O abandono de S. João Baptista de Ajudá

A Fortaleza de São João Baptista de Ajudá, localizada na cidade de Ouidah, na costa ocidental africana, na actual República do Benim, foi abandonada pelos portugueses em condições humilhantes, em 1961, o que levou o regime a isolar o último administrador daquela minúscula possessão colonial.

São João Baptista de Ajudá é hoje um museu

As costas da Mina e a da Guiné foram desde o século XV batidas por navegadores portugueses, que ali realizavam o comércio de ouro, prata e escravos africanos. Para proteger o dito comércio, foi ali implantada a fortaleza de São João Baptista de Ajudá, no final do século XVII, por ordem do rei D. Pedro II, ficando sob a alçada do governador de São Tomé e Príncipe.

«Ajudá» resultou do aportuguesamento de «Ouidah», nome da cidade próxima. A fortaleza ficou instalada num pequeno enclave com a área de 4,5 quilómetros quadrados, vindo a constituir o menor território colonial do mundo, com direito a constar no «The Guinness Book of Records». Tratava-se de um forte militar, abaluartado, implantado numa espécie de plataforma que aproveita uma pequena elevação, sobranceira ao caminho que conduz à praia, a cerca de 3 quilómetros, após os obstáculos das formações lagunares paralelas à linha de costa.

Em 1961, tropas da República do Daomé (futuro Benim) invadiram Ouidah, e intimaram os dois ocupantes portugueses do forte a abandoná-lo. Sem condições para oferecer resistência, o governo de Oliveira Salazar ordenou que se incendiasse a fortaleza antes de a abandonar, o que foi cumprido na data-limite, sendo ocupada em 1 de Agosto de 1961.

Em 1965 foi celebrado o encerramento simbólico do forte pelas autoridades do Daomé, vindo depois as suas dependências a sediar o Museu de História de Ouidah, sob administração da República do Benim.

A anexação só foi reconhecida por Portugal em 1985, tendo os trabalhos de recuperação e restauro sido desenvolvidos em 1987, com orientação e recursos da Fundação Calouste Gulbenkian. O forte é agora um Museu de História da Costa dos Escravos, de onde tantos cativos partiram para a América e para a Europa.

O último administrador português do forte foi Menezes Aires, a quem coube, ajudado por Agostinho Borges, incendiar as instalações antes de as abandonar, por ordem expressa de Salazar. O funcionário cumpriu a ordem e voltou a Lisboa, onde não esteve muito tempo. Tendo sido protagonista de uma situação ultrajante para Portugal, Salazar mandou-o desterrar para Mavinga, no sudoeste de Angola, numa zona semidesertificada junto à Zâmbia.

Por lá esteve muitos anos, longe de tudo e de todos, isolado da curiosidade de quem quisesse saber como fora a retirada humilhante de Portugal da sua minúscula possessão na costa ocidental africana.

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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

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