Category Archives: Invasões Francesas

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Coimbra – o massacre que nunca existiu

Em 7 de Outubro de 1810, a milícia do coronel Trant e populares terão cometido um terrível acto de selvajaria em Coimbra, chacinando boa parte dos cerca de 5 mil soldados franceses ali deixados por Massena após a batalha do Buçaco. Porém o major general Rui Moura, numa investigação aturada, prova que esse massacre nunca existiu.

Cidade de Coimbra. London: C. Turner and Colnaghi, 1812-1815. St. Clair, Thomas Staunton

Cidade de Coimbra. London: C. Turner and Colnaghi, 1812-1815. St. Clair, Thomas Staunton

Misericórdias - Capeia Arraiana (orelha)

As Invasões Francesas e a Misericórdia do Sabugal

No 205º aniversário da Batalha do Sabugal, acontecida a 3 de Abril de 1811, e quando a Santa Casa da Misericórdia do Sabugal comemora 500 anos, publicamos a comunicação proferida no dia 28 de Janeiro de 2016, na apresentação das iniciativas que evocarão o quinto centenário da Instituição.

As invasões francesas deixaram um imenso rasto de sofrimento

As invasões francesas deixaram um imenso rasto de sofrimento

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Evocar a Batalha do Sabugal

A Batalha do Sabugal, que em 3 de Abril de 1811 pôs fim à terceira invasão napoleónica, permanece esquecida e sem que o concelho aproveite a sua importância na história nacional.

A paisagem soberba do local onde ocorreu a Batalha do Sabugal

A paisagem soberba do local onde ocorreu a Batalha do Sabugal

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

As duas tentações de Massena (4)

Dentro da estratégia global de Napoleão, que consistia na subalternização do império britânico, a conquista de Portugal era uma parte essencial no xadrez europeu. A sua chave passava necessariamente pela conquista de Lisboa. Massena, ao constatar a impossibilidade de tomar Lisboa, sofreu um grande choque e uma tremenda desilusão que o paralisaram, por alguns meses, às suas portas. Ao tomar a decisão de se retirar para Espanha, e antes de entrar definitivamente neste país, foi assaltado por intensos remorsos motivados pela sensação de ter tido feito uma campanha totalmente infrutífera e indigna de um guerreiro da sua estirpe.

Invasões francesas

Invasões francesas

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

As duas tentações de Massena (3)

Dentro da estratégia global de Napoleão, que consistia na subalternização do império britânico, a conquista de Portugal era uma parte essencial no xadrez europeu. A sua chave passava necessariamente pela conquista de Lisboa. Massena, ao constatar a impossibilidade de tomar Lisboa, sofreu um grande choque e uma tremenda desilusão que o paralisaram, por alguns meses, às suas portas. Ao tomar a decisão de se retirar para Espanha, e antes de entrar definitivamente neste país, foi assaltado por intensos remorsos motivados pela sensação de ter tido feito uma campanha totalmente infrutífera e indigna de um guerreiro da sua estirpe.

Batalha de Fuentes de Oñoro

Batalha de Fuentes de Oñoro

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

As duas tentações de Massena (2)

Dentro da estratégia global de Napoleão, que consistia na subalternização do império britânico, a conquista de Portugal era uma parte essencial no xadrez europeu. A sua chave passava necessariamente pela conquista de Lisboa. Massena, ao constatar a impossibilidade de tomar Lisboa, sofreu um grande choque e uma tremenda desilusão que o paralisaram, por alguns meses, às suas portas. Ao tomar a decisão de se retirar para Espanha, e antes de entrar definitivamente neste país, foi assaltado por intensos remorsos motivados pela sensação de ter tido feito uma campanha totalmente infrutífera e indigna de um guerreiro da sua estirpe.

Infantaria inglesa enfrenta as tropas napoleónicas

Infantaria inglesa enfrenta as tropas napoleónicas

Joaquim Martins Tenreira © Capeia Arraiana

As duas tentações de Massena (1)

Dentro da estratégia global de Napoleão, que consistia na subalternização do império britânico, a conquista de Portugal era uma parte essencial no xadrez europeu. A sua chave passava necessariamente pela conquista de Lisboa. Massena, ao constatar a impossibilidade de tomar Lisboa, sofreu um grande choque e uma tremenda desilusão que o paralisaram, por alguns meses, às suas portas. Ao tomar a decisão de se retirar para Espanha, e antes de entrar definitivamente neste país, foi assaltado por intensos remorsos motivados pela sensação de ter tido feito uma campanha totalmente infrutífera e indigna de um guerreiro da sua estirpe.

O Marechal de França Andre Massena

O Marechal de França Andre Massena

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A napoleónica legião portuguesa

Uma das primeiras medidas de Junot é a desmobilização do exército português, deixando contudo intactos alguns regimentos com os quais forma um corpo que envia para França e que dali segue para a frente de combate no Leste da Europa.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Lagarde – o cruel intendente da polícia

Pierre Lagarde, o intendente geral da polícia de Junot, não chega a Portugal com o exército invasor, mas apenas passados quatro meses, em 25 de Março de 1808, cumprindo ordens expressas de Napoleão para se apresentar em Lisboa ao general comandante em chefe.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A carnificina das Caldas

Dois meses após a chegada dos franceses a Lisboa, dois dos mais cruéis homens de mão de Junot, os generais Thomiers e Loison, aproveitam um desavisado entre soldados portugueses e franceses para promoverem uma devassa que acabou em morticínio de inocentes.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A ocupação da praça de Almeida

Instalado em Lisboa, colocadas guarnições junto à costa para vigilância da esquadra inglesa e salvaguarda de um desembarque, Junot voltou-se depois para o resto do território, mandando ocupar Almeida e encarregando do governo da praça o odioso general Guypuy.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

O comissário Francisco António Hermann

Francisco António Hermann é o homem que Napoleão faz seguir com Junot para Portugal com o fim de tomar conta das finanças e da administração do País. Goza da especial confiança do imperador e vem para se tornar o verdadeiro governador, suplantando a falta de confiança e a incompetência do general em chefe.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Um governo francês em Portugal

Chegado a Lisboa, Junot manteve em funções o conselho de governo nomeado pelo príncipe regente antes de embarcar para o Brasil, apenas designando Hermann para seu comissário junto do mesmo. Porém, passados dois meses, depôs a regência e designou um governo usurpador francês.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Junot ocupa Lisboa

A regência portuguesa preparara para o comandante da força de ocupação o palácio da Bemposta, que chegou a ser mobilado, mas Junot prefere instalar-se no vistoso palácio do barão de Quintela, João Pereira Caldas, que o recebe com esplendor. Os oficiais espalham-se por outras casas senhoriais.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A entrada de Junot em Lisboa

A 30 de Novembro de 1807, um dia antes da data que Napoleão lhe fixara, Junot entra em Lisboa. Enverga o deslumbrante uniforme de hussardos e avança escoltado por uma guarda de honra portuguesa, seguida dos escassos mil homens do exército francês que conseguiram acompanhar o general na extenuante e formidável marcha.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A fuga do príncipe para o Brasil

A força imparável de Napoleão, imperador francês e senhor da Europa, que envia a Portugal tropas invasoras, leva a que a corte portuguesa se refugie no Brasil, para evitar ajoelhar-se. Só a Inglaterra, que resistia, ajuda Portugal nesse momento dramático, fazendo jus à velha aliança. Uma frota inglesa protegeria o príncipe regente na sua saída do Tejo e escoltá-lo-ia até ao outro lado do Atlântico.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A marcha de Abrantes a Lisboa

Em Abrantes, onde chega a 24 de Novembro, Junot obtém a informação de que o príncipe regente pretende embarcar para o Brasil. D. João e quase toda a corte portuguesa fugia assustado da horda esfarrapada e faminta, sem forças para sequer enfrentar um grupo de bandoleiros que lhes saísse ao caminho.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A marcha de Castelo Branco a Abrantes

Instalado em Castelo Branco, o que resta do exército de Junot está faminto e extenuado, mas o pior está ainda para vir. Mal rompe a manhã do dia 22 de Novembro de 1807 a vanguarda mete-se ao caminho com o intuito de atingir Abrantes.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

O tratado secreto de Fontainebleau

Face à relutância de Portugal em acatar o bloqueio continental decretado por Napoleão aos navios com origem ou destino a Inglaterra, a diplomacia Francesa reúne em segredo com a Espanhola e convencionam invadir e retalhar o território Português. O verdadeiro intento de Napoleão era porém outro: arranjar pretexto para inundar a Espanha de tropas francesas e resolver tudo de uma assentada: destronar os Braganças do poder em Portugal, arredar os Bourbons da coroa de Espanha e subordinar a Península Ibérica.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A entrada de Junot em Portugal

Acelerando o passo, deixando para trás a artilharia e o demais material pesado, a vanguarda do exército de Junot passa Ciudad Rodrigo e embrenha-se nas serranias para atingir Alcântara, última escala antes de dar entrada em Portugal.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A organização do exército napoleónico

O sucesso das campanhas militares de Napoleão Bonaparte em toda a Europa não se deve ao acaso. Enquanto oficial de artilharia formado na academia militar de Brienne-le-Château, conhece bem a organização militar e as tácticas da guerra, que apreendeu melhor no calor dos combates. Quando ascende ao poder reforma profundamente o exército francês tornando-o numa poderosa e avassaladora máquina de guerra que bate sucessivamente as forças inimigas.

As Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - Capeia Arraiana

Portugal em 1807 – primeira invasão francesa

Em 1807, ano da primeira invasão francesa de Portugal, vivem-se na Europa tempos conturbados, com os exércitos napoleónicos dominando o continente. Só a Inglaterra bate o pé, controlando os mares e mantendo-se fora da dominação e da influência de França.

O Exército de Observação da Gironda

Antes de se meter a caminho de Portugal Junot instala o seu quartel-general em Bayonne, no sul de França, e aí reúne o Exército de Observação da Gironda, cujo comando o imperador lhe confiou.

A força militar compôs-se à imagem de um corpo de exército, com três divisões de infantaria, uma de cavalaria, outra de artilharia e algumas companhias de engenharia, sapadores e operários, a que se juntavam os carros com bocas de fogo, barris de pólvora e trens de equipagem.
Instalado no comando, Junot aguarda que se lhe reúnam os destacamentos, o imenso material necessário para a campanha e os oficiais superiores que o imperador lhe dispusera.
Não há somente soldados franceses. Há mercenários suíços (dois batalhões), desertores alemães (um batalhão), e também alguns italianos. São porém escassos os soldados experientes na guerra. A maior parte é tropa de linha e há muitos soldados recém-incorporados. Os poucos veteranos estão na 1.ª divisão, comandada por Delaborde, que de resto virá a ser a tropa que resistirá melhor à marcha.
Ainda em Bayonne, todas as noites desertam dezenas de soldados dos vários acampamentos. Nem os aboletamentos compulsivos, que recaem sobre as famílias dos desertores, evitam as sucessivas fugas. Preocupado, Junot implora ao Imperador que mande castigar severamente os trânsfugas: «creio indispensável mandar fuzilar nesta região alguns desertores, a fim de reter os outros».
O exército reúne a custo. Falta fardamento, sobretudo botas e capotes, e o dinheiro não chega para gratificar a tropa antes de sair em campanha, como é uso no exército francês.
Ainda que mal equipadas as colunas colocam-se em movimento sob uma chuva intensa e um frio cortante, que os acompanhará em todo o percurso.
As ordens são claras e o percurso está estabelecido: Junot atravessará Espanha passando por Vitória, Burgos, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo, de onde avançará para Portugal e marchará sobre Lisboa.
A invasão de Portugal terá o apoio dos espanhóis, tendo em conta o interesse comum. Uma divisão juntar-se-á a Junot junto à fronteira. Outra divisão ocupará o Porto e uma terceira invadirá o Alentejo.
Poucas semanas antes, em 27 de Outubro de 1807, França e Espanha haviam assinado em segredo o Tratado de Fonteinebleau, pelo qual dividiram o reino de Portugal. O acordo estabelecia o direito da tropa francesa transitar em solo espanhol e balizava os termos do envolvimento militar de Espanha na invasão.
Junot, antes de partir de Bayonne, e já com parte do exército a marchar em solo espanhol, escreve ao imperador garantindo-lhe que cumprirá com rigor as determinações. Avançaria a marchas forçadas até à fronteira portuguesa e aí aguardaria a reunião de todo o exército para avançar em força para Lisboa. «Todo o meu exército estará reunido no dia 26 e, supondo que só a 1 de Dezembro ele entrará em Portugal, espero estar em Lisboa a 10».
Já em Vitória, no País Basco espanhol, o general pára por uma noite e reajusta os planos. Como a ordem do Imperador é para atingir Lisboa quanto antes, decide que marchará para Alcântara, local por onde entrará em Portugal, tomando o caminho mais curto e evitando a via da Beira e a praça-forte de Almeida. A linha de orientação é o rio Tejo, cuja margem direita quer seguir até Abrantes, local onde passará para a margem esquerda e seguirá pelas planuras ou usará mesmo o rio para o transporte das tropas. Se o exército português colocar alguma oposição à invasão, os planos estão traçados: «posso mantê-lo em respeito com uma pequena parte das minhas tropas e alguns espanhóis sob o comando de um oficial inteligente enquanto eu marcho com o resto do exército contra o exército português para lhe dar combate e tomar Lisboa, que é o objectivo principal da operação», escreve a Napoleão.
Os franceses sabiam que havia um plano secreto, gizado entre Portugal e Inglaterra, para a fuga da corte portuguesa para o Brasil em caso de invasão, e Junot prefere primeiramente que esse plano se concretize, por ver assim facilitada a sua acção. Seria pouco provável que o exército português se movimentasse e o general livrar-se-ia do embaraço que seria tomar conta do príncipe regente português.
Napoleão, que também estava em campanha, acompanhava as notícias da marcha sobre Lisboa, recebendo vários informes. Junot escrevia-lhe a dar conta de tudo, mas o imperador recebia relatórios paralelos de outros militares, à margem do conhecimento do general em chefe. A certo momento, Napoleão enviou uma missiva a Junot dando-lhe ordens firmes para acelerar a marcha de modo a estar em Alcântara no dia 20 de Novembro e entrar imediatamente em Portugal, sem perdas de tempo, porque a 1 de Dezembro quer Lisboa tomada. Junot assegura-lhe que cumprirá as ordens, mau grado a chuva intensa, a lama e as torrentes que não o deixam por um instante.
«As invasões francesas de Portugal», por Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

O exército de Junot invade Portugal

É Novembro de 1807 e o céu parece desabar sobre a terra. Sob chuva intensa, tocada a vento frio e cortante, uma horda de franceses avança a marchas forçadas pelos caminhos e veredas da enorme cadeia de montanhas que se espalham de Ciudad Rodrigo a Alcântara.

