.
Porque os países ocidentais ou abdicaram ou se mostram apenas preocupados com a colonização económica, única que também em seu entendimento interessava aos soviéticos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Mas nem só a Europa colonizou

Nos grandes debates sobre descolonização apresentaram-se como campeões da ideia a Rússia, a China, os Estados Unidos, o Japão, a União Indiana.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaE, no entanto, todos aqueles países eram ao tempo, tinham sido antes e dificilmente se poderão despir de aspirações de hegemonia e expansionismo, colonizadores no pior sentido do termo e sempre ávidos por mais e mais extensão.
Aliás, para além de eventuais diferenças de base ideológica ou de praxes políticas, que vêm opondo os governos de Moscovo e Pequim, assenta na chamada questão dos limites.
Com efeito, mau grado a enorme Área territorial daque1es dois colossos (mais de vinte milhões de quilómetros quadrados a Rússia, cerca de dez milhões a China), ambas se reivindicam rnutuamente parcelas fronteiriças.
E nenhuma delas se coibiu de continuar na senda das anexações. Que o digam, na Europa, a Polónia, a Finlândia ou a Roménia, amputadas largamente no fim da Segunda Guerra por um imperialismo não contente ainda com a incorporação da Sibéria, do Turquestão, do Cáucaso, da Transcaucásia…
Antes, alargara-se para o Báltico e Proximo Oriente, mesmo à custa da Suécia (não se esqueça que Sao Petersburgo, que assim nasceu, mas já foi Petrogado e Leninegrado, está construido em territórios extorquidos por Pedro o Grande à Suécia) e aquém da Sublime Porta, ex-dona da Crimeia e limítrofes.
Quanto à China, bastará recordar a anexação do Tibete, da Mongólia, da Manchúria, duma parte do Turquestão, e de todo um extenso rosário de arquipélagos espalhados por todos os mares da região.
De resto, as aspirações de hegemonia de uns e outros não se circunscrevem a questões de fronteira.
Reflexamente, influenciam também o dissídio Índia/Paquistao, relativamente às tendências expansionistas da primeira, que se julga predestinada ao domínio de toda a península, não obstante o autêntico mosaico de raças e culturas determinantes de cerca de uma vintena de estados, que são tantos quantos compõem a Índia, importa como fre-quentes e sangrentas irrupções bem demonstram.
Antes do colapso militar que lhe foi imposto pelos bombardeamentos de Hiroshima, também o Japão praticou uma política agressivamente expansionista, iniciada em fins do século passado. Vencendo sucessivamente russos e chineses, conquistou a Manchúria e ocupou as únicas áreas industrializadas da China, formando assim o Grande Império do Sol Nascente.
Além disso, incorporara também as ilhas que no Pacífico haviam constituído, até Versalhes, o império alemão.
Os Estados Unidos, para além da projecção da doutrina de Monroe (a América para os americanos), que naturalmente lhes conferia uma posição hegemónica, vem praticando desde fins do século passado uma política de expansão territorial, conseguida de diversos modos.
Em 1867, compraram o Alasca aos russos. Em 1889 anexaram as ilhas do Havai. A guerra hispano-americana, desencadeada pela posse de Cuba, terminou pela derrota da Espanha e a transferência para o domínio americano de Porto Rico, Guam e as Filipinas.
Mas não se quedou por aqui o alargamento do territorio. Por compra, adquiriam à Dinamarca as Ilhas Virgens. Na América Central, têm o domínio perpétuo da zona de protecção do Canal do Panamá.
A sorte dos dois últimos conflitos de que tem sempre ernergido vencedores, assegurou-lhes, por igual, outras zonas do domínio ou tutela: caso de antigas possessóes alemãs ou japonesas em diferentes áreas do Pacífico…
O anticolonialismo norte-americano (naturalmente hipócrita) explica-se por uma causa no mínimo dupla: por um lado, ao seu grande poderio económico-militar não interessava minimamente a influência das antigas metrópoles europeias; por outro, tratava-se de conquistar simpatias dos chefes que se julgavam independentizados. Todavia, por uma especie de justiça imanente, os territorios por que decidiram atacar as velhas soberanias têm-se revelado para Washington fonte das maiores preocupações e até de terríveis problemas, ainda não solucionados.
Bastará citar quatro exemplos. Contra o domínio espanhol, intervieram em Cuba que inicialmente satelitizaram, mas que com a ascenção de Fidel – aliás por eles mesmo promovida e potenciada – se lhes tornou o mais incómodo dos vizinhos.
Contra a hegemonia japonesa, intervieram na Coreia e as sequelas do conflito ainda não sararam.
Mas a pior de todas as provas emergiu na Indochina, onde se quiseram substituir aos franceses.
Falta saber como se saldará a substituição da influência britânica nas regioes onde foram Ur, Babilónia e Ninive.
A descolonização fez-se assim por influência de simples interesses comerciais ou devaneios ideo1ógicos.
A conversão em estados dos antigos territórios sob administração europeia fez-se não tendo minimanente em conta os interesses das populacões autótones, nem os irnperativos geográficos.
Bem pelo contrário, escreveu urn especialista (Ligório Marcela, in «Apontamentos de Geografia Política») firmou a divisão mais artificial do mundo… Com efeito, muitos dos novos estados além de não terem sido precedidos pela formação das nacionalidades têm fronteiras que não correspondem a divisórias naturais e que separam frequentemente povos da mesma etnia… E daí os genocídios que sinistramente irrompem para subjugar populações que são forçadas a permanecerr em esta¬dos arbitrariamente organizados e protegidos.
E a tragédia repete-se todos os dias.
A colonização movera-se de início por motivos de ordem espiritual. À descolonização, todavia, presidiram meros intentos economicistas, mesmo que disfarçados sob a capa da emancipação dos povos.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Império colonial Inglês

O Reino Unido conseguiu o maior império que a História regista.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaDo compêndio de Geografia já noutra crónica referido, consta uma extensa listagem de colónias britânicas que passamos sumariamente a enumerar, anotando a superfície que o livro lhes atribui e que são:
Na Europa:
Heligolândia (0,5 km2), Gibraltar (5) e Malta (370).
Na Ásia:
Chipre (960), Índia (2.400.000), Ceilão (640.000), Estabelecimentos do Estreito (3.800), Hong-Kong (83), Labuão (78), Nicobar (1.800), Andamão (6.500), Laquedivas (2.000), Kuria-Muria (55), Adem (20), Pérsia (2.000.000), Kamarao (165) e Keeling (22).
Na Oceânia:
Novas Gales do Sul (800.000), Norfolk (14), Vitória (230.000), Gucensland (2.000.000), Austrália Meridional (1.000.000), Territórios do Norte (1.400.000), Austrália Ocidental (2.500.000), Indígenas da Austrália (100.000), Tasmânia (70.000), Nova Zelândia (270.000), Chatam (1.600), Fidji (20.000), Rotuma (36), Aucland (500), Lord Hove (8), Carolina (5), Starbuck (3), Malden (90) e Funning (40).
Na África:
Colónia do Cabo (572.000), Basulolândia (22.000), Griquelândia Ocidental (45.000), Transkai (40.000), Natal (50.000), Transval (300.000), Indígenas do Transval (100.000), Walthis-Bay (20.000), Serra Leoa (2.600), Gâmbia (179), Costa do Ouro (40.000), Lagos (200), Santa Helena (123), Ascensão (83), Tristão da Cunha (116), Maurícia (2700) e Nova Amesterdão com São Paulo (100).
Finalmente, nas Américas:
Canadá (8.500.000), Terra Nova (110.000), Bermudas (60), Honduras (20.000), Bahamas (14.000), Ture (25), Caicos (550), Jamaica (10.000), Cayman (600), Leward-Island (1.800), Windward-Islands (2.000), Staten-Island (2.000), Trindade (5.000), Guiana Inglesa (220.000) e Falclândia (12.500).

