Invasões Francesas (2)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: VILA DO TOURO :: :: Algumas aldeias raianas foram fustigadas pelos soldados napoleónicos entre julho de 1810 e abril/maio de 1812. Em julho de 1810, após a tomada de Almeida realizaram razias nas aldeias raianas; na retirada, em fevereiro ou março de 1811, entraram no concelho de Sabugal, vindos da Guarda, deixando um rasto de violência e destruição por onde passaram; em abril de 1812, quando da quarta invasão, as populações foram, mais uma vez, vítimas das barbaridades dos invasores. Muitos arquivos foram destruídos! Provavelmente não houve aldeia do concelho de Sabugal que não tivesse a “honra” de os receber!

Invasões Francesas

No dia vinte e seis de março de 1811 o Prior Manoel José Nunes, de Vila do Touro, realizou dezoito Assentos de Óbitos, em que refere: “morto pelos franceses”, “foi sepultado no campo”, “dita missa de presente e fiz o que é uso da Igreja”.(8) Este dia foi de luto para esta freguesia, que incluía as anexas de Abitureira e Baraçal, mostra a brutalidade com que foram tratadas as populações. O fato de muitos terem sido sepultados no campo ajuda-nos a compreender a existência de símbolos funerários em locais isolados.

Um Registo de Óbito, seguido da transcrição:

Lista de mortos pelos Franceses no dia 26 de março de 1811:

Vila do Touro: Francisco Marques de vinte e seis anos casado com Ana Simão; Manoel Garrido de vinte e oito anos casado com Ana Antunes; Manuel Fernandes de cinquenta e cinco anos, viúvo de Maria Robala (sepultado no campo); Lourenço Antunes de cinquenta anos, casado com Maria Gonçalves (sepultado no campo); Manoel Simão de vinte e oito anos e solteiro; Ignácio Antunes Figueira de setenta anos, solteiro; Manoel Antunes Marques de cinquenta e cinco anos, casado com Ana Figueira, de Vila do Touro; Manoel João de quarenta anos, criado pastor de Manoel Simão, de Vila do Touro; Lourenço Gonçalves de sessenta anos, casado com Maria Galanta, da Abitureira; …? Martins, de quarenta e cinco anos, casado que foi com Mónica Marques, da Abitureira; António Martins de trinta e cinco anos, que foi casado com Maria Antunes, do Baraçal;

Baraçal: Ignácia, em Ameais, freguesia da Urgueira, viúva de Francisco Jorge do Baraçal; Manoel Tapadas, de trinta e cinco anos, solteiro; Simão Antunes de oitenta anos, viúvo; João Gonçalves de cinquenta anos, que foi casado com Josefa Gonçalves, do Baraçal; João Mendes de quarenta e dois anos, viúvo de Roza Afonsa, do Baraçal; José Nabais de quarenta e quatro anos, viúvo de Maria Aleixa, do Baraçal; Manoel Nabais de sessenta anos, que foi casado com Luzia Simão, do Baraçal; Manoel Monteiro Guerrilha de vinte e oito anos e solteiro.

Os maus físicos e morais tiveram consequências na vida das pessoas. Assim, no registo de óbito de Isabel Galanta, em 29 de abril, refere-se como causa de morte: “pelo terem consumido os franceses”;(11) Florência Oliveira, no primeiro de maio; em três de maio: Anastácia Nunes, Maria Robala e José Gonçalves. A expressão pode significar que houve abusos de ordem sexual ou outro tipo de violência, pois também se encontra em registos de homens, tendo como consequência a morte. Parece-me compreensível a dificuldade em abordar este assunto por parte de um membro do clero. Em todos estes assentos de óbito refere-se que “receberam todos os sacramentos, exceto a Extrema-unção”.

Será que esta gente não merece um memorial?

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

Notas:
8- Expressões utilizadas nos Registos de Óbitos referidos.
9- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Vila do Touro, Livro de Registo de Óbitos, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0012.
10- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0011; PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0012;PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0013.
11- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0015; PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0016;PT-ADLSB-PRQ-PSBG39-003-O5_m0017.

One Response to Invasões Francesas (2)

  1. Em minha opinião é claro que esta gente merece ser recordada através de um memorial. Foi muita a gente morta pelos franceses nesta sua invasão. No seguimento do monumento à Batalha do Gravato no Sabugal, que em boa hora se mandou fazer, também neste caso é imperativo fazer se para recordar as imensas tropelias – assassinatos, violações, roubos,…- cometidas pelos franceses durante a invasão napoleónica comandada por Massena…

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