A tropa napoleónica entrou em Espanha e atingiu a cidade de Vitória, onde tomou o caminho de Burgos, Valhadolid e Salamanca. O plano da marcha manda avançar até Alcântara para dali entrar em Portugal.
O Exército de Observação da Gironda é composto por 26 mil homens e executa as ordens de Sua Majestade, o Imperador dos Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Reno, numa palavra Napoleão, o senhor da Europa Continental.
O general em chefe deste exército que macha veloz é Jean-Andoche Junot, Governador de Paris e Primeiro Ajudante de Campo de Sua Majestade o Imperador e Rei – feroz e corajoso combatente, a quem chamavam «A Tempestade». Merecera as graças do Imperador, que dele fizera embaixador de França em Lisboa e seguidamente tornara responsável pelo recrutamento e instrução militar em Paris. O conhecimento que tinha sobre Portugal pesou na escolha deste cabo-de-guerra para o comando da marcha até Lisboa onde garantiria o bloqueio continental decretado por Napoleão aos navios de e para Inglaterra.
A vaga é composta por três divisões de infantaria, comandadas por outros tantos generais de divisão: Delabord, Loison e Travot. Segue ainda uma divisão de cavalaria, sob o comando do general Kellerman. A artilharia roda igualmente, puxada por machos e bois, dada a falta de cavalos de tiro, e tendo por chefe o general Traviel.
É este o aparatoso exército, que saiu de França e que agora rompe pelas montanhas, espicaçado pelo chefe de estado-maior de Junot, o general Thiébaut, que a todo o custo quer garantir o cumprimento da cronologia da marcha.
Mas a chuva tudo retarda. As ribeiras crescem repentinamente e a lama invade os caminhos. As botas rompem-se e não há pares suficientes para a sua substituição. Cada soldado saíra do campo militar de Bayonne com dois pares de botas na mochila, mas a dureza da marcha faz com que muitos já caminhem descalços, sob o dilúvio, com as fardas encharcadas, pesando como chumbo. Ao cansaço junta-se a fome, a diarreia e o tifo, que derrubam os soldados a cada passo.
Entrados em Portugal, a ordem dos oficiais torna-se mais enérgica, impondo o avanço rápido, sempre em frente, sem parar. Neste ímpeto, cresce o perigo de sucumbir e ficar para trás. Não há camarada que quede para ajudar outro que cai de exaustão ou de fome. Desse se encarregará o campónio, que de navalha em punho o aliviará do pesadelo da existência.
Para os povos por onde o exército passa, o esfaqueamento de um francês caído sem forças ao redor de um caminho é a vingança pelos confiscos e pilhagens. A passagem da horda representa para os aldeões a chegada de uma calamidade.
O exército é composto por dezenas de milhares de bocas esfaimadas que querem ser alimentadas a todo o custo. Não há trem de mantimentos e a tropa fandanga socorre-se ao que encontra no caminho. O transporte das bocas de fogo, da pólvora e das equipagens não deixou espaço para as provisões alimentícias. Os poucos caixões de biscoito há muito que ficaram encalhados nos caminhos.
Por norma os oficiais do exército imperial aboletam-se em solares e palácios e a soldadesca ocupa os conventos e mosteiros que lhe ficam no caminho. Mas no geral dos locais de paragem em Portugal, não há habitações e nem sequer pardieiros, restando aos soldados tomar por cama o chão lamacento, onde nem sequer conseguem acender uma fogueira para lhes aquecer o corpo e secar os capotes.
Não é um exército, mas um formigueiro que avançava pelo carreiro, sujeito à chuva torrencial e ao sopro rijo do vento.
Os camponeses, que tinham guardado as colheitas como provisões para o Inverno, vêem as casas e os celeiros invadidos e rapinados. De nada vale implorar dó e clemência. Tudo acaba vasculhado e roubado, ficando as aldeias reduzidas a nada.
E as vagas não param, todos os dias chegam novas colunas, que passam e rapinam. A disciplina quebrou-se, a formatura está desfeita, a tropa segue em bandos desalinhados. Muitos dos retardatários correm as aldeias em busca de provisões e da satisfação de outras necessidades.
Onde há oficiais diligentes, a ordem é andar sem parar, mas no mais o exército rouba o pão da boca dos camponeses. As casas e as tulhas são reviradas e os animais são mortos, esfolados e esfandegados.
Quando não há aldeias para saquear ou quando a depredação alimentícia não é suficiente para suprir as bocas famintas, os soldados procuram sustentar-se com o que apanham no caminho. Mas é Novembro, e tirante alguma noz ou castanha que escapou ao rebusco dos pobres, nada há no campo. Vale a bolota dos carrascos. Saltando do caminho o soldado abaixa-se e enche os bolsos. Voltando à coluna, retoma a marcha e vai roendo a lande, que o alimenta nas jornadas.
Lá adiante, corre sem parar Junot, sempre acompanhado pelo fiel Delabord e a sua experiente 1ª divisão, deixando para trás um enorme rasto de soldados dispersos e perdidos.
«As invasões francesas de Portugal», por Paulo Leitão Batista

leitaobatista@gmail.com

«Linhas de Wellington» no TMG

O filme português «Linhas de Wellington», realizado pela chilena Valeria Sarmiento, é a sugestão cinéfila do Teatro Municipal da Guarda TMG para a próxima terça-feira, dia 30 de Outubro. O filme passa às 21h30 no Pequeno Auditório.

Trata-se de uma reconstituição do ambiente histórico das invasões francesas protagonizada por John Malkovich, IsabelleHuppert, Nuno Lopes e Soraia Chaves. Parte das filmagens desta longa metragem decorreram no distrito da Guarda, mais precisamente em Folgosinho.
Sobre a história, tudo começa em 27 de Setembro de 1810, quando as tropas francesas comandadas pelo marechal Massena, são derrotadas na Serra do Buçaco pelo exército anglo-português do general Wellington. Apesar da vitória, portugueses e ingleses retiram-se a marchas forçadas diante do inimigo, numericamente superior, com o objectivo de o atrair a Torres Vedras, onde Wellington fez construir linhas fortificadas dificilmente transponíveis. Simultaneamente, o comando anglo-português organiza a evacuação de todo o território compreendido entre o campo de batalha e as linhas de Torres Vedras, numa gigantesca operação de terra queimada, que tolhe aos franceses toda a possibilidade de aprovisionamento local. É este o pano de fundo das aventuras de uma plêiade de personagens de todas as condições sociais – soldados e civis; homens, mulheres e crianças; jovens e velhos – arrancados à rotina quotidiana pela guerra e lançados por montes e vales, entre povoações em ruína, florestas calcinadas, culturas devastadas.

Estreia da trilogia de curtas musicadas
A 3 de Novembro, o TMG apresenta em estreia absoluta «Cine-concerto 2 [trilogia de curtas-metragens com música ao vivo]». Três filmes vão ser musicados ao vivo, no Pequeno Auditório, às 21h30: «A Propósito de Nice», de Jean Vigo será musicado por Miguel Cordeiro; «The Blacksmith» de Buster Keaton terá a paisagem sonora de César Prata e «Überfall» de Ernö Metzner será musicado por Luís Rolo. Os três são músicos da Guarda.
Sobre as curtas e os músicos, «A Propósito de Nice» é considerada pelos cinéfilos como uma espécie de «sinfonia de uma cidade», a curta constituiu um marco na história do documentário e catapultou o seu realizador, Jean Vigo para o panteão dos grandes cineastas da primeira metade do século XX. Miguel Cordeiro, é o músico que vai dar som a esta curta. Estudou piano e Jazz no Taller de Música de Barcelona e na escola do Hot Club Portugal. Concluiu em 2011 o mestrado de «composição para cinema e audiovisuais».Actualmente dedica-se à composição de música para imagem.
Já «The Blacksmith» é curta-metragem de excelência artística de Buster Keaton, «o cómico que nunca ri», num exemplo de extraordinária capacidade humorística sem recurso a uma única palavra. Esta curta vai ser musicada por César Prata, o músico dos sete instrumentos e mentor de vários projectos musicais como Chuchurumel, Assobio ou as Canções do Ceguinho. O músico já compôs também para teatro e cinema.
E a finalizar a noite, «Überfall», considerada uma das grandes obras vanguardistas do cinema mudo alemão; um filme de grande poder visual e que será musicado ao vivo por Luís Rolo, músico dado a sonoridades electrónicas que já integrou projectos como Dual Tone (com António Louro), um projecto que misturava a electrónica com o hip-hop.

Noiserv em concerto
Na quarta, dia 31 de Outubro, o projecto Noiserv, de David Santos, volta ao TMG, desta vez ao Pequeno Auditório. O concerto está marcado para as 21h30.
Noiserv tem vindo a afirmar-se como um dos mais criativos e estimulantes, de entre os surgidos em Portugal na última década. O seu percurso tem sido marcado pela criação de peças musicais de um minimalismo capaz de atingir cada individuo na sua intimidade, relembrando-lhe vivências, momentos e memórias intrincadas entre a realidade e o sonho, e por concertos de elevadíssima intensidade, nos quais o público é suspenso a partir de uma teia sonora, criada por um vasto leque de instrumentos inusuais.
Criado em meados de 2005, Noiserv ganhou forma quando David Santos decide gravar algumas ideias numa demo, meses mais tarde esses 3 temas são editados on line, na netlabel Merzbau. Já em 2008 Noiserv edita o seu primeiro longa-duração, “One Hundred Miles from Thoughtlessness”, disco incrivelmente bem recebido pelo público, pela imprensa e crítica, e que actualmente esgotou a sua terceira edição.
Logo a seguir ao concerto de Noiserv o TMG promove no CC uma Noite Mexicana inspirada no Dia de Los Muertos.

