Tragédia numa praça da Raia Sabugalense

António Martins - Capeia Arraiana

«Touro Bravo morre após incidente ao ter embatido no forcão!». Esta seria uma forma honesta de dar uma notícia sobre um facto ocorrido numa praça da Raia no passado mês de agosto. Mas a seriedade jornalística não iria influenciar a procura e leitura da notícia, então adotaram-se títulos sensacionalistas e espalhafatosos, sobre informações prestadas por associações animalistas, os quais insinuavam que se tinha matado um touro em praça.

A capeia faz parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial

«Sabugal. Vídeo mostra touro a ser morto na arena durante as Capeias Arraianas» (in DN).

«Touro é morto em arena no Sabugal em ritual antigo» (in Revista Sábado).

Estes títulos, além de sensacionalistas, visam condicionar, manipular, influenciar de forma facciosa a opinião publica, difundindo argumentos muito em voga dos movimentos extremistas PANelistas e outros tais, os quais até já prevêem fazer parte do próximo Governo e os quais insistem em impor a sua perspetiva, cultura e vontade próprias, em total desrespeito e desconsideração pelas de outros.
Pedia-se imparcialidade na partilha e divulgação da informação para que o publico e a sociedade pudessem formular as suas considerações e opinião sobre o que aconteceu naquele fatídico dia. Mas o jornalismo vai em ondas virais e esta onda está em maré alta e é preciso aproveitar os ventos do momento para vender noticias.

Noticias à parte! Infelizmente, temos que concordar que aquele foi efetivamente um acontecimento real e lamentável que afetou toda uma população que aprecia a Festa Brava da Capeia.

Entristeceu bastante quem assistia nas bancadas e todos os que estavam na praça propriamente dita, a fazer a pega e a lide do toiro. Estes, logo após o incidente, pronta e imediatamente arrumaram o forcão, rodearam o touro para proteger o animal da exposição a situação fragilizada após a marrada em ângulo acidental, enquanto em ato contínuo se faziam tentativas de estimulação ao touro, na esperança de que aquele recuperasse a sua audácia e pudessem ambos, touro e toureiros, continuar o mutuo desafio à braveza e coragem.

Após o embate do touro no forcão e verificada a não reação do animal, apesar dos cuidados imediatos que lhe foram prestados e verificando-se a incapacidade do touro na recuperação das suas forças, foi aquele coberto com toldos e transportado praticamente em braços para fora da praça para ser posteriormente observado pelo veterinário da região. Em ato contínuo a este incidente, foi o touro muito aplaudido de forma digna e respeitosa por todos, que adotaram um comportamento e atitude humilde de derradeira homenagem e gratidão à sua inata bravura e instintiva coragem e ferocidade que acabou por levar o touro a posterior morte.

Demonstrando assim os aficionados, com esta atitude um sinal e sentido de respeito que se poderia concetualizar de um sublime “humanismo animalista”.

Importa defender que continua a prevalecer na RAIA, ainda uma filosofia humanista que impera sobre a política animalista, a qual interessa continuarmos a defender com o simples mas forte argumento de que valorizamos muito ainda as potencialidades do ser humano e que temos, todavia, no bem-estar das pessoas o nosso interesse prioritário.

Mas apesar de defendermos muito esta tradição da Capeia, importa referir que temos vindo, cada vez mais e melhor, a torná-la mais digna e exigimos o melhor trato possível visando sempre o bem-estar animal. Não toleramos que se agrida de forma gratuita e sem necessidade o touro em praça e quando tal acontece ouve-se de imediato e em surdina uma onda de protestos e assobios para que seja posto cobro a agressões ou violências desnecessárias ou despropositadas.

Importa informar a quem não conhece nem quer respeitar a nossa cultura e tradição e que nos apelidou de bárbaros, selvagens, ignorantes, primitivos, que a nossa RAIA, é um dos territórios a nível nacional, onde mais valorizamos e melhor tratamos os animais.

Somos um concelho onde existe uma vasta e significativa produção pecuária, a qual se constitui como principal rendimento de muitas famílias e uma das principais atividades do território. Saibam que esta criação de animais é feita de modo extensivo e não intensivo, o que quer dizer que a generalidade dos nossos bovinos, ovinos e caprinos, vivem permanentemente em plenas pastagens, na melhor biodiversidade e garantido bem-estar.

