Onde está a frente de batalha

Em pleno ardor da Revolução Russa de 1917, hordas de operários, soldados e camponeses que formaram a «Guarda Vermelha», saíram de Petrogrado para defrontarem os «contra-revolucionários», comandados por Kerensky, que queriam por cobro à revolução bolchevique.

Rússia (1917): soldados, marinheiros e operários marcharam juntos pela revolução

John Reed, repórter norte-americano que acompanhou os dias da revolução, munido de uma credencial do Comité Militar Revolucionário, apanhou boleia numa camioneta carregada de guardas vermelhos que partiu da cidade em busca da frente de batalha. Chegados a Tsarskoie Selo, o grupo perguntou onde estavam os cossacos de Kerensky, sendo então informados que houvera uma batalha e retiraram, mas adivinhava-se para breve uma nova ofensiva.

A camioneta dos guardas vermelhos retomou a marcha em direção à frente, levando o jornalista para fazer a reportagem.

Ele mesmo conta, no livro Dez dias que abalaram o mundo, que prosseguiram durante oito quilómetros, até que avistaram uma brigada de marinheiros revolucionários que marchavam em sentido contrário.

Um dos guardas da camioneta perguntou aos marinheiros:

– Onde é a frente, irmãos?

O primeiro marinheiro parou, coçou a cabeça, e respondeu:

– Esta manhã era a cerca de meio quilómetro mais abaixo, na estrada, mas a maldita agora não está em lado nenhum. Andámos, andámos, andámos, e não conseguimos encontrá-la.

Na verdade, a frente já não existia: os cossacos abandonaram Kerensky e este fugira. A revolução saíra vitoriosa.

:: ::
Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

Deixar uma resposta