A verdade sobre a barragem do Sabugal

Paulo Leitão Batista - Contraponto - © Capeia Arraiana (orelha)

Fala-se muito na barragem do Sabugal, devido à seca e à continuação dos transvases para o regadio da Cova da Beira. Mas quanto a quem tornou a albufeira numa realidade e qual a sua real importância para o concelho do Sabugal, há muito a esclarecer.

Barragem do Sabugal

À boleia da contestação à deficiente gestão da água da barragem em tempos de seca, alguns opinadores vieram à babujem para desvalorizar a importância da barragem, afirmando que foi construída para beneficio de outras terras, em detrimento do concelho do Sabugal.

Ignoram, ou esqueceram, o que era a vida nas aldeias do Sabugal há 20 anos, quando a barragem ainda não existia. O Verão trazia um problema grave, que parecia insolúvel – a água faltava nos domicílios e, se alguma havia, era racionada, com enorme prejuízo para a vida das pessoas. Valiam os bombeiros – esses heróis que diariamente conduziam os autotanques em socorro das aldeias, levando-lhes a seiva da vida.

Quando veio a barragem, o problema da carência de água deixou de existir. Essa bênção, por si só, faz ver que a albufeira era necessária e que foi extremamente útil para os povos das nossas terras.

O empreendimento era prometido e sempre adiado. Campeava a teoria do efeito difusor do desenvolvimento – investir nas zonas economicamente mais dinâmicas, era a via certa para a disseminação do progresso por todo o país. A centralidade da aplicação dos fundos vindos de Bruxelas, não foi inocente. Era uma estratégia desenvolvimentista que tinha eco nos principais teóricos, e nos políticos que tiveram o poder naqueles anos. Cavaco Silva foi fiel executor dessa política que ignorou o interior, agravando o fosso inter-regional.

Quem, do Sabugal, enfrentou abnegadamente essa «visão» foi o então deputado Carlos Luís, com constantes interpelações ao governo, vindas ao terreno, entrevistas incómodas e pressões nos bastidores em defesa do investimento no interior, dando como grande exemplo a construção da barragem do Sabugal.

Salvou-nos António Guterres. O actual secretário-geral da ONU ganhou as eleições em 1995, formou governo e começou a construção da barragem do Sabugal em 1997, sendo inaugurada em 1 de março de 2000.

A Beira Interior, deve muito a Guterres: construiu a A23, as barragens do Sabugal e de Alfaiates, o Centro Hospitalar da Cova da Beira, a Faculdade de Medicina na UBI, a electrificação das linhas férreas da Beira Baixa e da Beira Alta.

O seu a seu dono, é o que se pode dizer a quem quer reescrever a história.

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«Contraponto», de Paulo Leitão Batista

17 Responses to A verdade sobre a barragem do Sabugal

  1. José Escada diz:

    Caro amigo Paulo Leitão, engana-se! Com a barragem o problema da carência de água continua a existir! Em 2019, ano de seca moderada, a água continua a faltar em muitos domicílios de algumas aldeias, nomeadamente Malcata! Em pleno Sec XXI os bombeiros continuam a abastecer aldeias! 45 anos após abril! A barragem tem água suficiente para abastecimento publico sim! Mas falta o investimento em captação e distribuição para atender a todas as necessidades das populações! Por isso o grande beneficio da barragem para o Sabugal (o abastecimento publico) está longe de ser pleno!
    Por outro lado, o efeito difusor de desenvolvimento tarda em aparecer!
    Concordo em absoluto que António Guterres fez muito pelo Interior! Em particular foi “grande e generoso” para a Cova da Beira. Mas quando determinou a interrupção da construção da barragem de Foz – Coa (onde os custos incorridos foram de 125 Milhões de euros) condenou o Sabugal! Essa é outra VERDADE … E o GRAVE é que os representantes eleitos locais DEIXARAM, caro Paulo Leitão!

