Category Archives: Memórias do Castelo

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (8)

Dentro dos contributos para a história do Hospital do Sabugal, apresenta-se a derradeira transcrição do Bloco de Recordações do Sr. Dr. Francisco Maria Manso, onde fala da actividade do Hospital logo após a sua inauguração e descreve a sua acção enquanto médico.

Romeu Bispo«01.03.1940
Chegaram em meados de Fevereiro as Irmãs e abriu o Hospital com carácter definitivo. Nada de reclamo, nada de exibicionismo. Provisoriamente parece ter-se resolvido dentro da Comissão da Misericórdia que fizessem serviço os dois médicos do Hospital. Se houvesse concursos, com as respectivas condições, no Diário do Governo, ter-me-ia, talvez, resolvido a não concorrer, mas desta forma, sem saber se remunerado, se gratuito, não me pareceu razoável tomar deliberação contrária à opinião da Comissão da Misericórdia e assim entendeu também o Sr. Dr. José Batista Monteiro, que ficou fazendo serviço na enfermaria dos “homens”.
Quando os lugares sejam postos a concurso, a Comissão resolverá a escolha entre os concorrentes e até lá não se devem criar dificuldades a tão simpática e humanitária Instituição.

14.02.1945
Quasi cinco anos são passado sem escrever neste livro qualquer facto importante da história do Hospital da Misericórdia.
Manuscrito de Francisco Maria MansoDepois da nomeação provisória, minha e do Dr. José Batista Monteiro, entrou em acção a correspondência trocada entre a Misericórdia (Dr. Carlos Frazão) e a Direcção de Assistência de Lisboa
Para encurtar razões e discussões, a Direcção da Assistência informou que não podiam os médicos municipais serem nomeados para o Hospital, porque eram preferidos os médicos desempregados, isto é, sem lugar oficial. Não querendo de forma alguma ir de encontro a ideias tão “sociais” o Dr. José Batista e eu, resolvemos abster-nos de enviar os nossos documentos ao concurso e assim nos puseram termo a tantos trabalhos e canseiras. Da minha parte não sei se lucrei, se perdi. Amava o Hospital, que foi a dama dos meus pensamentos durante alguns anos. Ali, pensava executar operações cirúrgicas urgentes para as quais me considerava habilitado e nas quais me exercitei na técnica cirúrgica com o mestre Bissaia Barreto e donde saímos habilitados por cursarmos aquele, apenas 8 ou 10 estudantes e termos como programa toda a alta cirurgia. Pensei mesmo em voltar a cursar a cirurgia durante alguns meses para assim poder operar os doentes pobres, porque dos ricos não esperava ser cirurgião porque demais sabia que “Santos da porta não fazem milagres”.
Seja como for, a verdade é que muitos trabalhos me poupou a Direcção da Assistência recusando a nomeação.
Um dos primeiros doentes que foi morrer ao Hospital, foi o benemérito do mesmo Hospital, Sr. Pe. Joaquim Nabais Caldeira. Ali terminou os dias, não o podendo acompanhar na doença em virtude da minha exclusão, de médico, daquela casa.
O Concelho de Sabugal com 800 Kilómetros quadrados de superfície tem ainda poucos médicos e assim todos nos vemos assoberbados com trabalho, sendo o hospital uma forma de tratar doentes em conjunto que aumentariam ainda o nosso trabalho, para tratá-los cada um por sua vez, nos seus domicílios.
Actualmente e desde o início, por 1940, fazem serviço no Hospital os senhores Doutores Adalberto Pereira e José Gonçalves Pina
Os povos felizes não têm história e parece que sucede o mesmo ao Hospital.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Turismo

No Grande Dicionário de Língua Portuguesa encontramos a seguinte definição para a palavra Turismo: «Tendência de quase todos os países civilizados e de economia algo abastada para viajarem através de países naturalmente pitorescos ou que tiveram longa e brilhante história…».

