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Festa da Europa 2011 no Sabugal

Não irei fazer grandes comentários sobre a Festa da Europa, que decorreu nos dias 28, 29, 30 e 31 de Julho, no Sabugal.

(Clique nas imagens para ampliar.)

João Aristides DuarteRefiro, apenas, que me pareceu interessante que para além dos espectáculos musicais, realizados à noite, tenha havido animação de rua com insufláveis, carrinhos e touro mecânico, o que faz com que mais gente participe na Festa. Também me pareceu interessante a Exposição sobre os trajes da Europa e do Mundo, patente junto ao Palácio da Justiça, para além da participação, já habitual, dos artesãos do concelho.
Enfim, este ano havia mais gente, o tempo ajudou e penso que tudo correu bem.
Em termos de espectáculos também foi muito bom…
Os Diabo na Cruz deram um bom espectáculo, os Quadrilha dera o melhor espectáculo que já tive oportunidade de presenciar (e já os vi ao vivo algumas 10 vezes). Os Anaquim foram fantásticos e A Caruma superou as minhas expectativas. Só é pena que haja gente que abandone o recinto, mal comecem os espectáculos, apenas por não conhecerem… Se fosse o Tony ficavam até ao fim… Mas aquela mania de as pessoas não se quererem aproximar do palco é que nunca mais tem fim… Devo dizer que eu estive, todas as noites, na primeira linha, bem junto ao palco.
Transcrevo aqui um comentário retirado do facebook, com o qual estou de acordo, de um fã de A Caruma que fez uma viagem de uma hora e meia para vir ver a banda ao Sabugal:
«Muito bom concerto no Sabugal. Pena que o público tenha desistido ainda o concerto não ia a meio, o que para mim indica uma falta de gosto pela qualidade musical e uma falta de respeito pelos artistas em palco. Mas pronto, bom concerto na mesma, valeu a pena a viagem de 1h30m que fiz para vos ir ver e ouvir os vossos grandes temas. – Tiago Leal»
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Um concerto verdadeiramente exótico

Embora esta crónica não esteja relacionada, directamente, com o concelho de Sabugal, não poderia deixar de a transmitir aos leitores do blog, uma vez que se trata de um facto verdadeiramente digno de nota.

Brigada Vítor Jara

João Aristides DuarteTrata-se de um concerto da Brigada Victor Jara, a que assisti, na Festa do Avante. Estávamos a 9 de Setembro de 1983.
Lá fui eu, o meu irmão e o Mestre Fernando Fernandes (aquele que produz obras de arte em ferro) à Festa do Avante. Na época a festa tinha lugar no Alto da Ajuda, em Lisboa.
Começámos por ver/ouvir a Judy Collins, os checos Olympik e, num palco pequenino, uns holandeses a tocarem e cantarem a «Grândola». Depois ainda vimos os «Cossacos de Kuban», um grupo da URSS que cantou o «Vira», em português.
Vimos a Brigada Victor Jara num palco pequeno e, mais tarde fomos para um dos palcos grandes, que ficava de costas para a Torre de Belém.
Nesse palco começaram por actuar os Roquivários («Cristina, não vais levar a mal, mas beleza é fundamental») e, talvez por erro da organização, seguiu-se a Brigada Victor Jara.
Não digo nada… Aquele público era constituído quase exclusivamente por alucinados… Tudo malta nova, só freaks, punks e assim … Muitos, muitos, uma multidão enorme… Tudo sentado… O local onde o público presenciava os concertos era tipo anfiteatro. Encontrei lá um rapaz que andou a estudar comigo no Sabugal, de Vale da Senhora da Póvoa (Penamacor), todo alucinado, também. Lembro-me de um outro com um capacete branco da Polícia Militar e muitos outros assim com esse estilo. Tudo a queimar muitos fumos, um ambiente altamente explosivo. Antes, ainda passámos perto dos bastidores e o Mestre Fernando conhecia o baterista da Go Graal Blues Band que era o Márito de Vale de Espinho e tinha tocado, antes, nos Spartak’s, o mais famoso conjunto dos anos 70, da Guarda. O Márito convidou o Mestre Fernando e quem o acompanhava a aparecer nos bastidores, onde havia comida à disposição.
Acabámos por não aparecer nos bastidores.
A seguir aos Roquivários a organização resolveu meter a Brigada Victor Jara, no palco. Aquele público queria era Rock. Estava tudo, mesmo, à espera da Go Graal Blues Band, com o Paulo Gonzo a cantar.
Começaram a atirar pedras à Brigada e, passadas duas músicas, a banda pára. Um dos músicos da Brigada Victor Jara vai ao microfone, manda umas bocas («a Festa do Avante não se faz com pedrinhas, isto dá muito trabalho») e a maioria do público continuava na mesma: ruidoso e a não ligar à música da Brigada Victor Jara.
Até que aparece alguém da organização no palco, que vai ao microfone e anuncia «Ou páram de ter esse comportamento, ou cancelamos o concerto da Go Graal Blues Band!!» A coisa lá acalmou e a Brigada conseguiu terminar o concerto. O concerto da Go Graal foi mesmo a loucura. O público presente estava nas suas «sete quintas». Mas, não há dúvida, que colocar a Brigada ali foi mesmo um erro de «casting».
Bastante exótico…
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Os Ministros

A foto que acompanha esta crónica refere-se à banda OS MINISTROS, que foi criada no Soito, após o «boom» do Rock português iniciado com o álbum «Ar de Rock» de Rui Veloso.

Os Ministros

João Aristides DuarteUm festival com o nome «Só Rock» teve lugar em Coimbra, organizado pela Rádio Comercial e pela empresa de som Furacão, com o apoio da Câmara Municipal da Lusa Atenas, teve lugar no ano de 1981, com a participação das mais variadas bandas, oriundas de todo o país.
OS MINISTROS formaram-se no Soito, de propósito para concorrer a esse Festival. Foram uma das primeiras bandas a inscreverem-se no Festival, que foi ganho pela banda Alarme, da Nazaré. Participaram no Festival nomes como Manifesto, Opinião Pública, Xutos & Pontapés, Brigada do Reumático, etc., etc.
OS MINISTROS não chegaram a participar no Festival, embora tenham surgido em várias publicações ligadas à música, como o saudoso semanário «Se7e», onde foram referidos como um dos grupos com o nome mais original.
Na foto podemos ver Fernando Monteiro, no baixo, Luís Duarte, na guitarra e Fernando Freire, na bateria. Nenhum destes elementos sabia, sequer, tocar. Mas que interessava, se se tratava de uma banda punk?
A banda sofreu alterações na sua formação e Fernando Pereira entrou como guitarrista, tendo Luís Duarte passado a ocupar-se das funções de vocalista principal.
A banda ensaiava no local onde hoje é a sede da Associação Cultural e Desportiva do Soito.
Do seu reportório faziam parte temas como «Música», «Rei da Noite», «Vamos Todos», «Madrugada» e outros, que chegaram a ser ensaiados durante algum tempo.
À última da hora, a banda decidiu não se apresentar no Festival, uma vez que não se considerava com capacidade para enfrentar o público, já que, em termos musicais, pouco evolui (ou seja, se se exceptuar Fernando Pereira, nenhum dos outros elementos conseguiu aprender a tocar em condições).
Sei, também, que eram colocados grandes cartazes, na Praça da República, em Coimbra, onde eram referidos os nomes das bandas participantes no Festival e originários do concelho (a estudar em Coimbra) ficaram bastante desiludidos quando viram nesses cartazes «Os Ministros (Sabugal)» e a banda não compareceu.
Perdeu-se alguma coisa, em termos de música portuguesa? Julgo que não… Foi, apenas um projecto que ficou pelo caminho, o qual, aliás, não teria futuro nenhum.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Carlos do Carmo no Sabugal

Um dos concertos mais polémicos de todos os tempos, no concelho do Sabugal, teve lugar no dia 22 de Junho de 1990, no Castelo do Sabugal. Efectivamente, foi nesse local que se realizaram as Festas de S. João de 1990.

Carlos do Carmo

João Aristides Duarte - «Música, Músicas...»Carlos do Carmo é um nome incontornável do Fado e da canção ligeira (chamemos-lhe assim) de Portugal. Cantou em locais tão míticos como o Olympia, de Paris, as Óperas de Frankfurt e Wiesbaden, o Canecão, do Rio de Janeiro e noutras salas de espectáculos em Sampetersburgo, Helsínquia, Copenhaga, etc., etc.
Em Portugal conseguiu quase encher o Pavilhão Atlântico no seu concerto de tributo a Frank Sinatra, o que pode ser considerado um feito. Actualmente o seu último CD (em dueto com Bernardo Sassetti) encontra-se em 18.º lugar no Top de vendas e é já Disco de Ouro.
Apesar das credenciais, que têm origem nos anos 60, do século XX, Carlos do Carmo não teve qualquer problema em actuar no palco do Sabugal, instalado no Castelo, numa organização da Comissão de Festas desse ano. Referiu, mesmo, durante o espectáculo do Sabugal que, para ele, era a mesma coisa cantar no Olympia, em Frankfurt ou no Sabugal.
Segundo informações que, posteriormente, recolhi, a equipa de Carlos do Carmo jantou no restaurante das Festas, tendo declinado o convite para se dirigir a um restaurante da (então) vila.
Lembro-me bem de ter ido assistir a esse concerto e de, quando o espectáculo estava prestes a iniciar-se, enquanto os guitarristas afinavam os instrumentos; uma parte do público começar logo a assobiar.
No fim do primeiro número, Carlos do Carmo referiu que era com grande honra que estava no Sabugal, onde nunca tinha actuado e fez um grande elogio à Comissão de Festas, extensivo a todas as outras do país, sem as quais não seria possível aos artistas portugueses sobreviver.
Acompanhado pelo trio habitual, de que se destacava José Maria Nóbrega que o acompanha quase desde o início da sua carreira, Carlos do Carmo cantou alguns dos fados mais conhecidos do seu reportório, como «Por Morrer uma Andorinha», «Canoas do Tejo», «Bairro Alto» e «O Homem das Castanhas», entre outros.
O seu concerto baseou-se mais, no entanto, em canções do álbum que tinha editado havia pouco tempo e que se intitulava «Mais do que Amor é Amar», com temas como «À Memória de Anarda», «Ao Gosto Popular» ou «Elegia do Amor». Também cantou «Pedra Filosofal», de Manuel Freire /António Gedeão e «Traz Outro Amigo Também» de José Afonso.
Pelo facto de se tratar de um espectáculo de Fado, onde o silêncio deve ter lugar, Carlos do Carmo teve uma atitude pedagógica dizendo aos presentes para não fazerem barulho, o que foi muito mal interpretado por uma parte do público, que não compreendeu o alcance das palavras do fadista, quando este referiu que «infelizmente a cultura que chega é a da televisão». O certo é que com estas suas palavras o público fez silêncio e o espectáculo continuou, sem sobressaltos. Já tinha acontecido o mesmo no Festival de Vilar de Mouros, em 1982, onde o fadista actuou perante uma plateia de jovens muito mais interessados em Rock e Carlos do Carmo conseguiu, aqui também, dar a volta à situação.
Ainda hoje há pessoas no Sabugal que se consideram ofendidas pelas palavras de Carlos do Carmo, baseadas afinal num mal-entendido, daí dizer-se que o concerto foi polémico.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Perguntas de um iletrado em economia

Nunca estudei economia. Eu sou de Letras ou Humanidades. Tive, isso sim, uma cadeira de Introdução à Política, no 2.º Ano do Curso Complementar dos Liceus, antigo 7.º Ano Liceal. Nada percebo, portanto, de economia ou finanças, nem de mercados. Não estou a brincar.

