Homenagem a Manuela Fernandes

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes, cedo partiu de Aldeia de Joanes – Fundão – Castelo Branco, a fim de frequentar o Curso Social na Escola Prática de Ciências Criminais, em Lisboa e com um ano de estágio no Estabelecimento Prisional De Tires “Cadeia de Tires”, iniciou a carreira profissional como Assistente Social na Estabelecimento Prisional de Sintra “Colónia Penal Agrícola de Sintra”.

No 70º Aniversário Maria Manuela Fernandes foi homenageada pelos funcionários com quem trabalhou nos Serviços Prisionais

Passou, também pela Penitenciária De Lisboa e Direção-Geral dos Serviços Prisionais – Inspeção do Serviço Social.

Após o 25 de Abril desempenhou inúmeras funções de carater social prisional, na Penitenciária de Lisboa, Fortes de Caxias, de Peniche e Estabelecimento Prisional Monsanto, requisitada pela então Junta de Salvação Nacional, a qual lhe atribuiu um louvor a nível nacional, recordando o Capitão de Mar e Guerra Augusto Xavier e Tenente Luís Ernesto Rosa.

Posteriormente e com a criação dos Estabelecimentos Prisionais Regionais, veio para o Estabelecimento Prisional Regional de Castelo Branco, como Assistente Social.

O então Diretor Geral, Dr. Carlos Meira, conhecedor do seu trabalho nomeio-a a partir de 1975 Diretora do mesmo, ficando também a seu cargo a então Cadeia de Apoio da Covilhã, sendo a primeira mulher a desempenhar este cargo no sistema prisional português.

O Estabelecimento Prisional não disponha de qualquer material, pelo que aproveitando os seus conhecimentos junto dos militares, conseguiu diverso mobiliário abandonado, nos Armazéns Militares de Lisboa e de Peniche, que foram recuperados em Castelo Branco por mão de obra prisional, com o apoio dos guardas prisionais, que chegaram a emprestar ferramentas, a servir de mestres e a Diretora a comprar materiais.

No Natal de 1976, o Dr. Carlos Meira, Diretor Geral deslocou-se a Castelo Branco e ficou estupefacto com o que viu, agradecendo a todos o trabalho realizado.

Abalada com a morte prematura do seu pai, pediu a demissão de diretora. Ficou com o serviço social que abrangia o Distrito de Castelo Branco e se estendia até ao concelho de Nisa.

Com a criação do Instituto de Reinserção Social foi integrada no mesmo, e ao ter conhecimento de vários projetos inseridos na Cova da Beira, avançou com um virado para a reinserção social dos reclusos, que no fim de alguns meses veio aprovado pelo Ministério das Finanças e da Justiça, permitindo a aquisição da Quinta de S. Miguel – Tortosendo, sem os Serviços Prisionais terem gasto um centavo.

No final de algum tempo foi criado o Estabelecimento Prisional Regional da Covilhã e foi convidada e requisitada ao Instituto de Reinserção Social, pelo então Diretor Geral Dr. Fernando Duarte, para desempenhar as funções de Diretora da Covilhã.

Aqui exerceu as funções até julho de 1996, tendo sido aposentada por motivos de saúde, mereceu um louvor por parte do Diretor Geral Dr. Celso Manata.
A condição de mulher e diretora numa cadeia não é tarefa fácil. Porém, com a sua longa experiência, procurou sempre criar um espírito de grupo, de equipa, de entreajuda, com todos a remar no mesmo sentido entre os diversos sectores, todos a puxar para o mesmo fim.

Apesar da exigência, disciplina, autoridade, rigor, não se podia dissociar os aspetos humanos e familiares dos funcionários e também dos reclusos.
A este propósito apesar de tantas condições adversas, a começar por aquelas da própria sociedade, ainda há reclusos e familiares dos mesmos, que reconheceram o trabalho feito na sua recuperação humana, laboral, educacional e social.