Romeu BispoPodemos encontrar outras definições mas a definição moderna de turista é «um visitante que se desloca voluntariamente para fora da área da sua residência e do seu trabalho por múltiplos interesses, mas sem ter como motivação o lucro».
O turismo encontra-se presente na actividade humana desde a Idade Antiga, na civilização Grega e chegando até à década de 1950 como actividade residual. Após essa data surgiu o boom turístico que se estendeu até 1973; daí para cá o crescimento tem sido contínuo, embora mais lento. Devido ao seu crescimento, actualmente, assume posição relevante na economia global e de alguns países em particular. O primeiro país em número de turistas é a França, mas a nossa vizinha Espanha em 2008 registou 57,3 milhões de visitantes.
Há diversos tipos de turismo que se vêm afirmando pela sua especificidade: Turismo de descanso de praia, neve ou montanha, Turismo cultural, religioso, desportivo, ambiental, rural, cinegético, gastronómico… Podemos concluir que há imensas nomenclaturas para os diversos tipos de turismo.
Embora tomando a classificação do aspecto dominante, este não é estanque e tem sempre interligações com outros tipos de Turismo. Quem se desloca por um determinado motivo tem de se alimentar, hospedar e distrair.
Será que o Concelho de Sabugal tem afirmação possível no Turismo?
Há sempre espaço de afirmação desde que no Concelho apareçam centros de interesse para os diversos tipos de turismo. Numa primeira análise podemos identificar como possíveis o Histórico-Monumental, o Ambiental, o Termal e o Gastronómico.
Temos vindo a assistir, há muitos anos, à defesa do Turismo como indústria possível de ser implementada no Concelho. Os resultados desta visão estratégica é que são diminutos e nem o facto de sermos vizinhos de Espanha nos traz alguma mais-valia.
Pensamos que é possível fazer algo diferente, e exemplos de melhores práticas não faltam: Belmonte vem há alguns anos a afirmar-se na nossa região. É um nome, uma marca que vai ganhando dimensão e expressão a nível nacional e internacional. Belmonte afirma-se pelo Turismo histórico, religioso e cultural; os resultados já são visíveis nos 80.000 visitantes da sua meia dúzia de museus. São muitos os brasileiros que se deslocam a Belmonte para ver o Museu dos Descobrimentos porque está na terra de Pedro Alvares Cabral, o descobridor. O fenómeno judaico tem vindo a ser aproveitado como motivo para o Turismo religioso.
Sabemos que estão atentos a possíveis atracções e por isso não se coíbem de apontar Sortelha como um ponto de interesse para quem visita Belmonte. O Sabugal, por si, não tem feito a ligação de Sortelha ao resto do Concelho, deixa que sejam outros a explorar o motivo e é, possivelmente, esta a razão porque o turista visita Sortelha e volta pelo mesmo caminho, não chegando ao Sabugal.
O nome «Sabugal» ainda não vende, não há nome ou imagem que se afirme. Ainda não se descobriu ou não se quer descobrir a importância dos Castelos de Sabugal, de Alfaiates, de Vilar Maior ou de Vila do Touro. Por vezes até transparece das palavras e da actuação dos responsáveis como que alguma vergonha daquilo que temos e somos. Os turistas ou simples visitantes valorizam demasiado o Castelo de Sabugal, como construção militar ou monumento medieval. Tem um valor simbólico enorme que vai além do que as pessoas que sempre passaram à sua beira imaginam. Porque não qualificá-lo ou qualificá-los de interesse concelhio? – Possivelmente não têm interesse…
Quando afirmo que não sabemos vender o que temos e somos, basta pensar no desencanto com que alguns visitantes recebem aqueles paus em forma de triângulo (forcão) que acabam por ir parar à garagem porque passado algum tempo já nem sabem o que é, quanto mais o que significam. Quando se oferece um forcão a um forasteiro, este tem de levar uma legenda que faça a explicação do fenómeno e do seu significado, sob pena da perda do valor imaterial do objecto.
Um circuito turístico, uma marca, um conceito, necessita de muitos recursos e alguns anos para se afirmar. É tempo de começar a trabalhar na estratégia que leve aos fins pretendidos.
«Memórias do Castelo», opinião de Romeu Bispo

