Viagens de um globetrotter desde os anos 60 (41)

Franklim Costa Braga - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

Viajar hoje é quase obrigatório. Toda a gente gosta de mostrar aos amigos uma foto tirada algures longe da morada. Organizam-se excursões para visitas cá e lá fora, com viajantes que, por vezes, mal têm para comer. Mas, como é moda, toda a gente viaja.
>> ETAPA 41 >> CUBA.

Mapa de Cuba

Mapa de Cuba


II – VIAGENS LÁ FORA – ANOS 90

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1993 / 1994 – FIM DE ANO

3.ª Viagem a CUBA

Entre 28 de Dezembro de 1993 e 3 de Janeiro de 1994

Curiosidades

Bilhetes de avião comprados na Marsans. A viagem custou: Visa=3.400$00; Avião=122.500$00.

Não reservei hotéis a partir de Lisboa, salvo o de Madrid, cuja factura não encontro.

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>> 28.12.1993 >> Saí de Lisboa na Ibéria pelas 20:05 horas até Madrid, onde dormi no hotel Tryp Centro Norte, junto do Metro Chamartín.

>> 29.12.1993 >> Pelas 11:50 horas saí de Madrid com a Ibéria para La Habana, onde cheguei pelas 15:25 horas. Fiquei duas noites no hotel Colina, no Vedado, quarto 611, tendo pago 40$. Passei o dia entretido com a Dalila, que ficou comigo no hotel.

Dalila no meu quarto do hotel Colina

Dalila no meu quarto do hotel Colina

>> 31.12.1993 >> Segui para Santa Clara, de guagua, nome que dão aos autocarros para cubanos Visitei a Beatriz em sua casa, onde conheci as irmãs e a mãe. Como não pude ficar em sua casa, porque os estrangeiros não podiam ficar em casas particulares, fui para o hotel Santa Clara Libre, quarto 601, tendo pago 18$ de alojamento.

Franklim com a Beatriz e irmãs em casa destas

Franklim com a Beatriz e irmãs em casa destas

Cada bairro tem um encarregado pela vigilância das leis. A irmã da Beatriz avisou-me que o vigilante lhe havia chamado a atenção pela minha presença em sua casa. Por isso tive de ir para o hotel, apanhando um carro particular que fazia de táxi.

Não poderem os turistas dormir em casas particulares é outra lei que nem todos respeitam, já que é outra forma dos cubanos ganharem alguns dólares. Passadas as primeiras viagens, descobri que havia casas particulares que alugavam quartos aos turistas, mesmo quando a lei ameaçava tirar-lhes as casas, se o fizessem. É claro que eram muito mais baratas. Um hotel cobrava 30$ ou mais por noite, uma casa particular cobrava 5 a 10$. «Quem não arrisca, não petisca», diz o povo. Pois bem, eu arrisquei e passei a ficar em casas particulares em Varadero, Ranchuelo, Santa Clara, Santiago de Cuba, Sancti Spiritus (em duas casas), Nuevitas e La Habana. Aqui utilizei cinco casas particulares. Duma, que ficava no Vedado, em La Rampa, n.º 115, 2.º andar, até trazia a chave para Portugal. Nesta última a polícia via-me entrar todos os dias mais que uma vez pelo portão de ferro da entrada.

Em Havana havia informadores da polícia secreta em todos os prédios. Normalmente eram as mulheres que limpavam as escadas, colocadas lá pelo governo ou pela polícia secreta. Nesta última casa de La Rampa, onde fiquei muitas vezes, nunca me aconteceu nada, apesar da mulher me ver entrar e sair todos os dias em que ela ia ao prédio.

Uma vez, um polícia foi lá ter comigo para lhe mostrar o passaporte, já que mo pediu várias vezes e lhe disse que o tinha em casa, trazendo apenas o bilhete de identidade no bolso. Desculpava-me que o suor me estragava o passaporte, que não era plastificado, ao contrário do bilhete de identidade. Pois bem, o polícia foi lá a casa comigo, viu o passaporte e nada me disse. Eu estava industriado pela dona, a Edelsa, para dizer que era amigo da família.

Um dia fui mesmo à polícia perguntar se, sendo amigo da pessoa, podia aí pernoitar. Já não me lembro bem da resposta, mas nada me aconteceu.

Fiquei várias vezes em Ranchuelo em casa do Jorge Roca, sem nenhum problema. Quando aquele se mudou de Ranchuelo para Santa Clara, eu ficava lá em sua casa. A vizinha do lado era a informadora do bairro. Avisou o Roca da minha presença em sua casa. Bastou eu meter-me com a filha para se calar e calada ficou mesmo depois de eu não me interessar mais pela filha. Apenas pediu ao Roca que me avisasse para não me sentar no jardim em frente a conversar com as moças. Passei a ir para o Parque no centro da cidade.

