Category Archives: Orações de Sapiência

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Célio Rolinho Pires – In Memorian

Célio Rolinho Pires, natural de Pêga, concelho da Guarda, dedicou parte da vida ao estudo aturado das formas das pedras que povoam os horizontes da nossa região beirã. Grande revelador de afectos, os livros que publicou vão de encontro à história e à vivência das pessoas e dos lugares, cabendo assinalar o grande momento que foi a sua oração de sapiência no I Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, realizado no Sabugal.

Célio Rolinho Pires proferindo a Oração de Sapiência no Capítulo da Confraria do Bucho Raiano

Célio Rolinho Pires proferindo a Oração de Sapiência no Capítulo da Confraria do Bucho Raiano

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Sapiência no V Capítulo da Confraria do Bucho

«Irmandades e Confrarias» foi o tema proposto pela Chancelaria da Confraria do Bucho Raiano para a Oração de Sapiência do V Capítulo e que foi, desde logo, aceite pelo professor Adérito Tavares, natural de Aldeia do Bispo, no concelho do Sabugal, onde teve lugar a cerimónia. A apresentação foi acompanhada por imagens projectadas que complementaram as palavras (brilhantes) com que o ilustre raiano brindou os participantes em mais um momento histórico da Confraria do Bucho Raiano.

Oração de Sapiência - Prof. Adérito Tavares - Aldeia do Bispo - V Capítulo - Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

O bucho e as alegorias da governação

No IV Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, realizado no passado dia 9 de Fevereiro, nos Fóios (Sabugal), ouvimos o professor universitário valdespinhense Albino Lopes, fazer uma memorável dissertação, subordinada ao tema «O bucho e as alegorias da governação: celebrar o trabalho gastronómico raiano para ganhar o futuro». Publicamos na integra o texto da oração de sapiência de Albino Lopes

Albino Lopes - IV Capítulo da Confraria do Bucho Raiano (Fóios)

Albino Lopes – IV Capítulo da Confraria do Bucho Raiano (Fóios)

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

O Bucho – o milagre de uma tentação

Quando se aproxima o tempo das matanças e da degustação do saboroso bucho, publicamos o texto da oração de sapiência proferida pelo Professor Fernando Carvalho Rodrigues na cerimónia do Terceiro Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, sucedido no Sabugal, no dia 18 de Fevereiro de 2012. O Professor fala do bucho, centrando-se em Creado, a sua terra de nascimento, que pertence à freguesia de Casal de Cinza e ao concelho da Guarda.

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Porco à mesa – ritual colectivo e prazer individual (3)

Dando continuidade à publicação da eloquente Lição de Sapiência pronunciada no Sabugal no dia 5 de Março de 2011, na cerimónia do II Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, pelo confrade João Luís da Inês Vaz, aqui deixamos a terceira, e última, parte do texto. (parte 3 de 3.)

João Luís Vaz quando foi entronizado confrade do bucho, no 1º Capítulo
Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Porco à mesa – ritual colectivo e prazer individual (2)

Dando continuidade à publicação da eloquente Lição de Sapiência pronunciada no Sabugal no dia 5 de Março de 2011, na cerimónia do II Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, pelo confrade João Luís da Inês Vaz, aqui deixamos a segunda parte do texto. (parte 2 de 3.)