Dia de los Muertos [Noite mexicana]
A tradicional festa mexicana dedicada aos defuntos, o «Dia de Los Muertos» serve de pretexto para uma Noite Mexicana no Café Concerto (CC), na próxima quarta-feira, dia 31 de Outubro, logo a seguir ao concerto de Noiserv no Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda.
O TMG vai exibir no CC várias curtas-metragens de animação inspiradas no Dia de Los Muertos:
«Viva Calaca 1» de Ritxi Ostáriz, «The Skeleton Dance» de Ub Iwerks, «Hasta los Huesos» de René Castillo, «Viva Calaca 2» de Ritxi Ostáriz e «Skeleton Frolic» de Ub Iwerks. Pela noite dentro haverá preços especiais para as bebidas mexicanas: Mescal, Tequila, Margarita e Cerveja Corona, sempre ao som de música Mexicana. Serão ainda sorteados pelo público presente três vouchers; cada um deles dará acesso a três espectáculos do TMG, a saber: o teatro “Édipo” pela Companhia do Chapitô, o espectáculo transdisciplinar «Pi_add(a)forte» e o concerto da jovem fadista Cuca Roseta.
Tudo boas razões para sair de casa e aproveitar a véspera de feriado no Teatro Municipal da Guarda!

A Música de «Abztraqt Sir Q» no CC
No próximo dia 2 de Novembro (sexta), a Quarta Parede – Associação de Artes Performativas da Covilhã e o TMG apresentam no Café Concerto o espectáculo de música «Abztraqt Sir Q».
«Abztraqt Sir Q» são um grupo de músicos cujos destinos se cruzaram no Extremo Oriente. Auto intitulam-se: «Andy Newman, o baterista pedante. Egon Crippa, o baixista esquivo. Dichma Rahma, a vocalista inconstante. Peter Shuy, o guitarrista neurótico». Fechados no seu próprio mundo, o Xing Palace Place e o seu magnífico jardim, desconstroem canções e deixam-se embalar pela cacofonia. Inventam-se dialectos, reinventa-se a ortografia, subverte-se a fonética, recusam-se as convenções. Não procuram o óbvio mas acabam por encontrá-lo.
O concerto está marcado para as 22h00 e tem entrada livre.
plb (com TMG)

O Bicentenário da Quarta Invasão Francesa

Passam-se hoje, dia 3 de Abril de 2012, duzentos anos sobre a quarta invasão de Portugal pelas tropas napoleónicas e, em simultâneo, 201 anos sobre a importantíssima batalha do Sabugal, que marcou o final da terceira invasão.

É comum falarmos em três invasões de Portugal perpetradas pelos exércitos napoleónicos. Todos conhecemos, aliás, os comandantes franceses dessas três invasões: Junot, Soult e Massena. Porém houve uma quarta invasão de Portugal, comandada pelo marechal Marmont, que poucos conhecem e que a história, por regra, omite.
Alguns autores consideram porém ousado chamar-lhe «invasão», pois tratou-se sobretudo de uma incursão ou sortida do exército francês em território português, ou ainda, usando a linguagem táctico-militar, de uma «manobra de diversão».

Marmont substituiu Massena
Após a batalha do Sabugal, ocorrida em 3 de Abril de 1811, o exército francês retirou para Espanha. Face ao fracasso da terceira invasão, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, substituindo-o por August Marmont, um marechal de 36 anos que detinha o título de Duque de Ragusa. Oriundo de famílias nobres, o jovem marechal não detinha o prestígio de Massena, mas gozava dos favores de Napoleão que o considerava um comandante com elevados méritos.
A prioridade de Marmont foi reorganizar o Exército de Portugal, que o imperador mantinha com o fim de realizar uma nova expedição em Portugal para expulsar os ingleses da Península, «atirando-os para o mar». A expedição deveria contudo aguardar pelo momento oportuno, sendo intenção de Bonaparte vir ele mesmo à Península para a comandar.
A primeira missão que lhe foi atribuída foi juntar-se ao Exército do Sul, chefiado pelo marechal Soult, tendo em vista salvar a praça de Badajoz, que fora cercada pelo exército anglo-português. A simples união dos dois exércitos franceses, que actuaram coordenados na linha do Guadiana, fez desmobilizar Lord Wellington, que levantou o cerco a Badajoz, recuando para Elvas e Campo Maior.
Os dois marechais franceses (Soult e Marmont) pensaram perseguir o exército anglo-luso e enfrentá-lo, lançando uma nova ofensiva em Portugal, que facilmente chegaria a Lisboa atravessando as planícies do Alentejo. Contudo, não havendo para isso ordens formais de Bonaparte, o movimento não foi executado. A ordem vinda do imperador foi antes a da separação dos dois exércitos, devendo Marmont subir para o vale do Tejo e Soult descer para sul, retomando as posições anteriores.

A acção de Wellington em Portugal
Arthur Welleslay, visconde de Wellington, que comandava o exército aliado, era um homem prudente e atempado. Media cuidadosamente cada uma das suas acções, avançando sempre com segurança, não sendo nada propenso a aventuras e a ousadias. Vencendo a batalha do Sabugal, correu os franceses para Espanha, repelindo-os de novo em Fuentes de Oñoro quando tentaram regressar, mas nem de uma e de outra vez os perseguiu por Espanha adentro.
A sua prioridade era salvaguardar as fronteiras de Portugal, livrando-as do perigo de uma nova invasão. O plano que gizou impunha a conquista de duas praças-fortes espanholas que haviam caído nas mãos dos franceses: Ciudad Rodrigo e Badajoz. Começou por esta última, levando o seu exército para o Alentejo, onde contava operar com mais segurança e com maiores probabilidades de sucesso. Repelida a tentativa de tomar Badajoz, parte de novo para a Riba-Côa, instalando-se na Freineda no verão de 1811.
Foi aí que planeou, em grande secretismo, o cerco a Ciudad Rodrigo. Reconstruiu a fortaleza de Almeida, e apetrechou-a com artilharia pesada e material de cerco. A 1 de Janeiro de 1812, em pleno Inverno, com um exército de 35 mil homens e munido do trem de artilharia que estava em Almeida, irrompeu de encontro à fortaleza espanhola, que foi bloqueada, cercada e bombardeada, sendo tomada a 19 de Janeiro, numa acção que custou a vida ao lendário general Craufurd, comandante da Divisão Ligeira.
Tomada Ciudad Rodrigo, Wellington encaminhou-se imediatamente para sul e pôs cerco a Badajoz, deixando a fronteira de Riba-Côa sob a vigilância das milícias.

O susto de Napoleão Bonaparte
A queda de Ciudad Rodrigo e a imediata ofensiva sobre Badajoz por parte do exército aliado, causaram o enfurecimento do imperador dos franceses, que anteviu uma forte ofensiva de Wellington em direcção a Madrid em acto contínuo à mais que provável tomada da praça do sul. Assustado com essa possibilidade, Bonaparte ordena a Soult que se encaminhe para Badajoz, a fim de socorrer a cidade, ao mesmo tempo que instruiu Marmont a fazer uma «manobra de diversão», através de uma forte ofensiva em Portugal, na Beira Baixa, de modo a atrair Wellington e assim salvar Badajoz e desviar o exército aliado do caminho da capital espanhola.
Marmont reuniu junto ao rio Tormes, nas imediações de Salamanca, 18 mil homens, um pouco menos de metade do Exército de Portugal, que estava espalhado pelas províncias sob a sua jurisdição, e avançou em direcção à fronteira portuguesa. Não levava artilharia pesada, pois tratava de cumprir à risca as ordens do imperador, que pretendia uma manobra rápida, se bem que ostensiva, sobre o território português. Passando junto a Ciudad Rodrigo a guarnição espanhola, que Wellington ali deixara, ainda temeu que o objectivo dos franceses fosse atacá-la ou bloqueá-la, mas a tropa passou e andou a toda a pressa, seguindo no caminho de Portugal.

