Catalonia es nuestra!

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Quem diria que o anseio de libertação continua num território aparentemente consolidado. E à semelhança de Salazar toca de não reconhecer a vontade de um povo que estava dividido e agora cada vez mais unido. Provavelmente até os portugueses residentes na Catalunha já estejam mais para lá do que para cá. A violência só gera violência como diz a sábia vontade popular e o engraçado da história, sem graça nenhuma, é que o terrorismo basco foi muito menos eficaz do que esta estratégia política que abana toda a Europa.

Catalães não desistem

Catalães não desistem

Os catalães não estão a desistir da sua vontade. E no arauto, Madrid, continua com a tradicional lengalenga, que não só para o processo como une as pessoas sensatas e aumenta a popularidade das insensatas, ou seja, os franquistas.

Mais uma vez passa-se a borracha pela história e sinceramente não sei se Madrid não vai desta vez ceder, pelo menos à negociação, porque um banho de sangue como nos velhos tempos seria o fim da própria Espanha, no mínimo como pais da comunidade europeia.

Muita gente está com os olhos postos nesta verdadeira aventura que preocupa muitos líderes europeus que têm problemas semelhantes, mas também, nalguns casos, esses, têm sabido gerir com a cabeça e não com os pés.

Obviamente que a Espanha enfraquecida, abre portas ao pequeno Portugal crescer diplomaticamente, embora haja quem pense o contrário. E aqui sim as portas económicas devem-se abrir às empresas que se sentem incomodadas com a situação catalã, ao contrário do Brexit que na minha opinião foi uma perda de tempo da nossa política externa porque as realidades económicas são muito diferentes. O tipo e volume de negócios que passam na City não cabem no Terreiro do Paço.

Se na realidade a atual situação política é para manter, acho, que desta vez a Europa tem de se chegar à frente e não fingir que é um problema interno da Espanha. Pode até ser verdade, mas nesta sociedade aberta com a força da comunicação social o efeito contágio propaga-se rapidamente e com a ajuda da extrema direita que anseia pela queda do puzzle europeu, a confusão rapidamente se instala nas ruas e, mais uma vez, os sensatos tornam-se insensatos porque a insensatez predomina através da força.

Pessoalmente não tenho posição a não ser preocupação. Se o mau senso imperar todos vamos perder e acima de tudo confirma a realidade da chamada União Europeia: cada um por si!

Julgo que a mediação europeia faz muita falta, preferencialmente sem o envolvimento lusitano. Claro que enfraquece Madrid. Mas este cenário já vejo desde finais de 2018. Resta o Twitter para responder, mas depois só mesmo o velhinho correio postal com selos tendo a esfinge do Rei.

No passado dia 12 de outubro decorreu o dia da hispanidade. Deveriam estar representadas todas as comunidades autónomas, mas, obviamente, não aconteceu. E em vez de ser um dia de paz, de convívio, de fraternidade, foi um desfile militar nunca visto, fazendo lembrar os antigos 10 de junho lusitanos. Porquê? As forças armadas vão arrasar os independentistas? Vão dar cabo da Sagrada Família que nunca mais acaba? Até o Rei de Espanha parecia um general soviético ou Norte coreano, tal era o peso das medalhas e do protocolo. Neste caso, Portugal até tem sido um bom exemplo com o seu dia, numa cidade diferente em cada ano. Se o bom senso existisse o dia da hispanidade até poderia ser na Extremadura, uma das zonas mais pobres e esquecidas, tendo curiosamente uma proximidade política forte com Portugal.

Por gostar de Espanha, de saber que lhe devemos o reconhecimento de sermos um estado soberano, de quezílias que tivemos no passado onde os soldados até faziam almoçaradas em conjunto, de nos dar sempre um pontinho à nossa canção no festival da Eurovision, que tenho pena de estar a assistir a este triste espetáculo onde até o Twitter do Trump já é usado para dar recados. Nunca imaginei que o nível descesse ao «zero», não devendo ser um método usado por um governo dito democrático.

Acho que se queremos manter esta União Europeia infelizmente os republicanos catalães não podem ter sorte, mas nada impede que se equacione o equilíbrio de poder dentro de Espanha com mais contributo de quem tem maior riqueza, e se reforme o sistema autonómico, que pode envolver outras valências, como o desporto, a educação, a justiça, os impostos. Provavelmente até é de dinheiro que se discute. Mas sempre ouvi que dinheiro não é problema, é solução!

Madrid vai ter de ceder a bem de todos os ditos europeus. Esta rivalidade crescente com Barcelona está-se a tornar em ódio e a história tem-nos dado exemplos tristes quando o «balão» rebenta.

Pelos vistos nunca entenderam que a armada invencível, acabou por ser derrotada e catapultou a Inglaterra para um império.

Neste caso, não sei sinceramente, quem ganharia com o colapso espanhol!

Badajoz, 12 de outubro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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