O meu amigo «Sr. Dála»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Partida comovida, na Tasca da Eduarda, com massinha de peixe oferecida pelos nossos compadres, e um voo longo mas agradável. Por ser noturno, permitiu uma dormida e um relax para a viagem seguinte. Ao contrário do passado, hoje, felizmente os procedimentos alfandegários são rápidos e, estas missões, já têm uma logística que também melhorou significativamente com a experiência.

Senhor Dála

Senhor Dála

As grandes capitais africanas têm um transito peculiar. E nem todos conseguem conduzir neste emaranhado de vida que vemos por todos os lados.

À minha espera tinha um motorista, com um papel A4 escrito com o meu nome. Pelo menos aqui não sou «alcada» como já me habituei. O «ç» estava lá. Identifiquei-me e o Senhor também se apresentou: «Sou o Sr. Dála.»

Olhei atentamente para este meu novo amigo e fiquei preocupado. Um homem sempre sorridente, muito magro, talvez com a minha idade, mas parecia que o seu pensamento não andava por ali.

Fomos para a viatura. Efetivamente um carro enorme e confortável, todo o terreno, que até eu em Portugal, em menos de uma semana o riscaria de uma ponta à outra, para não falar nas mossas.

Pensei entrar na aventura de ir para o destino, esperando que levaria horas a chegar.

Mas inexplicavelmente, o «Sr. Dála», levou-me por ruas e bairros nunca vistos, sempre a falar comigo, desviando-se milimetricamente de pessoas, motoretas, táxis, camionetas, frugonetes, e viaturas, «paletes» de viaturas. Parecia patinagem no gelo, de um campeão.

Sabia prever o acidente e travava a tempo. Mas falava e falava. Ao contrário do passado, o futebol português pouco lhe dizia. O Girabola era a sua paixão e o clube o «1.º de Agosto». Embora não seja aficionado de futebol, lá está, também tinha de dizer a minha preferência.

– «Eu sou do Petra.» – Tal como em Portugal, onde apenas resistem dois ou três clubes a campeão, em Angola é igual. Ou o «1.º de Agosto». Ou o «Petra de Luanda». Pelo manos por enquanto…

O facto é que em pouco tempo cheguei ao meu destino e sempre a manter uma interessante conversa. Nem queria acreditar.

Felicitei-o agradecendo com um sorriso aberto mas constante. Este meu amigo nunca faz uma cara séria ou triste. Sabe esconder as suas emoções e preocupações, num simples sorriso.

Durante o resto do dia foi a confirmação. Haviam assuntos a tratar em diferentes pontos da cidade, e o «Sr. Dála», nunca parava. Se aparecia uma fila arranja solução por um atalho, picada, bairro desconhecido ou até voltando para trás.

No final do dia ainda deu tempo para um passeio na marginal e na ilha.

Mas o que realmente me impressionou foi no dia seguinte. O voo saia às 06:00 horas matinais. O meu amigo não estava à hora combinada. Telefonou-se e prontamente informou de um acidente com transito cortado.

O esforço e profissionalismo do «Sr. Dála» permitiu que se chegasse a tempo ao aeroporto. Mesmo no stress e no esforço, de não querer falhar, o sorriso mantinha-se.

Já com o «check-in» feito, toca o telefone.

Este nosso amigo queria ter a certeza de que estava tudo bem e que não se tinha perdido o voo.

O «Sr. Dála» fez-me pensar numas palavras que um antepassado meu dizia muitas vezes.

– Mais vale ter um bom sapateiro que um mau médico!

Luachimo, 2 de Novembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to O meu amigo «Sr. Dála»

  1. José Geraldes diz:

    Meu Kamba Alçada, votos de bom trabalho, boa estadia, boa integração. “Estamos juntos”. José Geraldes

  2. António Alcada diz:

    Obrigado meu irmão. Sem a tua sabedoria nunca teria chegado tão longe. Estamos juntos

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