Também nos restaurantes havia informadores. Mesmo ao lado da minha casa em La Rampa, no rés-do-chão, havia um restaurante, onde comi algumas vezes. Um dia, uma negra, empregada aí, acusou-me à polícia por ter fotografado algumas moças ali em frente. Um polícia pediu-me o rolo e foi revelá-lo em frente. O rolo estava em branco, por estar mal posto. Queixei-me ao chefe desse polícia, por me haver estragado o rolo. O chefe repreendeu-o e nunca mais se meteu comigo.

Como ainda era cedo para ficar no hotel em Santa Clara, reservei o quarto e resolvi ir a Peréa no carro que me levara ao hotel, com as malas na bagageira, visitar a Kirénia. Era muito longe. Tive de dizer ao condutor e ajudante que tinha comigo uma pistola, não só para não terem medo porque era de noite, como também para os intimidar, no caso de terem más intenções contra mim.

A Kirénia não estava em casa. Tinha ido com a mãe para as festas de fim de ano numa terra vizinha. De regresso da Kirénia, em Perea, fui pôr as malas no quarto, que não tinha água, e fui para a boite do hotel, onde dancei com uma negrita, que levei ao quarto e dizia: Ai, que me planchas!

Outro modo de vida dos cubanos é utilizarem os seus automóveis, na maioria velhos, a fazer de táxi, o que é proibido. Os carros particulares não podem transportar turistas, mesmo que sejam pessoas amigas, podendo ser apreendidos. Mas todos arriscam. Eu utilizei várias vezes esse meio de transporte. Para ir a Varadero ou Santa Clara havia carros particulares que faziam de táxi. Por vezes, em Varadero esperava-se o carro depois da passagem da ponte, onde havia polícia.

Os carros oficiais para turistas, normalmente concentrados junto aos hotéis ou aeroportos, de cor creme e em bom estado, eram muito mais caros e pagos em dólares. Há táxis para os cubanos, de cor amarela, pagos em pesos e muito mais baratos. Mas os turistas não podem andar neles. Isto em teoria. Na prática apanhei-os várias vezes. Os condutores faziam-se pagar em dólares quando levavam turistas. Uma vez, ia eu com a Yamilé a sua casa conhecer os pais num desses táxis. No final perguntei-lhe quanto era e paguei-lhe em pesos. Ficou danado e atirou-os janela fora. Os cubanos são orgulhosos e, muitas vezes, velhacos.

>> 1.1.1994 >> Fui ver a Beatriz. Não estava. Só mais tarde a vi. A irmã e ela estavam zangadas porque tinham ido ao hotel na noite anterior e não me viram. Entretanto, dei uma volta pelo bairro. Vi um porco atado por um cordel em frente duma casa, onde comia a erva da rua. Fiquei a conhecer mais um costume dos cubanos: porque roubavam os porcos, tinham de os atar e dormiam na banheira das casas. O mesmo faziam com as galinhas, que também dormiam nas banheiras. Os ladrões eram sobretudo os negros.

A propósito de negros, nessa altura eram cerca de 50% da população. Alguns anos antes eram muito menos e não lhes era permitido frequentar o Parque de Santa Clara e, provavelmente, o mesmo acontecia noutras cidades. Nesta altura, essa lei tinha sido revogada. Por terem mais filhos que os brancos, e porque muitos brancos saem do país, vai aumentando a percentagem dos negros. Alguns anos antes tinham-se revoltado no sul, em Santiago de Cuba, sob o comando de um militar negro. Tinham mesmo uma bandeira própria, em que figurava um cavalo ou um mambi. Foram derrotados. Os brancos, embora convivessem com eles, na sua maioria não gostavam deles por serem ladrões.

Em Santa Clara os transportes dentro da cidade eram particulares, feitos por carretóns puxados por um cavalito. O dono tinha de colocar uma saca atrás do rabo do cavalo para este não sujar a rua. Muitas vezes levava consigo uma faxa de erva, a comida do cavalo. Cada carretón transportava 6 a 8 pessoas. Pobre cavalito! Por vezes era um burrito que puxava o carretón.

Casal Jorge Roca e Carmen

Casal Jorge Roca e Carmen

No primeiro dia do ano regressei a La Habana em guagua, geralmente velhos e alguns a cair de podres. No autocarro conheci um casal – o Jorge Roca e a Carmen –, que me convidaram a ficar em casa deles em viagens futuras. Eram duma aldeia ali próxima, Ranchuelo, onde o autocarro parou e eles desceram. Haveria de ficar lá várias vezes. Segui numa viagem penosa, embora por auto-estrada, até La Habana.

Fiquei, mais uma vez, no hotel Colina, onde paguei 18$ de alojamento.

>> 2.1.1994 >> Passeei por La Habana e, à tarde, segui de táxi para o aeroporto José Marti, onde apanhei o avião para Caracas e daí outro para Lisboa.

Saída com a Ibéria de La Habana pelas 17:05 horas e chegada a Madrid às 07:40 horas do dia 3 de Janeiro.

>> 3.1.1994 >> Continuei para Lisboa pelas 12:20 horas, onde cheguei pelas 13:30 horas, dada a diferença horária de seis horas.

(Fim da Etapa 41.)

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«Viagens dum Globetrotter», por Franklim Costa Braga

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