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (7)

Dentro dos contributos para a história do Hospital do Sabugal, apresenta-se mais uma transcrição do Bloco de Recordações do Sr. Dr. Francisco Maria Manso, onde fala da actividade do Hospital logo após a sua inauguração e descreve a sua acção enquanto médico.

Romeu Bispo«Hospital – 20-11-1938
Poucos dias depois de inaugurado o Hospital, foi internado o menor Francisco Monteiro Ferreira, com febre tifóide. O doente deu entrada no hospital depois de tratado duas semanas em sua casa. O estado do doente inspirava sérios cuidados e colhi o sangue para confirmação do diagnóstico de Widal. O diagnóstico foi confirmado e principiou-se com abalneoterapia fria. Deram-se dois banhos por dia. As temperaturas ao fim de uma semana fizeram uma descida em lisis e actualmente podemos considerar o doente livre de perigo. A temperatura de manhã está normal e à tarde tem um acréscimo para 37 º. Parece pois que o Hospital se iniciou bem, se atendermos a que o doente foi internado por temor de morte próxima.
Manuscrito de Francisco Maria MansoUm facto que desejo exarar é o do primeiro doente morto no hospital. Sucedeu ontem, dia 19 de Novembro de 1938. Pelas 7 horas da noite fui procurado em minha casa para ir ao hospital ver um homem que ficou debaixo de uma camioneta e estava em perigo de vida. Fui imediatamente e encontrei sobre a mesa de observações do consultório um homem de 28 anos, robusto, com o fácies cadavérico, as extremidades frias, sem pulso e proferindo com frequência que estava morto. Dei uma injecção de cafeína. Mandei dar outra de óleo canforado, passados instantes e verifiquei a realidade terapêutica. Pela palpação notei a fractura da 4º costela direita, dando crepitação óssea quando o doente mudava de posição. Mandei que se despisse o doente e ao voltá-lo sobre o lado esquerdo notei uma deformidade do osso “sacrum” que estava fracturado com uns oito centímetros de saliência da região direita para a esquerda. A perna direita encontrava-se assim sem movimentos e a fractura da bacia trouxe ao doente um estado de dor muito acentuado. Deviam existir grandes lesões dos órgãos abdominais. O doente sucumbia uns 30 minutos depois da sua entrada no hospital, depois de o ter mandado deitar sobre a primeira cama do lado esquerdo da enfermaria à direita (quando se entra para o corredor). Este pobre homem era do Meimão e deixou três filhitos. Era extremamente pobre. Mandei que fosse levado para a capela do cemitério e ali esperasse pela vinda da família.
Foi este o primeiro óbito havido no Hospital de Sabugal. O pobre homem vinha numa camioneta e pretendeu descer sem avisar o chaufeur, descendo em movimento. Perdeu o equilíbrio e a roda de traz passou resvalando pelo tórax, abdómen, para passar por cima dos ossos da bacia que fracturou internamente».
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (6)

Dentro dos contributos para a história do Hospital do Sabugal, apresenta-se mais uma transcrição do Bloco de Recordações do Sr. Dr. Francisco Maria Manso que acaba por ser um texto descritivo da Inauguração do Hospital.

Foi obra de muita doação e muito querer principalmente do seu primeiro benemérito porque além do terreno para a construção foi dando outras valiosas contribuições, da Comissão da Misericórdia, da Câmara Municipal, do Sr. Dr. Manso que também colaborou pessoalmente e de todos aqueles que colaboraram directa ou indirectamente. Foi necessário quase uma década para se inaugurar uma obra necessária a todo o Concelho, mas fica demonstrado que a persistência acaba por vencer.

