Liberdade na mais pura essência

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Há vivências que, anotadas no nosso íntimo, nos insinuam gente que dá tudo para ser bem sucedida e, também, pessoas que, estritamente, se entregam ao destino.

Errava pelos caminhos do mundo

Era eu garoto, de tenra idade, quando, na minha aldeia, apareceu um jovem caminheiro. Saiu, repentinamente e em passadas largas, da neblina que acariciava o final da tarde. Teria uns escassos catorze anos e o seu rosto dorido já espelhava uma imensa solidão.

De camisola grossa, calça curta e boina preta a bolear-lhe a cabeça, ostentava um cajado que lhe garantia o respeito dos cães. Notoriamente esfalfado, equilibrava-se mal, no que lhe restava das vetustas botas. Dando conta de mim não evitou um profundo suspiro.

– Boas noites – disse-me ele.

Sentou-se num degrau granítico que o tempo e o uso fizeram côncavo. Assumiu ar de quem recapitulava cansaços e desembuchou sem acanhos:

– Tenho os pés a arder do caminho. Mas as mãos até me caiem de frias.

Não sabes de um sitio onde me deixem ficar a dormir?

Por pouco não lhe respondi:

– Sei sim. Em minha casa!

Na verdade quase esquecia o dever de comunicar o caso aos meus pais.
O rapaz quedou-se, sentado, olhou em frente, para os lados e para cima como que a verificar os espaços que a escuridão lhe permitia e, persentindo a incomodidade noturna, insistiu:

– Chega- me um palheiro ou um curral onde o calor dos animais me aqueça durante a noite.

Meditei, claro, sobre a resolução do problema mas apenas consegui alvitrar:

– Talvez minha mãe te ajude.

Pouco depois iniciámos o caminho para casa. Minha mãe, à porta, mirava-nos de alto a baixo numa postura desconfiada. Começou por refilar face ao meu atraso e acabou por indagar, mansamente, o peregrino:

– De onde vens tu, rapaz?

– Nem eu sei minha senhora. Não tenho eira nem beira. Por onde passo ajudo no que sei e posso. Como do que me dão mas desde ontem que não consigo tragar nada.

Minha mãe olhou-o, de novo, como que a conferir a veracidade das declarações e terminou sentenciando:

– Entra e aquece-te.

O moço entrou, sentou-se e colocou as mãos em benzedura sobre a fogueira. Meu pai, acabado de chegar, falava em voz baixa. Minha mãe ia colocando uma toalha sobre a mesa enquanto acrescentava:

– Há um arrozito de coelho. Mas, antes, têm que comer uma tigela de caldo.
Ciámos e ambos fomos à cama. Ele dormiu na “casa do oficio” cujo anexo servia de dormitório a dois “sarricas” oriundos da Beira Baixa. No dia seguinte despertei indagador e logo quis saber do andadeiro.

– Acordou cedo, pediu pão, bebeu água, agradeceu e partiu – esclareceu minha mãe.

Pude, assim, confirmar que o caminhante teimava, sem rumo, pelos caminhos do mundo deixando-me um inesperado sabor a perda e a imagem mais púbere de algum campesino itinerante que eu possa ter conhecido.

Persisto, sim, na dúvida, porque até hoje nunca achei razão clara, sobre o que pretenderiam da vida esses seres, de há décadas, embalados no vento, guiados pelo sol, castigados com calor ou frio, de barriga à míngua e exclusivamente entregues ao destino.

De resto, nem sempre a tranquilidade sedentária sobreleva a liberdade na sua mais pura essência.

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

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