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»A primeira vez que ouvi falar de «mercado» ou «economia de mercado» foi há 21 anos, aquando da queda do Muro de Berlim e Mário Soares não falava noutra coisa, senão no «mercado». Até essa altura toda a gente conhecia isso pelo nome de capitalismo. Quem diria que o «mercado» seria capaz disto que faz hoje? Quem diria, há 21 anos, que os ordenados dos funcionários públicos (por enquanto só desses, que os patrões do privado já andam a ver se conseguem fazer o mesmo, com o pretexto da crise) seriam não só congelados, como lhes retirariam uma parte? Não acredito que alguém pensasse que poderia suceder uma coisa dessas.
Por isso pergunto a algum leitor desta crónica do blogue «Capeia Arraiana» se me pode elucidar sobre o significado das notícias que circulam, a toda a hora, pelas rádios, televisões e jornais.
São estas as perguntas a que gostaria que alguém respondesse (mas não em «economês», se possível em linguagem corrente):
O que uma agência de «rating»? Já existem há muitos anos? Reconheço a minha ignorância, mas nunca tinha ouvido falar nisso, até ao ano passado.
O que é a dívida pública? E a dívida soberana? Quem compra a dívida? Novamente reconheço a minha ignorância, como leigo que sou na matéria, mas nunca tinha ouvido falar disso (sobretudo da «soberana») até este ano.
O que são «activos tóxicos»? Porque é que a Irlanda era apontada há dois ou três anos como o melhor modelo para Portugal e hoje é um «caso perdido»?
Porque é que não se podem criticar ou dizer mal dos mercados? Eles vingam-se?
Porque é que há um ano o PS e o PSD eram tão diferentes na campanha eleitoral, com diferenças abismais, com políticas distintas e alternativas e hoje são os próprios governantes do PS a pedir uma coligação com o PSD? Não me digam que era só por causa da «velha» (como lhe chamavam os do PS). Agora, só porque o chefe do PSD é novo (ou jovem), já podem estar coligados? E o Soares que não podia nem ver o Cavaco (a quem chamava o «gajo» – quem se lembra?) faz tudo o que pode para que o mesmo Cavaco seja reeleito Presidente da República. Bem, nada admira vindo de Soares. Basta ler o livro «Dicionário Político de Mário Soares» de Pedro Ramos de Almeida, para se perceber que o que ele diz não se escreve. Só a título de exemplo uma tirada de Mário Soares, inserido nesse precioso livro: «Em Democracia quem mente ao povo é réu de alta traição.»
A gente ouve falar todos os dias e a toda a hora nestas coisas, e nunca vi, li ou ouvi ninguém a fazer estas simples perguntas. Ou os portugueses (a maioria) estão formados em economia e finanças ou já nada percebo do país em que vivo.
Basta que algum comentador vá à televisão dizer que é preciso mais sacrifícios, que estes ainda não chegam, para as sondagens do dia seguinte indicarem que os portugueses concordam com as medidas de austeridade. Já agora, só mais uma pergunta muito indiscreta: Quanto ganham os comentadores económicos, que dizem o mesmo em todas as televisões (não há um único que não diga o mesmo – onde está o pluralismo?), ou seja que é preciso muita (e cada vez mais) austeridade? Para quem trabalham esses comentadores de economia? Isso eles nunca referem. Referem, isso sim, que quem trabalha tem que «apertar o cinto» para que a economia e as finanças sejam saudáveis. Daqui a pouco só já lhes falta dizerem que se a escravatura voltasse é que era bom, porque, nesse caso, já a economia e finanças estariam muito bem.
O que mais admiro nos portugueses é esta capacidade de nada questionarem, se saberem tudo, de não terem humildade de fazer perguntas. Toda a gente fala na dívida soberana, no «rating», nos mercados, quando me parece (ou eu não conheço o país onde vivo) que o que eles querem mesmo é que a conversa mude para a «bola», que nisso já todos podem dar o seu «bitaite».
«Política, Políticas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (7)

A canção apresentada nesta crónica não é tradicional do Soito, mas é uma canção que era, tradicionalmente, cantada no Soito. Ainda hoje, embora raramente, se canta.

Música Natal

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»Trata-se de uma canção tradicional de Natal, cuja origem é a Beira Baixa.
Esta canção era cantada na noite da Consoada, no Soito, sobretudo junto à Fogueira do Galo, ou nas ruas da freguesia.
Há uma bonita versão desta canção no CD dos Navegante, intitulado «Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras», editado em 2009. Há várias variações da letra desta canção, em variadas regiões do país. Esta é uma das canções tradicionais que se espalhou pelo país, através das migrações das populações rurais, que procuravam o seu ganha-pão, longe as suas terras de origem (era este o caso dos «ratinhos», «gaibéus», «caramelos», etc.).
A letra que se cantava no Soito é a seguinte:

Alegrem-se os Céus e a Terra
Cantemos com alegria
Já nasceu o Deus Menino
Filho da Virgem Maria

Ó meu Menino Jesus
Ó meu Menino tão belo
Logo foste a nascer
Na noite do caramelo

Do varão nasceu a vara
Da vara nasceu a flor
Da flor nasceu Maria
De Maria o Redentor

Nota: O triste episódio protagonizado pela PT que se «safou» do pagamento de 260 milhões de euros em impostos, através da distribuição de dividendos, mostra, mais uma vez, que o poder político anda de joelhos perante o poder económico. O Governo avisou a Caixa Geral de Depósitos (um dos accionistas da PT) para votar contra a distribuição dos dividendos, mas fê-lo um dia depois de os accionistas já o terem decidido. Para isto não se pode voltar atrás, são compromissos, alegam. «Palavra de Rei não volta atrás» parece ser o lema nestas coisas. Já para assumir os compromissos que assinou com os Sindicatos de Professores, relativos à realização de um Concurso de colocação de docentes, no próximo ano, não há disponibilidade. Neste caso rasgam-se os compromissos assumidos, porque há crise… Estamos entregues à bicharada. De qualquer maneira, nada espero de diferente daqueles que se preparam para assumir o poder, proximamente, nomeadamente do PSD, de Passos Coelho. È tudo farinha do mesmo saco…
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (6)

A canção que hoje apresento intitula-se «Ó Virgem da Granja» e trata-se de um espécime que se poderá considerar dentro do estilo de canção religiosa. Há muitas canções religiosas em Portugal que se referem a alguma divindade.

Terreiro das Bruxas

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»Esta canção, com uma bonita melodia, em jeito de balada, refere-se à Senhora da Granja (ou Senhora dos Prazeres) que se celebra no Soito, na Pascoela. A sua letra inclui muitas expressões típicas das pessoas do Soito, tais como «avoar» ou «buer».
A capela da Senhora dos Prazeres (sobre a qual se conta uma lenda centrada no tempo das Invasões Francesas) encontra-se no local conhecido por Granja, por isso a festa é identificada por esse nome.

Ó Virgem da Granja
Que estás no altinho
A guardar as cabrinhas
Ao Ti Luís Meirinho

Ó Virgem da Granja
Cortai-me um dedinho
Eu quero casar
C’o Vosso Menino

Ó Virgem da Granja
Soltai a pombinha
Deixai-a “buer”
Na Vossa fontinha

Deixai-a «buer»
Deixai-a «avoar»
O Vosso Menino a irá buscar

Ó Virgem da Granja
Desacertai o vento
Que vos entrem rosas
Pela porta «adentro»

As rosas que vos entram
São Ave-Marias
Que V’o l’as mandaram
As Vossas amigas

Ainda sobre música tradicional portuguesa, devo referir que há um disco de um grupo do Porto, formado em 1978, que se intitula «Terreiro das Bruxas» (ver imagem), editado em 1990.
Esse grupo chama-se «Vai de Roda» e foi o vencedor do Prémio José Afonso em 1996, com o disco «Pelas Ondas». Este último disco inclui, curiosamente, um tema intitulado «Senhora da Granja», um tradicional da Beira Baixa, que nada tem a ver com o do Soito.
O título do disco «Terreiro das Bruxas», que não sei se terá tido origem na localidade do mesmo nome do concelho de Sabugal, não deixa, no entanto, de ter um certo significado para nós, habitantes do concelho de Sabugal.

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Nota
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Quero lamentar profundamente o que (não) aconteceu na Assembleia Municipal Extraordinária marcada para o dia 29 de Outubro. Parece-me que não é com estes boicotes que se reconciliam os eleitos com os eleitores.
O que eu ainda não consegui compreender foi como é que os eleitos pelo PSD não compareceram à Assembleia onde se iria discutir uma proposta da própria Câmara Municipal (o Plano de Desenvolvimento Económico e Social do Concelho de Sabugal). Para mais quando na carta anexa à Convocatória da Assembleia se referia que o senhor Presidente da Câmara mostrou interesse em que esse Documento fosse discutido pelos seus membros.
Não foi, também, uma falta de respeito para com o senhor Presidente da Câmara o facto de terem boicotado a sessão?
Como POLÍTICO que sou (e faço gala de o ser) estive presente (bem como o João Manata, ambos eleitos pela CDU) na Assembleia, como era meu dever, após ter sido convocado para a mesma. E escusam de vir os comentadores fazer demagogia com os gastos que a mesma provocava ao erário público.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (5)

A cantiga que hoje apresento tem uma bonita melodia. É uma canção de amor, em estilo de balada, mas com alguns laivos de «canção de roda» no refrão (constituído pelas duas últimas quadras).

Salgueiro

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»A quadra inicial repete-se, quando termina o refrão. O refrão repete-se outra vez.
O bucolismo é tema recorrente na música de tradição oral, em Portugal, até porque a grande maioria das cantigas são recolhidas em meio rural
Por isso não é de estranhar a referência ao salgueirinho junto da água, bem como os peixinhos, uma imagem bucólica bastante comum nestas paisagens beirãs. Lembremo-nos dos lameiros e do corte e apanha do feno, uma das tarefas mais importantes da vida nas aldeias, há umas décadas atrás. Tudo era feito por grupos de homens e mulheres, que aproveitavam para cantar em grupo.

Salgueirinho ao pé d’água
Faz sombra aos peixinhos
Quem namora às escondidas
Leva abraços e beijinhos

Amar não é crime
Não é crime, não
Quem deixa o amor
Não tem coração

Amor dá-me um beijo
Dá-me a tua mão
Se tu não ma deres
Morro de paixão.

«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte
(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (4)

A cantiga que apresento hoje é uma cantiga que as pessoas do Soito, sobretudo rapazes e raparigas, cantavam na Praça e noutros largos da aldeia. Tal como existem muitas por esse país fora, esta é uma «Cantiga de Roda». Era cantada por grupos de 15 a 20 pares, que realizavam, com ela, uma dança.

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»No Soito esta maneira de dançar era conhecida como «andar à conde», ou seja a «fazer a conde», que significa fazer uma dança de roda.
Como se pode verificar a letra está, hoje, desactualizada, porque, entretanto o Soito ganhou o estatuto de vila. Tal não significa que, desde que o Soito é vila os progressos tenham sido muitos, aliás eu penso exactamente o contrário. Escrevi isso logo quando tal subida de estatuto aconteceu (por exemplo no jornal «Terras da Beira»).
Hoje fala-se em diminuir o número de freguesias no concelho de Lisboa e, também, no resto do país e até juntar concelhos para diminuir despesas (não sei bem quem quer comprar uma guerra, mas isto está na ordem do dia e é melhor que se preparem no concelho do Sabugal) e na época em que o Soito foi elevado a vila só se falava em elevar o estatuto das vilas e aldeias. Faz-me lembrar aquilo que se passou no tempo da Monarquia em que os títulos de nobreza eram tantos que até apareceu uma anedota que dizia «Foge cão que te fazem barão! Para onde se me fazem visconde?»
BonecosLembremo-nos que só no distrito da Guarda (e em pouco tempo) elevaram a Mêda, Sabugal e Trancoso a cidades e Cedovim, Freixo de Numão, Almendra, Santa Marinha e Marialva (para além do Soito) a vilas. Será curioso analisar o que se dizia nessa época dos «fundos» que não tardariam a chegar, dos novos serviços públicos que proporcionaria esse novo estatuto e do grande desenvolvimento que viria aí («Terras da Beira», 20 de Maio de 1999, e on-line Aqui.
A letra está desactualizada, também, porque houve um efectivo e muito acentuado crescimento da freguesia, sobretudo desde o final da década de 1960. Hoje o Santo António já não está à saída.
A cantiga intitula-se «Adeus ó Lugar do Soito» e tem esta letra:

Adeus ó lugar do Soito
Ao longe parece vila
Tem uma igreja no meio
Santo António à saída

Bate certo, certo
Agora é que eu vou ao meio
É um regalo na vida
Ir com o amor ao passeio

Ir com o amor ao passeio
Ir com ele passear
Alegrem-se ó meus senhores
Que a roda vai animar.

«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte
(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (3)

A cantiga que hoje apresento é uma cantiga religiosa ou cantiga da Quaresma, integrada no ciclo Pascal. Há muitas em Portugal com esse nome, todas referentes ao Ciclo Pascal. O seu título é «Alvíssaras».

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»As «Alvíssaras» eram dirigidas a alguma divindade (no Soito, talvez a Nossa Senhora dos Prazeres – não foi possível apurar).
Na região da Beira Baixa também acontecia assim, uma vez que há relatos de que era costume, em tempos mais antigos, em Aldeia de Santa Margarida (Idanha-a-Nova) ou Juncal do Campo (concelho de Castelo Branco) que na madrugada de Sábado de Aleluia se fossem dar as alvíssaras (Boas-Festas) à Senhora da Granja e à Senhora das Dores e, claro, ao vigário da freguesia.
Mais uma vez se torna claro que a música tradicional do Soito (e do concelho) tem muitas semelhanças com as músicas da Beira Baixa.
Hoje, no Soito, já não se pratica o passeio de várias pessoas pelas ruas da freguesia, acompanhadas pelo pároco, aqui conhecido como «Tirar o Folar» e noutras regiões do país conhecido como «Compasso». Eu ainda me lembro dessa cerimónia, realizada na segunda-feira a seguir à Páscoa, em que o passeio era acompanhado pelo sacristão que tocava uma campainha e em que o pároco ia a todas as casas da freguesia dar as Boas-Festas. Já durante a época da Quaresma ainda me lembro de ver o sacristão a tocar umas «matráculas» (que eram constituídas por uma tábua com ferros, que era manipulada de modo a produzir barulho), já que os sinos não podiam tocar.
Eis a letra das «Alvíssaras» do Soito:

Dai-me alvíssaras, Senhora
Deitai-mas no meu chapéu
O Vosso amado filho
Já subiu da Terra ao Céu

Dai-me alvíssaras, Senhora
Num raminho de «sarpão»
O Vosso amado filho
Já desceu do Céu ao chão

Dai-me alvíssaras, Senhora
Dai-mas, se m’as quereis dar
O Vosso amado filho
Já tornou a ressuscitar

Dai-me alvíssaras, Senhora
Deitai-mas no meu «mandil»
O Vosso amado filho
Já tornou a ressurgir.

