Bartolomeu Dias, o navegador que nos trouxe a «Esperança»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

A crónica de hoje pretende mostrar que um povo humilde e pequeno soube almejar a sua autonomia sem grandes alaridos, usando uma estratégia de alto risco: partir para o desconhecido e afastar-se do conflito. Não posso deixar de agradecer à Junta Regional da Guarda do CNE, que aceitou este «velhote» para um curso de dirigente, tendo tido a oportunidade de fazer um trabalho sobre Bartolomeu Dias que aproveito para a crónica desta semana. Não se admirem que no local, que ponho sempre no final das crónicas, esteja no Cabo das Tormentas, porque sem dúvida foi o que passei com a crónica da passada semana.

Navegador português Bartolomeu Dias

Navegador português Bartolomeu Dias

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Após ter recebido alguns «recados» na crónica anterior, sobre a Catalunha, presumo que pessoas ainda considerem Franco um herói, entendi que deveria dar uma resposta contextualizada de uma mensagem de paz e de reflexão. Em tempos idos, Portugal, «atirou-se» ao mar exatamente para não ter de enfrentar o seu vizinho, salvo num passado mais recente em que hordas de portugueses invadiam Badajoz ao fim de semana arrasando as confeitarias, por cauda dos caramelos, ou das famosas latas de «meloconton» ou até de beber a coca cola proibida na metrópole por Salazar.
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É difícil reconstruir com exatidão a vida de Bartolomeu Dias. Não existem informações quanto à data e ao local do seu nascimento, sabendo-se, no entanto, que pertenceria à pequena nobreza como muitos capitães do seu tempo. Bartolomeu Dias foi nomeado capitão-mor de uma frota constituída por duas caravelas de cerca de 50 tonéis cada uma e uma naveta de apoio, que transportava os mantimentos.

São Cristóvão, curiosamente o patrono dos motoristas, era a nau capitaneada por si próprio, a São Pantaleão foi comandada por João Infante e a naveta comandada por Diogo Dias, irmão de Bartolomeu.

A armada saiu de Lisboa, em agosto de 1487, e teria seguido a rota corrente, para Sul, abastecendo-se provavelmente em São Jorge da Mina (localidade do atual Gana). Ainda em dezembro, a expedição já teria chegado ao limite das viagens de Diogo Cão, ou seja, a Serra Parda (sensivelmente na fronteira sul de Angola com a Namíbia, no atual Namibe).

Já em 1488 a armada atinge a Angra das Voltas (cerca de 1000 quilómetros a Norte do Cabo da Boa Esperança), onde os ventos de sueste forçaram a expedição a abandonar a navegação costeira, ou como se diz na gíria da marinha, «à vista», rumando para Sudoeste e entrando no alto Atlântico. Isto quer dizer que o facto de se ter abandonado a navegação «à vista» e não havendo cartografia de apoio, a expedição afastou-se do objetivo. Durante esse período os três navios portugueses estavam completamente à «deriva» peses embora o comandante nunca tivesse, no entanto, perdido o «Norte».

A decisão foi rumar para Este, ou seja, no sentido do oriente que, na realidade, era o grande objetivo. Navegaram milhas a fio e nunca encontravam costa, ou como se dizia: «Terra à vista!» Foi necessário tomar outra decisão. Tentar voltar ao ponto de partida, rumando a Norte.

Finalmente avistam terra, pensando ter chegado à extremidade meridional do continente africano, ou seja, a «entrada» do Oceano Indico.

Pensado terem conseguido o objetivo, decidem encetar a viagem de regresso a Lisboa. Porém encontram um cabo, o cabo das Agulhas, tendo acostado e feito uma pequena exploração. Presentemente este cabo oficialmente separa o oceano Atlântico do Indico. Pensando estar no rumo certo, apontam para Norte e, para espanto geral, finalmente encontram umas milhas depois o Cabo da Boa Esperança.

Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança também conhecido como Cabo das Tormentas

Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança também conhecido como Cabo das Tormentas

Na verdade foi no regresso que descobriram o tão almejado promontório.

A expedição durou dezasseis meses e dezassete dias, tendo aportado em Lisboa em dezembro de 1488.

Ao contrário do expectável, o Rei D. João II, não lhes atribui qualquer recompensa regia, entendendo que não fizeram mais do que a sua obrigação, pese embora tenham recebido uma «mercês» de reconhecimento pelo feito. Porém, como já é habitual na nossa cultura, apos a morte de Bartolomeu Dias, D. Manuel I, atribuiu um prémio aos descendentes.

Em 1500 a sua participação na armada de Pedro Álvares Cabral, foi essencial, pese embora tivesse sido a sua última viagem. Depois da descoberta do Brasil, a caravela capitaneada por Bartolomeu Dias foi atingida por uma tempestade (tormenta na língua castelhana) e naufragou quando se aproximava precisamente do Cabo da Boa Esperança. O nome de Bartolomeu Dias ficará ligado à entrada num novo mundo, que transformou por completo a mundivisão ptolomaica dos seus contemporâneos. As suas viagens deram um contributo essencial para a construção de uma nova rota que se revelaria fundamental para chegar à Índia. Sem o saber, Bartolomeu Dias, contribuiu decisivamente para uma mudança definitiva na história da navegação entre os oceanos Atlântico e Índico.

António José Alçada, cronista ao serviço de Sua Majestade El Rey D. Manuel.

Cabo das Tormentas, ano da graça do Senhor de mil quinhentos.

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

One Response to Bartolomeu Dias, o navegador que nos trouxe a «Esperança»

  1. Alex diz:

    Muito sr cronista 👍

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