Marmont invade Portugal
A 3 de Abril de 1812, exactamente um ano após a batalha do Sabugal, os franceses reentram em Portugal, tentando tomar Almeida de assalto, no que foram repelidos pela milícia portuguesa que guarnecia a praça. Marmont avançou então para norte, passando por Alfaiates e chegando ao Sabugal, onde a 8 de Abril estabeleceu o seu quartel-general.
A partir do Sabugal, onde ficou instalado, o marechal enviou sortidas a Penamacor, Belmonte, Idanha-a-Nova, Covilhã e Fundão, chegando a sua vanguarda a Castelo Branco.
Entretanto o exército aliado tomou Badajoz aos franceses a 7 de Abril, numa violenta e dura batalha, extremamente cara para ambos os lados. Wellington, tomando conhecimento da movimentação francesa em Portugal, decidiu não dar descanso aos seus soldados e subiu com todo o seu exército para norte, em marchas forçadas, em socorro da Beira.
Face ao avanço dos aliados, as tropas de Marmont abandonaram as suas posições, recuando para evitar o confronto com o exército luso-britânico. No caminho da retirada, Medelim e Pedrógão de S. Pedro foram saqueadas e literalmente destruídas pelas tropas invasoras.
O exército aliado continuou a sua marcha apressada, em perseguição a Marmont, porém este levantou o seu acampamento no Sabugal e regressou a Espanha a 24 de Abril, sem que a vanguarda aliada o tivesse avistado.
Após mais de 250 quilómetros, sem conseguir ver o inimigo, que recuava com avanço, Wellington decidiu parar em Alfaiates, onde deu merecido descanso às tropas.

O malogrado plano de Trant
Houve nesta incursão francesa um aspecto curioso, que merece uma referência.
Instalado na cidade da Guarda, o brigadeiro Trant, oficial britânico que chefiava a milícia portuguesa que ajudara o governador de Almeida, La Masurier, na defesa da fortaleza, verificando que os franceses tinham acampado no Sabugal, elaborou um ousado plano para o atacar de surpresa. Comunicou com o brigadeiro Wilson e com o general Bacelar, que igualmente comandavam milícias, e pediu-lhes para se reunirem a si na Guarda, a fim de executarem juntos o movimento de ataque aos franceses. Marmont, apercebendo-se porém da concentração das milícias, antecipou-se aos planos de Trant e enviou à Guarda uma sortida de cavalaria. O brigadeiro inglês retirou à pressa, indo instalar-se para lá do Mondego, mas na manhã do dia 14 de Abril a cavalaria francesa atacou o batalhão português que cobria a retirada, que foi rapidamente desbaratado, fazendo 200 prisioneiros.
Trant escrevera ao comandante-chefe dando-lhe conta da retirada precipitada e do fracasso do plano de ataque ao quartel-general de Marmont no Sabugal. A 17 de Abril, Lord Wellington respondeu-lhe de Castelo Branco , censurando-o vivamente por se ter posicionado na Guarda, que considerava ser «a mais traiçoeira posição militar em Portugal», por não oferecer condições de retirada, louvando-o contudo por ter dado disso conta a tempo de salvar o grosso da milícia.

As atrocidades da quarta invasão
Esta fugaz invasão de Portugal, que teve o epicentro no Sabugal, e que durou apenas 20 dias, deixou um tremendo rasto de violência e de destruição nas terras por onde passou. Nunca uma movimentação das tropas napoleónicas pelas nossas terras raianas fora tão violenta e excessiva como o foi esta incursão fugaz.
A ofensiva ocorreu no início da Primavera de 1812, um ano após a última passagem de tropas francesas e quando os habitantes refaziam as suas vidas. Wellington estivera largos meses na Freineda, e percorrera as terras da Raia, incentivando os habitantes a reconstruírem as suas casas, os moinhos e os fornos que foram arrasados por ocasião da terceira invasão. A sua presença criou uma sensação de segurança e os populares refizeram o seu quotidiano, recompondo as habitações, voltando a criar gado e preparando as sementeiras.
A sortida de Marmont apanhou-os de surpresa, vendo num ápice as terras de novo invadidas pelas hordas francesas, que a todo o custo procuraram meios de subsistência. Voltaram os saques e os abuso de toda a ordem, dentre os quais os actos de vingança perpetrados pelos mesmos soldados que há um ano ali haviam passado em retirada.
O cenário nas aldeias onde passou esta incursão era de pura destruição, com casas pilhadas e queimadas, igrejas espoliadas e profanadas e o gado abatido e esquartejado para servir de alimento aos soldados.
William Warre, jovem major britânico ao serviço do exército português, que veio com Wellington na perseguição aos invasores, escreveu uma carta à família a partir da aldeia da Nave, onde pernoitou:
«Meu querido pai,
É impossível dar-vos uma ideia da desgraça existente em todas as vilas por onde o inimigo passou, pois destruíram tudo aquilo que não puderam levar. Na minha presente habitação, o chão foi feito em pedaços e as janelas, portas e mobílias incendiadas, só escapando a arca e a cadeira que estou usando, que parecem ter desafiado as chamas. A fome e a penúria dos infelizes camponeses que nos cercam por toda a parte, e a caridade que fomos fazendo a alguns, já esgotou completamente os nossos meios. O dinheiro tem pouca utilidade onde nada pode ser comprado. Toda a forragem para os cavalos foi, nos dois últimos dias, aquela que conseguimos cortar nos campos, embora nem estes tenham escapado à rapacidade do inimigo.(…).
Nava (sic), na estrada entre Sabugal e Alfaiates, 24 de Abril de 1812.
»
Uma invasão quase desconhecida, mas que deixou marcas profundas na nossa região e que, por isso, não devemos deixar apagar da memória histórica.
Paulo Leitão Batista

Batalha do Gravato – Acontecimento do Ano

«As comemorações dos 200 anos das Invasões Francesas e a importância da região raiana nas movimentações militares» foram eleitas pelo Capeia Arraiana como o Acontecimento do Ano.

Batalha do Gravato - Sabugal

As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal.
O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.
No sábado, dia 2 de Abril, pelas 14 horas, teve lugar a inauguração da exposição, designada «A defesa da Fronteira da Beira», no Museu Municipal do Sabugal. No Auditório Municipal, decorreu o lançamento de dois livros dedicados às invasões. O primeiro, intitulado «A Batalha do Gravato – Narrativas do Famigerado Combate do Sabugal», da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e o segundo, intitulado «Sabugal e as Invasões Francesas», sendo seus autores Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista, e foi apresentado pelo escritor e pensador sabugalense Jesué Pinharanda Gomes. No prefácio da obra o ilustre filósofo diz-nos: «A aventura ou gesta relativa às invasões, focalizando o caso específico do Sabugal, encontra-se reconstruída e descrita neste livro, cujo epílogo põe a nossos olhos o fim, sem remissão, do General Massena, incapaz de satisfazer o projecto do Imperador, e dessa atroz figura do «Maneta», o famigerado Loison. Tudo com o fim na Batalha do Sabugal, junto ao Coa, em 3 de Abril de 1811. Fim militar, ou politico-militar, porque a outra «invasão», a ideológica, a da recepção dos ideários da Revolução Francesa (frutificante entre nós a partir de uns dez anos mais tarde, 1820), achou na presença militar franco-inglesa, oportuna sementeira.»
O livro, editado pela Orfeu, tem três autores, o que proporciona perspectivas diferentes do que foi o Sabugal no contexto das invasões napoleónicas.
Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão descreve em pormenor a Batalha do Sabugal, acontecida em 3 de Abril de 1811. Explica as movimentações de retirada do exército de Massena, descreve o local onde se deu a batalha e as forças em presença, decifra os planos de Wellington para o confronto e a forma como realmente a batalha ocorreu. Os textos são complementados por croquis muito elucidativos, onde se observam os movimentos planeados e as manobras que foram de facto executadas.
Joaquim Tenreira Martins escreve sobre o Sabugal no tempo de Napoleão. Explicita o contexto histórico em que aconteceram as invasões francesas, com destaque para a terceira, que foi a que mais afectou a região do Sabugal. Desenvolve uma sugestiva e interessante tese acerca das duas «tentações» de Massena em diferentes momentos do movimento de retirada. Descreve o contexto em que aconteceu a Batalha do Sabugal e pormenoriza os planos e os movimentos das tropas que se digladiaram depois em Fuentes de Oñoro.
Paulo Leitão Batista traça alguns retratos do que foram as movimentações militares, os combates e os actos colaterais, tendo por cenário Riba-Côa e em especial as terras raianas do Sabugal. Descreve episódios pouco conhecidos e traça o perfil de alguns dos famosos generais que por aqui passaram em campanha.
Ainda no auditório teve lugar um Encontro Temático dedicado às invasões com as comunicações a cargo de Adérito Tavares: «O expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio do fim»; Joaquim Tenreira Martins: «Sabugal e as tentações de Massena na terceira Invasão Francesa»; José Alexandre Sousa: «Condicionalismos humanos e naturais numa acção militar – o combate do Sabugal a 3 de Abril de 1811»; Paulo Leitão Batista: «O Sabugal e a quarta Invasão Francesa»; e José Paulo Ribeiro Berger: «A importância da ponte sobre o rio Côa no Sabugal para o êxito do exército aliado na perseguição a Massena».
Às 21 horas um concerto pelo Ensemble da Orquestra Sinfónica do Exército encerrou as cerimónias desse dia.
No domingo, dia 3, os sinos das igrejas do Sabugal repicaram às 9:30 horas, seguido da inauguração de um memorial no sítio do Gravato, com presença militar.
Às 11 horas foi inaugurado um monumento evocativo da Batalha na rotunda de entrada no Sabugal, da autoria do escultor Augusto Tomás, seguida de cerimónia de homenagem aos mortos e evocação histórica pelo Tenente-Coronel Urze Pires.
Às 12 horas foi celebrada missa pelos mortos em combate. À tarde decorreu no castelo uma recriação das comemorações da vitória.