Ainda sobre a música tradicional apraz-me referir que o cantor Roberto Leal editou já dois discos (em 2007 e 2009) de títulos «Canto da Terra» e «Raiç» (a palavra mirandesa para raiz). Estes discos nada têm a ver com o Roberto Leal (que nasceu em Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros) mais conhecido. São trabalhos, verdadeiramente, representativos da melhor música tradicional portuguesa. Nestes trabalhos Roberto Leal contou com a participação de músicos da Brigada Victor Jara, Galandum Galundaina, Quadrilha e Tocá Rufar e canta em mirandês.
AlvíssarasRoberto Leal que regressou às suas raízes transmontanas, das quais se havia afastado, recorda que nestes trabalhos estão «memórias que foram guardadas pela vida fora, dos tempos em que pensava que falava uma língua rude». Mais curiosa ainda, da parte do cantor, a referência a que «ainda em adolescente, e sem o compreender, fui alvo de chacota por causa da minha pronúncia quando dizia txabe em vez de chave, e achava, como muitos transmontanos de então, que trocar o V pelo B era ignorância».
Confesso que nunca fui grande fã de Roberto Leal, enquanto cantor de música ligeira, mas estes seus dois trabalhos e o facto de referir aquilo que escrevi lá atrás levaram a que passasse a admirá-lo. Temos a obrigação de, pelo menos em escritos, preservar aquilo que nos foi legado pelos nossos avós e é isso que eu tento fazer com estas crónicas sobre música tradicional do Soito.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (2)

Continuando a divulgação de música de tradição oral que recolhi, no Soito, apresento nesta crónica uma canção religiosa intitulada «Santo Antão da Murganheira».

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»Sabe-se que a música de tradição oral, em Portugal, apresenta-se divida em vários subgéneros de que fazem parte, entre outras as canções de trabalho, as canções religiosas e as cantigas para dançar.
A informante desta, bem como de todas as canções referidas nesta série de crónicas, foi a minha tia Luísa Dias Aristides (na foto), hoje com 98 anos.
Esta canção é uma típica canção de romaria, que terá tido origem na disputa entre as aldeias do Soito e Vila Boa a propósito de qual delas seria a soberania da capela de Santo Antão, que existe no lugar da Murganheira, perto do Soito e de Vila Boa.
Durante anos a população do Soito venerava a imagem de Santo Antão, como se fosse do Soito, embora pertencesse (como ainda hoje) à freguesia de Vila Boa.
Parece-me que esta cantiga apresenta semelhanças com as cantigas de romaria da Beira-Baixa, sendo mais um exemplo da proximidade geográfica poder ter influenciado o surgimento de várias cantigas, tal como referido pelo etnomusicólogo José Alberto Sardinha.
As pessoas do Soito iam em romaria, com carros de vacas enfeitados, até à ermida do Santo Antão, tal como refere a letra da cantiga. A imagem de Santo Antão tem um porquinho ao fundo dos pés, facto que é, também, referido na canção.
A letra da cantiga é a seguinte:

Mais acima, mais abaixo
Tem uma bela junqueira
E à porta da capela
Tem uma bela «moreira»

(refrão)
Já é nosso! Já é nosso!
O Santo Antão
Da Murganheira

Viva o Santo Antão
Que é rei dos «labradores»
Levam carros e carretas
Enfeitadinhos de flores

(refrão)
Já é nosso! Já é nosso!
O Santo Antão
Da Murganheira

Ó Divino Santo Antão
Que andais aqui fazendo
Ando a ver do porquinho
Que me fugiu para o Ozendo

(refrão)
Já é nosso! Já é nosso!
O Santo Antão
Da Murganheira

Devo dizer que qualquer uma das cantigas recolhidas no Soito poderiam, facilmente, fazer parte do reportório de um desses grandes grupos de recriação da música tradicional portuguesa, como a Brigada Victor Jara ou a Ronda dos Quatro Caminhos.
Tia LuísaComo esta região do concelho de Sabugal não foi muito visitada por etnomusicólogos é, pois, natural, que as cantigas daqui não sejam muito conhecidas. Não tendo sido objecto de estudo por etnomusicólogos, é natural que não tenham divulgação.
No concelho de Sabugal tenho conhecimento que uma cantiga da apanha da azeitona de Quadrazais intitulada «Azeitona Cordovili» foi recolhida por José I. Franco, em 1940 nessa localidade e está no livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel Giacometti.
Também José Alberto Sardinha recolheu duas cantigas, no final da década de 1990, na Bendada.
Em termos de temas da tradição oral do concelho de Sabugal que foram objecto de recriação, para além da «Canção das Maias» (de Alfaiates) recriada pelos Chuchurumel e mencionado na crónica anterior; conheço também a recriação de «Entrudo» (de Aldeia do Bispo) recriada pelos Assobio, no seu CD de 2009.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
akapunkrural@gmail.com

Música tradicional do Soito (1)

Vou escrever uma série de crónicas sobre a música tradicional do Soito, de que tenho conhecimento.

Michel Giacometti

João Aristídes Duarte - «Música, Músicas...»Não sou etnomusicólogo, como o grande Michel Giacometti (na foto), Margot Dias, Rodney Gallup ou Salwa El-Shawan Castelo-Branco (curiosamente todos estrangeiros, mas que realizaram um trabalho imenso em Portugal, que deveria estar-lhe eternamente grato).
Os conhecimentos que eu tenho sobre esta temática devem-se à audição atenta de centenas de discos de recolhas e recriação da música de tradição oral, bem como à leitura de variadas obras de Giacometti, Fernando Lopes-Graça e outros.
As recolhas que efectuei, há uns anos, e que tenho em suporte digital foram-me referidas por alguns e algumas informantes, das quais um ainda é viva, com a provecta idade de 98 anos. Trata-se da minha tia Luísa Dias Aristides, actualmente no Lar da 3.ª Idade, no Soito.
José Alberto Sardinha, outro dos grandes nomes da etnomusicologia portuguesa, refere que «tanto na Cova da Beira, como por toda a campina de Idanha, desde o Sabugal às margens do Tejo, é o adufe o principal e, sem dúvida, o mais arcaico instrumento». Este estudioso não deixa, no entanto, de referir que a música tradicional não tem certidão de nascimento e que as músicas das várias regiões podem interpenetrar-se, contribuindo para isso, nomeadamente, a proximidade geográfica ou as migrações.
Mas até pode ser que não seja só por isso, já que há grandes semelhanças entre o «Grito de Ah Ghi Ghi» que se usava no Soito há 50 ou mais anos e o «Grito de Escatilhar» recolhido por Michel Giacometti, no Minho.
Nas recolhas que efectuei, notei semelhanças entre algumas das músicas do Soito e as músicas mais conhecidas da Beira-Baixa. Até poderei estar enganado, mas foi o que me pareceu, sobretudo no tema mais conhecido do Soito que é a «Canção do Maio».
Talvez incluída nas Festas da Primavera ou das Maias, que celebravam o retorno do Sol fecundante, esta cantiga era cantada no início de Maio por grupos de rapazes e raparigas, acompanhados por adufe ou pandeireta.
Era por estes dias que os padrinhos do Soito ofereciam aos seus afilhados o «Bolo do Maio», que é uma tradição (em parte ainda viva), que só conheço nesta freguesia. O «Bolo do Maio» é um «santoro» que, nas restantes localidades do concelho, se costuma oferecer na época dos Santos.
A letra da «Canção do Maio» é a seguinte:

O Maio é muito longo
Minha mãe tem pouca massa
Lá o iremos passando
Com azedas e labaças

Ò Maio, Ó Maio
Ó Maio d’além
Quando vem o Maio
Ceifa-se a farrem

Já lá vem o cuco
Já lá vem o cuco
E vem d’acavalo (bis)
Traz ciguenas d´oiro
Que vem do marcado

Tenho uma pitinha branca
Que me põe no campanário
Hei-de deitá-la de meias
Com a Senhora do Rosário

Ó almo de S. Modeste
Que fizeste à tua flor
Que te vejo de sem ela
Como eu de sem amor

Maiai, cachopas maiai
Arrastai as vossas saias
Sabe Deus quem chegará
A outro dia de Maias

O grupo Chuchurumel, de César Prata, no CD «Posta-Restante», de 2006, apresenta um tema recolhido em Alfaiates, com o título «Canção das Maias» que contém estes versos:

Este Maio é muito grande
Minha mãe tem poucas massas
Mas lá iremos passando
Com azedas e rabaças

O resto da letra da «Canção das Maias», de Alfaiates não tem semelhanças nenhumas com a «Canção do Maio», do Soito, sendo que a música é, também, totalmente diferente com alguma proximidade à música do Norte de África, pelo menos na versão de Chuchurumel.

P.S. (salvo seja): Grande concerto da Banda da Força Aérea Portuguesa, no sábado, nos Fóios, cada vez menos o «calcanhar do mundo». Como musicómano que sou, não poderia faltar.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Deputado da Assembleia Municipal do Sabugal)
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UHF em Aldeia Velha – Concerto fabuloso

Seis anos depois, Aldeia Velha voltou a receber de braços abertos os UHF. Efectivamente, os UHF já tinham actuado no mesmo local no dia 23 de Agosto de 2004. Se o concerto de 2004 foi bom, o de 2010 (realizado no passado dia 21 de Agosto) foi fantástico.

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João Aristides Duarte - «Música, Músicas...»Muito público jovem esteve presente, mas também bastantes pessoas de outras faixas etárias, para quem os UHF são ainda uma referência que permanece desde a sua adolescência.
Totalmente recuperado, após o seu internamento hospitalar em finais de Julho (que levou ao cancelamento do concerto de Peniche), o líder dos UHF, António Manuel Ribeiro, provou (mais uma vez) em Aldeia Velha, porque é um dos mais carismáticos músicos do Rock português.
A banda continua com a formação habitual, que já tem mais de 10 anos: António Côrte-Real (guitarras), Ivan Cristiano (bateria), Fernando Rodrigues (baixo e teclas); António Manuel Ribeiro (guitarras e vozes). Para além destes músicos participou no concerto, como convidado, Nuno Oliveira (teclas, baixo e cavaquinho).
O concerto iniciou-se com «Quando (Dentro de Ti)» e prosseguiu com um tema do novo álbum (que sairá em finais de Setembro e se intitulará «Porquê?»).
O concerto prosseguiu com temas como «Matas-me Com o Teu Olhar», «Sarajevo», «Modelo Fotográfico» ou «Foge Comigo Maria».
O público, que enchia completamente o recinto, não arredava pé e cantava, constantemente, os refrães dos temas emblemáticos dos UHF.
No tema «Canção de Roubar o Amor», Nuno Oliveira tocou cavaquinho, numa feliz mistura entre o Rock e a música popular portuguesa.
O concerto teve o seu clímax no tema «Esta Dança Não Me Interessa», quando António Manuel Ribeiro, na parte final, solicitou ao público que batesse palmas ao ritmo da canção, enquanto ia declamando um poema, ao mesmo tempo que referia estar muito feliz por regressar a Aldeia Velha, elogiando os presentes e transformando a noite de 21 de Agosto numa imensa comunhão entre a audiência e a banda.
O tema «O Vento Mudou», uma versão da canção que ganhou o Festival RTP da Canção, nos anos 60, foi dedicado ao autor desta crónica por António Manuel Ribeiro, seu amigo pessoal.
O concerto chegou ao fim com «Menino (Canção da Beira-Baixa)», mas o público pediu mais. A banda voltou ao palco para cantar a versão acústica de «Matas-me Com o Teu Olhar», com o público em coro a entoar o refrão, após o que se retirou.
A pedido do público a banda regressaria, ainda, para mais dois temas emblemáticos: «Cavalos de Corrida» (António Manuel Ribeiro referiu que estava há 32 anos ligado à corrente e tinha começado por ser, ele próprio, um cavalo de corrida) e, na apoteose final, com o público presente no recinto a dançar ao som de «Menina Estás à Janela».
Resumindo: um concerto memorável.
António Manuel Ribeiro confidenciou ao autor desta crónica que o novo álbum dos UHF se incluirá naquilo a que se poderá chamar «Rock de Intervenção», com palavras duras e de protesto contra um certo apodrecimento da situação vivida em Portugal.
«Música, Músicas…», crónica de João Aristides Duarte

(Membro da Assembleia Municipal do Sabugal)
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Fanfarra Kustica na Festa do Cavalo e do Toiro

Sábado à noite, dia 3 de Julho, na Festa do Cavalo e do Toiro, no Soito, houve um espectáculo com a Fanfarra Kaustica.

Fanfarra Kaustica - Soito - Sabugal

João Aristídes Duarte - «Memória, Memórias...»Banda constituída por 11 elementos, a Fanfarra Kaustica, de Águeda, foi uma das coisas melhores, musicalmente falando, a que tive oportunidade de assistir, nos últimos tempos.
Dentro do estilo das fanfarras da Europa de Leste (como a famosa Fanfare Ciocarlia, da Roménia), a Kaustica compreende saxofones, trompetes, tubas, trombones, pratos, caixa e bombo. Todos os músicos são acima da média.
Os arranjos são espectaculares. Vê-se que há ali muito tempo de ensaios.
Para além de alguns temas conhecidos, como «Sodade», tornada famosa na voz de Cesária Évora, o reportório da Fanfarra Kaustica inclui temas originais.
O seu estilo de apresentação com óculos escuros, gravatas amarelas e fato preto, completado com um chapéu, também preto; é uma das características marcantes da banda, que tanto pode actuar em palco, como fazer animação de rua. No caso do espectáculo no Soito, actuou na rua.
Pode-se falar, sem qualquer dúvida de um estilo musical muito animado, que poderá designar-se como «Punk Filarmónico».
Esta foi uma grande aposta para a animação da Festa do Cavalo e do Toiro. Só é pena que já tenha actuado muito tarde, quando o público já não era muito. Mas ficaram aqueles que realmente gostam de música e não arredaram pé.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concerto na Memória – Paco Bandeira no Soito

Bem me apetecia escrever sobre a hipocrisia de alguns políticos sobretudo os PECadores do Bloquinho Central dos interesses.