Outubro de 1934«09-10-1938
Acabo de chegar da inauguração do Hospital, ou melhor dito da sessão de abertura.
Presidiu sua Exª. Reverendíssima o Sr. Bispo auxiliar da Guarda – D. João.
Falou em primeiro lugar sua Exª. R.ª, depois o Sr. Dr. Carlos Frazão que fez um belo discurso elogiando a obra do Sr. Pe. Manuel e mostrando as vantagens do Hospital para os doentes pobres. Seguidamente li algumas palavras e referências a este livro. Falou em seguida o Sr. Cónego “Alvaro” que fez uma bela oração ligando a caridade dos hospitais à religião.
O Sr. Bispo declarou finalmente que é costume dizer-se “está encerrada a sessão”, mas que neste caso ele diria que está aberto o hospital e que ele precisa do carinho de todos.
Passou-se à sala das sessões onde a filhita do Sr. José Maria Baltazar descerrou o “retrato” do SR. Pe. Manuel Nabais Caldeira, tendo usado, nesse momento, a palavra o Sr. Dr. César Louro que elogiou calorosamente a acção do Sr. Pe. Manuel.
O Sr. “Abade Fatela” desta vila tomou a palavra e num discurso entusiasta elogiou também a bela acção do Sr. Pe. Manuel, relacionando a formação dos hospitais com a crença religiosa.
Padre Joaquim Nabais CaldeiraOs bombeiros fizeram ouvir o seu Clarim tocando a sentido e o Sr. Pe. Manuel comovidamente agradeceu pronunciando as únicas palavras, belas e inspiradas, que um homem bom de coração pode pronunciar: “Estou velho pouco mais já posso fazer, mas depois da minha morte peço-lhes que olhem por isto”. Estas palavras são um poema de bem e pronunciar mais seria tirar todo o merecimento a quem as pronunciou, pois delas nasce um infinito de pensamentos e de considerações.
Teve lugar a sessão na enfermaria da esquerda que se encontrava inteiramente repleta pela assistência, vendo-se não só as pessoas de mais representação na Vila, mas ainda muito povo principalmente raparigas que volitavam por todos os cantos para satisfazer a sua curiosidade.
As salas estavam limpas e a impressão colhida por todas pareceu boa.
Como estou de serviço este mês procurarei dar início à obra para que foi destinado, tratando o melhor que posso e sei, os doentes que ali forem internados, ainda que provisoriamente pois não se montou a cozinha e apenas fica um enfermeiro para receber algum doente e vir avisar de que é preciso ir ao Hospital. Se forem necessárias dietas ficou determinado pela “Comissão” encomendar essas dietas em qualquer das pensões, enquanto a enfermagem pelas Irmãs da Caridade se não fizer.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (5)

Continuamos a transcrever excertos do caderno de apontamentos do Sr. Dr. Francisco Maria Manso, existente na Santa Casa da Misericórdia do Sabugal, onde constam pormenores interessantes acerca da edificação do Hospital do Sabugal.