Os nossos cães na sua quase totalidade andam soltos e vivem em espaços amplos, a céu aberto e ao ar livre!

Os nossos gatos são livres e não vivem numa casa, vivem e têm aldeias inteiras por conta deles e onde podem circular em total e plena liberdade por ruas, telhados e muros que lhes pertencem!

Saibam vocês mentes ilustres, cultas e mais evoluídas, que não temos canil, nem gatil, porque os poucos ou raros casos de abandono e/ou mau trato a animais no nosso território não justificam a vossa barbárie muito urbana de criar hospícios ou jaulas para condenar e aprisionar estes animais.

Os nossos pássaros voam em liberdade, é raro, muito raro, ver uma qualquer gaiola no nosso território, para quê ter aves em gaiolas se podemos desfrutar da sua companhia a céu aberto, em bosques, matos, silvados ou beirais dos telhados! Tentem vir dormir numa casa das nossas aldeias e irão sentir o cantar matinal da liberdade em todas as madrugadas.

Saibam ainda que uma das maiores campanhas a nível nacional, em defesa da grave ameaça de extinção de um animal, que importava urgentemente salvar, teve inicio no nosso território! Gente culta e informada!? Por acaso conhecem o slogan «Salvemos o Lince e a Serra da Malcata» (aqui), pois bem, foi aqui neste território, que esta campanha se desenvolveu e se promoveu.

Mas lamentavelmente, lutámos pelo salvamento e proteção do Lince, e a paga que nos deram foi levar os centros de recuperação do lince ibérico (aqui) para o Algarve e nós ficamos a ver os linces por um canudo!

E por cá continuamos a aguardar, resignados, pelo menos por uma implementação de um Centro de Interpretação do Lince, que seja, ou um mini zoo-Lince (aqui), na reserva da Malcata, em forma de agradecimento e reconhecimento pela forte e merecida associação do nosso território (Reserva Natural da Serra da Malcata!) que ficou perpetuamente interligado ao Lince! Mas ontem já era tarde e hoje já passaram 40 anos de longa espera.

Continua a constatar-se elevado nível de sanha para dar a estocada final (ena! que designação tão apropriada ao espírito taurino) ao nosso interior, ao nosso território e ao concelho do Sabugal. Raramente somos notícia e são poucos e raros os meios de comunicação social que espontaneamente se deslocam a esta ponta esquecida do interior profundo, bem no coração de Portugal, para enaltecer o todo e o tanto que por aqui existe para ser mostrado ao país! Mas desta vez conseguimos quase ser notícia viral!

Pode até ser que, com esta notícia de maior divulgação nos promovam. Pois como costumam dizer os políticos, toda a informação negativa ou positiva é sempre publicidade! Quiçá!? Se com esta campanha não ficamos mais conhecidos e quem não sabia desta tradição ficou a conhecê-la e pode até apreciar e vir até cá conhecer e desfrutar do espetáculo e da região.

Poucas são as noticias que nos ajudam a alertar e sensibilizar para as nossas maiores necessidades, que estamos a ficar cada vez mais isolados, reduzem e quase aniquilam os serviços de saúde, acabam com os correios, fecham escolas, limitam e condicionam serviços de justiça, especam-nos eólicas para lhes produzir energia sem olhar a meios, obrigam-nos a pagar portagens sem qualquer facilidade para valorização e facilitação dos custos de viagem a um interior tornando-o uma procura mais acessível economicamente.

Há por cá qualidade de vida, mas há muitos custos de vida que não existiam e passaram a ser cada vez mais difíceis de suportar, dado o abandono e isolamento a que nos foram condenando. Um simples exame médico, uma mera consulta de especialidade, meter uma carta registada no correio, ou querer mover uma ação judicial para que se faça justiça, tem custos astronómicos logo à partida (ab initio) para qualquer uma destas necessidades, para quem cá vive, comparativamente aos residentes das grandes urbes!