A enumeração, conquanto fastidiosa, não consigna, mesmo assim, a totalidade dos territórios que chegaram a estar dependentes da coroa britânica; e, quanto à sua extensão territorial, para a maioria dos casos, peca por deficientíssima, sendo certo que os dados procederam de repartição administrativa que só considerava os quilómetros quadrados sitos onde a jurisdição efectivamente funcionaria.
Com efeito, para numerosas parce1as, as superfícies indicadas apresentam valores manifestamente ridículos quando confrontados com as dos estados que actualmente lhes correspondem.
Acresce que, ao tempo, os Estados Unidos, outrora a mais importante e rica colónia do império se havia já emancipado; que o Império Turco ainda se não havia desmembrado e parte importante daquele, nomeadamente a Palestina e o Egipto, haviam de passar para a administração britânica, tal como a península arábica; e que territórios que na partilha da África haviam sido consignados à Alemanha transitaram, por virtude dos tratados que puseram fim à Primeira Grande Guerra para a posse ou, minime, a zona de influência de Londres.
Resumindo, poderá dizer-se que um súbdito de Sua Majestade britânica podia ir do Cairo ao Cabo, ou da Serra Leoa ao Corno de África sem ter de prestar obediência a outro chefe, que imperava em toda a Oceânia, na América do Norte, no Próximo, Medio e Vero Oriente, ou em todo um longo rosário de ilhas esparsas par tados os oceanos, ou mesmo por todos os mares.
Na génese de tão vasto império intervieram razões como a do espaço vital e a das oportunidades comerciais.
A população inglesa subiu rapidamente de menos de vinte milhões para mais de cinquenta. Daí a emigração para a América do Norte e a África do Sul, territórios de grandes riquezas agrícolas e mineiras e grande aptidão para a pecuária, ainda com a vantagem de serem dotadas de c1imas perfeitamente adaptados à raça branca.
Mas também a pirataria e o crime assumiram aqui poderosa influência.
Os portos de onde se vigiavam as mais concorridas rotas: as ilhas que rnais recôndito esconderijo fossem capazes de propiciar aos corsários que actuaram nos sete mares; as costas mais difíceis para servirem igualmente de coito: ou as embocaduras dos mais caudalosos rios usados para os raides fluviais, enfim todos os lugares eleitos por uma pirataria muito activa, eficiente e gozando da tolerância ou mesmo da protecção da Coroa e da sua política de canhoneira – acabaram por vir a tornar-se parte integrante do Império.
Mais importante do que a acção destes viquingues da Idade Moderna se revelou a dos condenados que eram remetidas para lugares de degredo onde poderiam vir a fixar-se como colonos livres se ali dessem provas de regeneração e, numa primeira fase, se comprometessem a não regressar à metrópole.
Como exemplo deste tipo de colonização costuma citar-se a Austrália, onde se começou pela parte sul da costa oriental, antes explorada pelo capitão Cook e por ele designada Nova Gales. Foi um oficial de marinha que, com cerca de oitocentos condenados, fundou a cidade de Sydnei.
A carência de mulheres já que os criminosos condenados à morte ou penas de degredo eram guase só homens, resolveu-se com a deportação das que na Inglaterra se dedicassem à prostituição.
O País, mau grado a procedência da generalidade da população, cedo atingiu elevados níveis de prosperidade e civi1ização e pouco tempo após o papel de colónia penal passou para a Tasmânia.
Como se vê, foi muito heterogéneo o contributo dos que a1icerçaram a maior comunidade de povo. ligado por laços de soberania, cultura e idioma, jamais existente.
O inglês tornou-e assim uma língua praticamente universal, sendo falado e tido como oficial nos mais variados lugares do mundo.
As independências começaram há mais de duzentos anos e ainda não terminaram.
Mas a Comunidade, tendo como principal elo, a língua inglesa e acatando também genericamente como símbolo a casa real assume-se como realidade que sabe resistir a interesses e posições, não raro aparentemente irrecinciliáveis.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Império Francês

Sob o título em epígrafe, lê-se na «História Geral da Civilização», de Adriano Vasco Rodrigues:

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNo reinado de Francisco Primeiro, correndo os anos de 1533/1534, Verazzano, um florentino ao serviço da corte francesa, percorreu parte das costas da America do Norte. Mais tarde Cartier descobriu o estuário do São Loureço. Ainda em 1534, iniciou-se a colonização francesa do Canadá. Aproveitando-se da situação criada a Portugal pela ocupação filipina, os franceses tentaram estabelecer-se no Brasil e na India. Richelieu não se preocupou apenas com os limites naturais da França. No seu tempo, ensaiou-se a colonização do Canadá, das Anti1has, do Senegal e de Madagascar. No tempo de Carlos IX fundaram a Carolina, em homenagem aquele soberano, o mesmo fazendo com a Luisiana, no tempo de Luis XIV. Esta colónia foi o foco da Guerra dos Sete Anos, durante a qual a França perdeu grande parte do seu império colonial. Mesmo assim, na India possuíu até aos nossos dias Pondicheri, Carical, Mlahe, Tainao e Chandernagor…
E, diremos nós agora, manteve a Indochina até 1960, a Argélia, o Saara e a África Ocidental, a Africa Equatorial, Madagascar e parte das Antilhas, além de numerosos arquipélagos meio oceânicos, meio insulindícos, até a grande vaga de independências forçadas pela ONU e pelos partidos de esquerda em Paris…
Compêndio escolar adoptado nos nossos liceus em fins do século passado continha esta relaçao:
África: Argélia, Tunísia, Gabão, Senegâmbia, Reunião, Maiota, Nossibé e Santa Maria de Madagáscar;
Ásia: Índia Francesa e Conchinchina Francesa; e, ainda protectorados sobre o Reino do Cambodja, Tubuai, Vovitou, Rapa, Tuamutu e Gambier;
América: Guiana, Guadalupe, São Bartolomeu, Martinica, São Pedro e Miquelou;
Na Oceânia: Nova Caledónia, Taiti, Moerea, Tetuarea, Raiatea, além de numerosas ilhas (Loyalti, Marquesas, Cliperton, entre outras…).
Dos impérios ultramarinos foi este sem dúvida o segundo em importância, logo a seguir ao inglês.
Menos mercantilista e mais interessado em trazer os povos indígenas aos benefícios da civilização, só podia ser atacado em nome de princípios que não tinham em conta o humanismo.
Aliás, muito mais do que as populações autóctones, genericamente satisfeitas com a colonização e até orgulhosas com a sua ligação à França, quem lançou as sementes da revolta foram internamente os partidos e intelectuais de esquerda (uns por pretensões de vanguardismo, outros por obediência a Moscovo) e externamente a Rússia ou a China ou até os Estados Unidos, todos com aspirações e intenções imperialistas e os últimos para agradarem aos afro-asiáticos que tinham a maioria na ONU e lhes forneciam oportunidades comerciais inusitadas.
Os militares franceses, não obstante a situação de abandono a que a classe política os votou, escreveram páginas de glória na defesa do Império.
Os Centuriões, embora livro romanceado, dão-nos épico testemunho. No pórtico, escreveu o autor, Jean Larteguy:
Conheci muito bem os centuriões das guerras da Indochina e da Argélia. Durante algum tempo, fiz parte deles; depois jornalista, tornei-me sua testemunha, por vezes seu confidente. Sentir-me-ei para sempre ligado a esses homens, mesmo que um dia deixe de estar de acordo com eles quanto ao caminho que seguiram… E dedico este livro à memória de todos os centuriões que pereceram para que Roma sobreviva.
A Indochina ficaria na memória de todos:
Naquela noite, os oficiais tinham-se reunido em casa de Esclavier que, como se servia dos móveis dos legionários, possuía a cozinha mais confortável… Primeiro beberam por Merle e todos os companheiros que já estavam mortos; depois por eles próprios a quem talvez acontecesse rapidamente o mesmo; por Si Lachen, que foram obrigados a matar; pelo coronel Quarterolles, por Moine, por Vesselier que teriam gostado de fuzilar. Mas, à medida que se afundavam na sua bebedeira, esqueciam a ArgéIia (onde então se encontravam) e a França e, dentro em pouco, todos falavam ou sonhavam com a Indochina. Nessa mesma hora, todos os oficiais, todos os sargentos e todos os soldados do exército francês que tinham conhecido o Tonquim ou a Conchinchina, a Região Alta, o Cambodja ou o Laos, quer estivessem sentados em suas cozinhas, escondidos numa armadilha, ou dormindo sob a tenda, reavivavam da mesma forma a chaga da doença amarela, arrancando-lhe as finas crostas que a cobriam.
Esclavier nao pudera suportar por muito tempo as discussões e safra. Avançara entre as ruínas do acampamento romano… Sentou-se sobre o fuste de uma coluna quebrada e tacteou uma inscrição: Titus Caius Germanicus, centurio Tercia Legio Augusta.
Vinte séculos antes, um centurião romano sonhara junto daquelas colunas e espreitara no fundo do deserto a chegada dos númidas. Quedara-se ali para defender as pontas do Império, enquanto Roma apodrecia, os bárbaros acampavam junto às Três Vias e as mulheres e filhas dos senadores juntavam-se-lhe durante a noite para copular com eles…
Esclavier sentia o ódio, a repugnância a invadi-lo contra todos aqueles que em Paris se felicitavam antecipadamente com a derrota e a perda do império.
Titus Caius Germanicus devia sentir a mesma coisa a respeito dos progressistas de Roma…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Império Dinamarquês

