A morte do juiz de Midões

Tinha poiso no antigo concelho de Midões, hoje integrado no de Tábua, o célebre João Brandão, que à frente de um bando armado praticou, ou mandou praticar, imensos crimes nos tempos seguintes à guerra entre miguelistas e liberais. Um deles foi o assassinato do juiz daquela comarca.

A antiga vila de Midões

Durante largos anos, em meados do século XIX, as autoridades de Midões estavam às ordens de João Brandão e seus sequazes. Até a Justiça controlava, sendo frequente ele, ou algum dos seus irmãos, entrarem na sala de audiências do tribunal para indicar aos jurados o sentido das decisões – de absolvição ou de condenação dos réus.

Juiz, delegado, escrivães e jurados obedeciam cegamente, por temerem ser vítimas do bando criminoso.

Midões, terra sem lei, tornou-se num grave problema para o governo liberal, que quis pôr termo à situação nomeando para aquela comarca um juiz capaz de impor o primado da lei: o bacharel Nicolau Batista de Figueiredo Pacheco Telles. Natural de Águeda e homem muito austero, o novo juiz arredou de imediato os Brandões do tribunal, passando as decisões a depender apenas da consciência dos jurados.

João Brandão, não se conformando com a nova situação, mandou abater a tiro de bacamarte o juiz Nicolau Telles, o que veio a ser cumprido na noite de 28 de Agosto de 1842, quando o magistrado seguia do tribunal para casa.

O crime causou forte clamor em todo o país. E não era caso para menos, pois era a primeira vez que se matava um juiz de direito e tal acto punha em causa a Justiça nacional.

O governo enviou para Midões uma força militar que, seguindo o costume da época, se aboletou nas casas dos habitantes da vila. Foi também nomeado um novo juiz e um novo delegado, para que tomassem conta da justiça e investigassem a morte do bacharel Nicolau Telles.

Os soldados começaram por impor respeito mas viram-se em breve desprezados pelas pessoas em cujas casas estavam aboletados. O novo delegado instruiu o processo para descobrir e punir os autores do crime, mas depressa deu conta que as testemunhas eram intimidadas. Houve acusações e julgamento, mas os réus foram absolvidos, ficando os assassinos do juiz de Midões impunes.

João Brandão dominaria por muitos anos aquela e muitas outras comarcas dos distritos de Coimbra e de Viseu, colhendo os benefícios dos acordos políticos que fazia com os partidos quando estes queriam assegurar vitórias eleitorais.

Nota: A informação foi colhida do livro «Assassinos da Beira», de Joaquim Martins de Carvalho (Coimbra – 1890).

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Paulo Leitão Batista, «Histórias de Almanaque»

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