Há cinquenta anos…

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Entra-se no centenário edifício – o Seminário Menor do Fundão – e percorrem-se enormes corredores de madeira, com pé alto, a lembrar os do Convento de Mafra. Durante muitos anos foram percorridos por milhares de jovens seminaristas a alimentar sonhos e a preparar futuros…

O grupo de ex-seminaritas

Em romagem de saudade e graças à iniciativa e esforços da Direção da Associação dos Antigos Alunos do Seminário do Fundão e da Guarda, foi interessante, comovente e histórico que vinte e três ex-seminaristas, com os seus familiares, comemorassem as Bodas de Ouro da sua entrada no Seminário Menor do Fundão, numa manhã nostálgica de Outubro de 1969, carregados com uma mala cheia de sonhos.

Para esse efeito, elaborou-se um vasto programa que incluiu recepção e visita, eucaristia, almoço de confraternização, bolo de aniversário e magusto. A animar o convívio, o Grupo de Gaitas de Foles de Joaquim Pinto de Loriga (Seia).

O momento da Eucaristia

Consultados os arquivos daquela Instituição Fundanense, matricularam-se em 1969 cinquenta e sete alunos. Deste grande número apenas três foram ordenados sacerdotes, António Fonseca Coelho, natural de Nave de Haver, Carlos Alberto Correia Lages, da Rapoula do Coa, e José Fernando Cruz Lambelho, “O Padre Motard” de Aldeia de Joanes, este ordenado na Diocese de Évora e já falecido. Os restantes alunos eram oriundos dos concelhos de Castelo Branco, Fundão, Arganil, Almeida, Seia, Gouveia, Trancoso, Covilhã, Celorico da Beira, Penamacor, Vila Nova de Foz Coa, Manteigas e em maior número do Concelho do Sabugal, com destaque para a freguesia de Vale de Espinho.

Nada melhor do que ouvir os protagonistas desses tempos e registar os seus depoimentos:
António Fonseca Coelho, Pároco no Rochoso e em diversas Paróquias limítrofes, apresentou um depoimento escrito do qual retirei algumas frases significativas: “entre os marcos históricos da chegada do homem à Lua e a Revolução de Abril, despertávamos aqui cada dia às sete da manhã, respondendo Deo gratias!…àquela luz, que de repente se acendia com a ordem que nos despertava: benedicamus Domino. E o dia começava a rolar pelas horas e minutos bem contados. Viemos de outras terras, de mais longe ou de mais perto, procurar a cura do saber, para ser alguém na vida. Era a vocação infantil que, mais ou menos, justificava a nossa vida aqui…que pouco a pouco se foi abrindo a novos sonhos e cada um veio a concretizar como julgou devia ser. Nós fomos carregando alguma bagagem e…saindo para o nosso mundo, levando o saber…alguma educação humana, moral e espiritual…e que, talvez, só mais tarde teremos valorizado. Alguns valores sobre os quais desenvolvemos a nossa personalidade e construímos a vida. O Seminário foi a nossa salvação. Foi tempo de fé, de encontro com Deus, sim. Mas também tempo de encontro com nós mesmos, de algum amadurecimento, de aprender responsabilidades, para partir…prosseguir o caminho que cada um julgasse mais compatível. Daqui fomos, de algum modo, cumprir a lei, ser cidadãos conscientes e activos. Talvez hoje, julgando o adolescente rebelde e revoltado que fomos, pelo olhar do sexagenário que já somos…possamos compreender e desculpar a pedagogia dolorosa daquele tempo, fazer as pazes com os nossos superiores e dizer também… obrigado. Continuemos o nosso caminho, um pouco mais salvos e curados da saudade e gratidão…e pela amizade que hoje nos fez reencontrar. Como há cinquenta anos cantemos a canção vencedora do festival da nossa admissão, “POIS UMA AMIZADE É MAIS FORTE DO QUE A MORTE.”

Joaquim Pinto Gonçalves, de Loriga e director do Agrupamento de Escolas Victor Melícias em Torres Vedras e Professor de Música, com vários Projectos de Música Popular e Tradicional Portuguesa: “há 50 anos esta casa parecia-me pequena, hoje é enorme. O que sou hoje devo-o ao Seminário do Fundão, porque vivo da música, e foi aqui que despertei para esta arte, aprendendo a tocar diversos instrumentos, principalmente órgão. Pelos métodos educativos, extremamente fechados aqui utilizados, perdiam-se padres. No entanto, aprendi aqui gestão e métodos de trabalho úteis para o meu futuro. No Seminário, por dificuldades económicas, muitos jovens tiveram oportunidade de estudar, dando-nos muitas ferramentas, apesar do grande défice humano, que mais tarde tive de recuperar.”

Carlos Manuel Dias Cabanas, da Meimoa, aposentado: “esta casa marcou-nos a todos. Ainda hoje recordo muitas situações. A melhor era sentirmos a liberdade de alguns domingos sairmos para o exterior a passear. A pior, eram os muitos castigos e uma disciplina férrea.”

Rui Antonino M.V. Carvalho, de Casegas, emigrante na África do Sul: “estive neste Seminário quatro anos e apesar de se passarem muitos anos recordo o retrato da “Manhã Submersa” de Virgílio Ferreira, aluno nas antigas instalações.”

Carlos Alberto Correia Lages, da Rapoula do Coa, pároco da Sé da Guarda: “o primeiro trimestre era uma eternidade para se chegar ao Natal. O nosso dia-a-dia, eram as aulas, os aspectos religiosos, o futebol, a academia… Os perfeitos e professores daquele tempo, embora muito cultos aplicaram uma pedagogia que hoje consideramos discutível, contudo empenharam-se em bases na formação de homens de carácter.

Jerónimo José Salcedas Martinho Nave, da Covilhã, professor: “esta casa foi muito importante para os alunos pobres das aldeias, que não tinham condições para estudar. Daqui partiram para as universidades e para outras escolas superiores, nas mais diversas profissões deram grande contributo para a sociedade. Como observa, apesar de meio século, ainda é patente a amizade entre todos nós.”

Joaquim Luís Marques Janela, de Vila do Touro, Chefe Principal da P.S.P.:” há cinquenta anos esta casa estava cheia de vida e hoje está vazia, e é necessário dar-lhe valências actuais. Estivemos aqui a construir os nossos alicerces onde assentámos muitos valores. Tivemos padres professores muito rígidos, mas na minha memória tenho as circunstâncias positivas, esquecendo as outras.”

Jorge Simão, Presidente da AASF, evocou Vergílio Ferreira, “nada mais há no vinho do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer de novo, referindo-se ao amadurecimento que cada um dos aniversariantes já conta, e na oferta de uma caneca evocativa da efeméride, que servisse durante muitos e bons anos, para cada um beber o vinho “de hoje”, ou seja, o vinho da iluminação que aquele dia representava.”

O Pároco do Fundão, Padre Hélder Lopes, presente neste evento, apelou a todos para que esta casa que formou tantos jovens continue a ter vida, está nas mãos de todos nós essa possibilidade.

Vieram de perto e de longe com as suas famílias ao Seminário do Fundão em 12 de outubro, recordar os cinquenta anos do seu primeiro dia de chegada, partiram com saudades e com a promessa de voltarem.

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«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

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