Este imperialismo radica em linha directa nas expedições normandas. Arianos daquilo que hoje chamaríamos a Escandinávia (Suécia, Noruega Dinamarca), começaram nos últimos séculos do nosso primeiro milénio, um ciclo expansionista que os levou da Amèrica do Norte ao Mar Cáspio e do Arca Polar à Sicília e Bizâncio.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaContra eles, assinala Daniel Rops, in A Igreja dos Tempos Bárbaros, lançou Carlos Magno as suas frotas; e, por terra, fez pesar uma ameaça sobre os seus estabelecimentos de origem, tentando aniquilar-lhes na Dinamarca e na Noruega as suas bases de partida. Mas não pode fazer mais. De modo que um seu cronista evoca uma viagem marítima do Imperador da Barba Florida que, vendo desfilar as velas dos viquingues (termo que também identifica os normandos) que se lhe afiguravam sinistras aves negras, começou repentino choro, com uma clara consciência dos perigos que representavam para o Ocidente Cristão.
E continua o mesmo autor:
Os normandos! A custo se poderá imaginar hoje quanto terror estas duas sílabas guturais da língua germânica espalharam por toda a Europa durante o século IX. Quando os postos de escuta e espia, nas embocaduras dos rios, assinalavam a chegada dos terríveis piratas do mar, logo o sino tocava a rebate; as cidades fechavam-se; as muralhas de defesa viam-se logo cheias de ansiosos defensores. E as herdades e mosteiros que não tinham possibilidades de combater viam desfilar longas vagas de infelizes que se destinavam mais provavelmente à chacina do que à salvação. Envolvidos pelo mistério com que os rodeava a opaca bruma donde surgiam; escoltados por uma merecida reputação de selvajaria, os homens do Norte apavoraram a Europa como símbolos vivos do castigo reclamado pelas suas faltas.
A tal ponto que as próprias litânias viriam a incluir um versículo para os exorcizar:
A furore normandorum, libera nos, Domine.
Numa primeira fase, os assaltos dos dinamarqueses voltaram-se para a Europa, não tendo havido cidade importante que não recebesse tão incómoda visita: nas embocaduras do Reno e do Escalda, Saintonge, de repente em Hamburgo e no dia seguinte na Gironda. São depois visitadas Lisboa e Sevilha, enquanto a Itália litúrgica esperava a sua vez. Em França, não se podem enumerar os seus pontos de ataque: Beauvais, Chartres (atacada em plena noite), Melum, Orleaes, Blois… A lista alonga-se todos os dias. Paris foi cercada quatro vezes, saqueada três, incendiada duas…
Aliás, estas incursões haveriarn de, à distância, determinar como que uma implantação legal dos viquingues em terras de França. No começo do século X, Carlos, o Simples, teve a ideia, aliás excelente, de se entender com eles, de os estabelecer em França, e foi assim que, em 911, o chefe viquingue, Rollon, se tornou duque, dando ao seu feudo o nome, que ainda persiste, de Normândia.
Na Europa, os raides terminaram com o advento do novo milénio. Os povos cristinanizaram-se nas suas terras de origem ou nas zonas para onde se haviam deslocado.
Aproveitando a sua enorme experiência como navegadores e as viagens feitas nos anos de aventura, os dinamarqueses mantiveram até quase aos nossos dias um império colonial localizado nas regiões semi-glaciares do Norte e cujos úlltimos elementos foram a Islândia e a Gronelândia, valiosas essencialmente como base piscatórias.
Há, assim, uma longa tradição na arte de marear. Nos túmuIos dos chefes encontraram-se barcos onde eles quiseram dormir o sono eterno: os seus dacares.
Nos museus da Dinamarca, podem-se ver esses longos barcos de vinte e cinco metros, sem ponte, cuja forma afilada, proporções perfeitas e ornamentações de popa e proa nos dão uma instinta impressão de obra-prima. Movidos a remo ou a vela, desenvolviam facilmente os seus dez nós e o calado permitia-lhes passar sobre todos os fundos. Quanto ao raio de acção, podemos avaliá-lo pelo raid reptição, montado experimentalmente em 1950 da Escandinávia a Nova Iorque, feitos comemorativamente em exemplar adrede construído.
E foi montado em número de cinquenta sobre cada um desses maravilhosos animais marinhos, sob o comando de chefes especiais, os Viquingues, cuja glória é celebrada nas estrofes das sagas que os dinamarqueses (e os demais homens do Norte, agora modelos de civilização) se lançaram na sua aventura.
Recordemos parte duma saga:
A tempestade ajuda os nossos remadores; O vento está ao nosso serviço e leva-nos onde queremos ir…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Os impérios marítimos: o caso espanhol

Como já anteriormente deixámos exarado, o Portugal atlântico, imperial, evengelizador, que toma nessa hora de quinhentos o lugar do povo-chefe, de povo guia, mesmo, do universalismo ocidental, nasce graças à vontade infléxivel do Infante Dom Henrique…

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaComo escreveu João Ameal, impulsionados por ele, não mais parámos no seguimento da sua obra. Lembremo-nos de que, se Dom Duarte quer em vão Tânger e Dom Afonso V acaba por subjugar aquela cidade depois de Alcácer-Céguer e Arzila, as conquistas marroquinas não fazem esquecer o empenho, central e primordial do avanço pelo litoral africano. Os marinheiros de Sagres prosseguem esse avanço sob o comando directo de Dom Henrique, até 1460, ano da sua morte. E não mais se detém. Com Dom João, o ritmo acelera-se e Bartolomeu Dias alcança a extremidade meridional do Continente. Pouco mais de uma década será necessária para que, sob Dom Manuel, Vasco da Gama aporte a Calecute e Pedro Álvares Cabral a Vera Cruz. No entretanto, e quando já tudo era previsível, obtivera o Principe Perfeito, ao fim das negociações porfiadas e habilidossíssimas de Tordesilhas, que o Papa sancionasse a partilha das terras conhe¬cidas e desconhecidas entre Portugal e a Espanha. E na nossa metade compreendem-se a África inteira, a Ásia e o Brasil.
Ludibriada pela enorme ciência dos nossos sábios, que conheciam bem mais as terras situadas na nossa metade, ao contrário dos seus marinheiros que julgavam ter chegado à India pelo Ocidente e da América só se haviam dado conta da parte mais reentrante, a Espanha acabaria por vingar-se depois de Alcácer-Quibir e com o colapso da Invencível Armada, lançaria no seu e nosso império, a cobiça de ingleses, holandeses e franceses.
De qualquer modo, a Espanha foi a segunda das grandes potências marítimas.
E, se Camões, podia, na dedicatória de «Os Lusíadas», saudar Dom Sebastião, dizendo:
Vós, poderoso rei, cujo alto império
O sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do hemisfério
E quando desce o deixa derradeiro…