(Clique na imagem para ampliar.)

Joao Aristides DuarteEfectivamente, como denunciou Daniel Cohn-Bendit no Parlamento Europeu, a Alemanha e a França colocam a Grécia entre a espada e a parede, pedem enormes sacrifícios ao povo grego e não hesitam em vender a essa mesma Grécia, nos últimos meses, 6 fragatas, 20 ou 30 helicópteros e alguns submarinos, tudo num valor total de perto de 4 mil milhões de euros. Depois, esses países, ajudam a Grécia com juros a 5 ou 6%, quando eles obtêm empréstimos de 1, 5 a 3%. Hipócritas!!!
Já por cá a hipocrisia, também, reina: dão tolerância de ponto por causa da visita do Papa e declaram, agora, que há um problema de produtividade e é necessário mudar os feriados. Lembre-se que o PS sempre foi contra isso, mas é, agora, a favor. Hipocrisia!!
Banditismo político!!!
Mas sigamos com o concerto de Paco Bandeira, no Soito, que teve lugar na tarde de 28 de Abril de 2007, integrado na Festa do Mundo Rural, organizada pela Câmara Municipal do Sabugal.
A Festa decorreu no recinto onde está instalado o Centro de Cultura, Juventude e Lazer do Soito (conhecido por Praça de Toiros). No lado de fora, para além das diversas tasquinhas e stands com equipamentos para a agricultura, foi montado um palco.
Foi nesse palco que actuou Paco Bandeira e a sua Banda, constituída por um baixista, um guitarrista e um baterista. O guitarrista era Jorge Ganhão que eu conheço por ter editado um CD em nome próprio, de título «Cantar Alentejo» e cujo primeiro tema é «Criticar o Alentejo» (com uma letra que reza: «Criticar o Alentejo, isso a mim não me magoa, porque em todo o lado vejo, gente rude e gente boa»).
O concerto, tal como referi numa crónica anterior referente a Paco Bandeira no Sabugal, foi o mais à la carte possível. Com efeito, Paco Bandeira solicitou ao público que pedisse as canções que queria, que ele e a sua Banda as interpretariam.
Aproveitei logo para solicitar a menos conhecida «Joe da Silva», um tema sobre um emigrante nos «States», num ritmo bastante estilizado de «Jazz New Orleans», o que foi correspondido pelos músicos e cantor, embora Paco Bandeira tenha referido que não sabia se os músicos conheciam essa. Até referiu que fui logo solicitar uma das mais difíceis.
Mais membros do público solicitaram outros temas do vasto reportório do cantor de Elvas.
Pudemos assim ouvir temas como a inevitável «A Minha Cidade (Ó Elvas, Ó Elvas)», «A Minha Quinta Sinfonia», «João Saramago», «Chula da Livração», a eterna «Ternura dos Quarenta» e muitas mais que foram acompanhadas em coro pelo público presente.
Paco bandeira apresentou-se com uma boina preta na cabeça e referiu logo que estava entre amigos, tendo por isso este concerto tido um sabor especial, porque foi o menos formal possível.
No final do concerto Paco Bandeira conviveu com algum do público presente, com o presidente da Câmara, Manuel Rito, e reencontrou o seu velho amigo Toninho Oliveira, com o qual esteve longo tempo à conversa.
Um verdadeiro anti-vedeta, este Paco Bandeira que se apresentou neste concerto do Soito.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Orquestra «Primera Fila» nas Festas de S. João

Na abertura das tradicionais Festas de S. João, no Sabugal esteve presente a Orquestra espanhola «Primera Fila».

 

Joao Aristides DuarteOriunda da cidade de Granada, no sul do país vizinho, a Orquestra é constituída por 14 elementos em palco.
Para além de um vocalista feminino e outro masculino, a orquestra tem uma poderosa secção de sopros (com trombone de varas e trompete), para além dos tradicionais baixo, guitarra, teclas, percussão e bateria.
Muitos pasodobles, tangos e valsas fizeram a alegria dos presentes, que até ensaiaram uns passos de dança.
Seguiram-se muitas rumbas e sons caribenhos e latino-americanos.
O final ficou reservado para o pessoal mais novo, com execução de temas da banda espanhola Escape (com o tema «Legalizacion»), Queen, Europe, Joe Cocker, Creedence Clearwater Revival e outros.
Para além do aspecto meramente musical, há a destacar a forte componente cénica da Orquestra, com constantes mudanças de indumentária e um corpo de dança de se lhe tirar o chapéu.
Enfim, para a abertura das Festas a Orquestra «Primeira Fila» revelou-se uma aposta acertada.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Aurélio Malva e a Capeia Arraiana

Aurélio Malva é professor de Economia e membro da Brigada Victor Jara, desde há muitos anos, onde é o vocalista principal e toca gaita-de-foles e guitarra acústica.

Joao Aristides DuarteAntes de ser membro da Brigada Victor Jara, Aurélio Malva foi um dos fundadores do grupo Manifesto, no final dos anos 70. No início começaram por tocar versões de grupos estrangeiros, mas evoluíram, depois, para composições originais, cantadas em português.
Este grupo, do qual faziam, ainda parte, José Tovim (o baixista da Brigada) e Parreiral (que andou com o autor desta crónica na tropa) revelou-se, já nos anos 80, como um dos grupos de Rock mais intervencionistas de Portugal.
Com efeito, Aurélio Malva seria o autor do tema «Aos Domingos Vou à Bola», um tema que atingiu algum sucesso no boom do Rock português.
Nessa época era com esta canção que se iniciavam os programas desportivos na Rádio Renascença, se a memória não me trai, apesar de ser um “hino” contra a alienação que o futebol provoca em certas pessoas.
Aurélio Malva era amigo pessoal do falecido professor Eduardo Bárrios, de Aldeia do Bispo, que contratou a Brigada Victor Jara para as Festas dessa localidade raiana, no ano de 1997, já referido em crónica anterior neste blogue e por mim considerado como um dos melhores concertos de sempre no concelho de Sabugal.
Aurélio MalvaAurélio Malva e a Brigada Victor Jara actuaram, também, em 1989, no Soito, nas Festas de S. Cristóvão, noutro bom concerto.
O concerto de Aldeia do Bispo foi no dia da Capeia Arraiana, na segunda-feira, dia 11 de Agosto.
De certeza que os membros da Brigada assistiram à Capeia e Aurélio Malva produziu estas declarações, numa entrevista que me concedeu há dois anos:
«P: Há uns anos vi a Brigada Victor Jara num concerto em Aldeia do Bispo (Sabugal), onde o público teve direito a quatro encores. De certeza que esse concerto ficou na memória dos músicos da banda. O que achou desse concerto?
R: Foi um concerto mágico! Nós, que amamos as tradições, fomos contagiados pelo ambiente da festa e da tourada com o forcão. A vibração do público faria o resto. De um modo geral, os nossos espectáculos (como os nossos discos) são sempre muito bem aceites mas, quando no final há quatro encores, isso significa que algo de muito especial aconteceu, para nós e para o público.»

Realmente, conheço alguns músicos, mas nunca vi nenhum a falar da Capeia Arraiana, como o fez Aurélio Malva.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

STRADIVARIUS – Um conjunto do Sabugal

Os STRADIVARIUS surgiram no panorama musical sabugalense, no final dos anos 70. Antes de se chamarem STRADIVARIUS chamam-se CLAVE (havia quem pronunciasse «Claive», pensando que era um nome inglês), mas tinham outros elementos na formação.

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Concertos míticos – Despe e Siga no Soito

Os Despe e Siga formaram-se no início dos anos 90, do século XX. Eram uma banda que surgiu como um alter-ego dos Peste & Sida, um grupo que fez furor no final dos anos 80 e regressou há pouco tempo, após um interregno de mais de 10 anos. Os Despe e Siga tocavam versões de músicas estrangeiras, cantadas em português, enquanto os Peste & Sida só quase tocavam originais.

Joao Aristides DuarteOs Peste & Sida tocaram na Rapoula do Côa, juntamente com os Rádio Macau, num concerto que teve lugar em 1990.
Enquanto os Peste & Sida eram uma banda com um som mais duro, muito punk, os Despe e Siga tinham um som mais festivo, com muito Ska e muito apropriado para o Verão.
Em 1994 os Despe e Siga surgiram em força com um álbum homónimo, de que se destacava o tema «Festa», um original dos The Pogues, cantado em português.
Na noite de 6 de Agosto de 1995 apresentaram o seu espectáculo ao vivo, no palco das Festas de S. Cristóvão, no Soito.
À tarde, aquando da montagem do sistema de som e luzes, houve um problema com a corrente que era fraca para as necessidades da banda. Teve que se arranjar um cabo eléctrico e ligar a um poste, onde a corrente já era suficiente, para que o concerto pudesse realizar-se.
No ensaio de som tocaram o tema «Giroflé».
Os Despe e Siga, no seu concerto no Soito apresentaram uma formação composta por Luís Varatojo (guitarra e voz), João San Payo (baixo e voz), Nuno Rafael (guitarra e voz), João Cardoso (teclas) e Sérgio Nascimento (bateria). Para além destes músicos ainda fazia parte da banda Gui (sax), que tinha deixado os Xutos & Pontapés por uns tempos.
O concerto iniciou-se com «Peter Punk», um tema que era inédito, seguindo-se «Giroflé» e «Bué da Baldas».
Despe e Siga e Primos no SoitoA seguir tocaram «Odeio Salada» e o tema «Surf Em Portugal», numa versão à capella, sem instrumentos, que não as vozes dos membros do grupo.
«Adoro O Teu Body» foi o tema seguinte. «Isto Não Pode Ser», um novo inédito, seguiu-se no alinhamento.
«Hasta La Vista», também um tema que não estava no CD do grupo foi o próximo tema.
«Carraspana», um tema que fazia parte do primeiro LP dos Peste & Sida, tocado num estilo mais leve e alegre foi a continuação do espectáculo.
«Bule, Bule» seguiu-se no alinhamento.
Até aqui os Despe e Siga apresentaram-se em palco vestidos com fatos completos (embora sem gravata). A partir deste tema e após uma sessão de ginástica, acompanhada por som gravado, a banda regressou em roupa de treino branca, com calções e t-shirt.
Seguiu-se «Great Balls Of Fire», um tema cantado na língua de Shakespeare (uma excepção em todo o concerto e na carreira dos Despe e Siga).
Um «Rap», mais o tema «Rei Carlos» e, finalmente, «Festa», deram por concluído o concerto.
No encore surgiram «Estou Bem» e «Sol da Caparica».
Na imagem pode ver-se uma foto de João San Payo, no concerto do Soito, bem como a capa do álbum «Os Primos».
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – Fernando Pereira no Soito

Fernando Pereira, actor e imitador, iniciou a sua carreira em 1982. Conhecido pelas imitações de qualquer artista nacional ou internacional, as cordas vocais de Fernando Pereira foram examinadas por diversos cientistas de renome, num Simpósio que teve lugar na Faculdade de Medicina do Porto, no qual descobriram um instrumento deveras invulgar.

Concertos Míticos – Roxigénio no Sabugal

Surgidos em 1980, os Roxigénio eram do Porto. A comandá-los estava o vocalista António Garcez, que tinha estado nos «Psico» e nos «Arte & Ofício», duas das principais bandas de Rock, da década de 1970, em Portugal.