Passados mais de vinte anos de aposentação, os funcionários com quem trabalhou, formaram uma equipa composta pelo Corpo da Guarda Prisional e Serviços de Educação dos Estabelecimentos Prisionais de Castelo Branco e da Covilhã e no seu 70º Aniversário, 28 de setembro, prestaram-lhe uma justa e merecida homenagem, num encontro-convívio, reunindo uma centena de pessoas no Hotel Príncipe da Beira, antigas instalações do Seminário Menor do Fundão, onde Virgílio Ferreira com as vivências daquele local escreveu o Romance “Manhã Submersa”

Bolo de aniversário

Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes, salientou que “esta Homenagem também é repartida por vós, porque ninguém consegue alcançar os seus objetivos profissionais isoladamente. Necessita de uma boa equipa, trabalhadora, coerente e responsável. Vós fostes os alicerces dessa equipa.
Uma palavra de profunda saudade para aqueles que fizeram parte desta equipa, que deram o seu melhor e que já partiram, já nos deixaram. Recordo o Chefe de Guardas António Dias Manzarra, Manuel dos Reis Grilo, O Subchefe António Leitão, os Guardas Prisionais, António Lopes de Sousa, António Santos Lopes, José Nunes Leitão, Francisco Ramalhete, António Fidalgo, José Geraldes, Joaquim dos Santos Breia, Francisco Cabral, António Cerieiro, Maria da Conceição Ramos Sousa, Técnico de Educação José Varela, o Escriturário dactilógrafo António Simão Ramos, os Assistentes Religiosos Padre António Pereira, Padre José Calmeiro dos Santos, os Médicos Alfredo da Silva e José Freitas do Espírito Santo e a Enfermeira Emília Cordeiro.

Agradeço de coração cheio a todos vós por este gesto de sincera amizade, assim como a todos aqueles que por diversas vias me fizeram chegar mensagens de felicitações e não puderam estar presentes neste evento.”

Na palavra de Rui Couchinho Ramos, um dos organizadores afirmou, “foi um privilégio trabalhar com esta mestra, uma líder, amiga e confidente. Foi o nosso pilar, sempre ao lado dos Guardas Prisionais e de outros funcionários. Deu o melhor de si em benefício dos serviços que dirigia.”

Nas inúmeras mensagens salienta-se a de Carlos Gonçalves Técnico de Reinserção Social, “dia lindo, pessoa belíssima, de dimensão humana superior. Bem-haja por fazer parte do meu percurso de vida”.

O Professor Paulo Xavier escreveu, “tive o privilégio de poder trabalhar consigo durante vários anos.

Foram momentos de muitas alegrias e tristezas, conquistas e lutas que levam a que ainda hoje o Estabelecimento Prisional da Covilhã seja uma referência a nível nacional.

Recordo a conquista do projeto da aquisição e remodelação da Quinta como a implementação do ensino e formação profissional que foram iniciados pelo Senhor Fernandes e desenvolvidos na vigência da sua direção.

As pessoas passam pelas instituições, deixam as suas marcas e a vida continua para lá das quatro paredes…”

Em seis quadras escritas pelos funcionários destaco a última, “Porque é em nosso coração/Que sempre a guardaremos/ Sabendo, porém que no seu/Todos nós sempre estaremos.”

Num écran foram apresentadas diversas fotografias das atividades da ex-Diretora dos Estabelecimentos Prisionais de Castelo Branco e da Covilhã.
Por sugestão da homenageada decidiu-se por unanimidade, que anualmente se realize um encontro dos funcionários prisionais da Covilhã e Castelo Branco no ativo, na reforma e suas famílias no mês de abril em data a acertar pela Comissão eleita, e que fazem parte, Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes, Carlos Gonçalves, Fernando Galante Nunes, Maria Teresa Porfírio Mateus, João Manuel Pereira Matos, Cristina Pereira, Sofia Xavier e Carlos Afonso.
Na hora do encerramento deste encontro Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes, entregou a todos os presentes um quadro de recordação e agradecimento onde escreveu, “ às vezes pedimos coisas à vida, que ela não tem para nos oferecer, outras vezes concede-nos agradáveis surpresas, que não sabemos como agradecer…Reencontrar amigos, é relembrar o passado e renovar os laços das verdadeiras amizades. Relembro com carinho, todos os funcionários que laboraram nos Estabelecimentos Prisionais de Castelo Branco e da Covilhã. Um beijinho de gratidão.”

:: ::
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

Deixar uma resposta