Filipe II de Espanha poderia, depois de ser também o Filipe I de Portugal, considerar-se rei de um território, onde nunca o Sol se punha.
Ao descobrimento da América por Cristóvão Colombo em 1492 (agora estamos a transcrever de Francisco Ligório Morcela, in «Apontamentos de Geografia Política», seguiram-se no reinado de Carlos I, as conquistas de Fernando Cortez (México), Almagro (Bolívia e Perú), Mendoza (Argentina) e Pizarro (Chile, Colombia e Perú) que, destruindo os poderosos indígenas dos astecas e dos incas, constituiram um imenso império colonial que abrangia parte da Ámerica do Norte, praticamente toda a Central e mesmo a do SuI, exceptuando o Brasil.
Como recordação da viagem de Fernão de Magalhães (no feito, com verdade, português, mas não na lealdade), ocuparam ainda as Filipinas, na Insulíndia.
Detendo grande parte do norte de Àfrica, instalaram-se por igual num extenso rosário de ilhas atlânticas, das Canárias a Fernando Pó e Ano Bom, com ocupação efectiva, já na costa ocidental, do chamado território do Rio Muni, núcleo da Guiné Espanhola, integrante também daquelas duas ultímas ilhas.
Com pés de barro, como todos os Impérios terreais, foi-se destruíndo. A administração ruinosa da Metrópole e o exemplo da independência dos Estados Unidos vieram, com outros factores, desenvolver um poderoso movirnento de emancipação nas colónias espanholas da América, devido principalmente à acção de Bolívar e San Martin. As ambições políticas de expansão externa dos Estados Unidos (continua Ligóno Morcela, obra citada) levaram o seu govemo a declarar-se paladino da independência das nações americanas e a tentar impedir, por todos os meios, a hegemonia europeia naquele continente. E, quando, em 1823, as colónias espanholas se agitavam para sacudir o jogo da metrópole, Monroe, então presidente dos Estados Unidos, enviou uma célebre mensagem aos seus congressistas, na qual preconizava a doutrina de «a América para os americanos».
E, nos fins do século passado, os Estados Unidos intervieram para assegurar a emancipação de Cuba e conquistarem Porto Rico. Aliás a sua acção antiespanhola não se circunscreveu ao Continente Americano.
Acabaram também por anexar as Filipinas a que mais tarde dariam a independência.
Maldição ou simples sina histórica, Cuba, como mais tarde o Vietnam, de que correram os franceses, tornou-se para os norte-americanos uma tremenda preocupação e um caso que ainda não conseguiram liquidar.
Voltando ao exemplo espanhol, assistimos já na década de sessenta do século passado, à emancipação dos territórios do Rio Muni, Fernando Pó e Ano Bom, que deram a chamada República da Guiné Equatorial (12/10/1968) e a devolução do Ifni a Marrocos em princípios do ano subsequente (4/1/1969).
De modo que hoje praticamente lhe restam apenas as ilhas Canárias, as afortunadas, na nossa linguagem da primeira dinastia e por onde, em tempos de D. Afonso IV, se ensaiou a nossa vocação expansionista.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

A Europa para além de si própria

A Europa, têmo-lo repetido, vale como sinónirno de humanismo, cristandade, cavalaria (no mais nobre sentido do termo) e civilização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão admirará, em corolário, nem o ascendente que, desde os luminosos séculos da Hélada, vem mantendo sobre o resto do mundo, nem a missão de disseminador da cultura que se propôs.
O mais pesado fardo do homem branco, evocado nalguns cantos de epopeia, e que refere exactamente a obrigação que o europeu sempre sentiu de actuar como responsável pela promoção civilizacional dos aborígenes dos demais continentes, não representa efectivamente mero sentido de retórica e longe de constituir causa de recriminação ou motivo penitencial deve dar-nos inspiração para mais altos cometimentos em prol da humanização.
Para além das razões económicas com que muitas vezes se mascarou aquele propósito eminentemente digno, não deixando de condenar a exploração, os abusos e até os crimes de muitos colonizadores, a verdade é que, mesmo fora do campo estritamente religioso que normalmente foi o motor inicial (alargar a Santa Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer a ela toda as almas que se queiram salvar, diria o lnfante Dom Henrique em carta ao Papa, então reinante), há sobejos motivos de consolaçãoo ou até de cristão desvanecimento pela obra de promoção que a Europa levou a cabo nas demais partes do mundo.
A nós, portugueses, coube o papel de iniciadores, como recorda o poeta:
Nascido dos combates pela Cruz
Portugal veio ao mundo já cristão
O melhor baptismo é o da luz
Que Deus deixou nas margens do Jordão

Somente os ungidos por Jesus,
São Pedro, São Tiago, São João…
Ao «ide e ensinai» fizeram jus
E nós que somos povos de missão
Deus é que fez o mundo e redimiu-o
O génio português redescobriu-o
Em nova criação a Deus o dando…

Todos os nossos poetas, de resto, se deixaram tocar pela sublimidade do tema.
Camões:
Assim fomos abrindo aqueles mares
Que geração alguma não abriu…

Vimos buscar do Indo o grão corrente
Por onde a lei divina se acrescente.

Guerra Junqueiro:
Astros do céu, povos da terra, ondas do mar
Viram passar como uma águia ovante
Meu pendão quimérico nos ares
Retumbaram maus feitos de gigante
Pelo universo em feitos seculares…

Fernando Pessoa:
Ao imenso e possível oceano
Ensinam estas quinas que aqui vês:
O mar com fim será grego ou romano
O mar sem fim é português.

Corrêa de Oliveira:
Mare nostrum dos antigos
Foi latim a breve modo
O português deu à vela
Nosso mar era o mar todo…

Afonso Lopes Vieira:
O que era dantes o mar?
Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir…

Com os poetas eruditos, ombreiam os cantadores ao desafio:
Portugal, senhor da terra
E senhor do mar também
Só não é senhor do céu
Que é de Deus e mais ninguém.

Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi meu…
Proas de nau, nem eu sei
Como as não meti ao céu…

Enfim, todos repetiam com Camões:
… Entanto que cegos e sedentos
Andais do vosso sangue, ó gente insana
Não faltaram cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa lusitana.
Tem da África os marítimos assentos
É na Ásia mais que todas soberana,
Na quarta parte nova os campos ara
E, se mais mundos houvera, lá chegara…

Sobreveio Alcácer-Quibir e o nosso esforço iria ser aproveitado por outros.
Logo pelos espanhóis, já émulos connosco. E daí a trova:
Áfricas, Índias, Brasil,
Tudo no mundo foi nosso
Portugal dizendo à Espanha
Toma lá que que eu já não posso…

Consumara-se aquilo a que os historiadores chamam o século português, de algum modo o do Infante Dom Henrique, a quem, na lapidar expressão de Oliveira Martins, nós, portugueses, devemos uma segunda pátria, mas que transcendeu em muito os limites de uma pátria, pois deu igualmente outra pátria a todos os europeus…
A personalidade e a acção do Príncipe de Sagres exige, por isso, que o coloquemos ao alto e ao centro da História da Civilização do Ocidente e mesmo do Mundo.
E que a exigencia não se revela descabida, acentuam-no vários autores:
Beazlei que o situa entre os que modificaram, vital e realmente, o curso da História Mundial e sem cuja obra toda a nossa sociedade moderna, e a civilização de que nos orgulhamos, seria profundamente diferente.
Elaine Sanceau, que disse: «0 Infante realizou a maior transformação que o mundo vira ou viu até hoje»…
Gilbert Renaud: «Dom Henrique voltou uma página decisiva da História do Homem»…
Até porque foi o precursor e primeiro realizador da Europa Imperial para além dos mares.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Sacro Império Romano-Germânico

O prestígio de Roma atingiu culminâncias tais, quer no plano espiritual, quer no tocante às coisas do mundo, que a Igreja escolheu a cidade para sua sede e todos os imperadores que têm reinado sobre o velho continente se pretendem sucessores dos que brilharam em Roma.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaAté pelo título, já que César, como os reis de França se intitulam desde Carlos Magno, Kaizer, como os de raça germânica desde Otão, ou Czar, nome ostentado pelos de raíz eslava, não são mais do que transcrição literal ou corruptela do cognome de Caio Júlio. Aliás, seria este ao escrever o Bellum Gallicum, por nós mais comummente conhecido por De Bello Gallico (o nome completo será Commentarii de Bello Gallico) quem lançaria as bases para os futuros impérios centro-europeus.
Recordemos o intróito da famosíssima obra:
Gallia est omnis divisa in partes tres, quraum unam incolunt belgae, aliam aquitani, tertiam qui, ipsorum lingua, celtae, nostra, galli apeelantur. Hi omnes, lingua, instituti, legibus, inter se differunt. Gallos ab aquitani Garumna flumen, a Belgis Matrona, et Sequana dividit.
Horum omnium fortissimi sunt belgae, propterea quod a cultu atque humanitate provin-ciae longissime absunt, atque ea animos effeminat, important. Proximique sunt germanis, qui trans Rhenum incolunt, quibuscum continenter belIum gerant.