Outubro de 1934
«Largo tempo sem escrever nestas memórias o seguimento das obras no hospital. Alguns factos se deram dignos de menção: Feita a petição ao Ministro das Obras Públicas para subsidiar as obras do Hospital, depois de muitos pedidos e bastante morosidade nos despachos e devido certamente ao muito interesse mostrado sempre Governador Civil Sr. Dr. A. Borges Pires, chegou enfim a notícia da comparticipação do Estado nas Obras, em cem contos!!! Preciso se torna executar trabalhos para receber esta verba, mas o recebimento há-de ser um facto, como um facto indiscutível há-de ser a sua conclusão e breve abertura ao desempenho da santa missão a que se destina.
6 de Fevereiro de 1938
O facto mais importante a relatar consiste no oferecimento pelo Sr. Pe. Joaquim Manuel Nabais Caldeira de todo o mobiliário do Hospital. A sua generosidade foi ainda até ao oferecimento do material cirúrgico para a sala de operações, consultório médico, etc…
Incumbido pelo Sr. Pe. J.M.N.C. de escolher o material cirúrgico, em ocasião que tive de ir a Lisboa, escolhi nos diferentes laboratórios o material que me pareceu necessário e depois do confronto de preços e qualidades organizei relações do indispensável para sala de operações, consultórios e enfermarias, relações que entreguei ao Sr. Pe. J.M.N.C.
Manuscrito de Francisco Maria MansoO custo do material escolhido orçava por uns trinta contos e essa importância foi imediatamente posta à disposição para a compra da totalidade do material. Várias reuniões entre o Sr. Sousa Martins, o Sr. Pe. J.M.N.C. e eu, e consultas a casas fornecedoras, fizeram com que se não fizesse a encomenda na ocasião o que originou maior despesa na aquisição, devido à subida de preços nesses materiaes . Feita a encomenda, os caixotes abarrotando de utensílios de toda a ordem, foram colocados na enfermaria (da esquerda) e ali com um interesse admirável o Sr. Pe.J.M.N.C. assistiu à abertura e ele próprio guardou a chave do quarto onde foram guardados.
Se todos nós, se quasi todo o concelho trabalhou para a realização de uma obra que serve para mitigar o sofrimento humano, principalmente d`aqueles que ainda depois de doentes, são pobres…nenhum de nós pode merecer uma parcela de gratidão, dos vindouros, se compararmos o pouco que demos com o que tão generosa e modestamente soube dar essa formosíssima alma de benemérito que é o Sr. Pe. Joaquim Manuel N. Caldeira. Se sabe pregar a caridade porque a sua profissão assim o manda…sabe praticá-la, porque lhe nasce do coração. Não há na dádiva um fim político, um motivo de vaidade. Perante mim, mostrou o desejo que não se soubesse da oferta, não tem ambições políticas o Sr. Pe. J.M.N.C.
Mas se contentamento pode vir de uma boa acção, esse deve senti-lo o Sr. Pe. J. porque os ferros cirúrgicos oferecidos hão-de rasgar o corpo humano à procura das lesões que matam e que estirpadas fazem voltar à vida e dão alegria de viver. Nos leitos que ofereceu hão-de os pobres encontrar o que não tinham em suas casas,… conforto para tratar o seu mal e, à sua roda, carinho consolador, admirável e sempre bem vinda medicação para os que sofrem.
Podemos dizer deste homem que fez alguma coisa pela sua geração, porque aumentou o conforto, o bem-estar e a felicidade dos que sofrem.
Só os que trabalham para o bem da humanidade têm direito à consagração de todos.
Ser bom, ser honesto, não basta, é preciso ser útil aos nossos semelhantes, com dedicação, com interesse desprovido de egoísmo.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (4)

«Seguem com a morosidade necessária as obras. Está-se procedendo à colocação das pedras para as janelas e portas em arco da fachada principal. (12-7-1931) (continuação.)