  2. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    Tu sabes bem que uma mentira repetida é uma verdade consentida.

    António Emídio

  3. LUIZ CARLOS PEREIRA DE PAULA diz:

    Suponho que ninguém põe em causa o valor de Guterres. No entanto este falhou na análise em detalhe pois com a interrupção da construção da barragem de Foz-Coa deveria ver que o papel da barragem do Sabugal passava de mero ponto de passagem da água para principal fornecedor deste bem, sem ter em conta as reais necessidades da população deste Conselho e outros situados a jusante do Sabugal.

  4. leitaobatista diz:

    O facto de persistirem alguns problemas pontuais no abastecimento de água à população, pela falta de soluções técnicas ou por mera conjuntura sazonal, não invalida que a barragem foi uma grande obra em favor do concelho do Sabugal. Sem a irrigação da Cova da Beira talvez nunca tivesse sido construída – essa é uma verdade incontornável, mas nada hoje se compara com o problema gravíssimo da falta de água de há 20 anos.
    Outra coisa é a má gestão do transvase, onde julgo que estamos de pleno acordo.
    Mas, reitero que Guterres foi um grande amigo e defensor da Beira Interior e que a barragem do Sabugal foi a maior obra pública em favor do concelho realizada nas últimas décadas. Não há outra que a iguale.
    Criticar a gestão do transvase é justificável, e junto a minha voz a essa luta, mas desvalorizar a grande obra pública realizada em favor do Sabugal é absolutamente inapropriado.
    O Sabugal tem muito a ganhar com o bom aproveitamento da barragem. Malcata reclama um paredão, que está previsto, e que é fundamental para que a freguesia retenha água em seu benefício. O concelho do Sabugal reclama o aproveitamento da albufeira para fins lúdicos, porque tal é importante para a valorização do filão turístico. Os concelhos a jusante precisam de água na barragem para abastecimento das populações e para a irrigação dos campos agrícolas – há canais de rega instalados que, infelizmente, não são utilizados por não haver uma política de apoio ao desenvolvimento agrícola no concelho do Sabugal.
    Reclamemos a boa gestão da água, mas sem querer derrubar a barragem.
    paulo leitão batista

  5. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    Por causa de um problema trazido pela mudança climática, ou seja a falta de água, e talvez por outro que foi a má distribuição de água da barragem, não é preciso chegar ao ponto de atingir ainda uma jovem Democracia no seu cerne, no seu coração, não permitir a Liberdade de Voto, poderão dizer que é uma mentira o que eu estou a dizer, só não votou aquele que não quis votar, acredito, mas também acredito que muita gente se sentiu coagida, já viste o que é uma aldeia onde toda a gente se conhece e ir votar talvez depois de uma campanha anti-voto ? Porque a vontade de não ir às urnas não surgiu em todos os habitantes ao mesmo tempo por obra e graça do Divino Espírito Santo…

    Tantos homens e mulheres que durante quarenta anos lutaram, e alguns deram a vida pela Liberdade de Voto, pela Democracia, mereciam mais respeito. Não escrevi para aqueles que queriam exercer o seu direito, nem para os que foram coagidos. Podiam muito bem votar todos em branco, votar em branco significa protesto, não ir ás urnas tem outro significado…

    António Emídio

    • jclages diz:

      António Emídio…

      Votar é um direito mas acima de tudo um dever. Concordo que podiam votar em branco mas…

      …o que está (estava) em causa é a água que faz falta a todo o concelho do Sabugal!

      Parece-me que o mais importante não é dito. A população da Malcata não foi votar (ou devia votar em branco) mas…

      …e a população das outras freguesias? A água só faz falta a Malcata???

      Ridículo e grave falta de solidariedade em defesa de um problema que é de todos!

      Ele há coisas…

      • José Escada diz:

        Caro José Lages, não é apenas Malcata! A AMCF promoveu uma audição publica sobre a albufeira e recursos hidricos no Sabugal onde tratamos o problema na globalidade. A iniciativa foi muito participada e teve grande amplificação nos orgãos de comunicação locais… pena que não tenha estado presente!