A tentativa de unir esta série de povos, alguns dos quais em luta incessante, como recorda a expressão «Quisbuscum continenter bellum gerant», muitas vezes ensaiado, tem, repetidamente também, falhado.
Carlos Magno foi mesmo o único que teve algum êxito neste pormenor, já que, depois do Imperador da Barba Florida, a França sempre se revelou insusceptível de fusão com a parte oriental do império carolíngio, que, de resto, não sobreviveu ao seu fundador.
Depois, de Otão aos nossos dias, com a sede em Viena, em Berlim ou qualquer outra cidade, sob hegemonia austríaca ou prussiana, centralizando à maneira bismarquiana toda a administração ou permitindo a coexistência de quatrocentas casas reinantes, todas elas, aparte um ou outro reino ou principiado de maior dimensão, bem pequenos feudos, os antigos galos, celtas ou francos eximiram-se à unificação, não relevando as tentativas de Napoleão (que seriam de sinal contrário), ou as de Guilherme II ou Hitler.
Principiados, condados, ducados, arquiducados, marcas ou marquesados (não esque-cendo que marquês ou pargrave era mesmo o governador militar duma província fronteiriça, a marca), baronias, bispados, até hansas de raíz corporativa, eis os ingredientes sobre que se exercia a autoridade imperial.
De resto, também o sentido expansionista ou concentracionista deste Império sofreu acentuados desvios.
A sua ideia-força resistiu no pangermanismo, mitigado é certo, pois nunca tentou atingir os britânicos, também germânicos, ou os escandinavos, que igualmente o são.
E, mesmo em relação propriamente ao chamado mundo alemão, houve, por igual opções várias. Quando, por volta de 1860, Bismark deu por terminada a unificação da Alemanha, excluíu deliberadamente os alemães que eram, ao tempo, súbditos dos Habsburgos.
E o próprio Hitler, mau grado o furor extremo do seu pangermanismo, deixava de fora a população alemã do Norte de Itália, possivelmente como concessão a Mussolini, seu futuro aliado (futuro, porque esta ideia consta do Mein Kampf, escrito, como se sabe, antes da tomada do poder).
Outros pretendiam que o Império avançasse para Leste, o que significaria a retomada do antigo ódio aos eslavos, que esteve na base da fundação na Áustria, da Ostmark e conduziu os cavaleiros teutónicos até ao Báltico e para além dele.
Era esta a tese dos militaristas prussianos, como se extrai dum exeerto de Ludendorf:
Kovno (nome da capital da Lituânia) ostenta ainda um castelo construído pelos Cavaleiros Teutónicos, um símbolo da civilização alemã no Leste Europeu… Ao contemplá-lo, o meu espírito ficou inundado de poderosas recordações históricas e mentalmente decidi retomar nesses territórios a obra civilizadora que os nossos antepassados ali levaram a cabo, durante séculos. A população, estranha mistura de raças, bem precisará da nossa ajuda, sem a qual cairá sob qualquer dominação, sem dignidade ou elevação…
Para estimular os desejos de conquista, faz-se renascer o tema por um novo Tchinggis Knan – o que nós conhecemos sob o nome de Gengiscão e que no século XIII semeou a ruína desde o Vietname ao Adriático e ao Iemen…
Abastardava-se, assim, uma ideia cheia de significado e heroicidade na sua origem.
O Sacro-Império, como os que o precederam e se lhes seguiram detiveram efectivamente a missão de enfrentar o perigo asiático.
Mas não se limitavam à acção militar.
Civilizavam e cristianizavam, transformando o inimigo de ontem, depois de convertido, em indefectível aliado.
Foi o caso, entre outros, dos húngaros, povo cristão só a partir do século XI, mas que segundo o historiador Sayons, bem pode ser comparado a defensor intemerato da sua nova crença contra os seus irmãos de outrora. Povo ultra-altaico, estranho à origem ari-ana, conquistador imposto à Europa como novo flagêlo de Deus, voltou-se pelas conversões do Rei Geda e seus principais nobres, e, sobretudo pela acção de reis como Santo Estêvão e Ladislau I, contra as imensas aglornerações de tribos altaicas lançadas à conquista dos países eslavos, germânicos e até latinos.
Amálgama de feudos, o Império revelou-se também cadinho de raças…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

O Império Romano do Oriente

A terceira guerra púnica, arrastando as legiões para o oriente, aonde se havia refugiado Aníba1 e a perseguição que teve de ser feita a este e aos seus aliados acabou por deslocar o eixo do Império, cada vez a tender mais para a orientalização.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaRoma, capital unida e incontestada, começou a ter de dividir com outras cidades a sua eminente dignidade de cabeça do mundo antigo.
A tetrarquia, com os dois césares e os dois augustos, cada um dos quatro instalados em diferente parcela do Império.
E, mesmo antes, quando Roma atinge o auge territorial, que coincide com a época de Trajano, a orientalização ensaiava-se já.
Como todas as coisas deste mundo, com vantagens e desvantagens. Daquelas, a mais importante consistiu certamente na sobrevivência da Império Romano do Oriente, por cerca de mil anos, à deposição de Augustulo.
A sua capital, a Bizâncio pré-romana, nome aliás mantido até Constantino que a crismou com o seu nome, a Istambul, segundo o recrisma dos turcos seljucidas, até pareceria criada para fazer a união entre dois mundos, que, todavia, até hoje ninguém conseguiu fundir ou manter aparentemente unidos a não ser por períodos curtos e com a hegemonia, em regra tirânica, de um deles.
O desatino começou logo com o cerco de Tróia querepresenta mais do que lendária antecâmara das más relações entre os povos de aquém e além do Bósforo, em todo o devir histórico.
Aos aedos que construiram ou carrearam o material para a Ilíada e a Odisseia, a Virgílio que na Eneida nos faz remontar ao mais fragoroso do cerco ilíaco, podemos já juntar trechos históricos ou quase históricos, como o «De rebus gestis Alexandri Magni», de Quinto Cúrcio Rufo; a «Retirada dos dez mil», de Xenofonte; os trabalhos de Tucidides…
As guerras médicas, sob outro nome, e tendo como contendores outros povos, ou mais precisamente os actuais representantes (melhor os que em cada época ostentam tal qualidade) vêm-se revelando uma constante.
A Europa, minúsculo apêndice superpovoado das imensidades asiáticas tem, salvo em períodos especiais, conseguido triunfar.
Muitas vezes, pelo engenho ou pela astúcia.
Desde, aliás, o Cavalo de Tróia, de cujo bojo saíram os incendiários para a noite terrível:
Quis cladem illius noctis, quis funera fando Esplicet aut possite lacrimis aequare laboris?…. Crudelis ubique.
Luctus, ubique pavor et plurima mortis imago.