Somos de um território em que até o rio corre para norte, em sentido contrário ao da generalidade dos rios de Portugal. Somos do contra! Podem até colarem-nos ao cognome das vizinhas “terras do demo” (as do Aquilino Ribeiro), ou apelidar-nos da “Terra onde o Diabo perdeu as Botas”, mas continuarem sem pudor numa onda, qual cabala, de tentar acabar com a capeia, isso significaria acabar de vez com a Raia!

Esta é a cultura e tradição que importa defender e mantê-la forte, contra ventos e tempestades vindas das sociedades ditas mais evoluídas, cultas e pro-animalistas!

Quem é contra a Capeia não precisa de vir cá assistir ou visitar a região nessa altura, damos-lhe e respeitamos esse direito. Podem fazê-lo em qualquer outra altura do ano inteiro! Pois temos muito património arquitetónico e natural para explorarem e desfrutarem e ansiamos por essa visita.

Barbárie? A nossa capeia? Trata-se de mero desafio convertido em espectáculo, um jogo entre homem e animal! Teste mutuo à bravura e força entre homem e animal! Mortes ou ferimentos podem acontecer? Sim podem! Tanto com o touro como com os participantes no desafio!

Mas acidentes com mortes, ferimentos, lesões, mais ou menos violentas ou traumáticas, são recorrentes e prática comum em actividades sejam elas lúdicas, tornadas ou não espetáculo, desde o desporto mais simples, ao mais complexo, em que é usada maior ou menor violência, implícita ou explicita, desde a caminhada ao atletismo, alpinismo, ginástica acrobática, futebol, desportos motorizados de perícia ou de velocidade, boxe, wrestling, artes marciais, caça, pesca, tudo na vida tem algum risco e violência associada.

Em todas estas actividades e muitas delas tornadas espetáculo, com milhares a assistir, muitas vezes os espectadores confrontam-se com mortes e acidentes violentos que fazem parte da curiosidade e sagacidade humana! Sim somos humanos e gostamos de adrenalina e é esta que nos move para promover e criar espetáculo e divertimento!
A quantas mortes, ou ferimentos graves assistimos em directo e ao vivo nos mais variados espetáculos de desporto? Espetáculo e desafio, com ou sem morte, com maior ou menor violência e agressividade entre humanos ou competição humana, toleramos, aceitamos e pagamos para ver mais e melhor e ninguém se insurge, desafiar para uma luta um animal já é um atentado e uma barbárie! Ah! Porque temos consciência! Sim é verdade, é isso que nos diferencia dos animais, dentro da consciência, o livre arbítrio, e como tal, quem quer ir ao boxe, ao karaté, ao futebol, vai! E quem quer ir á capeia, á tourada, comer carne, legumes, outra preferência qualquer, também tem esse direito e não precisa de ser julgado por ser livre na decisão da sua preferência e escolha!

Posto isto não podemos desvalorizar nem renegar que a capeia faz parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial ! Foi feito um trabalho que nos glorificou e trouxe dignidade e valor à nossa tradição, logo temos que continuar a defender o que foi conseguido em prol, não do mero reconhecimento institucional, mas antes e sim porque é uma identidade cultural que beneficia e muito todo este território.

Não, não podemos “fazer como a avestruz, enterrar a cabeça na areia”, ou esperar que “os cães ladrem e a caravana passe”! É preciso “cantar de galo”, mostrar-lhes que “pela boca morre o peixe” e não fazem de nós “gato sapato” e queremos muito colocar “cada macaco no seu galho” e “pegar o touro pelos cornos”, ou então fazer-lhes uma lide com o forcão, para defender e lutar pelo que é nosso e ainda nos valoriza e traz gente às nossas terras.

Mas como “gato escaldado de água fria tem medo” temos que defender de forma destemida o que é nosso e assim “matamos dois coelhos de uma cajadada só”, protegemos a Capeia e continuamos a ter enchentes nas nossas aldeias da Raia. Pois como se diz por cá – onde há cornos há gente (sem aspas).

Barrancos teve a sua lei de exceção e foi deixado à sua sorte e respeito pela sua tradição! Ninguém conhecia Barrancos e hoje toda a gente sabe onde fica! Foi publicidade negativa que se converteu em algo positivo. O seu regime, lei de exceção, conseguido após longa e dura luta, já dura há 17 anos, mantendo viva a tradição centenária de um povo, também eles do interior que de forma aficionada e digna defenderam a sua cultura e os interesses das suas gentes.