Joao Aristides DuarteOutro dos membros dos Roxigénio era o guitarrista Filipe Mendes (actualmente conhecido como Phil Mendrix), outro nome mítico do Rock português, já que pertenceu aos Chinchilas, um conjunto dos anos 60 e, depois, aos Heavy Band e Psico.
Os Roxigénio cantavam em inglês. António Garcez foi uma das figuras mais polémicas do boom do Rock português, na década de 1980, quando os Roxigénio correram Portugal a dar concertos. Embora ele e os restantes membros da banda não tivessem aparecido com o boom, até porque cantavam em inglês (contra a corrente), foi nesta época que conseguiram o seu maior destaque. Garcez chegou a ser considerado o melhor vocalista português, nesses tempos. Além disso, António Garcez produzia algumas declarações polémicas nos meios de comunicação social, como aquela em que afirmou que os Roxigénio estavam vinte anos à frente de Rui Veloso.
António Garcez vive, hoje, nos Estados Unidos. De vez em quando mantenho contacto com ele, através de correio electrónico.
Apresentaram-se ao vivo no dia 13 de Novembro de 1982, na vila do castelo de cinco quinas.
O concerto no Sabugal realizou-se num pavilhão, onde funcionava uma serralharia, à saída para Vilar Formoso, uma vez que o Cine-Teatro já não reunião as condições mínimas de segurança. Por isso, e como esse pavilhão já era fora da área urbana da então vila, quem fazia a segurança era a Guarda Republicana e não a Polícia, como acontecia nos restantes Bailes de Finalistas a que assisti, no Sabugal.
A sua formação, aquando do concerto do Sabugal, era constituída por António Garcez (voz), Filipe Mendes (guitarra), Fernando Delaere (baixo), Hipo Birdie (bateria) e Frederic (guitarra).
Os Roxigénio já tinham editado três álbuns e um single, aquando da sua presença no Sabugal.
Este foi, aliás, um dos últimos concertos da banda, antes de dar por findas as suas actividades.
Lembro-me que era uma noite muito fria e havia algum nevoeiro.
O pavilhão estava a abarrotar. O palco era bastante alto e não era muito grande. Antes do concerto com os Roxigénio actuaram os Vector, uma banda de covers, que tocava muitos temas em voga na época e não só. Lembro-me bem de tocarem alguns temas de uma das bandas minhas preferidas, que eram os Tom Robinson Band.
O concerto dos Roxigénio iniciou-se com «Stiff Nicked Obstinated», um dos maiores sucessos do grupo. Abruptamente, Garcez fez um gesto e mexeu nas cordas da guitarra de Filipe Mendes, tendo este terminado de tocar o tema. Penso, que nesta época ainda não se usavam as set lists ou alinhamentos, que hoje, os grupos colocam no palco. Era tudo mais à base do improviso.
Assim, o concerto recomeçou com outros temas , tais como «My Vocation», «Rock’N’Roll Men», «A Respectable Man», «Lili», «Dizzy Miss Susie», «I’ll Find The Way» ou «What Can I Do?», todos originais da banda, e editados nos seus discos.
Para o final foi, então, reservado o tema «Stiff Nicked Obstinated», que Filipe Mendes tinha só começado, no início do concerto. Foi um concerto bastante bom.
Nas imagens podemos ver o bilhete do concerto e uma fotografia onde estou eu, o meu irmão e outro rapaz do Soito, no concerto dos Roxigénio, no Sabugal. Dá para ver as colunas de som dos Roxigénio, lá atrás.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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«Sem eira nem beira» – A polémica

Este país é de doidos… A mais recente polémica tem a ver com uma canção Xutos & Pontapés, recentemente editada. Trata-se do tema «Sem Eira Nem Beira», cuja letra se reproduz.

Joao Aristides DuarteO Zé Pedro, dos Xutos, já veio desmentir qualquer ligação entre esta canção e o Governo. Foi só uma letra um pouco ousada, diz ele, agora. Nada para chatear o Governo. Não consigo compreender isto por parte do Zé Pedro, dos Xutos. Mas li que ele foi almoçar um dia destes com o «Presidente do Conselho» (Sócrates) e isso explicará alguma coisa.
A verdade é que há muitas Câmaras do PS e o mercado musical é pequeno. E toda a gente sabe que quem se mete com o PS… leva. Se as Câmaras do PS soubessem que a canção era contra o Governo, lá perdiam os Xutos uma data de concertos.
Com certeza não foi para isto que os Xutos participaram no disco «Filhos da Madrugada», homenagem a José Afonso, que esse não vinha cá pedir «batatinhas» a ninguém.
Mas, isto está de uma tal maneira que a Exposição sobre Che Guevara, que eu fui visitar aos Foios, é apresentada como uma Exposição não Política. Só podem estar a brincar!!! Apresentar uma Exposição de Che Guevara , como não Política é o mesmo que fazer uma omoleta sem ovos. Espero bem, que a Exposição sobre Zeca Afonso, a ter lugar, brevemente, no Museu do Sabugal, não seja, também, apresentada como nada tendo a ver com Política, para não ferir certas susceptibilidades. Parece que a palavra Política é proibida em Portugal, 35 anos após o 25 de Abril. E quem tem tudo feito para isso acontecer é esta maioria absoluta do PS. Conheço os Xutos desde os primórdios.
Sempre os considerei um grupo com atitude e contestatário.
Como tenho toda a discografia deles (assim como, também, a dos UHF e «tutti quanti») comprei logo o disco, mal ele foi editado (na semana passada).
Ouvi os temas e o «Sem Eira Nem Beira» pareceu-me, claramente, ter um destinatário.
Era claríssimo, como água.
Fiquei «parvo», quando ouvi na TSF, na manhã de quarta-feira, o resumo dos jornais. À tarde comprei o «Público» e li uma reportagem sobre a polémica. Fiquei abismado. O Zé Pedro??? Mas este homem não começou com o Punk e os The Clash? Não participou no disco «Filhos da Madrugada»? Para quem conheceu o Zé Pedro, nas suas diversas facetas (não pessoalmente, no meu caso, mas em entrevistas e em cima de um palco), não pode deixar de estranhar o que está a acontecer.
Tomaram os The Clash (o grupo que era uma referência para o Zé Pedro) ter uma canção que fosse adoptada pelos ingleses como contestatária em relação ao Governo. Com certeza que a usariam, sem quaisquer problemas. E ter uma canção assim, como esta, aos 30 anos de carreira, não é para qualquer um. Lamenta-se a falta de verticalidade do Zé Pedro, que sempre apoiou o Bloco de Esquerda.
Está tudo doido, pensei. Depois fui-me apercebendo da polémica e tive conhecimento de uma entrevista do Zé Pedro onde ele defende o Governo e o Sócrates . Até foi almoçar com ele. Bem, eu nem sabia que o primeiro-ministro gostava de música…mas fiquei a saber.
Os Xutos ficaram acagaçados. O aparelho do PS é uma coisa descomunal.
Duas coisas são certas: os Xutos vão vender mais discos (neste aspecto a polémica foi boa para eles) e quer eles queiram, quer não; esta canção vai ser usada muitas vezes contra o Governo.
Agora, o que pode acontecer é que eles nem a toquem ao vivo, para evitar os «ouvidos» dos bufos.
A estreia do disco novo, ao vivo, vai ser na noite de 24 de Abril, no Seixal. Vamos ver qual vai ser a reacção do público se os Xutos cantarem a canção ou se a não cantarem.
Aqui fica a letra e cada um tire as conclusões que quiser:

Sem eira nem beira

Anda tudo do avesso
Nesta rua que atravesso
Dão milhões a quem os tem
Aos outros um passou – bem

Não consigo perceber
Quem é que nos quer tramar
Enganar
Despedir
E ainda se ficam a rir

Eu quero acreditar
Que esta merda vai mudar
E espero vir a ter
Uma vida bem melhor

Mas se eu nada fizer
Isto nunca vai mudar
Conseguir
Encontrar
Mais força para lutar…

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a comer

É difícil ser honesto
É difícil de engolir
Quem não tem nada vai preso
Quem tem muito fica a rir

Ainda espero ver alguém
Assumir que já andou
A roubar
A enganar
o povo que acreditou

Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar
Conseguir encontrar mais força para lutar
Mais força para lutar…

(Refrão)
Senhor engenheiro
Dê-me um pouco de atenção
Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Não tenho eira nem beira
Mas ainda consigo ver
Quem anda na roubalheira
E quem me anda a f…

Há dez anos que estou preso
Há trinta que sou ladrão
Mas eu sou um homem honesto
Só errei na profissão.

Veja o vídeo dos «Xutos & Pontapés». Aqui.

«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte
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João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – Marenostrum no Sabugal

Os Marenostrum são um grupo de música portuguesa, com grandes influências tradicionais, fundado na zona de Tavira, Algarve, no ano de 1994.

João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – Ex-Votos no Sabugal

Os «Ex-Votos» formaram-se no final dos anos 80, do século XX, em Lisboa. O seu líder e mentor era Zé Leonel, um dos fundadores dos Xutos & Pontapés.

João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – Adiafa em Alfaiates

Os Adiafa são um grupo que pretende a divulgação do «cante» do Baixo Alentejo e do instrumento que lhe está associado – a viola campaniça.

Concertos Míticos – Íris no Soito

Os algarvios «Íris» deram um concerto no dia 3 de Agosto de 2002, no Soito, integrado nas Festas de São Cristóvão.

Joao Aristides DuarteFormados em 1994, os Íris tiveram grande sucesso com o seu Rock estilo FM, principalmente com os temas «Oh, Mãe» (versão de «The House Of The Rising Sun», popularizados pelos Animals, nos anos 60) ou «Atira-tó Mar» (outra versão, desta vez de Bob Dylan, do tema «Knocking On Heaven’s Door»). O seu líder era (e é) Domingos Caetano, vocalista e guitarrista.
Em 20 de Junho de 2008 vi os «Íris» ao vivo, nas Festas de São João, no Sabugal.
Passados dois anos efectuaram um concerto no Casteleiro. O concerto do Soito era, portanto, o terceiro que realizavam no concelho de Sabugal.
A formação que tocou no Soito era constituída por David Fernandes nas teclas, Cláudio Martins, na viola acústica e no acordeão, Chico Cardoso na bateria, Cláudio Barras no baixo e Virgílio Silva na guitarra eléctrica, para além de Domingos Caetano.
Chico Cardoso, que tocou com uma bateria dupla (muito em voga nos anos 70, mas que é pouco utilizada nos tempos actuais) entrava todos os dias pelas casas dentro, já que era o baterista da banda do programa «Praça da Alegria», na RTP.
O concerto iniciou-se com o tema «Coro da Primavera», um original de José Afonso, de 1971, tema do qual os «Xutos & Pontapés» já tinham feito uma versão para o álbum «Filhos da Madrugada Cantam José Afonso».
Íris no SoitoCaetano aproveitou este tema para explicar que os «Xutos & Pontapés» eram a banda pela qual os «Íris» tinham mais respeito, em Portugal.
O concerto continuou com temas originais da banda, como «Isolados do Mundo» e «Até Ser Dia».
Pelo meio ainda tocaram «Estou Além» (versão do tema de António Variações), para além de «Por Ti Já Não Sei» e «Vão Dar Banhó Cão».
Os temas tradicionais (como «Maria Faia» ou a versão da canção alentejana «Passarinho») também fizeram parte do alinhamento.
Como os Íris são algarvios não podia faltar um corridinho. Foi isso que aconteceu com o «Corridinho Cansado», um original de Domingos Caetano, tocado pelo acordeão de Cláudio Martins.
Para o final do concerto ficaram guardados os temas mais emblemáticos do grupo: «Atira-tó Mar» e «Oh, Mãe».
O concerto terminou com um efeito pirotécnico na bateria, que parecia ter-se incendiado.
O público ia correspondendo à prestação dos «Íris», embora não fosse em grande número, mas estava animado.
A partir desse ano os «Íris» entraram num período de relativo apagamento e pouco se tem ouvido falar neles. Mas continuam em actividade.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – Navegante no Soito

Os Navegante são um grupo que se dedica à recriação de temas da música tradicional portuguesa, na mesma onda da Ronda dos Quatro Caminhos, embora com mais temas da autoria de membros do grupo, do que é habitual.

João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concerto Míticos – «La Frontera» no Sabugal

Sexta-feira, 20 de Junho de 2003 foi o dia em que os «La Frontera», uma banda espanhola, com grande sucesso em Portugal, se apresentaram ao vivo no Sabugal. Este concerto esteve inserido no programa das Festas de São João e teve lugar, como é habitual, no Largo da Fonte.

La Frontera - João Duarte - Capeia Arraiana

La Frontera

João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos Míticos – GNR no Sabugal

Na noite de sábado, dia 24 de Junho de 2006, teve lugar o concerto dos GNR, no Sabugal.

Concertos Míticos – UHF em Aldeia Velha

A aposta no concerto dos UHF, em Aldeia Velha, mostrou-se a mais acertada. Ainda hoje, os membros da Comissão de Festas referem esse facto.

Joao Aristides DuarteEfectivamente, para além do facto de ter sido um concerto memorável, a todos os títulos, foi o dia em que mais malta nova esteve presente no recinto das Festas de São João Baptista, nessa localidade. Basta referenciar que, no próprio recinto do concerto (dentro do local onde se realiza a capeia) foi colocado um bar, só por duas horas, que vendeu para cima de 2 barris de cerveja, para além dos restantes bares estarem, literalmente, a abarrotar…
O concerto teve lugar na noite do dia 23 de Agosto de 2004.
Na primeira parte actoou o grupo de baile Osíris.
O material de som dos UHF era de origem portuguesa, da marca Furacão. Na época, a empresa Furacão, de Coimbra, era propriedade de uma pessoa com ligações ao concelho de Sabugal. Na realidade, Cláudio Pires, tem raízes em Vale de Espinho.
Logo no ensaio de som, realizado à tarde, deu para ter uma ideia de que o som estava muito bom. Afinal, não é necessário material de marcas estrangeiras para se ter um bom equipamento sonoro.
À noite a comitiva dos UHF rumou ao restaurante Xalmas, em Aldeia do Bispo, para o necessário jantar. O recinto estava repleto, sobretudo de pessoas mais jovens. É natural que pessoas de uma certa idade, até pelo início tardio do concerto (para além da meia-noite) não tenham aguentado muito tempo.
Mas, apesar de essas pessoas mais velhas terem ido embora, o recinto continuou cheio.
Os UHF eram constituídos por António Manuel Ribeiro (voz e guitarras), António Corte Real (guitarras – filho de Ribeiro), Ivan Cristiano (bateria) e Fernando Rodrigues (baixo). Uma formação sólida, já com muitos anos de estrada e das mais estáveis da banda.
António Manuel Ribeiro apresentou-se com camisa branca e gravata.
O concerto teve início com «Quando (Dentro de Ti)», a que se seguiu um desfilar dos grandes êxitos da banda de Almada, tais como «Rua do Carmo», «Nove Anos», «Sarajevo» e «Menina Estás à Janela».
Pelo meio ainda foi interpretado o tema «Sou Benfica», com António Manuel Ribeiro a referir que esse tema não era contra ninguém, uma vez que há fanáticos da bola capazes de tudo. Eu que nem ligo «bóia» à bola, lembro-me de ter comprado o CD que contém esse tema e o vendedor me ter perguntado se eu era desse clube, ao que eu respondi que eu era, sim, dos UHF.
UHF em Aldeia VelhaJá perto do final, os UHF interpretaram o tema «Matas-me Com o Teu Olhar», um tema inédito que, surgiria passado algum tempo no álbum «Há Rock No Cais» e se tornaria um grande sucesso.
«Na Tua Cama», «Modelo Fotográfico» e «Rapaz Caleidoscópio» foram outros temas interpretados pelos UHF, sempre muito aplaudidos pelo público.
Com mais de uma hora e meia de concerto, os UHF saíram do palco, regressando para um encore, onde não faltou «Cavalos de Corrida», como é mais que evidente.
O público não puxou mais pela banda e esta não regressou ao palco para um segundo encore. Os UHF chegam a realizar concertos com a duração de duas horas e meia, em noites em que público continua a pedir mais música. Quem quis continuar teve direito a ouvir os Osíris tocar música Rock até às 5 da manhã. Noite memorável…
Este foi um dos melhores concertos dos UHF a que assisti, e já lá vão perto de uma dezena. Nas fotos podem ver-se um momento do concerto dos UHF e o autor desta crónica com três membros da banda, no restaurante Xalmas, em Aldeia do Bispo.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos Míticos – José Cid na Rapoula

Bem sei que o concerto mais mítico na Rapoula do Côa foi o dos Xutos&Pontapés, em 1988. Por qualquer motivo que me escapa, não estive presente nesse concerto.

