Mulheres que nos marcam

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Mesmo havendo um esforço para se estabelecer na sociedade a igualdade de género, sendo um dos objetivos das Nações Unidas para Agenda 2030, o facto é que ainda hoje uma mulher que «vença» a vida luta muito mais que um homem. E se recuarmos no tempo, as dificuldades eram bem mais marcantes. Por isso, tenho um profundo orgulho quando constato que uma mulher consegue ser mãe, esposa e uma distinta profissional, com responsabilidades atribuídas, que em tempos, só homens as obtinham. A Manuela Bernardo, é uma mulher que me tem marcado, não só pela sua amizade, mas pela resiliência contra a contrariedade, nunca abandonando o posto de mãe e esposa. Mas o espantoso é que para amigos e familiares, a Manuela, só não faz, na realidade, o impossível. Tive a sorte de a conhecer e de conversar horas a fio, sobre todos os aspetos da vida, onde ainda damos Graças a Deus, por nos manter no caminho de ajudar quem mais precisa. O texto desta semana é um tributo a quem chegou às setenta primaveras, ao longo de uma vida onde teve de carregar muita responsabilidade e amarguras.

A minha amiga Manuela Bernardo

A minha amiga Manuela Bernarda

Justa homenagem que o Pessoal dos Serviços Prisionais prestou a esta Senhora – Manuela Bernardo – no dia do seu aniversário. O espelho de uma pessoa marcante onde junta a conciliação, sabendo promover a condição humana num contexto de igualdade, como nunca vi.

Longe de imaginar a «máquina» que se montou para tão distinta cerimónia, a surpresa foi a melhor prenda que recebeu, porque, de facto, a Manuela não olha aos bens materiais. Juntar altos responsáveis, funcionários, guardas e, nada me admiraria se estivessem ex-reclusos, na mesma mesa, tornando-se num prodígio que poucos humanos conseguem neste mundo.

Mas não é por acaso, nem por sorte, nem até influências externas, que a Manuela conseguiu fazer história como uma das portuguesas que deve ficar referenciada, como alguém que vivendo um ambiente profissional onde o equilíbrio emocional é tão difícil de se alcançar, soube sempre promover quem mais está esquecido. Mas este dom de equilíbrio, também o conseguiu como mãe e esposa, sendo sempre amiga do seu amigo.

Poderia desenvolver um pouco o currículo brilhante que a Manuela teve ao longo da sua carreira nos Serviços Prisionais, sendo a primeira mulher em tantos cargos de elevada responsabilidade, um exemplo para outros profissionais e até reclusos, mas essa vertente, ou faceta, qualquer dia está acessível a qualquer um na Wikipédia.

A minha singela homenagem, é de facto, o tempo que temos conversado e convivido, onde o preconceito desaparece, onde a amizade floresce, onde o «bem» nos acalenta a «alma». E sem me aperceber, tenho também carregado uma «cruz» onde os seus ensinamentos e experiência têm-me sido inegavelmente úteis ao dar valor a esta vida que levamos. Falar com a Manuela é uma experiência de pensamento, que nos leva a refletir na melhor decisão. E esta sabedoria seguramente aprendeu nas funções que foi tendo, em condições muito difíceis, com outros homens e mulheres, como um barco que navega no mar alto, e quando algo se passa todos olham para a comandante. A Manuela era a última instância, o último recurso para que barco fosse navegando em águas calmas mesmo que a tempestade andasse por perto.

Na realidade qualquer humano tem tendência de fugir dos estabelecimentos prisionais. Mas o facto é que existem e prestam um serviço nobre ao país, na reabilitação de pessoas que provavelmente nunca conheceram o lado positivo de viver em sociedade. Por isso, estes profissionais, tantas vezes esquecidos das homenagens, das visitas de estado e do dia a dia, merecem toda a nossa estima e esta homenagem que prestaram à minha amiga Manuela Bernardo, grande profissional nos cargos que lhe foram atribuídos, acaba por simbolizar a nobreza de pertencer aos quadros dos Serviços Prisionais.

Tenho esperança que um dia este trabalho e sacrifício ao longo de anos seja, na realidade, reconhecido. Porque nem todos, ou todas, conseguiriam ter este espectro de sentimentos num mundo de contrariedade que a rodeava.

Um bem-haja minha amiga. E que continue a ser como sempre foi:

– A Maria Manuela Marques Bernardo Fernandes, uma Assistente muito mais que Social!

Fundão, 28 de setembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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