Assim é com todo o mérito que destacamos as comemorações do bicentenário da batalha do Gravato como o Acontecimento do Ano.
jcl

Bicentenário do combate de Aldeia da Ponte

Após a batalha do Sabugal, em 3 de Abril de 1811, o exército francês retirou para Espanha. Contudo Napoleão Bonaparte não desistira de submeter Portugal, continuando à espera de uma oportunidade, de que foi exemplo a perseguição ao exército anglo-luso que culminaria no combate de Aldeia da Ponte, acontecido em 27 de Setembro de 1811, há precisamente 200 anos.

Face ao fracasso da terceira invasão, Massena caiu no desfavor de Napoleão, que lhe retirou o comando do Exército de Portugal, entregando-o a August Marmont, um jovem marechal de 36 anos, que detinha o título de Duque de Ragusa. Oriundo de famílias nobres, coisa pouco comum entre a oficialidade francesa, Marmont não tinha o prestígio de Massena, mas o Imperador considerava-o um comandante talentoso e muito promissor.
Marmont começou por instalar o seu exército junto a Salamanca, para lhe dar descanso pois estava fortemente desgastado com a campanha em Portugal e a recente investida sobre Fuentes de Oñoro, nos dias 3 e 4 de Maio, que fora repelida pelos aliados. Extinguiu os corpos e reorganizou as divisões e as brigadas, mudando alguns comandantes, ao mesmo tempo que procurou arranjar subsistências, lançando no terreno destacamentos de forrageadores e constituindo depósitos de víveres e de armamento. Sabia que Napoleão queria reentrar em Portugal e assim tratava de colocar o exército pronto para a missão. A ideia de que o próprio Imperador viria em pessoa comandar a expedição vitoriosa, animava-o a prosseguir os preparativos para esse grande momento de glória.
Porém Bonaparte deu-lhe ordem para ir para sul, em socorro do marechal Soult, que tentava salvar a praça de Badajoz do cerco a que fora sujeita pelo exército anglo-português, comandado pelo duque de Wellington. A 6 de Junho o Exército de Portugal colocou-se em movimento e no dia 18 Marmont juntou-se a Soult. A simples união dos dois exércitos franceses, fez desistir Lord Wellington, que levantou o cerco a Badajoz, recuando para Elvas e Campo Maior.
Os dois marechais (Soult e Marmont) pensaram perseguir o exército anglo-luso, lançando uma nova ofensiva em Portugal, que facilmente chegaria a Lisboa atravessando as planícies do Alentejo. Contudo, as ordens formais de Bonaparte, que tudo comandava desde Paris, foram para que Marmont subisse para o vale do Tejo e Soult descesse para sul, retomando as posições anteriores.
Wellington, face ao fracasso da tentativa de tomada de Badajoz, decidiu partir com a maior parte do seu exército para Riba-Côa, a fim de tomar Ciudad Rodrigo, que igualmente permanecia nas mãos dos franceses. A partir da Freineda, onde instalou o quartel-general, enviou uma boa parte das suas tropas por Espanha adentro, até perto de Ciudad Rodrigo, para bloquear a praça-forte.
Em 23 de Setembro, o marechal Marmont, após reunir o grosso do seu exército, resolve desalojar os aliados das suas posições, atacando-os. Nos dias seguintes, os aliados, não aguentando as cargas sucessivas dos franceses, recuaram de posição em posição, usando a tácita de retirada por escalões, e aproximaram-se da fronteira.
A 27 de Setembro, já com o exército anglo-luso em Portugal, Marmont decide lançar um forte ataque à povoação de Aldeia da Ponte, onde uma boa parte dos aliados se haviam instalado. Coube aos generais Thiebault e Souham comandar as investidas, que encontraram nos portugueses e ingleses firme e determinada resistência. Porém ao final do dia, após uma renhida disputa, com dezenas de baixas de ambos os lados, os aliados abandonam a aldeia, que foi tomada pelos franceses.
No dia seguinte, 28 de Setembro, a tropa anglo-lusa ocupava firmemente as alturas do Soito, com a direita nos Fóios e a esquerda em Rendo, em posição de evitar a continuação da progressão. Nesse mesmo dia os Franceses, considerando arriscada uma nova manobra de ataque, decidem retirar para tomar posições que evitassem uma nova aproximação a Ciudad Rodrigo.
Veja Aqui a descrição do Combate de Aldeia da Ponte, da autoria de Manuel Peres Sanches.
Paulo Leitão Batista

O quinto conde do Sabugal

Depois da enumeração e breve caracterização de quem usou o título de Conde do Sabugal, vale a pena divagar um pouco mais acerca da vida do chamado 5.º Conde do Sabugal, Manuel Assis Mascarenhas Castello Branco da Costa Lencastre, nascido a 18 de Julho de 1778, que foi de todos os titulares do cargo o que granjeou maior prestígio.

Foi também conde de Óbidos, alcaide-mor de Óbidos e de Salir, Senhor de Palma, Meirinho-Mor e Par do reino, mas era sobretudo conhecido por «Conde do Sabugal».
Recebeu uma educação esmerada, e conhecia perfeitamente as línguas francesa e italiana. Traduziu várias composições poéticas e compôs versos originais em francês, italiano e português, mas não imprimiu nunca os seus trabalhos literários.
Em 1804 e 1805 frequentou a casa da poetisa Marquesa de Alorna, onde o jovem conde era muito bem recebido, não só pelo seu talento e conhecimentos literários, mas também pelas suas anedotas e epigramas. Esses epigramas, porém, não agradavam ao governo, que além do mais o acusou de ter entrado numa tramóia com a rainha D. Carlota Joaquina, ao ajudá-la a redigir um decreto a proclamá-la regente do reino. Assim o conde, que era oficial do exército, recebeu ordem de ir inspeccionar as fortalezas do Algarve, e de prolongar a inspecção até lhe dizerem de Lisboa que podia regressar. Era um desterro disfarçado, que seria apenas o primeiro da sua vida.
Com a invasão francesa, o general Junot criou a Legião Lusitana, onde o conde serviu como tenente-coronel, combatendo brilhantemente na Áustria, em 1809. Em reconhecimento do seu mérito, foi condecorado pelo Imperador com a Legião de Honra de França, cuja insígnia lhe colocou por mão própria no campo de batalha.
Enviado depois em campanha para a Península Ibérica, evadiu-se do exército francês e voltou a Portugal onde foi mal recebido e enviado para a Ilha Terceira, nos Açores, onde permaneceu impedido de regressar ao continente. Com a revolução de 1820, arriscou voltar, mas foi de imediato intimado a deixar o reino.
Deu-se bem com o regime liberal de 1826, sendo mesmo eleito par do reino. Em 1828 partiu de novo para o exílio em Inglaterra, recusando aceitar o domínio de D. Miguel. Abraçando com empenho a causa liberal, coube-lhe em missão presidir, em 1829, à deputação encarregada pelo Marquês de Palmela de ir ao Rio de Janeiro fazer ver a D. Pedro os prejuízos que poderiam advir para a sua causa se o Brasil não tomasse a defesa dos direitos de sua filha, D. Maria, como legítima soberana de Portugal. A sua missão não teria inicialmente sucesso, mas em meados de 1830 o conde foi acreditado junto do governo brasileiro como representante da regência portuguesa fixada na Ilha Terceira.
Foi nomeado pelo governo de D. Maria II ministro de Portugal junto da Corte do Brasil, de onde regressaria doente em 1834. As enfermidades não lhe permitiram um serviço activo e conservou-se praticamente alheio à política, passando a viver em ameno convívio com os homens de letras, que prezava e que o prezavam. Faleceu em 5 de Fevereiro de 1839.
Paulo Leitão Batista