Romeu BispoNa colocação de uma destas pedras um elo da corrente vem bater ainda num trabalhador de 15 anos a quem fiz o tratamento, aplicando três agrafes sobre uma ferida no coiro cabeludo, região parietal direita.
Varanda ou não varanda? É a discussão agora em dia na C. da Misericórdia. Parece que resolvem não aplicar a varanda, no tipo da varanda da casa onde está o depósito dos tabacos, com cuja decisão eu concordo, mas deveria aplicar-se a varanda com duas colunas como está na planta que vem do Porto, servindo-nos do cimento e vigas de ferro para fazer o suporte para as pedras que viriam da parede para as colunas e parte entre colunas. Não se faz com certeza este melhoramento na fachada principal, contudo é pena, porque traria embelezamento que mais tarde não poderá ter aplicação. Qual o motivo? A falta de capital que está quasi esgotado, a crise de falta de dinheiro, de desemprego, de carência é sempre um facto vulgar, banal que se encontra a toda a hora; como seria mais agradável que a crise fosse de abundância e que o nosso trabalho fosse todo no sentido de procurar arabescos bonitos, utensílios e desenhos complicados para poder aplicar o excesso de capita!!!»
Manuscrito de Francisco Maria MansoAs obras vão continuando com o assentamento das escadas exteriores e os carpinteiros avançam com a armação do telhado. No 18-09-1931 o sr. Dr. Manso escreve:
«Passei hoje pelas 11 horas a cavalo junto ao hospital e o seu aspecto agradou-me completamente, apesar de ser apenas o esqueleto sem as belezas da carne e dos enfeites…, mas com médico soube observar que o esqueleto está bem conformado…, venha o reboco, o pó d´arroz, o chapéu de “Marselha” e então preencherá os olhos do caminhante num doce enlevo de arte e de asseio…»
Mas, em Novembro desse ano, após a colocação do telhado as obras paralisaram completamente devido à falta de verbas: «Esperávamos da “assistência” grande verba e afinal tivemos uns 2.000$00!!
A falta de dinheiro é um mal tão espalhado que por mais lástimas que se chorem aos poderes públicos tão endurecidos por lá estão os corações, que não vem refrigério para tão grande mal, nem se lhe percebem lágrimas sentimentalistas perante as lágrimas compungidas das Mesericórdias…»
No próximo artigo vamos dar um salto temporal e ficaremos mais próximos da inauguração.
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (3)

Continuando a análise do livro de apontamentos do Dr Francisco Maria Manso, vamos encontrando pormenores curiosos, que integram a história da construção do hospital do Sabugal. Desta vez optamos por fazer uma transcrição integral das palavras do médico de Aldeia do Bispo, que acompanhou de perto os trabalhos da Comissão da Misericórdia.

Romeu Bispo«Em 1930, após os anúncios nos jornais apareceu um arrematante único propondo fazer as paredes, pondo a C. da Mesericórdia a pedra, por 140 contos!!!
Resolveu-se fazer o hospital por administração directa. O sr. Sousa Martins, da Comissão da Mesericórdia, escreveu para esse fim, servindo-se de todos os meios para dar imediato e bom andamento à obra, de pleno acordo com os restantes membros da Comissão.
Começaram novamente as obras, pelo corte de pedra em “Rendo”, em meados de Julho de 1930, sendo o pessoal de pedreiros quasi todo de “Alcains”.
19-01-931 Continuam as obras estando a ser construído o pavilhão lateral, poente. Começou hoje o corte das madeiras de carvalho que serão oferecidas por vários proprietários, sendo as cortadas hoje oferecidas pelo benemérito Sr. Pe. J. Manuel Nabais.
Manuscrito de Francisco Maria MansoRecebi até esta data duas cartas de sua Exª. Sr.”Nuno de Montemor” pondo-se à disposição da Comissão do Hospital para trabalhar para tão grande melhoramento. Nessas cartas aparece constantemente a bela alma de sua Exª e na sua redacção há mimos de literatura espontâneos, reveladores das suas qualidades de artista das letras que é. Respondi a essas cartas aceitando tão valioso auxílio e com ele contaremos de futuro.
Enviei à Comissão da Mesericórdia um ofício com dez mil escudos, importância que resolvemos na Junta Geral do Distrito, dar para a continuação das obras.
21-Março de 1931 Apesar do dia chuvoso e pouco agradável, deram entrada na vila 17 carros de madeira de carvalho, pinho e castanho, de Aldeia de Sto. António Urgeira e Ameaes, madeira oferecida ao hospital. Estas povoações tinham já oferecido mais 12 carros. A povoação do Baraçal ofereceu 29 carros que deram entrada também pela vila fora, em ar de intensa alegria pela valiosa oferta.
Se no íntimo do homem existe a fera antiga, como querem alguns pessimistas, desejava que assistissem a factos destes para se convencerem que a generosidade humana é uma virtude real e se não a vemos praticada constantemente é porque não há todos os dias ocasiões para ser praticada. Depois são esses pessimistas que não acreditando no que existe de bom no género humano se encerram num feroz egoísmo, incapazes de ao seu semelhante fazerem o mais ligeiro benefício e então o “semelhante” paga-lhe e com toda a justiça em moeda igual e assim lhe parece encontrar “feras” em lugar de homens, começando elas a contar por eles! …
Que seja boa, alevantada e digna a nossa acção e encontraremos, com surpresa do coração humano tudo o que tem de melhor.»
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (2)