Joao Aristides DuarteO concerto de José Cid foi no dia 13 de Agosto de 2006. José Cid é um «dinossauro» das cantigas.
Quando este concerto teve lugar contava já 64 anos. Iniciou-se nos anos 50 no conjunto os Babies, em Coimbra, e passou pelo famoso Quarteto 1111, uma referência incontornável de toda a música portuguesa do século XX.
Foi um dos primeiros portugueses a cantar música Rock (na época conhecida como «yé yé»).
Ao contrário do que é, geralmente, dito não se pode atribuir a Rui Veloso a paternidade do Rock português. Se alguém é merecedor do título de «pai» do Rock português, só pode ser José Cid.
Foram inúmeras as suas participações em Festivais da Canção, com canções que toda a gente conhece.
Um álbum seu, intitulado «10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte», é considerado, mesmo a nível mundial, como um dos melhores de sempre do Rock sinfónico. Não consigo explicar porquê, mas José Cid sempre foi um cantor com quem me identifiquei. Conheço e sou capaz de cantarolar as letras de José Cid. Nunca consegui decorar a letra de «Jardins Proibidos», por exemplo que, quase toda a gente aponta como o paradigma de uma letra romântica, mas as letras de José Cid conseguem ficar-me na memória, bem como as melodias, bem simples, mas eficazes. José Cid é conhecido por declarações polémicas como estas: «Gostava que não reparassem só no mau (…). De qualquer forma, o meu pior é muito melhor do que o melhor do Tony Carreira.», em entrevista ao jornal Metro, 2006 ou «Não me mandem cuecas para o palco, eu não sou o Tony Carreira» – na Semana Académica da Universidade do Algarve, 07/05/2007. Após uma fase de um relativo apagamento, José Cid regressou em força, exactamente no ano em que aconteceu este concerto.
José Cid na Rapoula da CôaA banda que acompanhou José Cid neste concerto (com José Gonçalo, nas tecas e Mike Sergeant , na guitarra) não era a big band que actuou no espectáculo do artista, o ano passado, por ocasião da Festa da Europa, no Sabugal. Mas era quase a mesma.
O reportório que José Cid interpretou na Rapoula do Côa foi o habitual: «O Dia Em Que o Rei Fez Anos», «A Anita Não é Bonita», «Na Cabana Junto à Praia», «Ontem, Hoje e Amanhã», «Nasci P’ra Música», «A Rosa Que Te Dei», «Vinte Anos», etc, etc.
Para além destes temas mais conhecidos foram, ainda, interpretados «Rock Rural» (um tema de 1975), «A Lenda D’El Rei D. Sebastião» (do Quarteto 1111) e o tema «Mellotron, O Planeta Fantástico» (do tal disco «10.000 Anos Depois…»).
José Cid apresentou-se em boa forma física, com um lenço palestiniano ao pescoço e com uma voz que deixa muitos famosos a léguas.
Também interpretou um tema com reminiscências a flamenco, tendo usado o banco onde se sentou a tocar o piano para lhe bater com as mãos, utilizando-o como instrumento de percussão. No tema final, José Cid apelou à paz entre os homens, tendo referido que há muita gente que só quer vender armas e fazer a guerra.
O público presente gostou muito do espectáculo. Um dos melhores que alguma vez se realizou na Rapoula do Côa.
Nas imagens, um momento do concerto e o autor desta crónica com José Cid, nos bastidores, no final do concerto.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos Míticos – Paco Bandeira no Sabugal

Francisco Veredas Bandeiras nasceu em 2 de Maio de 1945, na cidade de Elvas. Iniciou-se nas lides canoras nos anos 60, do século XX. O seu maior sucesso, nessa década, foi a canção «A Minha Cidade», mais conhecida pelo refrão «Ó Elvas, Ó Elvas». Em 1972 concorre ao Festival RTP da Canção, com o tema «Vamos Cantar de Pé», classificando-se em segundo lugar. Em 23 de Junho de 1997 esteve presente num concerto de encerramento das Festas de São João, no Sabugal.

Joao Aristides DuartePoucos anos depois do 25 de Abril de 1974, devido à amizade que o ligava ao Toninho Oliveira, do Soito, empresário do ramo das confecções, actuou nas Festas de São Cristóvão, sem cachet.
Participou em diversos convívios com pessoas do Sabugal, nomeadamente com o falecido Presidente da Câmara, Dr. Lopes, facto reproduzido numa das fotografias desta crónica.
Também esteve no Soito, aquando da famosa visita de Mário Soares, em 1977.
Já no final dos anos 80 deu um concerto em Aldeia do Bispo, durante as Festas de Agosto da freguesia raiana.
Paco Bandeira considera-se em casa, quando visita o nosso concelho.
Em 23 de Junho de 1997 esteve presente num concerto de encerramento das Festas de São João, no Sabugal.
Lembro-me de ter ido assistir a esse concerto. Ainda era o tempo em que os mordomos colocavam uma divisória, com pinheiros, para se poder pagar para o baile. O último dia das Festas era (e ainda é, julgo eu) de entrada livre.
A banda que acompanhou Paco Bandeira, nesse concerto era composta pelo já falecido maestro José Marinho (teclados), Marino Freitas (baixo) e Sertório Calado (bateria).
Paco Bandeira tem fama de ter um feitio um pouco difícil com os músicos, embora não seja por nada de grave e, por isso, os músicos estão sempre a mudar. Tanto não é por nada de grave que, músicos que saíram, voltaram a entrar na banda passado algum tempo.
Paco BandeiraPara além destes músicos, participou, como convidado, Samuel, na guitarra e vozes.
Samuel era um conhecido autor e intérprete de cantigas, que esteve ligado ao movimento onde pontificaram nomes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e outros.
O concerto lá se iniciou, não com muito público presente. A grande maioria do público não era constituída por teenagers. Era mais pessoal com uma certa idade (digamos que de meia-idade para cima).
Mas, como eu gosto de ver tocar músicos ao vivo e não de apreciar as vestimentas ou a beleza de certos cantores de charme, não faltei.
Os grandes êxitos de Paco Bandeira não faltaram: «Ternura dos Quarenta», «Chula da Livração» (com o refrão «Vem Ver de Novo…») «Minha Quinta Sinfonia», «A Minha Cidade», «Gipsy Kings», etc., etc.
Uma situação inesperada aconteceu quando alguém pediu para cantarem o tema «Pedra Filosofal», cujo autor da música é Manuel Freire e não Paco Bandeira.
Mesmo assim, Paco não se fez rogado e interpretou a canção, com a ajuda de Samuel, situação que deverá ter sido única na sua carreira.
Paco BandeiraNo final do concerto foi queimado o «Carvalho de São João», o que deixou os músicos bastante intrigados, segundo Samuel me contou. Com efeito, nas minhas consultas em livros sobre tradições populares, a única região do país onde isso existe é no concelho de Sabugal. Agora, que tanto se fala em turismo, era altura de colocar essa tradição em relevo, pelo menos nos folhetos informativos editados pelas entidades ligadas ao sector.
Em Abril de 2007 Paco Bandeira deu um concerto no Soito, integrado na Festa do Mundo Rural, que poderá ser motivo de outra crónica. Este concerto do Soito foi mais «familiar» e muito «à la carte».
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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João Duarte - © Capeia Arraiana (orelha)

Concertos míticos – Sitiados no Sabugal

O concerto dos «Sitiados», no Sabugal, teve lugar no dia 25 de Junho de 1994, integrado nas tradicionais Festas de São João.

Os Sitiados tornaram-se conhecidos em 1992, quando editaram o seu álbum homónimo que incluía o grande sucesso «Vida de Marinheiro».
No entanto a sua origem remonta a 1987. Em 1988 é editada numa compilação do Rock Rendez Vous a canção «A Noite», dos Sitiados. Este tema é mais conhecido pelo seu refrão «Aqui ao luar, ao pé de ti…» e a versão mais conhecida é a dos Resistência, pelo que, nem sequer é identificado como sendo dos Sitiados.
O concerto teve lugar no dia a seguir ao bloqueio da Ponte 25 de Abril.
Estava eu a dar aulas no concelho de Vila Nova de Foz Côa, quando vim passar o fim-de-semana a casa. Na rádio ia ouvindo as notícias sobre o que se passava na travessia do Tejo. Já tinha visto o cartaz das Festas e não poderia perder o concerto dos Sitiados.
O concerto foi brutal, como agora se costuma dizer.
A formação que tocou no Sabugal era constituído por João Aguardela (voz e guitarra), Ani Fonseca (guitarra e coros), Sandra Baptista (acordeão), Jorge Buço (guitarra e bandolim), Jorge Quadros (bateria) e João Marques (baixo).
Jorge Quadros voltaria a tocar nas Festas de São João, no Sabugal, uma vez que seria o baterista dos Delfins, aquando do concerto da banda de «Soltem os Prisioneiros».
SitiadosOs Sitiados eram um dos maiores fenómenos da música portuguesa e já tinham editado o seu segundo álbum «E Agora?», com o grande sucesso «O Circo».
O recinto estava repleto.
Após a actuação do grupo de baile Talismãs, sobe ao palco Laura Diogo, manager dos Sitiados e antiga integrante das Doce, para apresentar os Sitiados ao público.
O grupo entrou com todo o speed e atacou logo com alguns dos seus temas mais emblemáticos, como «O Bicho», «Cabana do Pai Tomás», «Pérola Negra» ou «E Ela Cega». O som estava muito bom.
No palco foi montada uma rampa por onde Sandra Baptista estava sempre a subir e descer, tocando o seu acordeão.
Sandra Baptista, com um acordeão de teclas, não parava quieta um segundo, mostrando ser uma verdadeira performer.
O concerto foi sempre a subir, até que perto do final João Aguardela resolveu perguntar aos presentes se sabiam «qual era a maior banda de Portugal». Ouviram-se vozes referindo o nome dos Xutos, mas João Aguardela fez questão de afirmar que esse estatuto pertencia ao Conjunto António Mafra (uma das maiores influências do Sitiados, que aliavam a Pop e o Rock à música tradicional portuguesa). E os Sitiados tocaram, a seguir, o tema «Menina Yé Yé», um dos sucessos do Conjunto António Mafra.
SitiadosE, perto do final, tocaram; como não podia deixar de ser «O Circo» e «O Baile», para regressarem ao palco (no encore) e interpretarem o tema mais esperado que era «Vida de Marinheiro».
O concerto terminou. Os Talismãs regressaram ao palco para continuar a sua actuação. Curiosamente, os Sitiados estiveram programados para um concerto nas Festas de S. Cristóvão, no Soito, em Agosto do mesmo ano, mas o mesmo foi desmarcado. Teria sido bom se se pudessem confrontar os dois concertos.
Este foi um dos concertos melhores a que assisti nos anos 90 do século XX.
Este artigo é dedicado à memória de João Aguardela, o vocalista dos Sitiados, falecido no passado dia 19 de Janeiro (nos últimos tempos membro de A Naifa), vítima de cancro, aos 39 anos.
Obrigado, por todos os bons momentos, como este do Sabugal, João…
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos míticos – «Táxi» no Sabugal

Desconheço quem organizou o concerto dos «Táxi», no Sabugal. Lembro-me de ter visto um cartaz em algum local e lá fui eu.