Assim relata Eneias, tebano salvo por sua mãe Vénus (pois era apenas semi-deus, porque filho de homem, Anquises) o que foi a noite de Tróia, quando o enorme paláicio de Deifobos se transformara em ainda mais enorme braseal.
Simbólico, o cavalo prenuncia novos e bem mais vastos incêndios.
A tomada de ConstantinopIa, pelos janizaros de Maomet II, quando em 1453 acaba o Império Romano do Oriente.
A História tinha sinistras falhas,
Uma das quais se chama Kerkaporta…
Grasnam corvos, recrocitam gralhas
Bizâncio é já cidade morta…

União contra-natura de tantos e tão desencorados povos, em qualquer das suas versões, continha em si mesmo o fermento para todas as guerras e todos os ataques vindos do exterior.
Para cristãos e mouros, cada comunidade em socorro dos seus membros sujeitos a poder religiosamente oposto, dava incentivos de guerra santa.
Camões revelou-se arauto de uma intervenção:
Gregos, traces, arménios, georgianos,
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceitos do Alcorão, duro tributo…

Com fronteiras que para o lado europeu chegavam a pôr em perigo a cidade de Viena (e daí o marquesado dos Habsburgos) e do lado asiático dominavam até aos plainos iranianos, ocupando ainda a maior parte da África rnediterrânea, só um governo tirani-zante lhe podia assegurar paz, de resto sempre efémera e a estilhaçar-se aos primeiros sinais de fraqueza.
O papel de Serajevo na Primeira Grande Guerra, os sangrentos conflitos jugoslavos no pré e post-titismo, os conflitos israelo-árabes e iracoiranianos, as questões dos curdos, dos arménios e até dos chechenos, bem podem fazer-se radicar na heterogeneidade de um império que contranatura se manteve por cerca de mil anos e de um outro, ainda mais anti-natural, o otomano, que durou quatro séculos…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Uma vocação: a construção de impérios

Na Europa, o signo imperial nasceu sob a égide dos filhos da Loba. Recordemos a origem, mantendo a narração latina.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaProca, rex albanorum duos filios, Numitorem et Amulium, habuit. Numitori regnum legavit, sede Amulius pulso fratre, regnivit. Deinde, cum eumsobole privare cuperet. Rheam Silviam, eius filium, Vestae sacerdotem fecit Haec tamen Romulum er Remum uno partu edidit. Tune Amulius ipsa in vinculo, conjecit, parvulos alveo imposuit et abjecit in Tiberim que forte tunc exundaverat. Sed, relabente flumine, eos aqua in sicco reliquit. Vastae tunc in iis locis solitudines erant. Tradunt lupam ad vagitum infantiam acurrisset: EOS LINGUA LAMBISSE, MATRISQUE MINISTERIUM SUSCEPISSE.
É afinal, a velha história.
Amulei destronou o irmão e cativou-lhe a filha. Todavia, esta, mesmo virgem de Vesta, concebeu de Marte e assim nasceram Rómulo e Remo.
Deitados à àgua do Tibre, sobreviveram; e uma loba, atraída pelos vagidos, perfilhou-os, tomou o mester de mãe…
Crescidos, fundaram a cidade. Rómulo traçou-lhe os limites. Remo saltou-os, dizendo: assim entrarão os inimigos em Roma.
Rómulo, lembrado possivelmcnte do exemplo do tio-avô, já que não deveria conhecer a história de Caim e Abel, liquidou-o, dizendo: assim morrerão os inimigos da cidade.
Não há mulheres, mas o rapto das sabinas findará a quarentena.
Houve necessariamente luta e os sabinos estão quase a veneer. Rómulo eleva a sua arma aos céus e promete um templo a Jupiter, que permanece impassível.
Mas as sabinas lançam-se entre os combatentes e fazem as pazes.
Raptae mulieres, crinibus passis, ausae sunt se inter tela volantia inferre: et, hinc fratres, inde viros deprecate, pacem conciliarunt…
A população crescia, o território tornava-se exíguo.
A pequena cidade tinha de lutar pela sobrevivência, começando obviamente pelos vizinhos.
Nebulosamente, passam os reis lendários: além de Rómulo, Numa Pompílio, Túlio Hostílio, Anco Márcio, Sérvio Túlio: os dois Tarquínios, já históricos. Anno trecentesimo trigesimo quinto ab urbe condita, Veientes contra romanos rebellaverunt. Dictator contra ipsos missus est Furius Camilus…
Como este, muitos outros heróis celebra a história, ainda nimbada de lenda: Coriolano, Cincinato, os trigemini Horácios, Cevola, Menénio Agripa, o diplomata, inventor e narrador da fábula dos membros revolados contra o estômago:
Olim, humana membra, cum ventrem otiosim viderent, ab eo discordarunt et conjuratio-nem adversus eum fecerant…
Os séculos rodam e uma potência concorrente emerge do outro lado do Mediterraâneo. Seguem-se as guerras púnicas. Caio Duilio obtém a primeira vitória naval; mas Aníbal estava já para surgir com o seu eterno ódio aos romanos, jurado na infância com as mãos em cadáver esventrado. Conquistador de Sagunto, vencedor em Canas e no Transimeno, acabaria vencido em Zama pela pertinácia de Cipião Emiliano e do delenda est Cartago.
As Espanhas e o Norte de África caíam assim sob o jugo romano que a terceira guerra púnica estenderia para Oriente.
Mais tarde vêm César e Augusto e com eles o Império continua a crescer.
Anno Urbis conditae sescentesimo nonagesimo tertio, o primeiro que mais tarde será imperador, é eleito cônsul com Lúcio Bibulo. Destacado para a Gália e a Ilíria com dez legiões, vence os helvécios que ao tempo se chamavam sequanos, conquista as três Gálias, avança para além do canal… Domuit omenm Galliam, que inter Alpes, flumen Rhodanum. Rhenum et OceanDum est et circuit, patet ab his et tricies centena milia passuum. Britannis mox bellum intuit…
Com o seu sucessor Augusto, as conquistas continuam, anexando-se o Egipto, a Can-tábria, a Dalmácia, a que outros juntarão a Judeia, a Arménia e os planaltos do Irão.
A excessiva grandeza do império e sobretudo a helenização de Roma no pior sentido do termo, cultivavam já o gérmen da decadência. Gracia victa ferum victorem coepit…
A cultura grega, que se impôs em Roma pela sua superioridade, trouxe também a degradação moral.
Juvenal, nas suas sátiras, atribui a esta grecização da cidade e do Império a raiz de todos os males.
Antes do furacão dos bárbaros são estes ventos, ou antes estas brisas de supercivi-1ização, de aspecto negativo que prepararão o aviltamento.
Eram os erotomanos que impunham à sociedade romana a sua decadência. Daí a interrogação de Umbritius:
Que faz em Roma quem como eu não sabe mentir nem efeminar-se? Eu que não posso suportar uma Roma grecizada?
Não há nada, para eles, estes celerados gregos, que esteja ao abrigo da sua lubricidade, nem mães de família, nem filhas virgens, nem o filho imberbe, à falta de melhor, a sua lubricidade satisfazer-se-ia com a avó do seu melhar amigo, ou com o avô…
Após sucessivas arremetidas, os bárbaros que começaram como servidores, passaram a aliados, depois até a condutores, acabaram por submergir todo o Ocidente do Império.
Foi quando Odoacro, chefe dos hérulos, depôs Augustulo, até no diminutivo do nome apenas arremedo da imperial autoridade.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

