Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (42)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja.
>> ETAPA 42 >> CUBA.

Mapa de Cuba

Mapa de Cuba


II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 90

:: ::

1994

4.ª Viagem a CUBA

Entre 27 de Março de 1994 e 9 de Abril de 1994

Curiosidades

Bilhetes de avião comprados na Marsans. Paguei de avião = 122.500$00.

Visto: para Cuba paguei 3.400$00 e 5.300$00 para a Venezuela.

:: ::


>> 27.03.1994 >> Fui com a Portugália de Lisboa ao Porto. Depois segui com a Viasa até Caracas e noutro avião da Viasa para Havana. Paguei 14$ de táxi para o hotel. Fiquei no Colina. Paguei 30$ por uma noite, mais 10$ pela enfermeira Marta que conheci nesse dia à meia-noite.

A enfermeira Marta no quarto do Franklim no hotel Colina

A enfermeira Marta no quarto do Franklim no hotel Colina

>> 28.03.1994 >> Segui para Ranchuelo para casa do Jorge Roca em Guagua. Neste transporte conheci o Mário, estudante de Direito, a Mercedez de Cienfuegos e ainda a Dona Ana, que me veio a apresentar em sua casa a filha Licett, com quem estive em Los Caneyes.

Fiquei quatro noites em casa do Roca, a quem paguei 5$ por noite e 1 a 2$ por refeição. Fiquei uma noite no motel Los Caneyes com a Licett.

Os dirigentes comunistas, que faziam reuniões semanais com os filiados no partido mesmo sem haver assunto para tratar, tinham os seus privilégios. Um deles era poderem passar alguns dias nos motéis e ir lá dormir, comer e frequentar as piscinas com a família aos fins-de-semana. Eram antigas quintas com palacetes dos cubanos ricos de antes da Revolução e que foram espoliados. Eu comi e pernoitei num deles, em Los Caneys (Santa Clara), e noutro, Los Laureles, perto de Sancti Spiritus, tive a permissão de passar o dia e nadar na piscina, a pedido do Jorge Henrique, em casa de quem estava hospedado.

Fui de carretón dum campesino que passava ali da paragem do autocarro até Ranchuelo, a uns 2 quilómetros, com a Mercedes que saiu também nessa paragem e se preparava para ficar comigo, mas despachada pelo Roca com a expressão «eres una fresca», que significava «prostituta».

Franklim com a Mercedez no carretón

Franklim com a Mercedez no carretón

O Jorge Roca vivia numa casita de madeira construída por ele junto de um riacho que só tinha água quando chovia. Tinha dois quartos, cozinha e casa de banho de meia-porta. O Jorge era habilidoso, como o havia de demonstrar no arranjo da nova casa em Santa Clara, que trocara pela de Ranchuelo.

Também era desenrascado. Não tinha emprego, mas vivia menos mal. Como os avós tinham terrenos que lhes retiraram, ele cultivava lá umas leiras de feijões, com o consentimento da cooperativa que regia esses terrenos. Trocava depois feijões por batatas ou vendia alguns e assim ia vivendo. Com o dinheiro que eu lhe dava governava a vida. Servia-me bons bifes de porco que comprava a particulares. Também me servia bons daiquiris feitos de rum, açúcar e gelo moído. Claro que tinha de ser eu a comprar o rum.

Era proibido vender a própria casa. Só se podia permutar. Claro que havia dinheiro por fora, não declarado, quando uma casa valia mais que a outra. Se alguém saía do país, a casa revertia para o Estado, como aconteceu anos depois com a casa da Zoila em Varadero, onde fiquei muitas vezes, por ela e família terem emigrado para Miami, onde vivia uma sua filha.

Franklim junto ao mercadito de Ranchuelo

Franklim junto ao mercadito de Ranchuelo

A casa de Ranchuelo ficava pertinho dos bombeiros e do pequeno mercado, onde vendiam batatas e legumes. Era necessário apresentar a caderneta, pois tudo era racionado. Apresentaram-me a Mildrey. Umas carícias e acabou por dormir comigo.