  6. José Escada diz:

    Compartilho que o voto é um dever! Não votar é uma lesão á democracia. Mas neste caso houve que atender a outro valor! Dar visibilidade e palavra a uma causa local! Uma causa justa! Uma causa alinhada com o discurso politico vigente! Uma causa incómoda que muitos pretendiam que passasse ao lado da campanha eleitoral! O que são 400 eleitores? Mais vale ocultar que evidenciar …. Agora diga-me Antonio Emídio se não fosse anunciada a “abstenção” quem ia ligar a Malcata? Acha que as TVs iam pegar no tema? A vida é mesmo assim! Por vezes temos que optar entre valores! Foi um a pequena lesão sim, mas os malcatenhos prezam muito a democracia!

  7. António Emídio diz:

    Deus me livre pôr em causa os Malcatenhos e o seu apego à Democracia ! O meu receio é que este abandono do interior se transforme num feudo de grupos económicos e até mediáticos que muitas vezes assumem o papel de oposição, e defendem interesses que não os dos cidadãos. Eu escrevi se transforme, porque infelizmente o interior está cheio de caciques e galopins, mas dos de trazer por casa.

    António Emídio

  8. António Emídio diz:

    Sabes ao que tenho medo José carlos ? Que transformem este interior numa pequena Amazónia, em que grandes grupos económicos e outros não tão grandes, mas ao serviço de multinacionais, levem daqui o pouco que temos. E a primeira vitima é a Democracia.

    António Emídio

  9. António Emídio diz:

    O tempo dirá de quem foi a falha.

    António Emídio

  10. José Escada diz:

    De que falha fala?

  11. Carlos Ribas ( Bé) diz:

    Amigo, muito do que aqui referes está correto, no entanto, vejo que muitos dos aqui comentadores não conhecem o Rio, nem o estado em que está, desde o nascente, até ao inicio da albufeira, da tão contestada ou querida barragem.
    Ninguém se lembra, que a água que faz da barragem um mar de água vem das freguesias de Fóios, Vale de Espinho, Quadrazais e Malcata, acontece que o Rio deixou de o ser para ser um simples rego. Infelizmente, como todos sabemos, as nossas terras (lameiros e hortas) estão abandonados, a agricultura já nem a de subsistência existe e os grandiosos Moinhos estão doentes e muitos já mortos. Alertei várias entidades (a titulo particular) ao longo destes anos para o “terramoto” que o abandono das terras e dos moinhos causaria no leito do Nosso Rio, recebi muitas respostas e muitas promessas, nada aconteceu, ou aconteceu, os açudes, que deveriam ser os pequenos reservatórios para abastecer a Nossa barragem, estão abandonados, caídos, rotos…..infelizmente, quando os vejo, sei que as minhas lágrimas não são suficientes para os encher…..enfim, onde estão as minhas amadas trutas???, os amieiros e outras arvores, que por falta de água nas raízes, morrem todos os dias…..que revolta!!!!
    Ajudem-nos, por favor!!!!

  12. António diz:

    Políticas à parte, sem margem para duvidas que, se houve investimento e preocupação com o desenvolvimento na Beira Interior, foi António Guterres e o PS que nos valeu. Por outro lado enquanto houve governos PS, independentemente dos seus lideres, pode-se constatar que nunca foram retirados alguns benefícios de valorização do interior, como era o caso das SCUT. MAs assim que entrou o PSD, com Passos Coelho, o que aconteceu? Reverteu-se de imediato um direito de discriminação positiva relativamente ao interior, com todos os prejuízos e custos que tal medida representou e continua a representar para todo o nosso interior.

  13. José Escada diz:

    Caro Carlos Ribas se ler as conclusões da “Audição Publica : Albufeira e Recursos Hidricos do Sabugal” vai identificar-se com o texto!

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