As pequenas nações europeias

Não nos ocupámos, como poderia supor-se dos estados minúsculos, que também os há, na enorme panóplia deste Velho Continente, repartido até demais atenta a sua escassa superfície, comparada, por exemplo, com a do colosso asiático, seu vizinho.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNão é de Andorra (com apenas 465 quilómetros quadrados), do Mónaco (só com dois), de São Marinho (com sessenta e um), do Vaticano (com quatro), de Vaduz (cento e cinquenta) ou do Luxemburgo (o maior entre os mais pequenos, com dois mil e seiscentos) que, efectivamente, falámos, mas das numerosas nações europeias saídas em regra do retalhamento de impérios e que apareceram, salvo uma ou outra excepção, na cena política, só no século passado ou mesmo neste, inclusive nos dias de agora.
O desmembramento dos impérios austro-húngaro e otomano, os restos até dos impérios nórdicos, ou os ajustamentos de fronteiras, geraram novos estados que cabem quase todos no conceito de pequenos.
Na Europa, a regra tem sido a cissiparização.
O único caso em que se verificou, ao invés uma fusão, é representado pela Itália que praticamente absorveu toda a Península, uma vez que a Vaticano e São Marinho, como já referimos, não tem expressão territorial.
De resto, é de crer que aos países saídos da divisão da Checoslováquia e da fragmentação da Jugoslávia, ocorridos nos nossos dias, juntaram-se muitos outros, gerados pelo inevitável estilhaçar da URSS, autêntica manta de nacionaIidades, cerzida bem contra a mãe natureza.
Fazendo um pouco de rememoração histórica e de peregrinação geográfica, seguindo, neste particular, o sol, no seu movimento diurno aparente, encontraremos a Grécia, a Bulgária, a Roménia, e a Albânia, saídas, no século passado, da decomposição da Sublime Porta, fenómeno de causas intrínsecas e potenciado do exterior, como o atesta, por exemplo, a campanha de Lord Byron.
Aliás, tratava-se de nações com forte individualidade histórico-étnica. A Grécia, por uma cultura única no mundo. A Roménia, como até o nome recorda, pelo grau de latinização a que ascendera no mundo antigo. A Bulgária, por ter chegado a ser émula de Bizâncio. A Albânia, com largas tradições no embate contra o turco, como quando, em 1451, a dois anos da fatídica queda de Constantinopla, o seu chefe Seanzer-Berg vence o sultão Amurade.
Para o norte, Finlândia e Noruega, os balto-russos estónios, letões e lituanos, a Dinamarca e a Islândia, excepção feita à penúltima, que já teve ambicões imperiais, são de data recente e de intermitentes independências.
Para Ocidente, Bélgica e Holanda ora unidas, ora separadas, ora independentes, ora subjugadas por vizinho poderoso, vêm cumprindo a sua litânia.
Portugal com quase nove séculos de independência é caso raro, senão único, sendo nas suas fronteiras, o estado mais fixo e antigo de todo o Continente, ou mesmo de todo o mundo. Tal como a Suíça, por força dos Alpes.
Na Europa marítima, deparamos no Atlântico, com dois estados integráveis no grupo:
Islânlia e Irlanda. E, no Mediterrâneo, com outros dois: Malta e Chipre, também saídos, como outros já atrás referidos, do turbilhão otomano.
No centro, há a Áustria e a Hungria, os checos e os eslovacos, a Sérvia, a Croácia, a Eslovénia, a Bósnia-Herzegovina, o Montenegro.
Por que sumúla de razões estes povos geraram países que resistem e subsistem?
João Amaral, versando particulannente o caso húngaro, deixou exarado:
«Independentemente dos inegáveis dons que um observador honesto tem o dever de atribuir a certos grandes povos, é claro que o simples facto de serem grandes – o representarem importantes massas populacionais – lhes assegura, só de per si, meios consideráveis de expansão, de poder, até de predomínio. Aos povos mais pequenos, de massa populacional reduzida cumpre tomarem-se grandes pela energia íntima, pela consciência de missão, pela vontade de resistência a quaisquer golpes de fortuna, de riscar um caminho através das provações e dos obstáculos…»
Volto, portanto à imagem de que são povos de qualidade.
Por seu turno, Milan Kundera, ele próprio filho duma pequena nação, pois é checo, escreveu:
«As pequenas nações. Não se trata de um conceito quantitativo. Designa uma situação, um destino. As pequenas nações não conhecem a sensação feliz de existirem desde sempre e para sempre. Todas elas passaram, num momento ou outra da sua história, pela antecâmara da morte. Sempre confrontadas com a arrogância ignorante dos grandes, vêem a sua existência perpetuamente ameaçada ou posta em questão; porque a sua existência é questão.»
Na sua maioria, as pequenas nações europeias emanciparam-se e alcançaram a independência ao longo dos séculos dezanove e vinte.
O seu ritmo de expansão é portanto específico… formando uma outra Europa que pode ser definida em contraponto por referência às grandes… Uma pequena nação pode chamar-se uma grande famí1ia e gosta de se apresentar como tal… Na língua do mais pequeno dos povos europeus, em islandês, família quer dizer obrigação múltipla e os 1aços familiares fios de múltiplas obrigações.
A noção de solidariedade revela-se, em corolário, muito mais actuante e viva nos pequenos estados, mesmo até para as grandes cruzadas.
E daí que o avanço turco sobre a Europa, depois da queda de Constantinopola tenha sido travado por pequenos povos: os hungaros, e albaneses, na frente europeia; nós, portugueses pelas navegações.
Retornamos a João Amaral:
«Assim enquanto magiares e albaneses enfrentam com memorável heroicidade o choque terrestre das hordas islâmicas e barram o caminho à invasão bárbara, nós concebemos e executamos o vasto plano marítimo que permitirá ferir o adversário no seu centro vital e reduzi-lo, por fim à impotência.»
A onda que avassalara impérios desfez-se face ao muro erguido por pequenas comunidades nacionais…
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Outro país mártir: a Finlândia

A vizinhança dum estado poderoso constitui históricamente um factor de risco, agra-vado enormemente se ao poderio se juntam ambicões expansionislas.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaA hegemonia sofre-se sempre; e, mesmo quando se fazem solenes e bem intencionadas declaracões de não intervenção, há o domínio económico, a exploração da matéria-prima, a atracção sobre a mão-de-obra mais qualificada e a tendência para a colocação dos excedentes de menor qualidade.
Pode enjeitar-se ou repudiar-se o absorcionismo politico-administrativo mas não deixarão de sobrevir as formas larvadas ou até invisíveis de dominação.
O que normalmente salva os pequenos países, rodeados de grandes potências. ou confinando com elas, são os jogos de equilíbrio de poderes entre aquelas.
Nós, portugueses, tanto como ao nosso temperamento, na verdade indomável, devemos a sobrevivência como nação independente, já lá vão quase nove séculos, ao receio de a Inglaterra, potência marítima, se ver desprovida de bases de apoio no Continente, e de a França, inimiga desde a divisão do império de Carlos Magno da parte germânica daquele colosso, temer o peso da Ibéria, se unificada, na balança dos Áustrias.
Mas, quando em vez dum vizinho poderoso, a história encurrala qualquer povo entre várias potências, o mais natural é que passe obrigatóriamente a ser parte do momentaneamente mais forte ou entao seja esquarecjada a benefício de todos.
As sucessivas partilhas da Polónia, os colapsos da Boémia, da Morávia, da Eslováquia, da Sérvia, do Montenegro, da Croácia, da Bósnia, a incerta sorte da Catalunha, do Milanado, da Alsácia-Lorena, em dados períodos históricos, não apresentam outra génese.
A Finlândia, situada entre a Rússia e a Suécia, vem intercalando as fases de independência com as de parcelas daqueles impérios.
A partir da guerra dos trinta anos, ou mais concretamente da sua fase nórdica, passou a Rússia a ser praticamente a única responsável pelos infortúnios do país das renas.
Da Finlândia preparou Lenine a Revolução, o que não o impediu de utilizar o País como moeda de troea na paz de Brest-Litowsque.
Como se sabe, ao dealbar da insurreição, vivia ele no exílio suiço.
Kroupskaia, a sua companheira, relata assim o que aconteeeu nesse dia 3/16 de Março (a dupla datação põe em confronto o calendario russo com o gregoriano) de 1917:
«Depois do almoço, no momento em que Ilicht (Lenine chamava-se Vladilir Ilicht Oulianov) se preparava para ir para a biblioteca, enquanto que eu acabava de arrumar a louça, Bronksi apareceu sobressaltado:
– Vocês não sabem nada? A revolução está em marcha na Rússia.»
Atabalhoadamente deu-lhes conta dos telegramas que acabavam de chegar em edição especial. Quando Bronksi se calou, foram à Praça ver os textos afixados.
Impõe-se a partida. Mas só os alemães lhe podem permitir o regresso à Rússia. Pois bem, pactuará com o verdadeiro inimigo, na circunstância, da sua Pátria.
Através dos socialistas alemães, é posto em contacto com o quartel-general do Kaiser, onde tudo se prepara com vista ao imediato regresso de Lenine e o seu corpo de agita-dores para a decomposição do espírito de resistência.
Pela Alemanha, depois pela Suécia, os proscritos na Helvécia chegam à Finlândia.
Dali e depois duma breve incursão a São Petersburgo é que dirige o ataque final.
Para além do mais, vai atacar o problema dos alígenos – polacos, estónios, letões e lituanos – que querem ver-se independentes; dos ucranianos, que exigem reformas, e até dos arménios que, apesar de viverem ainda aterrorizados pelo medo dos turcos, de que pouco antes haviam saído, não esquecem que são uma nação.
Mas a Finlândia é que seria a verdadeira moeda de troca.
Ali ficaria até à I Revolução de Outubro, até à conquista do poder.
Ouçamos o testemunho de Estaline:
«Então fomos acusados de espiões a saldo da Alemanha Imperialista.
As autoridades requereram a presença de Lenine e Zinoviev para serem julgados. Alguns, entre os quais Kanenev. aconselharam a obediência. Mas eu que conhecia o estado de espírito da reacção e sabia, por isso, os perigos que corriam os dois responsaveis bolchevistas se se apresentassem, convenci-os do contrário.
Fui eu quem tratou do disfarce de Lenine, colando-lhe a barba e o bigode e fazendo-lhe um penteado que o tornava irreconhecivel. Depois, ajudado por Sergio Aliliev, em casa de quem a cena se passou, acompanhei Lenine, através de ruas pouco frequentadas, até à gare marítima. O nosso dirigente, dali a pouco estava na Finlândia, onde ficou até à Revolução de Outubro, donde nos enviava conselhos, instruções e textos teóricos que nos projectaram para a vitória.»
Depois, apesar da grande indignação da França e da Inglaterra, assina separadamente a paz com a Alemanha, sua protectora como já vimos e que lhe forneceu os meios financeiros para manter a agitação.
O tratado foi assinado em Brest-Litovsk, em cinco de Março de 1918 e as condções impostas pelos alemães ao governo dos sovietes, as mais humilhantes e draconianas da história russa: instalação de forças de polícia alemã nos Países Bálticos, submissão da Polónia russa aos alemães, cessão de territórios à Turquia então aliada da Alemanha, um enorme tributo de guerra, evacuação da Ucrânia e da Finlândia.
Enfim, mais uma vez a Finlândia era usada ao sabor dos interesses das potências vizinhas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire

Um país mártir: a Polónia

Periodicamente surge ali uma esperança de independência quase sempre afogada em tragédia. Recordemos uma das mais tristes.

Manuel Leal Freire - Capeia ArraianaNaquele ano de 1830, a Polónia parece forte: exércitos bem treinados, finanças robustas, agricultura próspera.
A opinião pública europeia aprova as ambições de independencia e a coragem dos polacos roçava já pela lenda.
Infelizmente, falta-lhes um lider. O general Klopicki e o seu colaborador Krukowiecsi, que mais tarde o substitui, são antigos oficiais de Napoleão, esgotados pelas arrasantes campanhas do grande corso.
E, em 1831, enquanto que a Bélgica, definitivamente libertada passa, com o apoio da Inglaterra e da França, a reino independente, a Polónia é esmagada pela Rússia, após uma resistencia épica.
Em sete de Setembro, os exércitos do Czar apoderam-se de Varsóvia.
C’est la curée, la nouvelle (et non derniére) curée sur l’infortuné pays qui ne sait ni trembler ni ceder.
Mantemos no original a narrativa dum especialista.
E mais uma vez, a Polónia será submetida a uma repressão terrivelmente bárbara e os soldados russos vont déchirer à belles dents le pays vaincu, comme un quartier de chevreuil, sous les yeus indiferents de l’Europe. Et tandis qu’ils brulent des maisons, qu’ils fusillent des otages, le maréchel francais Sebastiani, a ce mot tristement célebre que resume la cruauté des temps: L’ordre regne à Varsovie (Mais urna vez utilizámos em directo a linguagem de Michel de Saint Pierre).
Depois em 1867, Alexandre II, ao tempo Czar de todas as Rússias, visitava a corte francesa, convidado por Napoleão III.
A visita suscitaria reparos nas bancadas do parlamento gaulês, indignado (e diga-se que com razão) já pela quarta partiIha da Polónia, decretada pelo Congresso de Viena, já pela opressão que se lhe seguiu.
Em consequência, o deputado Mr. Charles Fauquet, futuro presidente da Câmara e, mais tarde, do Conselho de Ministros, saudou, com estas palavras de reprimento, o visitante:
– Majestade, viva a Polónia!
Periodicamente, esquartejada pelo vizinho, de Leste, Sul e Oeste, aquele país é, por certo, o que, não só na Europa, mas por todo o Mundo, tem suscitado maior número de frases históricas. Quem se não lembra, por exemplo, da frase dirigida por Frederico II, da Prussia, à grande Catarina, da Russia:
– Quando Augusto bebe (referia-se a Frederico Augusto), toda a Polónia se embebeda.
Ou do finis Poloniae, dedicado ao herói nacional, Thadée Kosciusko, dado como morto em batalha, em 10 de Outubro de 1704; de «a ordem reina em Varsóia», pronunciada no Palais-Bourbon, a 16 de Setembro de 1913, pelo Marechal Sebastiani, ministro dos Negócios Estrangeiros; ou o Polónia Restituta, nome dado pelo Marechal Pilsudski, na véspera da ressurreição do estado mártir, em 1919, segundo as cláusulas do tratado de Versalhes.
Já neste século a Polónia de Casimiro, de Segismtndo, de Sobieski, de Estarislau Leszczynski, de Pilsudski, de Paderewski, sofreu o jugo dos soviéticos, mais duro do que o de todos os czáres e antigos dominadores, russos, alemães, austríacos ou suecos.
Mas não é menos verdade que a histórica resistência dos polacos a todos os tiranos se mantém indefectível.
Nos últimas décadas, apesar de a Igreja não ser deste Mundo, a eleição de Joao PauIo II e a sua peregrinação à terra patrum fortificaram ainda mais aquela fé que derruba montanhas. Tal como a nomeação, para Cardeal-Arcebispo de Paris, de um polaco de ascendencia judaica, Monsenhor Lustiger, filho de um mártir de Auschwitz.
Nao foi a Igreja que suscitou o aparecimento do Solidariedade e de Lech Walesa. Mas sem a sua benção silenciosa e longínqua, Varsóvia teria então sofrido golpes tão rudes como os de Praga e Budapeste.
A prudência russa teve as suas razões. A heresia polaca, relativamente à filosofia económica e social do bloco comunista, só foi tolerada porque os senhores do Kremlin temeram uma reacção espiritual que podia alastrar de Berlim às fronteiras do Cambodja.
Não é necessário recordar o massacre de Katin, a exterminação do ghetto de Varsóvia, ou a inssurreição popular de 1944, para se saber que o povo polaco é indomável: que prefere a miséria ou a morte à escravidão e que nada inveja da ocidental sociedade de consumo.
Os polacos sabiam que o Ocidente de então se assemelhava aos persas vencidos pelos gregos, aos gregos vencidos por Roma, ao desaparecimento do Império Romano do Ocidente, e, mil anos depois, ao de Bizâncio; ao da França em 1789, ou da Rússia, em 1917.
Aqui como na Roma de Juvenal, a única preocupação de governantes e governados eram panem et circenses.
Na Po1ónia havia outro espírito.
Em consequência dele e só por ele, foi o primeiro dos países de leste a libertar-se da tutela russa e das imposições do marxismo.
A fé católica e a influência do maior papa dos últimos séculos assumiram-se como elemcntos determinados, cadinhando a coragem de um povo ciclicamente submetido às mais duras provas.
«Politique d’ Abbord – Reflexões de um Politólogo», opinião de Manuel Leal Freire