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

«O Sabugal e as Invasões Francesas» em Bruxelas

O Sabugal e as Invasões Francesas anda agora de terra em terra. Depois de ter estado no Auditório Municipal do Sabugal, a quando das comemorações da Batalha do Sabugal, no dia 2 de Abril, passou pela Casa do Concelho do Sabugal, em Lisboa, no dia 19 Maio, onde estiveram os três autores e, no dia 31 de Maio, foi apresentado na Livraria Orfeu, em Bruxelas.

Apresentação de livro sobre as invasões francesas

Às 18,30 horas do dia 19 de Maio, quinta-feira, vai ser apresentado em Lisboa o livro «Sabugal e as Invasões Francesas», da autoria de Manuel Francisco Veiga Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. A sessão vai acontecer na Casa do Concelho do Sabugal.

O filósofo e escritor Pinharanda Gomes, que assina o prefácio do livro, fará a apresentação, seguida de algumas palavras dos autores.
O livro fala das invasões francesas tendo sempre por pano de fundo o Sabugal, por onde os exércitos passaram por diversas vezes e onde se deu a derradeira batalha em solo português.
Manuel Francisco Veiga Mourão, natural de Torres Vedras, coronel na reserva e historiador militar, escreve sobre a Batalha do Sabugal, descrevendo com minúcia o campo de batalha, as forças em presença, os planos dos comandantes, para depois explicar a evolução das tropas no decurso do combate.
Joaquim Tenreira Martins, investigador natural de Vale de Espinho, fala do Sabugal no tempo de Napoleão Bonaparte. Descreve a forma como se organizavam os exércitos e como se abasteciam, a politica de terra queimada praticada por Wellington, as surpresas e as tentações de Massena, descrevendo ainda em pormenor a passagem dos exércitos pelo Sabugal e a batalha que ali teve lugar.
Paulo Leitão Batista, economista natural do Sabugal e co-autor do blogue Capeia Arraiana, faz a memórias das invasões, referindo os momentos em que as tropas passaram pelo Sabugal e traçando o perfil dos generais ingleses e franceses que as comandaram.
A Casa do Concelho do Sabugal está sedeada na Avenida Almirante Reis, nº 256, 2º Esqº, em Lisboa, local onde a sessão de apresentação do livro «Sabugal e as Invasões Francesas» terá lugar.
jcl

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A espectacular fuga de Almeida

Em 10 de Maio de 1811, há rigorosamente 200 anos, ocorreu um dos grandes actos de valentia da história militar francesa, que foi a evasão da guarnição que ocupava a praça de Almeida. Os homens do general Brenier, seguindo as instruções do marechal Massena, romperam com argúcia e coragem o cerco das tropas aliadas, juntando-se ao seu exército em Espanha. Massena conseguiu com este glorioso feito mitigar o fracasso que foi a terceira invasão de Portugal.

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Sabugal e as Invasões Francesas (1)

As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.

Invasões Francesas - Batalha do Sabugal - Foto Natália Bispo
Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Sabugal e as Invasões Francesas (2)

As cerimónias oficiais da evocação da Batalha do Sabugal no sítio do Gravato tiveram início no dia 2 de Abril de 2011 no Auditório Municipal do Sabugal. O professor Adérito Tavares abriu «as hostilidades» explicando (como só ele é capaz) o «expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio e o fim». Já no dia anterior, sexta-feira, no mesmo local, uma plateia repleta de alunos das Escolas do Sabugal tiveram oportunidade de aprender com o ilustre historiador natural de Aldeia do Bispo. Seguiu-se o lançamento dos livros «A Batalha do Gravato – Narrativas do famigerado combate do Sabugal» da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório e de «Sabugal e as Invasões Francesas» de Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista. O prefácio e a apresentação do livro escrito a «três mãos» esteve a cargo do filósofo e pensador sabugalense mestre Jesué Pinharanda Gomes.

Invasões Francesas - Batalha do Sabugal - Foto Natália Bispo

Duzentos anos depois…

No dia 3 deste mês comemorou-se o bicentenário da Batalha do Gravato ocorrida durante a 3ª Invasão Francesa.

Ramiro Matos – «Sabugal Melhor»Durante três dias, e digo três dias porque na sexta-feira, dia 1, o Professor Adérito Tavares proporcionou a largas dezenas de alunos das nossas escolas um contacto com a história sabugalense, numa iniciativa a todos os títulos louvável.
A larga adesão dos sabugalenses nas iniciativas de sábado mostra que existe uma grande vontade de conhecer a história do nosso Concelho.
Merece realce nessa tarde a qualidade dos dois livros apresentados, um, «A Batalha do Gravato» da autoria de Manuel Morgado (embora nascido em França, sabugalense de adopção e de querer), e Marques Osório, arqueólogo do Município do Sabugal; e o segundo, «Sabugal e as Invasões francesas», da autoria dos conterrâneos Paulo Leitão Batista e Joaquim Tenreira Martins, a que se associou o historiador militar Manuel Francisco Mourão.
Igualmente realce para as intervenções seguintes que prenderam os assistentes, muitos deles, como eu, sem um conhecimento profundo do que se havia passado há 200 anos.
Mas se esta parte, diga-se mais cultural, foi importante, igual ou maior importância teve a ida ao local da batalha no domingo e, sobretudo, a inauguração de uma peça escultórica de arte pública, da autoria do escultor Augusto Tomás, natural de Santo Estêvão. Vale a pena a próxima vez que forem ao Sabugal irem à rotunda de saída do Sabugal para a Guarda e admirarem a escultura, pois a mesma é de grande qualidade.
Foram momentos significativos e, estou certo que todos os que assistiram sentiram orgulho em serem descendentes das mulheres e homens que, duzentos anos antes, souberam reagir ao invasor e, sobretudo, souberam encontrar os caminhos para recuperar da destruição e miséria em que ficaram após a derrota e expulsão dos franceses.
É esta a fibra de que somos feitos e por isso continuo a acreditar que saberemos encontrar os caminhos para sairmos da situação difícil em que o Concelho do Sabugal se encontra hoje.
Que o exemplo dos nossos avoengos nos sirva de motivação para construirmos, todos, um Sabugal melhor!
«Sabugal Melhor», opinião de Ramiro Matos

(Presidente da Assembleia Municipal do Sabugal)
rmlmatos@gmail.com

Lugares comuns com origem nas invasões

As invasões francesas, cujo bicentenário se evoca, deixaram variadas marcas, dentre as quais alguns lugares comuns na nossa linguagem popular, de que são exemplos as conhecidas expressões: «ficar a ver navios», «ir para o maneta» ou «Portugal é Lisboa e o resto é paisagem».