Foi também recentemente, em setembro de 2019, considerada inconstitucional, pelo tribunal (TAF do Porto), a proibição de touradas por qualquer município! (aqui)

Todas estas salvaguardas e exceções, não são “um bicho de sete cabeças” mas foram conseguidas por mérito e esforço de alguém que não se deixou “estar às moscas”, mas sim por alguém que arregaçou as mangas e como “quem não tem cão caça com gato” e “ quem tem medo compra um cão”, é agora possível “cantar de galo” porque não deixaram as coisas ficar em “aguas de bacalhau” nem se compadeceram com “ as lágrimas de crocodilo” de alguns “carapaus de corrida” que andavam “armados aos cágados” e achavam que qualquer “formiga já tem catarro”. Pois para bem daqueles “cabecinhas de atum”, espera-se que não tenham “memoria de peixe”, e dizer-lhes que usamos “dose de cavalo” nestas lutas de defesa por tradições locais, porque acreditamos que “vozes de burro não chegam ao céu”, pois estamos muito convictos que “cão que ladra não morde”!

Agora exigem-nos que acabemos com as capeias ou touradas e deixemos de brincar e desafiar em lide os touros, a seguir que se deixe de montar cavalos, tal como já nos impedem de comer carne de vaca (aqui), depois que não se coma porco, frango ou coelho, ou que não se coma qualquer tipo de carne, depois que não se coma peixe porque estes sofrem horrores quando são retirados da agua e morrem por asfixia, depois que deixemos de comer saladas, alho francês, espinafres, e outros legumes porque estes também são seres vivos, depois que só se comam os frutos que as plantas dão, depois que deixemos de respirar ou coloquemos uma máscara, porque existem seres vivos minúsculos na atmosfera que tem de ser poupados. Em simultâneo enquanto se tenta limitar a liberdade de escolha e livre arbítrio, também se vai exigir ao mesmo tempo tento na língua quando falamos de animais. Não use, não, coma, não respire, não faça qualquer ação, nem invoque ou use expressões que possam ferir um qualquer animal. Mas em todo o caso se ferirmos animais, já está em marcha a criação de um SNS para animais! Espreitem o programa dos PANelistas e irão perceber a dimensão das realidades que nos querem impor! É assustador e não fica nada aquém do que ora acabo de referir.

E mais… Caso sejam consideradas e implementadas as barbaridades e idiotices destes radicais, extremistas, PANelistas ou outros idiotistas, não seria permitida a livre expressão ou escrita desta reflexão, porque na sua ecoditadura consta uma iniciativa que quer levar os portugueses a banir as menções negativas aos animais dos provérbios populares.

E no final acabaremos como na estória do burro, que foi habituado e treinado a não comer, em prol da maior poupança e lucro para o seu criador, mas que quando já estava habituado a não comer nem a beber e estava a dar lucro… morreu.

AH!AH! Esta estória anedótica também não é tolerada e não pode ser contada, porque envolve um burro e pode ferir a suscetibilidade deste e de outros “seres vivos”, sendo melhor não usar a designação “animais” porque é demasiado forte e pode ferir de raiva ou de morte um qualquer ser racional…

E quem se importa!

Era apenas um humano!

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António Martins

4 Responses to Tragédia numa praça da Raia Sabugalense

  1. Cacilda diz:

    Parabéns pela excelente descrição que fez dos nossos usos.

  2. Manuel Luís Nunes diz:

    Belo texto! Parabéns! A garra está bem presente! O ser racional no seu pleno esplendor!

  3. Franklim Costa Braga diz:

    Parabéns pela defesa dos costumes, maneira de ser e viver das gentes da raia sabugalense.
    Franklim Braga

  4. José Galhano diz:

    Mui…bien !!
    Como é do conhecimento publico e pelo que sei, o touro saiu da praça ainda com vida, acabando por morrer, já na propriedade do “ganadeiro” e não na praça como os meios de comunicação social noticiaram. Salvo erro foram essas as declarações prestadas, pelos inquiridos, as entidades policiais.
    Viva la afición..!!!

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