A minha troca de «prisioneiros»

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Decorria meados de 1969. As relações entre os meus pais estavam a bater no fundo. O meu saudoso Tio Olívio tentava mediar um conflito que não tinha fim. Um dia consegue-se um acordo para ir conhecer a minha avó paterna, que já tinha 90 anos. E lá vou eu, de malote, calções e casaco, acompanhado pelo Tio António Esteves e a Tia Ernestina, sogros do Tio Olívio.

A minha troca de passageiros

A minha troca de passageiros

Uma viagem alucinante de 10 horas de comboio, entre Santa Apolónia e a Estação da CP da Covilhã, num mar de ansiedade de por os poucos cabelos em pé do Tio António, porque já não havia paciência de tantas perguntas: falta muito? O Tio conhece a casa? Será que me vão dar prendas?

A resposta era certeira: põe te quieto senão levas um piparote!

Mas como tudo tem um fim, a viagem também e ainda me recordo do comboio a entrar na cidade com luzes brancas que percorriam a encosta. A hora da entrega estava próxima.

Sem dúvida que os pais nada ganham em usar os filhos como moeda nas suas desavenças. Estava em pulgas para ir conhecer a Avó Clara. E receber os miminhos da Tia Maria Augusta. Mesmo já passando as 22 horas, não parava de perguntar quando o Pai me vinha buscar.

O Tio António nada dizia. Fomos num carro de praça até ao Solneve e aí os meus tios ficariam hospedados. Enquanto o menino estivesse na Covilhã havia uma embaixada que o protegia, não acontecesse uma desgraça.

Tudo combinado ao pormenor. Pouco antes das 23 horas aparece um senhor com um emblema do Sporting na lapela. Identificou-se como sendo o motorista que vinha buscar o menino. O Sr Carvalho durante a viagem até à casa dos meus avós começou logo a brincar comigo. Tinha de arranjar uma namorada da Covilhã. Havia muito que fazer. O meu pai precisava de ajuda.

A viagem foi muito breve. E o meu Pai já nos aguardava abrindo o portão para o Peugeot 203, matrícula NN-13-13, com piscas de manguito, pudesse entrar apoteoticamente.

Ele era despachado. Deu instruções ao Sr. Carvalho para levar a bagagem e rapidamente me pôs dentro de casa, não fosse travado pela Tia Maria Augusta, que me abraçou de saudades, e com um sorriso muito próprio lá encheu de alegria daquele espaço, onde se notava o peso institucional de uma família tradicional. Finalmente ia conhecer a Avó.

Pega na minha mão e leva me para uma sala aconchegante, com calor de uma braseira, e tentou captar-lhe atenção. A Avó já estava demente, e nunca cheguei a perceber se sabia quem eu efetivamente era. Parecia uma criança de dois anos. Olhava para mim com uma visão de infinito e balbuciava palavras, como se tentasse dizer algo. A minha Tia deu-me a sua mão e ela começou a olhar para aquele cruzamento de gerações onde a pele macia de uma criança era algo que não sentia faz muito tempo.

Todo aquele jogo de emoções fez despertar em mim um lado desconhecido. Na realidade temos um pai e uma mãe, e não faz sentido puxar os filhos ou filhas para um dos lados, porque o sangue e os genes cá andam.

Sem duvida que culturalmente foi um choque. Estava habituado ao riso e à alegria, e ali não havia espaço para brincar. Mas havia outras coisas!

A minha Tia tudo fez para que me sentisse em casa. E organizaram imensos passeios para o menino. Um deles foi ao Sabugal, onde me recordo dos paços do concelho e tanta casa de pedra, tornando uma arquitetura que de repente me parecia familiar. E lá lanchámos onde tinha de comer pelo jantar e almoço do dia seguinte. A fartura era outro aspecto não estava habituado. As refeições tinham 5 pratos, sopa, 2 pratos, doce e fruta. Fruta? No fim? Levei um raspanete do Pai. A fruta era para desenjoar o doce.

Visitei ainda algumas propriedades, mas as minhas perguntas não tinham resposta. Lembro me apenas de homens e mulheres a lavrar o campo, e das maçãs que eram doces como mel.

O tempo foi a correr. Mas a missão foi cumprida. Neste caso o meu Pai achava intolerável que o neto não conhecesse a sua avó.

O protocolo foi seguido ao minuto. Na despedida a Tia Maria Augusta deu-me uma Nota de 50 escudos. Nunca tinha visto tal coisa. Mas o meu Pai avisou logo deveria guardar e não esbanjar. Fiquei na dúvida. Há tanto tempo que queria o Action Man.

O Sr. Carvalho entregou-me aos tios. Nunca me deixou de cumprimentar sempre que me via. Mesmo já universitário o sorriso mantinha-se. Quando faleceu meu Pai avisou-me e hoje ainda sinto saudades daquele motorista. Só quando o Sporting perdia é que fazia má cara!

Quando cheguei a Santa Apolónia tinha uma comitiva de primos e tios à minha espera. O meu avô materno tinha falecido há meses, e a família estava unida.

A minha mãe encheu-me de mimos como se tivesse ido para o Ultramar.

Mas a questão monetária veio logo à baila: «Deram-te algum dinheiro filho?»

A minha mãe era receosa. E queria que juntasse dinheiro. Mas o Action Man…

– Não mãe. Tens mesmo razão. O Pai é mesmo forreta!

Comporta, 22 de setembro de 2019
(Dia de aniversário da minha madrinha Nelinha)

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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