Também eu, pá!

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Nós, os humanos, temos, obviamente, muitas visões em comum. Concordamos na ideia do bem e do mal. Coincidimos no conceito de guerra e paz. Convergimos sobre o que é justo e o que o não é. Enfim, aceitamos, universalmente, tudo isto e muito mais. Mas, quanto a gostos? Diz o povo que eles não se discutem.

Chapinhar na água da chuva

Devo, pois, assumir que eu tenho um particular gosto pela chuva. Quando escasseia morro-me de saudades dela e até dos embaraços que ela suscita. Gosto de a sentir no telhado, de a ouvir bater na janela, de a ver escorrer nos vidros, de lhe observar o ressalto na rua, enfim, até admito um sui generis prazer quando ela me apanha de surpresa e me faz apressar em busca de abrigo.

Gosto de chegar ofegante e repassado e comparo a minha satisfação à de um atleta que atinge a meta. Gosto de sacudir a chuva do cabelo e, quiçá infantilmente, gosto de apreciar os efeitos da molha.

Gosto de fitar os charcos desenhados no chão quando são castanhos ou opacos e também quando espelham o sol. Chego a convencer-me de uma certa loucura e gosto de encontrar alguém que, maluco como eu, prove o meu juízo. Por absurdo que pareça as doidices dos outros confortam bastante as minhas.

Ora, numa destas tardes em que a trovoada havia embalado uma chuva grossinha dei com um pai, ainda jovem, que caminhava segurando a mão do filhote de quarto ou cinco anos. A recente batelada havia realçado, no caminho, pequenos aguçais. As nuvens acabavam de se desfazer mas teimavam em oferecer pequenas e fortuitas gotas a lembrar um brevíssimo nevoeiro.

O miúdo olhava o céu e esperava, impaciente, por mais umas pingas enquanto transgredia marcando passo sobre a água encharcada. O pai, seguia devagar e repetia pequenos safanões no braço do garoto tentando evitar que ele ensopasse os pés:

– Olha prá frente pá. Não metas os pés na água.

Mas o miúdo não almejava a saída do seu aleatório sonho e lá ia esclarecendo:

– Gosto muito dos charcos e também gosto da chuva.

Vistas as inequívocas fundamentações do catraio, até a mim me apeteceu dizer:

– Pois… também eu, pá!

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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

2 Responses to Também eu, pá!

  1. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    A água sempre significou Vida, sem água o Homem não existiria, presentemente a água aborrece um tipo de gente que é o novo-riquismo, ou seja a chuva não lhes deixa luzir os seus fatos novos, e suja-lhes os sapatos ! Os locutores da rádio e televisão, quando chove, todos se danam dizendo que está mau tempo !! E, vê lá amigo Capelo, também serve para alguns de lançarem politicamente…Como o tempo mudou, ainda me lembro de quando chovia, principalmente para os homens do campo, e não só, era uma felicidade tremenda, regava os terrenos cultivados e enchia as nascentes.

    Um abraço do Nabais.

  2. Fernando Capelo diz:

    É verdade amigo Nabais. Há mil e uma razões para se gostar da chuva!
    Grande abraço.

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