Da história da construção do hospital fazem parte alguns factos curiosos, mas para os contar nada como ler o ilustre sabugalense, Dr. Francisco Maria Manso.

Romeu Bispo«Das antigas muralhas de cintura do magestoso Castelo do Sabugal, restavam panos incompletos, cercados já por muros de quintas. A muralha era a parede divisória do quintal da família «Bigote» e da viúva «Canaveira». Mesmo ao cinto da parede divisória o pano de muralha estava quase completo. Na sua parte superior existia um velho carvalho todo coberto de «era», onde os rouxinóis em noites de luar subiam a gargear as suas serenatas, que muitas vezes ouvi extasiado.
Resolveu a C. da Mesericórdia construir o Hospital com o auxílio desta pedra e foi um pouco contristado que vi apear essas pedras que ali estiveram engrinaldadas de era durante séculos e que mereciam o respeito da nossa geração em nome Da esthética e para relembrar o esforço dos nossos avós levantando muralhas e castelos para manter a independência de Portugal e assegurar o seu pleno domínio.
Ainda propuz que não se demolisse esse pano de muralha e que conforme alguém lembrou se abrisse uma rua que passaria por baixo desse pano de muralha e seguiria quase em linha recta ao «teatro». A Comissão da Misericórdia não concordou e a pedra foi levada em carros de bois e camionetes para o local do hospital. O transporte foi gratuito e tanto os lavradores como os proprietários de camionetes (sr. Bartholomeu e Lucas) trabalharam com afan, querendo dar todo o esforço para a realização desta obra, mas as dificuldades não podiam tardar! Poucas pedras estavam ainda nos alicerces, quando se recebeu ordem telegráfica, endereçada ao delegado da comarca, para embargar as obras e levantar processo averiguando responsabilidades. Devia a origem ter sido qualquer conversa ou carta com o director dos Monumentos Nacionais, que tomou providências no sentido de salvar as muralhas. O Sr. Presidente da Câmara, falou neste sentido com o Sr. Governador Civil e d´ali vem ordem para continuar as obras. Continuaram… e poucos dias depois voltava outra ordem para suspender.
Manuscrito de Francisco Maria MansoFoi uma comissão a Lisboa, composta do Presidente da Comissão da Misericórdia (Dr. Carlos Frazão), Presidente da Câmara (Afonso Lucas) e Dr. Galhardo que trouxeram ordens para as obras continuarem e foram recebidos com foguetes. Passado poucos dias vinha um engenheiro dos Monumentos Nacionais do Ministério da Guerra e avaliava as pedras da muralha em 8 contos que aquele ministério mandou que se pagasse… Por intermédio do Sr. Dr. João José Garcia, essa ordem ficou sem efeito e as obras livres para continuar.
As obras foram seguindo e quando um dos membros da Comissão da Misericórdia (Sousa Martins) regressava de dois meses de ausência, notava deficiências na aplicação da “cal” e como resolvesse medir o comprimento das paredes encontrou que o hospital tinha menos um metro e meio de que marcava a planta. Chamado o empreiteiro verificou-se que a fita métrica de que se servia tinha 3 centímetros a menos em cada metro.
Pediu-se a vinda de um técnico que condenou a obra e mandou que se desfizesse tudo o que estava feito… Intimado o empreiteiro… depois de várias peripécias desapareceu e os fiadores tiveram de arcar com as responsabilidades das clausulas postas na escritura e assim desfazer tudo o que estava feito, não obrigando a C. da Misericórdia ao pagamento da multa, por comiseração.»
Em Julho de 1930 escreve o Sr. Dr. Francisco Maria Manso: «Desfeitas as obras, modificou-se ligeiramente a planta e anunciou-se nos jornais nova arrematação».
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)