Franklim com a Mildrey à sua direita e a Carmen, mulher do Roca, à esquerda

Franklim com a Mildrey à sua direita e a Carmen, mulher do Roca, à esquerda

A irmã da Mildrey, a Tânia, era casada e tinha filhos pequenos. O marido estava na cadeia por ter matado uma vaca com outros. Em Cuba matar uma vaca tem pena igual ou maior que matar uma pessoa. Mas há quem arrisque para fazer negócio. Normalmente, não é o dono da vaca que a mata. Ou lha roubam ou o próprio dono combina com alguém que lha roube e a mate, dando-lhe a ele parte da vaca. A razão para ser proibido matar vacas é a necessidade que têm de leite para as crianças. O Estado dá ou vende a preço muito baixo um litro de leite por dia para cada criança. Para isso controla a quantidade de leite e controla as cabeças de gado bovino, obrigando os proprietários a declarar o nascimento de cada cria.

A Tânia, pensando que eu tinha alguma influência nos governantes cubanos, pediu-me um dia que pedisse à esposa de Raúl de Castro, que era a dirigente da Fundación Mujeres, que transferisse o marido de uma prisão longínqua para a de Santa Clara, ali perto. Escrevi-lhe uma carta e o facto é que resultou. O rapaz foi transferido para a prisão de Santa Clara.

Ofereci uma garrafa de vinho do Porto ao casal Roca. Chamaram uma vizinha e depressa a despacharam. Bebiam como se fosse um sumo qualquer.

Lembro-me de lhe ter dito: «Deita aqui uma pinga!»

Riram a bandeiras despregadas. O Jorge explicou-me depois que, lá, «pinga» significava o pénis. Fui eu a rir depois.

Também ofereci à Carmen uns dois pares de sapatos que a minha «ex» havia deixado em casa. Deixei-lhe lá mais uns dois pares para eu oferecer a algumas moças na viagem seguinte. Nessa altura perguntei por eles. Resposta: «A Carmen já estava a usá-los.» Para quem não tinha nada, era uma tentação.

Costumava levar alguns pares de soutiens (os ajustadores) e de cuecas (que ali chamavam blumes) e muitos chocolates para oferecer às moças. Comprava os acessórios de vestuário no mercado de Benfica ou em mercados no paredão da Costa da Caparica. Os chocolates comprava-os no Continente. As moças regalavam-se com tais ofertas.

>> 29.03.1994 >> O Jorge Roca tinha um irmão que trabalhava numa fábrica de cigarros. Levou-me a essa fábrica, que o irmão nos mostrou. Presenteou-me com um maço de cigarros «Popular» do tipo do nosso «Três Vintes».

Via durante o dia passar camiões e comboios carregados de cana de açúcar e de folhas de tabaco. Havia um homem que fabricava sumos de cana de açúcar com uma maquineta com um volante que esmagava a cana e saía o sumo que vendia na rua.

Charutos, que eles designavam por tabaco, eram fabricados em La Habana e noutras partes, mas não aqui. Para fabricar charutos eram necessárias folhas de tabaco de boa qualidade.

São conhecidos os charutos cubanos, sobretudo os Cohíba, que exportam. Facilmente se encontram particulares a vendê-los na rua, às escondidas. Como os arranjavam, não sei. Certamente que os desviavam das fábricas onde trabalhavam. O mesmo acontecia com o rum, de diversas marcas: Habana Club, Mulata, Varadero, Santa Cruz, etc., que também vendiam na rua, às escondidas, ou abordando os turistas. Havia quem o fabricasse de forma caseira com o melaço de cana, o xispetrem. Para pagar o petróleo que vinha da Venezuela, Cuba entregou àquele país velhas fábricas de açúcar de cana, de que já não precisava. Em troca de petróleo também enviou muitos médicos para trabalharem na Venezuela.

O tabaco e a cana eram as grandes produções e as fábricas de tabaco, açúcar e rum davam trabalho a muita gente.

