Invasões francesas (1)

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

:: :: POUSAFOLES DO BISPO :: :: Algumas aldeias raianas foram fustigadas pelos soldados napoleónicos entre julho de 1810 e abril/maio de 1812. Em julho de 1810, após a tomada de Almeida realizaram razias nas aldeias raianas; na retirada, em fevereiro ou março de 1811, entraram no concelho de Sabugal, vindos da Guarda, deixando um rasto de violência e destruição por onde passaram; em abril de 1812, quando da quarta invasão, as populações foram, mais uma vez, vítimas das barbaridades dos invasores. Muitos arquivos foram destruídos! Provavelmente não houve aldeia do concelho de Sabugal que não tivesse a “honra” de os receber!

Os invasores praticaram muitas atrocidades

Num registo de óbito, de dezasseis de fevereiro de 1811, o Cura José Veiga, de Pega, refere que no dia “quatorze do dito mez se aproximarão os franceses desta freguezia eu fugi como muitos fizerão ….”(1)

Em março, abril e maio, o pároco João Rebello Corte Real, de Pousafoles do Bispo, fez diversos Assentos de Óbitos denunciando a barbaridade dos invasores, bem como os constrangimentos derivados da insegurança e medo em que viviam as populações.

Sobreira, em 24 de março, de 1811:
Maria Josefa, Clara Maria e António José foram “mortos pelos bárbaros do tempo”.

Em treze de março, na Sobreira, Maria Antunes “foi sepultada na capela do referido lugar devido ao aperto dos invasores …”;(2) o mesmo aconteceu no dia dezassete, uma menina de nome Joaquina, que teria seis ou sete anos e no dia trinta a Maria Antunes, maior de vinte e cinco anos. O enterro numa capela é um pormenor relevante nesta época, pois a generalidade das pessoas, que faziam testamento, queriam ser sepultadas na Igreja Matriz (Igreja do Salvador de Pousafoles do Bispo). Aqui, tornou-se necessário abrir sepulturas no Adro, devido à falta de espaço no interior. O cemitério só foi construído em meados do século XIX.

Muitos foram “mortos pelos bárbaros invasores”: No dia vinte, Manoel Pires, de Monte Novo, João, solteiro de vinte e cinco anos, da Sobreira e Manoel da Fonseca, o moço, marido de Catharina da Costa, de Pousafoles do Bispo (não foi sepultado em sepultura da Fábrica). A vinte e quatro, Assento de Óbito de André Lourenço e de Maria Josefa, viúva de André Lourenço, assassinados pelos invasores. No mesmo dia, óbitos de António José e Manoel de Paiva, homens casados, de Pousafoles do Bispo e Clara Maria, viúva. Em vinte e sete, José Francisco, marido de Izabel Pires, de Monte Novo, teve sorte idêntica e não foi sepultado em sepultura da Fábrica.(3) De vinte de maio foi o Assento de Óbito de José Gomes, viúvo de Apolónia Pires, de Pousafoles do Bispo, com “… vestígios evidentes, de que elle fora assassinado pelos bárbaros do tempo, em algum dos últimos dias do mez de Março …”(4)

“Aos trinta dias do mez de Abril de mil oitocentos e onze anos: se verificou a morte de António Gonçalves marido de Tereza deste lugar e Parochia do Salvador de Pousafoles do Bispo; Aro e Bispado da Guarda; morte perpetrada pelos bárbaros do tempo, em algum dos últimos dias do mês de Março do corrente ano, e da qual athé hoje se duvidava: portanto não foi sepultado na sepultura da Fábrica. Não tinha testamento. Para constar fiz agora este Assento, que asigno eu João Rebello Corte Real, Prior desta mesma Paróchia. Dia, mez e anno ut supra.”
Prior João Rebello Corte Real(5)

1812
Segue-se a transcrição do caso mais chocante que encontrei:
“Aos doze de Abril de mil oitocentos e doze anos foi infelizmente aprisionado e conduzido à Villa de Sabugal, pelos bárbaros invasores do tempo, o Reverendo Bacharel Francisco Alves Pereira, parochiano desta parochia do Salvador de Pousafoles do Bispo, que hé Aro e Bispado da Guarda; e nessa Villa foi por eles tyranamente assassinado no próprio dia que a querião evacuar, que foi antes de findar o referido mez; assassínio que se verificou não só por muitas pessoas da mesma Villa, que reconhecerão o desgraçado ainda vivo e depois de morto; mas também pela creada e creado, que deste lugar forão reconhecê-lo; e ultimamente por José de Figueiredo solteiro, deste mesmo lugar, que de recomendação de Thomas do Valle, pai do assassinado foi enterrá-lo profundamente, como com efeito, depois de o reconhecer, até pelos próprios vestidos, que em vida trazia e com que o deixarão, o enterrou, no sítio em que se achava, que foi em huma lameira, próxima aquella dita Villa, aonde se faz a feira dos bois, nas costas de huma fonte, que ahí mesmo há ; o que executou no dia dois de Maio do mesmo anno. Para constar fiz este assento, que assigno, eu João Rebello Corte Real, Prior da parochia, aos quatro do dito mez de Maio e do dito anno.”
Prior João Rebello Corte Real(6)

Trata-se de um excelente testemunho das barbaridades cometidas pelo exército napoleónico. Por outro lado, revela-nos a passagem dos exércitos nesta freguesia aquando da chamada quarta invasão.

No início do Livro de Assentos de Baptismos de 1815, o mesmo prior, escreveu uma declaração em que refere: “Indico como foi na invasão o Livro dos Assentos de Baptizados que estava servindo, da qual só aparecerão algumas folhas avulsas com alguns Assentos …”.(7) A inexistência de alguns arquivos é imputada aos invasores, mas não é certamente a única razão.

Nótula:
Fábrica – comissão destinada a administrar os bens da Igreja, incluindo o espaço para sepulturas.

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«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

Notas:
1- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Pega, Livro de Registo de Óbitos, em: PT-ADSLB-PRQ-PGRD-003-O3_m0037.tif.
2- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Pousafoles do Bispo, Livro de Registo de Óbitos, em: PT-ADSLB-PRQ-PSBG-003-O3_m0083.tif.
3- Idem
4- Idem, em: PT-ADSLB-PRQ-PSBG-003-O3_m0089.tif.
5- Idem, em: PT-ADLSB-PRQ-PSBG22-003-O3_m0086.tif:
6- Idem, em: PT-ADSLB-PRQ-PSBG-003-O3_m0101.tif.
7- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Paróquia de Pousafoles do Bispo, Livro de Registo de Baptismos, em: PT-ADSLB-PRQ-PSBG-001-B6_m0003.tif.

PS:
1. Informo tratar-se de uma republicação revista. A primeira foi resultado de situações pontuais. Agora posso realizar uma interpretação global.
2. Tudo começou quando procurava informações sobre meus antepassados nos arquivos de Pousafoles do Bispo. Ai surgiu essa história intrigante sobre o reverendo que foi levado para o Sabugal e aí assassinado! Decidi publicar a informação sem que previsse a possibilidade de ter disponibilidade para prosseguir as pesquisas.

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