Memórias sobre o Hospital do Sabugal (1)

Quando a história se mede por milhões ou milhares de anos, oitenta anos nesta visão global do Universo não tem grande significado, mas para os humanos significa uma vida e sabemos que não são todos os que atingem tal provecta idade. No sabugal contam-se pelos dedos aqueles que viveram e se lembram deste ano. Foi o ano do início da construção do Hospital da Misericórdia que funcionou muitos anos como Hospital concelhio.

Romeu BispoNum caderno de Notas/Memórias do Sr. Dr. Francisco Maria Manso encontrámos o relato de uma empresa que, à data, envolveu praticamente todo o Concelho: «No espírito de todos estava a construção de um hospital, mas para a realização desta obra era preciso dinheiro e não existia”. “A assistência neste Concelho mal existia e algum dinheiro era gasto em presentes aos pobres, no dia de Natal, ou data solene, sendo esses presentes constituídos por arrôs, assucar etc…».
Fazendo parte da Comissão de Assistência Municipal foi o Dr. Manso que propôs a entrega das verbas sobrantes à Comissão da Misericórdia para constituição do fundo de construção do hospital: «Todos os membros da Mesericordia e lembramo-nos sobre tudo do sr. Joaquim Monteiro, José Augusto dos Santos e Afonso Dias, abraçaram a ideia com enthusiasmo a guardar religiosamente todas as migalhas da Mesericórdia para esse fim».
Colaborou com a Misericórdia o «Sr. Ismael Mota que como secretário da Câmara a todas as reuniões assistia e com grande enthusiasmo desejava também ver realizada a obra que a todos interessava».
Foi o Sr. Dr. Manso que emprestou 160$00 (cento e sessenta escudos) de uma vez e 200$00 (duzentos escudos) de outra para que as plantas fossem feitas pelo Sr. Antonio Braga Calheiros, posteriormente copiadas no Porto e mais uma vez alteradas na Guarda.
«Outra dificuldade foi saber onde e quem deveria aprovar a planta. Enviada ao Exmo. Sr. Mangas para Lisboa, este nosso conterrâneo e grande amigo do Sabugal, foi ao Ministério do Comércio com a respectiva planta e memorial e ali informaram que era com as obras públicas da Guarda. Fomos às obras públicas da Guarda e ali informaram que não era ali e não sabiam onde era! Seguimos para o Governo Civil e ali o Sr. Governador (Dr. Filipe) assumiu toda a responsabilidade e que se desse começo à obra.
Publicaram-se anúncios no «O Século» e «Diário de Notícias» e apareceram dois arrematantes, o Sr. Engenheiro do Fundão (Lobo) e o Sr. Francisco Dias, de Rebelhos.
O Sr. Engenheiro Lobo só tomaria conta da obra por 99 contos (paredes) e o Sr. Francisco Dias faria a obra por 100 contos pondo o telhado. Foi adjudicada ao último e feita a escritura de responsabilidade.
Deu-se início à obra em fim de 1929».
As dificuldades são de todos os tempos, porém veremos que as dificuldades daqueles tempos, tendo em conta os condicionalismos políticos e sociais da época, pareciam insuperáveis. Em próximo artigo poderemos compreender a razão da data de 1930 que está no frontispício do edifício.
Romeu Bispo
(Provedor da Santa Casa da Misericórdia do Sabugal)