Soldados FrancesesO lugar comum «ficar a ver navios», que se utiliza quando alguém fica desiludido, ou não consegue alcançar aquilo com que contava, teve origem na primeira invasão francesa de Portugal. Foi o general Junot, comandante das tropas invasoras, que viu frustradas as suas expectativas de aprisionar a família real portuguesa, ao ter chegado tardiamente a Lisboa em Novembro de 1807. Restou-lhe observar, do alto de Santa Catarina, os navios da armada que haviam acabado de zarpar do Tejo rumo ao Brasil, para onde foi transferida a corte portuguesa. Junot ficou assim a «ver navios», e a expressão acabou enraizada no léxico popular.
Outro lugar comum muito em voga é «ir para o maneta», expressão usada em sinal de perda irrecuperável. A mesma ficou associada ao mais atroz dos generais de França, de nome Loison, o qual esteve em Portugal nas três invasões. Loison perdera uma mão num acidente e era conhecido entre os portugueses como o general «Maneta», tendo ficado célebre pelas suas acções punitivas sobre a população sublevada. «Ir para o Maneta» era ir parar às mãos, ou melhor, à mão, do fatídico general, assim ficando a expressão no nosso léxico.
Há ainda um terceiro lugar comum que provém do tempo das invasões: «Portugal é Lisboa e o resto é paisagem». A frase é atribuída ao general Foy, o conhecido portador das mensagens de Massena para Napoleão Bonaparte, que passou várias vezes no Sabugal. Massena tinha a maior confiança em Foy, que era um bom conhecedor de Portugal, pelo que contava com os seus conselhos. Instado a pronunciar-se sobre o que seria a terceira campanha do exército francês, Foy não hesitou em dizer-lhe que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. A frase foi premonitória, pois a avançada francesa só foi verdadeiramente travada às portas de Lisboa, devido às famosas Linhas de Torres Vedras, pelo que Massena terá compreendido por que razão em Portugal tudo era paisagem á excepção de Lisboa. Aliás Massena não chegou a conhecer as paisagens de Lisboa.
plb

Evocação do bicentenário da Batalha do Sabugal

Comemora-se no dia 3 de Abril (domingo) o bicentenário da Batalha do Sabugal, a última das que aconteceram em território português por ocasião das invasões francesas. A Câmara Municipal e a empresa Sabugal+ elaboraram um programa evocativo que acontece no próximo fim-de-semana.

No sábado, dia 2 de Abril, pelas 14 horas, haverá a inauguração de uma exposição, designada «A defesa da Fronteira da Beira», no Museu Municipal do Sabugal.
De seguida, no Auditório Municipal, decorrerá o lançamento de dois livros dedicados às invasões. O primeiro, intitulado «A Batalha do Gravato – Narrativas do Famigerado Combate do Sabugal», é da autoria de Manuel Morgado e Marcos Osório.
O segundo, intitulado «Sabugal e as Invasões Francesas», sendo seus autores Manuel Francisco Veiga Gouveia Mourão, Joaquim Tenreira Martins e Paulo Leitão Batista, será apresentado pelo escritor e pensador J. Pinharanda Gomes, que assina o prefácio da obra.
Seguir-se-á, ainda no auditório, um Encontro Temático dedicado às invasões, estando previstas as comunicações:
Adérito Tavares: «O expansionismo napoleónico na Península Ibérica: o princípio do fim»;
Joaquim Tenreira Martins: «Sabugal e as tentações de Massena na terceira Invasão Francesa»;
José Alexandre Sousa: «Condicionalismos humanos e naturais numa acção militar – o combate do Sabugal a 3 de Abril de 1811»;
Paulo Leitão Batista: «O Sabugal e a quarta Invasão Francesa»;
José Paulo Ribeiro Berger: «A importância da ponte sobre o rio Côa no Sabugal para o êxito do exército aliado na perseguição a Massena».
Pelas 21 horas haverá um concerto pelo Ensemble da Orquestra Sinfónica do Exército.
No domingo, dia 3, haverá repique de sinos pelas 9h30, seguido da inauguração de um memorial no sítio do Gravato, com presença militar.
Pelas 11 horas será inaugurado um monumento evocativo da Batalha na rotunda de entrada no Sabugal, da autoria do escultor Augusto Tomás, seguida de cerimónia de homenagem aos mortos e evocação histórica pelo Tenente-Coronel Urze Pires.
Às 12 horas haverá missa pelos mortos em combate.
À tarde, pelas 15 horas, decorrerá no castelo uma recriação das comemorações da vitória.
plb

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A desobediência do marechal Ney

«Sei que assumo uma grande responsabilidade ao opor-me tão formalmente às suas intenções; mas, nem que seja destituído e nem que com isso perca a cabeça, não seguirei o movimento para Coria e Plasencia de que me fala a não ser, repito, que tal me seja ordenado pelo Imperador» – missiva que de Ney para Massena, recusando a ordem de encaminhar o seu corpo para o Sabugal, seguindo o caminho para a Estremadura espanhola.

A importância dos burros para o exército francês

O gado asinino teve um papel fundamental na campanha de Portugal do exército napoleónico, pois servia de meio de transporte, nomeadamente no carrego dos feridos e do equipamento individual dos soldados. Quando a fome apertava e as provisões estavam gastas, os burros eram abatidos, servindo a sua carne para alimentação dos militares.

Para a galhardia de um exército como era o exército francês da altura, que se considerava o melhor do mundo, a presença de burros no seu dispositivo não era bem vista pelos comandantes. O burro era considerado um animal menor, sendo portanto desprezado e, na medida do possível, afastado das colunas dos soldados de linha, embora pudesse ter lugar entre o dispositivo de apoio logístico.
Porém na terceira invasão francesa, os asnos tiveram um papel fundamental. O jovem tenente Jean-Baptiste Barrés, que vinha integrado no segundo corpo de exército, comandando pelo general Reynier, dá disso devida nota nas suas memórias: «Estes animais úteis e pacientes, prestaram imensos serviços ao Exército de Portugal, que a miséria tornou muito ingrato em relação aos demais salvadores. Todos os regimentos tinham, pelo menos, entre 120 e 150 burros em fila, para transportar os doentes e os feridos, os sacos dos convalescentes e as provisões de víveres, quando se era suficientemente ditoso para os encontrar durante mais de um dia. Esta massa de quadrúpedes elevava os homens à sua condição, tornava bem mais pesada a marcha das colunas, mas salvou muitos infelizes
Já perante as Linhas de Torres, nos cinco longos meses aí passados pelos franceses, esperando reforços, os burros tiveram de novo um papel fundamental, mas desta feita para matar a fome dos infelizes soldados, que não encontravam meios de subsistência. Foi o mesmo oficial a deixar também esse testemunho: «Poucos dias depois da nossa chegada à frente das linhas inglesas, a miséria tornou-se tão pungente, tão generalizada, que todos esses seres inofensivos foram mortos e comidos com uma espécie de sensualidade. Aqueles que quiseram ou puderam conservá-los mantinham-nos bem escondidos, e vigiavam-nos, como se fossem cavalos de raça, porque eram roubados e mortos sem escrúpulos
O burro foi nesta campanha o melhor companheiro para o soldado. Era sobre ele que transportava a sua bagagem individual nas longas marchas. E muitas vezes a bagagem era pesada, porque ao equipamento pessoal do combatente juntava-se o produto do saque.
Aquando da retirada, de volta a Espanha, as colunas francesas seguiam lentamente pelos campos, o que preocupava Massena e os seus lugar-tenentes, que queriam antes que as colunas marchassem depressa, para evitarem os ataques do exército anglo-português que os perseguia. Porém os burros, carregadíssimos, andavam lentamente e congestionavam os caminhos de tal modo, que isso provocou um acesso de fúria no marechal Ney, cujo corpo, o sexto, seguia na retaguarda, com a missão de repelir as cargas do inimigo e proteger a marcha do restante exército. Em Miranda do Corvo, perante o problema do bloqueio da ponte sobre o rio Ceira, face ao imenso mar de burros e furgões carregados, o vigoroso marechal ordenou que se lançasse fogo a todos os equipamentos, a começar pelos seus, e sem poupar os de Massena. Depois, numa acção cruel, mandou estropiar os burros para que não seguissem com ele, nem tivessem préstimo para o exército aliado que o perseguia. Colocou soldados à entrada da ponte com a missão de cortar os jarretes a todos os burros, sem excepção, à medida em que fossem chegando. «Uma enorme quantidade desses úteis animais foi assim sacrificada e, no exército, esta execução tomou o nome de “massacre dos inocentes”», escreveu o também tenente francês Bauyn de Péreuse.
Mau grado o descontentamento provocado entre os soldados, com esta acção atroz, o marechal prestou o serviço de aliviar as colunas, que melhoraram a mobilidade e a rapidez na execução das manobras de retirada.
Paulo Leitão Batista

Invasões Francesas - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

A amante de Massena

O marechal André Massena, que comandou as tropas francesas na terceira invasão de Portugal fez-se acompanhar de uma amante, que esteve sempre a seu lado, e a quem os seus soldados chamavam jocosamente a «Galinha de Massena».