A agricultura produzia pouco. Regas com material roto, tractores da Segunda Guerra e pouco empenho eram as causas. No entanto, havia boas terras capazes de grandes produções. Eram cooperativas do Estado e todos sabemos que, quando o Estado é o patrão, os empregados acham ser eles os donos e trabalham quando e como querem. Vendiam os produtos sobretudo em La Habana, em lojas do Estado.

Na autopista para Santa Clara, de duas ou três faixas, mas com poucos carros a transitar, a ponto de se poder parar na própria via, os camponeses ou os empregados das cooperativas agrícolas punham o milho a secar numa das faixas. Parecia a minha aldeia, em que secavam o milho em cobrejões estendidos nas ruas.

As cooperativas vendiam laranjas numa casita ao lado da estrada, onde se podia parar. Não sei se as vendas eram controladas pelo Estado ou se as cooperativas tinham autonomia para as vender, ficando com o dinheiro. Eram de pouca qualidade exterior, mas eram doces. Cheguei a comprar uma caixa de uns 10 Kgs numa vez que passei por ali em direcção a Santa Clara. Havia bastantes laranjais e limoeiros nessa região, tal como na província de Matanzas.

Franklim com a Licett, em sua casa, com a cadela Fátima ao colo

Franklim com a Licett, em sua casa, com a cadela Fátima ao colo

>> 30.03.1994 >> Fui a Santa Clara conhecer a Licett. No terminal de autocarro de Santa Clara conheci uma bonita moça de Desaguas, que se interessou por mim.

Fui conhecer a sua casa a Licett, loura, com a cadela Fátima. Acabei por ficar com ela no motel Los Caneys, onde paguei 32$.

Franklim no comboio com a Solangel

Franklim no combóio com a Solangel

Franklim em Los Caneys

Franklim em Los Caneys

Franklim em Los Caneys

Franklim em Los Caneys

>> 31.03.1994 >> Depois fui para o comboio em Santa Clara, onde conheci a Solangel, de Cruces, com 16 anos. Desci em Ranchuelo, onde dormi na casa do Roca. Conservo o bilhete do comboio de Santa Clara-Cruces.

Um médico amigo do Roca tirou-me oito sinais com um aparelho eléctrico. Dei-lhe uma pasta.

Franklim com o Jorge Roca

Franklim com o Jorge Roca

>> 01.04.1994 >> Dei 20$ de gorjeta ao Roca. Apesar de se fazer meu amigo, creio que o Roca me roubou 100$, que eu havia escondido detrás de um quadro. A tentação de poder ter comida e objectos necessários leva as pessoas a cometer deslealdades.

Segui para Varadero de camioneta com a Mildrey, mas tive de dar 5$ ao condutor para ter lugar no guagua. Os empregados a valer-se da posição para ganhar dinheiro extra. Era assim. Os condutores faziam negócio com os autocarros públicos.

Fiquei cinco noites em casa da Zoila. Paguei 5$ por noite. De comida pagava 1,5$ por refeição, bebida à parte.

>> 2 a 6.03.1994 >> Estive em Varadero em casa da Zoila. No dia 2 de Abril dei-lhe 25$ pelo quarto (5 noites x 5$) e 16$ pela comida. Comprei uns sapatos à Mildrey por 15$75.

>> 07.04.1994 >> A Mildrey regressou a Ranchuelo num autocarro e eu regressei a La Habana. Fiquei só no Colina no quarto 410, onde paguei 30$.

>> 08.04.1994 >> Segui para o aeroporto, onde paguei 11$ de taxa. Saída de Havana para Caracas e de Caracas para Madrid pelas 18:30 horas com a Viasa.

>> 09.04.1994 >> Saída de Madrid pelas 10:45 horas. Chegada a Lisboa às 11:50 horas.

Total da despesa da viagem = 48.737$50 (278,50$ x 175$00), mais 1.000$00 de táxi em Lisboa (500$00 duas vezes), fora a viagem e vistos.

(Fim da Etapa 42.)

:: ::
«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

Deixar uma resposta