João Luís Vaz (o primeiro da esquerda) na mesa capitular

Morto e estendido numa grade, daquelas de «agradiar» a terra, como se dizia, chamuscava-se com palha (que isso dos maçaricos é coisa recente…), lavava-se bem lavado dos dois lados, «fazia-se-lhe o cú», apesar de na véspera o porco já não ter comido, operação importante porque ia evitar que quando o matador começasse a abri-lo não se despejassem as fezes, levava-se para a loja, punha-se no chambaril e dependurava-se. Aberto o porco, «quem vê um corpo, vê o seu corpo») com o matador a dar golpes cirúrgicos bem certeiros para não «arrebentar» com as tripas e retirar de imediato o «seventre», deitavam-se as entranhas ainda fumegantes para um tabuleiro onde as mulheres irão começar o trabalho de separar as tripas grossas das finas, as tripas do véu. Entretanto, o matador continua a abrir o porco deitando para o lado as banhas que irão ficar a secar até ao dia seguinte, retira a ferssura e o fígado que, separado do fel com todo o cuidado, é imediatamente preparado para ser comido logo ao almoço e, depois dos comentários habituais dos homens e mulheres que assistiram à tarefa («é gordo», «olha que carne tão linda», «tem muita febra», «tem poucas banhas», «é mesmo c’m’a gente tirando a alma»…), os homens são chamados para a mesa onde vão comprazer-se num repasto de matança, bem melhorado, porque matar porco é sinal de abundância, nesse dia e nos meses que se seguem e há que tratar bem o matador e os convidados/ajudantes.
A mesa é algo de mágico e religioso, colectivo e individual. À mesa invocam-se os deuses, à mesa fizeram-se pequenas libações em honra dos deuses e dos santos, à mesa instituiu Cristo a Eucaristia que ainda hoje é celebrada numa mesa, o altar, que termina com o rito da comunhão do pão e do vinho, os alimentos principais da antiguidade, mas a carne também está presente pois se recorda o sacrifício do corpo de Cristo, «tomai e comei todos, isto é o meu corpo, isto é o meu sangue» se diz na missa. Não começam as refeições ainda hoje muitas vezes por uma oração de agradecimento a Deus pela comida que está ali mesmo à frente?
Se não podemos dizer que a mesa como um momento mágico/religioso é tão antiga como o próprio homem, podemos pelo menos remontá-la à antiguidade grega e romana e aos povos que precederam os Romanos na nossa região. À refeição queimavam-se óleos ou gorduras em honra das divindades e por exemplo, no castro da Senhora da Guia em Baiões, no concelho de S. Pedro do Sul, foi encontrado um carrinho votivo que estaria em cima da mesa onde se fazia a refeição e que teria exactamente uma função ritual.
Desde que a civilização começou na Mesopotâmia, o banquete à mesa serviu para selar alianças políticas, alianças matrimoniais ou acordos entre particulares.
No Egipto das pirâmides, o porco era uma das principais fontes de proteínas dos seus habitantes e estava presente na mesa do faraó ou do camponês. Só os sacerdotes o consideravam um animal impuro e por isso não o comiam, pois seriam essencialmente vegetarianos. Utilizava-se a sua gordura e comia-se a carne assada.
Mas, na antiguidade, o porco também foi amaldiçoado e na Bíblia aparece a proibição de o comer porque era um animal impuro, apesar de ter unha fendida, mas não rumina e como não rumina não pode ser comido. É interessante esta questão porque há quem considere que Moisés sabia que a carne de porco mal cozinhada podia transmitir a traquinose, doença muscular e por isso proibiu o seu consumo. No entanto, deverá tratar-se apenas de uma questão cultural pois não é crível que Moisés tivesse conhecimento dessa doença. Talvez seja uma forma de distinção entre o Egipto donde fugiam e entre a terra para onde se encaminhavam, onde o leite e o mel corriam como rios…Distinguiam-se assim do povo que os tinha escravizado e do país de onde agora fugiam. Podemos, pois, dizer que agora o porco passa a ser um animal arreligioso, pois nem os homens o comem nem pode ser oferecido a Iavé.
Entre os Gregos, o banquete à mesa atinge o apogeu, pois sentar-se à mesa com outros é o maior dos prazeres, significa a comunhão com eles, estar à mesa é ser aceite entre os membros de um grupo, familiar, de amigos, de uma sociedade ou instituição. O banquete entre os Gregos distinguia os homens civilizados dos não civilizados, o humano do animal, é a distinção suprema entre civilização e barbárie.
Por essa mesma época, séculos V-IV a.C., na nossa zona o porco era sacrificado em honra das divindades locais como Trebaruna, Laepus, Reva e outras. No Cabeço das Fráguas, divisória dos concelhos da Guarda e Sabugal, uma grande cerimónia dos povos circunvizinhos sacrificou a várias divindades uma ovelha, um touro e um porco de cobrição, imagine-se. É que não era um porco qualquer, era um porco de cobrição, o porco mais importante de uma comunidade, certamente. E é exactamente esse porco que vai ser sacrificado à divindade. Não sabemos o porquê de tal acontecer, mas facto importante se deve ter dado para serrem sacrificados exemplares dos principais animais que o homem lusitano criava e que oferece às suas divindades… A importância do porco era de tal ordem que em todas as inscrições ditas em língua lusitana, língua que os povos pré-romanos aqui estabelecidos falavam, aparece mencionado como um animal sacrificado ás divindades indígenas, seja no Cabeço das Fráguas já citado, em Lamas de Moledo, no concelho de Castro Daire.
São bem conhecidos, até dos filmes que de vez em quando passam nos cinemas ou na televisão, os prazeres romanos da mesa. Plutarco, autor grego mas que vive já sob domínio romano, diz que «não nos sentamos à mesa para comer mas sim para comer juntos». É o convivium romano que os Romanos tanto prezavam e onde gastavam tanto do seu tempo e de tal forma era o prazer de comer e de comer acompanhado que, romano que se prezasse, tinha sempre convidados à sua mesa ou era convidado para outras mesas. Mesmo comendo sozinho o romano comportava-se como se tivesse convidados e por isso se dizia que Lucius cenat in domo Lucii ou seja Lúcio janta em casa de Lúcio… O porco era rei à mesa romana pois, como diz Cícero na sua obra De Natura Deorum, o porco foi dado aos homens pelos deuses para ser comido enquanto os ovinos e caprinos dão o leite e a lã e o boi é companheiro de trabalho do homem e por isso só serão mortos quando já não forem necessários ou não puderem cumprir a sua missão. Apesar de existir para servir de alimento ao homem, o porco deve ser sempre abatido segundo um rito sacrificial.
Do porco aproveitava-se tudo e comia-se tudo, no entanto algumas partes eram mais apreciadas que outras e por isso reservados para o proprietário ou para distinguir alguém especial. O focinho, a vulva da porca ou os testículos do porco eram considerados uma verdadeira delícia gastronómica, um verdadeiro pitéu.
No período que se segue aos Romanos, o consumo de carne de porco vai-se impor definitivamente graças a dois factores fundamentais. Por um lado, a civilização de influências célticas e germânicas dos povos ditos «Bárbaros» que puseram fim ao Império romano que vão provocar alterações na dieta mediterrânica do Sul e, por outro lado, a nova religião que entretanto surge, o Cristianismo nascido no Próximo Oriente. Esta religião bebeu influências hebraicas, mas vai beber também nos rituais romanos e por isso vai permitir o consumo de porco em certos dias do ano, os chamados «dias gordos», o que faz com que o porco se imponha definitivamente como a principal fonte de proteínas dos europeus.
(Continua.)
João Luís da Inês Vaz

Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Porco à mesa – ritual colectivo e prazer individual (1)

Transcrevemos a Lição de Sapiência pronunciada no Sabugal no dia 5 de Março de 2011, sábado gordo, no II Capítulo da Confraria do Bucho Raiano, pelo confrade João Luís da Inês Vaz. Por ser extenso, o texto foi dividido em três partes, que publicaremos em dias sucessivos. (parte 1 de 3.)

João Luís da Inês Vaz profere a Lição de Sapiência - Capítulo da Confraria do Bucho Raiano
Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Oração de Sapiência de Célio Rolinho Pires (2)

O escritor Célio Rolinho Pires, natural da freguesia de Pêga, no concelho da Guarda, proferiu a «Oração de Sapiência» durante as cerimónias do 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano que decorreram no Sabugal no dia 17 de Abril de 2010. O Capeia Arraiana publica o valioso escrito – dividido em duas partes – no domingo, 25 de Abril, e este domingo, 2 de Maio. (Parte 2).

Oração de Sapiência - Célio Rolinho Pires - 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano - Sabugal
Confraria Bucho Raiano - Capeia Arraiana (orelha)

Oração de Sapiência de Célio Rolinho Pires (1)

O escritor Célio Rolinho Pires, natural da freguesia de Pêga, no concelho da Guarda, proferiu a «Oração de Sapiência» durante as cerimónias do 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano que decorreram no Sabugal no dia 17 de Abril de 2010. O Capeia Arraiana publica o valioso escrito – dividido em duas partes – este domingo e o próximo. (Parte 1).

Oração de Sapiência - Célio Rolinho Pires - 1.º Capítulo da Confraria do Bucho Raiano - Sabugal