Joao Aristides DuarteO concerto teve lugar no dia 7 de Agosto de 1982, no castelo do Sabugal, onde foi montado um palco, no local onde, agora, se encontra o anfiteatro.
O público não era muito, o que entra em contradição com o verdadeiro sucesso que os «Táxi» tinham em todo o País.
Os «Táxi» eram um dos grupos mais famosos da época. Tinham já lançado os seus dois primeiros álbuns, «Táxi» e «Cairo». Este último é uma edição, hoje, de colecção, uma vez que é um LP de vinil dentro de uma caixa de lata.
Os «Táxi» eram do Porto. Antes de se chamarem «Táxi» usaram o nome «Pesquisa» e chegaram a gravar um single sob esse nome.
Em 1981, após o boom do Rock português (que teve início em 1980, com Rui Veloso) mudaram de nome para «Táxi» e editaram o seu primeiro álbum, que continha temas como «Chiclete», «Vida de Cão», «Lei da Selva», «Rosete» ou «TV WC», num estilo que misturava o Ska com a New Wave.
A formação da banda era a seguinte: João Grande (voz), Henrique Oliveira (guitarra), Rodrigo Freitas (bateria) e Rui Taborda (baixo).
O primeiro LP teve produção de António Pinho e Aníbal Miranda.
Aníbal Miranda tornou-se empresário da banda, ao mesmo tempo que desenvolvia uma carreira musical, a solo.
Foi Aníbal Miranda que fez a primeira parte dos «Táxi», no Sabugal.
Anibal MirandaQuando Aníbal Miranda iniciou o concerto disse as palavras «Alto castelão!» referindo-se à imponência do castelo de cinco quinas.
Miranda não era muito conhecido e, ainda por cima, cantava em inglês, numa época em que quase toda a gente o fazia em português, pelo que a sua prestação passou um pouco despercebida. No entanto, não deixou de interpretar «Don’t Shoot», o seu maior sucesso.
A seguir à actuação de Aníbal Miranda, surgiram em palco os «Táxi».
João Grande, o vocalista bem tentava animar as hostes, mas não eram grandes as manifestações de entusiasmo. Lembro-me que alguém comentou a meu lado que o baixista Rui Taborda (um homem bastante alto) era um pouco desprovido de beleza.
O baixista movimentava-se muito em palco, andando, constantemente, de um lado para o outro.
Os «Táxi» interpretaram, claro, os seus grandes sucessos e outros, como «Páginas Amarelas», «Cairo», «Hipertensão» ou «1, 2, Esquerdo – Direito».
Julgo que não houve encore.
Realmente este concerto deixou bastante a desejar. Não só pela pouca afluência de público, mas também porque os «Táxi» se limitaram a tocar os temas como estavam nos discos, sem improvisos ou rasgos de imaginação.
Este concerto só é mítico pelo facto de a banda em causa ser, ela própria, mítica. Musicalmente não teve muito interesse. Aliás, deu para perceber que os «Táxi» não teriam muito futuro, se continuassem no mesmo estilo de música, o que viria a suceder passados cinco anos (e após um interregno de dois anos); quando lançaram um disco cantado em inglês que não obteve qualquer feedback e levou à extinção da banda.
Bilhete para o concertoNo entanto, a nostalgia está aí e os «Táxi» têm agendado o lançamento de um novo álbum para este ano, após terem tocado no Festival de Vilar de Mouros, em 2006.
Aníbal Miranda regressou ao Sabugal, em Abril de 2005 para assistir ao lançamento do meu livro «Memórias do Rock Português», onde contou aos presentes algumas das suas aventuras por terras raianas.
Nas imagens podem ver-se o bilhete do concerto e uma foto de Aníbal Miranda, na época.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos míticos – Rão Kyao no Sabugal

De seu verdadeiro nome João Ramos Jorge, Rão Kyao é um dos melhores músicos portugueses.

Joao Aristides DuarteIniciou-se no Jazz, onde foi um excelente saxofonista, tendo conhecido o êxito em 1983, quando editou o LP «Fado Bailado», onde interpretou com o saxofone vários e conhecidos temas de fado.
Em 1984 abandonou o saxofone e dedicou-se, por inteiro, a tocar flautas de bambu, técnica que aprendeu na Índia, e que já tinha experimentado no LP «Bambu», de 1977.
Em 31 de Maio de 1985 vi um concerto de Rão Kyao (então no seu apogeu), no velhinho Cine-Teatro da Guarda. Foi um magnífico concerto, quase todo baseado no LP «Estrada da Luz» (editado em 1984 e que continha o grande sucesso «Canção da Manhã»), totalmente interpretado em flautas de bambu.
O concerto do Sabugal aconteceu na noite do dia 22 de Junho de 2000, integrado nas Festas de S. João, que decorreram, como habitualmente, no Largo da Fonte.
Rão Kyao no SabugalDesde «Estrada da Luz» até ao concerto do Sabugal, Rão Kyao editou mais de uma dezena de álbuns, portanto tinha um reportório impressionante para apresentar.
O material de som e luzes montado no palco, alugado a Luís Albuquerque, de Celorico da Beira; era de fabrico nacional, da marca Furacão.
O lote de músicos que acompanharam Rão, nesta sua incursão em terras sabugalenses era de primeira água: o baterista Alexandre Frazão, um brasileiro há muitos anos residente em Portugal, que pertenceu aos Resistência, o teclista Renato Júnior (embora com o mesmo nome, nada tem a ver com o dos UHF) e um baixista de que não retive o nome, mas que era um grande instrumentista.
Rão Kyao interpretou no seu concerto temas como «Dança de Rua», «Tróia», «Bombaião» ou «Rusga (Desgarrada)». Infelizmente «Canção da Manhã» não foi tocada.
Um dos temas que tocou foi «Toada Beirã» e como estava em terras da Beira Alta, não deixou de se referir a esse facto.
Embora a maioria do público estivesse longe do palco, principalmente na zona do bar, alguns mais próximos não regatearam apoio ao músico.
Rão Kyao no SabugalRão Kyao faz-se, sempre, acompanhar dum saco, que coloca a tiracolo, onde guarda as suas flautas de bambu (e são várias). Assim aconteceu no Sabugal, onde nunca largou o saco, enquanto esteve nos bastidores do concerto.
Rão Kyao e a sua comitiva só jantaram no final do espectáculo, depois da uma hora da manhã. Tinha sido, previamente, combinado assim, uma vez que o músico nunca come antes do início do seu espectáculo. Sei que apreciou o vinho que acompanhava a refeição e era da Adega Cooperativa de Pinhel.
No final do jantar, Rão Kyao dirigiu-se para o bar, onde permaneceu em alegre convívio com os membros da Comissão de Festas e outros noctívagos.
Ele só bebia vinho e só queria mesmo o de Pinhel. Esteve bastante tempo no bar, convivendo, sem quaisquer tiques de vedetismo.
É essa imagem que eu guardo de Rão Kyao: um grande músico, dos melhores que o País possui e que nem sequer autorizava que lhe chamassem senhor.
Enquanto o seu road manager, muito mais novo que ele, foi para a cama, Rão Kyao permaneceu até perto das 3 da manhã, no recinto das Festas de S. João.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos Míticos – UHF no Soito

O segundo concerto dos UHF, no Soito, teve lugar no dia 9 de Agosto de 1992, integrado nas Festas de São Cristóvão.

Joao Aristides DuarteFormados em 1978,em Almada, ainda hoje a sua cidade fetiche, os UHF são a banda com maior longevidade no panorama musical português, ultrapassando mesmo os Xutos & Pontapés, que é considerada a banda mais antiga. Mas esse feito pertence, sem margem para dúvidas, aos UHF. Após várias mudanças de formação, os UHF estavam prestes a lançar o seu LP «Santa Loucura» que voltaria a colocá-los na ribalta, uma vez que nele estava incluída uma versão do tema tradicional «Menina Estás à Janela». Tinham lançado, em Outubro do ano anterior (1991), o LP «Comédia Humana».
Neste concerto do Soito os UHF incluíam António Manuel Ribeiro (voz e guitarra), Rui Dias (guitarra, ex- Quinta do Bill), Renato Júnior (teclas e saxofone), Nuno Espírito santo (baixo) e Luís Espírito Santo (bateria). Estes dois últimos eram pai e filho, sendo que o pai era o Luís.
Ouvi muita gente dizer que este concerto dos UHF iria ser um fracasso, uma vez que o Soito não estava preparado para o Rock. Por outro lado a aposta total era no concerto de Frei Hermano da Câmara, que se apresentaria no dia a seguir aos UHF e que, esse sim, se revelou um fracasso total. A aposta nos UHF revelar-se-ia a mais apropriada.
Logo à tarde tive oportunidade de falar e cumprimentar António Manuel Ribeiro, quando ele chegou ao recinto para fazer o ensaio de som. Disse-me que o próximo disco iria ser mais um «disco de guitarras» e tal revelou-se uma realidade.
Como sempre os UHF tocaram temas do seu reportório antigo (já então com perto de 10 LP’s gravados). Alguns temas do LP «Comédia Humana», como «De Segunda Até Sexta» também pertenceram ao alinhamento deste concerto.
António Manuel Ribeiro não se esqueceu de referir que já tinha tocado no Soito, há muitos anos atrás (no dia 2 de Maio de 1981 – cuja crónica já foi aqui publicada), num concerto onde a primeira parte pertenceu aos Xutos & Pontapés.
UHF no SoitoO saxofone de Renato Júnior dava um novo colorido aos temas mais emblemáticos dos UHF, tais como «Rua do Carmo» ou «Cavalos de Corrida».
A banda estava muito bem entrosada, com os elementos a movimentarem-se em palco e notando-se que estavam a gostar do concerto.
O concerto demorou perto de duas horas, com a banda sempre a «bombar». António apresentou-se com calças de napa preta e camisa branca.
Nalguns dos temas limitou-se a cantar, noutros tocou guitarra, acompanhando Rui Dias.
«Nove Anos», «Este Filme», «Brincar no Fogo» ou «Na Tua Cama» foram alguns dos temas que a banda executou no concerto do Soito.
No final o público pediu o regresso dos UHF ao palco e estes voltaram para tocar «Hesitar», onde o saxofone de Renato Júnior tem um papel preponderante.
Mas o público ainda não estava saciado e os UHF regressaram, mais uma vez, para terminarem o seu magnífico concerto com «Cavalos de Corrida».
Um dos melhores concertos dos UHF a que tive oportunidade de assistir, e já foram bastantes aqueles que eu presenciei da banda de Almada.
Nas imagens podem ver-se dois momentos da actuação dos UHF nesse concerto.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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A minha (nossa) companheira Música

Desde os bancos da escola primária que a música me marcou. Não consigo explicar isso, mas acho a música uma das artes mais fantásticas da humanidade. Para mim a música é muito mais que simples entretenimento. Não conseguiria, pura e simplesmente, viver sem música. Sou, sobretudo, um amante de música pop (no sentido lato, ou seja popular), uma vez que não me considero muito versado em música mais erudita.

Joao Aristides DuarteLogo na escola o meu professor (professor Abadesso, natural de Castanheira-Guarda, que foi longos anos professor no Soito) costuma cantar com os alunos o Hino Nacional e a canção infantil «O Nosso Galo é Bom Cantor». Não que eu tivesse algum jeito para cantar, mas nunca mais esqueci.
No Colégio do Soito, onde andei meia-dúzia de anos a estudar, tínhamos aulas de Canto Coral. O professor desta disciplina era o padre Luís, na época pároco na Bismula.
No Natal o Colégio costumava organizar uma Récita, que tinha lugar no Salão Paroquial. Esta incluía uma série de sketchs, normalmente humorísticos e canções que o Grupo Coral do Colégio cantava. Antes da formação do Grupo Coral, o padre Luís costumava escolher os melhores para essa função. Lembro-me bem de ter sido eliminado logo à primeira. Nunca pertenci a esse Grupo Coral, por total falta de jeito para as cantorias, mas ainda hoje recordo as canções que o Grupo cantava, nessas Récitas.
Nas aulas de Canto Coral o padre Luís costumava trazer uma série de discos (LP’s que rodavam a 33 RPM) para ouvirmos e depois cantarmos em coro. Uma das canções que nós cantávamos, muito antes do 25 de Abril de 1974, era a «Grândola, Vila Morena» do José Afonso. Não foi surpresa nenhuma, para mim, a canção-símbolo da Revolução. Já a conhecia há um par de anos.
Durante a Revolução houve muitas canções que, de repente, saltaram para as ondas da rádio, que eu desconhecia.
Antes, o Festival da Canção mobilizava verdadeiras multidões. Também assisti a alguns Festivais RTP, nos finais dos anos 60 e início dos anos 70, uma vez que já tinha televisão em casa dos meus pais.
Cancioneiro PopularFoi nesse período que ouvi na rádio nomes como o GAC (motivo de crónica anterior, a propósito de um concerto no Soito, em 1975), Sérgio Godinho, José Mário Branco, etc., etc.
Depois seguiu-se o período da descoberta da música rock portuguesa, nos Bailes de Finalistas, na Guarda ou no Sabugal, onde vi grupos fantásticos como os Psico, Elo, Arte & Ofício, Ananga – Ranga, Hosanna, os Faíscas, etc.
Esta foi uma época fantástica. Quim Barreiros já andava por aí (iniciou a sua carreira em 1971), mas não consta que nenhum estudante tivesse a ousadia de dizer para ser contratado para animar uma festa estudantil.
Mas, sem nunca deixar para trás a restante música portuguesa, nomeadamente a tradicional, e o pop/rock internacional.
Descobertos nomes como Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Quadrilha e outros da mesma linha, mais moldei o gosto pela música nacional.
A colecção das recolhas de Michel Giacometti, um dos maiores (senão o maior) dos pesquisadores da nossa música tradicional foi outro dos motivos que me leva a proclamar que Portugal tem das melhores músicas do mundo. Um dos temas recolhidos por Giacometti e que consta do livro «Cancioneiro Popular Português» foi «Azeitona Cordovili», de que existe uma versão em música de câmara por parte do seguinte leque de intérpretes: Coro de Câmara e Orquestra de Instrumentos d’Arco; Orquestra da Fundação Musical dos Amigos das Crianças; Leonardo de Barros, direcção; Victor Paiva, direcção coral; Dimitrinka Dontcheva, piano; Vasco Gouveia, flauta; Manuel Lopes da Cruz, oboé. Este tema foi recolhido em Quadrazais. Deve ser um motivo de orgulho de todos os sabugalenses ter tido um tema do seu cancioneiro incluído nesse livro essencial.
Arte e OficioFoi assim, numa evolução normal, que surgiu o boom do rock português, em 1980, através de Rui Veloso (a primeira cópia vendida em Coimbra do LP «Ar de Rock» do Rui Veloso foi a mim, pelo menos na Valentim de Carvalho, ainda estavam os discos no caixote). E veio a descoberta dos GNR, Rock & Várius, UHF, Xutos & Pontapés, Salada de Frutas e tantos outros, alguns dos quais tive oportunidade de ver ao vivo.
A evolução da música (sobretudo nacional) teve o seu percurso que segui atentamente.
A descoberta dos tesouros escondidos da música portuguesa (actualmente a música que prefiro) veio, também, naturalmente. Embora eu não seja daqueles que gostou de rock, quando tinha 18 anos e agora (porque tem perto de 50) tem que gostar de fado. Quando eu tinha 18 anos gostava de rock, sem dúvida, mas já apreciava fado.
Hoje tento descobrir o que posso da música nacional, sobretudo dos anos 60 e 70, a qual me passou ao lado, porque era impossível conhecer tudo.
Um bom ano de 2009 para os leitores deste blogue, com muita música portuguesa. Os «Concertos Míticos» irão prosseguir.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos míticos – Quinta do Bill no Soito

