A última execução em Coimbra

A última execução da pena de morte em Coimbra aconteceu em 29 de Julho de 1839, data em que foi enforcado no areal do Mondego o homicida José da Costa Casimiro. A abolição da pena capital para todos os crimes civis aconteceria em 1867.

José Casimiro foi enforcado no areal do Mondego

José da Costa Casimiro era natural do Picoto, freguesia de Cernache, concelho de Coimbra. Era solteiro, exercia o ofício de sapateiro e contava 31 anos de idade quando foi executado. Quatro anos antes tinha assassinado Diogo Marques de Carvalho, com quem partilhava a habitação, a fim de o roubar.

Foi julgado em Coimbra em 4 de Janeiro de 1837, sendo considerado culpado e condenado «a que morra de morte natural para sempre na forca, que será executada fora desta cidade, mas próximo a ela em sítio mais público para exemplo e escarmento dos mais».

A Relação do Porto confirmou a sentença e o Supremo negou-se a revê-la.
Ainda se apelou ao «poder moderador», tendo a rainha D. Maria II entendido por bem não decidir em favor do réu.

Só havia uma saída: executar a sentença.

O condenado, que estava na cadeia do Porto, marchou para Coimbra no dia 19 de Julho de 1839, escoltado por 41 soldados e acompanhado pelo respectivo algoz. A comitiva chegou a Coimbra na manhã do dia 25, tendo o réu e o algoz recolhido à cadeia da cidade, onde a Santa Casa da Misericórdia lhes deu cama e comida, tendo ainda abonado o algoz com mil réis, como era da praxe.

Coimbra há muitos anos que não assistia à execução de uma pena capital, pelo que foi grande a compaixão sentida pelo condenado, a ponto de a mesa da Santa Casa da Misericórdia entender por bem fazer um derradeiro apelo à rainha:

«Senhora. A Misericórdia de Coimbra, prostrada humildemente, implora a V.M. se digne commutar ao réo José da Costa Casimiro, em degredo perpétuo, a pena última que tem de padecer no dia 29 do corrente; escutando V.M. sua real clemencia, e attendendo às amarguras da morte, que o miserável em tão longo trânsito há esgotado… Clemência, senhora… Misericórdia… E R. Mercê.»

O apelo foi transmitido para Lisboa por telegrafo, no dia 27 de manhã e esperou-se com ansiedade o resultado da diligência.

No dia 28 chegou a resposta:

«Tarde vem o peditório, e muito grande é a necessidade de exemplo. (…) a súplica da Misericórdia não pode ser atendida».

Perdidas todas as esperanças de salvar o condenado da execução da morte, na manhã do dia 29 de Julho de 1839 saiu da cadeia, acompanhado pela escolta militar. Vestia uma alva (túnica branca) com uma corda atada pela cinta e segurando nas mãos, que estavam presas, um crucifixo, e assim foi conduzido ao areal do Mondego, junto à ponte, onde estava instalada a forca.

Aí chegados, o condenado, o algoz e um padre subiram a escada da forca. O sacerdote fez-lhe as últimas exortações e o algoz dispôs-lhe o laço em volta do pescoço e cobriu-lhe a cabeça com um capuz. Ato contínuo, o algoz empurrou a vítima para fora da escada, indo agarrado a ela, ficando ambos pendentes mais de um quarto de hora.

O numeroso povo que assistia a tão lúgubre espectáculo fez uma expressão de comoção no momento da execução e ficou em silêncio. Recolhido o cadáver, que foi colocado numa tumba, rezou-se pela sua alma, e foi conduzido, acompanhado por numeroso público, à igreja de São Tiago, onde José da Costa Casimiro foi sepultado.

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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

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