Ano 2001, noite do dia 14 de Agosto: milhares de pessoas assistiram ao concerto da Quinta do Bill, no Soito, integrado nas Festas de São Cristóvão.

Joao Aristides DuarteNesse ano a Quinta do Bill ainda estava no auge, facto que hoje já não acontece.
Realmente, pelos finais dos anos 90 e primeiros anos do século XXI, a Quinta do Bill tinha uma média de 40 concertos por ano. Hoje, se tiver 20 concertos já é muito bom.
O concerto da Quinta do Bill, no Soito foi o espectáculo mais caro que, alguma vez pisou um palco da freguesia. Este facto motivou uma série de comentários de pessoas pouco informadas, mas o que é facto é que as Festas de S. Cristóvão, nesse ano, não deram prejuízo. Ao contrário do que muita gente diz, as Festas do Soito (que terminaram no ano seguinte, só voltando em 2005, após três anos de interregno) não acabaram porque estavam a dar prejuízo, mas sim por outros motivos. Mas, isso é outra história…
A montagem do equipamento de som e luzes da Quinta do Bill (transportado num camião TIR) iniciou-se às 10 da manhã e só terminou pelas 20 horas.
Durante a tarde, ao lado do palco decorria a capeia. De vez em quando os músicos da banda espreitavam para verem tão singular espectáculo, que desconheciam por completo.
Como eu pertencia à organização, por ser membro da Comissão de Festas desse ano, pude aperceber-me da quantidade de cabos de ligação aos sistemas de som e luzes espalhados pelo palco. Realmente, não havia quase espaço nenhum, onde não houvesse um cabo. Os músicos não podiam fazer grandes movimentos, embora o palco fosse todo para a Quinta do Bill.
Neste ano eram membros da banda Carlos Moisés (voz, guitarra acústica e flauta), Nuno Flores (violino), Miguel Urbano (acordeão, guitarra e teclados), Cató (guitarras e banjo), Paulo Bizarro (baixo e voz) e Jorge Costa (bateria).
Por vota da meia-noite e meia iniciou-se o concerto. A abertura foi com «Dá-me a Verdade». Logo nos primeiros segundos do concerto teve início uma série de efeitos pirotécnicos que só terminariam no último tema. O som estava espectacular.
Quinta do BillSeguiram-se os temas «Basta!» e «O Fim do Mundo». Depois o concerto seguiu em crescendo com «Voa, Voa» (este tema teve um esplêndido jogo de luzes inicial), o instrumental «Gualdim Pais, Umas Vezes a Trote, Outras Vezes a Galope» (com Carlos Moisés a tocar flauta) e a apresentação do novo tema «1001 Lendas» (que seria lançado no novo álbum intitulado «Nómadas», saído em Outubro desse ano).
«Parar o Tempo» (também com pirotecnia) foi o tema seguinte, a que se seguiu a balada «Se Te Amo».
Outro instrumental «Anoitecer em Dublin» seguiu-se no alinhamento. Depois foi a vez de «Mão na Consciência» e «Índios na Reserva».
«Donas de Bem», «Goa» e o instrumental «Aljubarrota» antecederam o momento mais festivo com «Festa dos Vencidos» e «Senhora Maria do Olival». Na parte final deste último tema entrou em cena um “cabeçudo” que percorreu a parte de trás do palco, enquanto Carlos Moisés tocava flauta.
Os últimos temas foram «Alcácer Quibir» e «Menino». Nesta altura já todo público próximo do palco dançava sem parar.
A banda despediu-se e o público pediu, insistentemente, um encore.
A banda regressa ao palco e oferece ao público «Filhos da Nação» (o tema mais aguardado) e «No Trilho do Sol». Neste tema final, um membro do staff da banda tocou didgeridoo, um instrumento típico dos aborígenes australianos, antes de tudo terminar com um espectacular efeito pirotécnico.
A banda regressou ao palco para agradecer ao público, mas não voltou a tocar. Carlos Moisés despediu-se com um «Querem dançar?» e um «Vamos pegar o touro?» (referência ao que viram durante a tarde), a que se seguiu uma gravação de um tema dos galegos Celtas Cortos, até tudo ser desligado.
Um concerto inesquecível, este da Quinta do Bill, no Soito. Nas imagens podem ver-se alguns momentos desse concerto.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos míticos – Pedro Barroso no Soito

Pedro Barroso nasceu em Lisboa, em 1950 e estreou-se no célebre programa da RTP, Zip-Zip, em 1969. Lançou o seu primeiro disco, intitulado «Trova-Dor» em 1970. Gravou já mais de uma dúzia de long-plays. É uma grande voz e autor de quase todos os temas que interpreta.

Joao Aristides DuarteSão dele estas palavras: «Actuei em sítios onde nunca se vira um microfone. Outros, graças a geradores, onde não havia luz, sequer. É uma história imensa que fica por fazer. Um dia, se houver justiça e tempo, se poderá e deverá investigar melhor a forma desarrumada e breve, intensa e imperiosa que mascarava a raiva de lutarmos com armas desiguais. Eram tempos em que tudo era instintivo e puro. Genuíno. Convidavam-me para ajudar à ambulância nova dos Bombeiros; para ajudar àquela miúda que tinha leucemia e não havia dinheiro. Tantas coisas assim.»
O seu concerto no Soito aconteceu na noite de 9 de Agosto de 1993, integrado nas Festas de São Cristóvão.
Pedro Barroso é amigo da família de Catarina Furtado, cujas raízes estão no Soito. Efectivamente, a mãe da apresentadora de televisão é natural do Soito. Pedro Barroso já tinha estado na quinta que os avós de Catarina possuíam no Soito, muitos anos antes do concerto. Segundo me contou uma prima de Catarina Furtado, a família Garcia da Fonseca era amiga da família de Pedro Barroso.
Pedro Barroso iniciou o seu concerto agradecendo o convite e referindo um episódio que o tinha marcado: antes do espectáculo ele dirigia-se para a residencial e deixou esquecida a sua pochette num muro. Uma habitante do Soito dirigiu-se à residencial e entregou o objecto (que continha certamente documentos) De seguida aproveitou para se referir a alguns artistas que trazem a «música no bolso», sem dirigir a crítica a ninguém em particular. A sua referência era dirigida àqueles artistas que actuam em play-back. Pedro Barroso faz-se, sempre, acompanhar de músicos nas suas actuações.
a Pedro Barroso. O cantor definiu tudo em duas palavras: «Gente boa!»
Pedro BarrosoA banda de Pedro Barroso era constituída por um acordeonista, um flautista (que também tocava gaita-de-foles e percussões tradicionais), um pianista e ele próprio em guitarra acústica e adufe. Este grupo acompanha Pedro com sobriedade, mas com muito profissionalismo.
Durante o concerto puderam ouvir-se temas como «Ramalhete Rubro de Papoulas», «Cantarei», «Viva Quem Canta», «Fado da Charneca», «Ai Consta», «Eu Hei-de Meu Bem, Eu Hei-de» e o tema mais conhecido de Pedro Barroso, que um dia ele levou a um Festival da Nova Canção Portuguesa, organizado pele RTP, intitulado «Cantar Brejeiro (A Perninha da Menina)».
O público presente, muito atento, não regateou aplausos ao cantor, que terminou a sua actuação com um tema bastante dançante e próximo da música tradicional.
Pedro Barroso é, hoje, um nome reputado de um certo estilo de música, desalinhada, mas marcadamente portuguesa.
Embora desconhecido por muitos, sobretudo os menos atentos ou apegados a fenómenos de moda (sempre passageira), não deixa de ter o seu público e ser um digníssimo representante da (boa) música portuguesa.
Foi um dos melhores concertos a que assisti no Soito. Apesar de não ter aparato, não ter bailarinas, ser escasso em luzes, este concerto marcou-me.
Nas imagens podem ver-se momentos da actuação de Pedro Barroso, no Soito.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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Concertos míticos – Delfins no Sabugal

Os Delfins formaram-se em 1981, em Cascais. Quando começaram chamavam-se Fanfarra. Pouco tempo depois, entrou Miguel Ângelo e a banda mudou de rumo, tornando-se mais Pop.

Joao Aristides DuarteMiguel Ângelo deve o seu nome ao facto de ser filho do pintor Magalhães, um pintor de «impressionismo à espátula», com alguns quadros relacionados com motivos das freguesias do Soito e Vilar Maior, no concelho de Sabugal.
Com efeito, Magalhães participou em algumas exposições, no Soito (nas Festas de S. Cristóvão) e em Vilar Maior. Na sede da Junta de freguesia do Soito há um quadro pintado por Magalhães. Embora já de uma certa idade, Magalhães era um bom vivant, nas suas passagens pelo Soito e pessoa que gostava de conviver.
Quando os Delfins tocaram no Sabugal, no dia 21 de Junho de 2003 tive ocasião de dizer a Miguel Ângelo que conhecia o seu pai e de lhe perguntar como se encontrava de saúde.
O seu trajecto musical atingiu o apogeu em 1995, quando editaram o CD «O Caminho da Felicidade», uma compilação de êxitos, que atingiu cifras astronómicas de vendas.
Nos anos 90 os Delfins realizaram um concerto na Rapoula do Côa, quando ainda não eram muito conhecidos.
O concerto do Sabugal, realizado por ocasião das Festas de S. João, ocorreu no maior palco montado no Sabugal até essa data. Doze metros de boca e dez metros de largura eram as medidas do palco.
A estrutura de som e luzes dos Delfins demorou mais de oito horas a montar.
Antes de os Delfins iniciarem o seu concerto, subiu ao palco Alexandre Garrett, um cantor que era amigo da banda e tentava a sua divulgação pública.
DelfinsO concerto dos Delfins iniciou-se com os membros da banda usando uns fatos-macacos amarelos e, Miguel, uns óculos de mergulhador. Na terceira canção do alinhamento os membros da banda despiram esses adereços e apresentaram-se com a sua roupa habitual.
A banda apresentou-se com uma formação que incluía Miguel Ângelo (voz), Rui Fadigas (baixo), Fernando Cunha (guitarra), Luís Sampaio (teclados) e Jorge Quadros (bateria). Este último já tinha tocado uns anos antes no mesmo recinto, já que foi o baterista dos Sitiados. Realmente, ele lembrava-se que tocou num sítio onde havia um bar com esplanada atrás do palco. Era mesmo o local das Festas de S. João, no Sabugal.
Para além destes músicos ainda participou no espectáculo um vídeo-jockey escocês que já falava bem português, o qual ia colocando imagens ao longo do concerto, num ecrã que existia a meio do palco.
Para além dos sucessos, tais como «Sou Como Um Rio», «A Nossa Vez», «1 Só Céu», «Bandeira» ou «Nasce Selvagem», os Delfins tocaram alguns temas do disco que tinham editado havia pouco tempo, intitulado «Babilónia».
Claro que os espectadores queriam encore e os Delfins corresponderam aos anseios do público, tendo regressado ao palco para tocarem um último tema.
Este concerto ficou-me na memória por ter sido a primeira vez que vi os Delfins ao vivo e, porque até aquela data, apenas o concerto dos Trovante tinha superado a prestação dos Delfins, em música ao vivo, no Sabugal.
Os Delfins terminarão a sua carreira no ano 2009, como foi, há uns meses, anunciado pelos membros do grupo.
Na imagem pode ver-se o início do concerto dos Delfins, com Fernando Cunha e Miguel Ângelo usando os fatos-macacos, numa foto da minha autoria.
«Música, Músicas…», opinião de João Aristides Duarte

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