O casamento n.º 142

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Estava de serviço quando recebo uma chamada do chefe. Tinha de o ir representar ao casamento n.º 142. Aqui, nos serviços, os casamentos e batizados, são registados por causa das despesas. Sinceramente não me apetecia nada. Para além de querer ir ver o meu Vitória de Setúbal, tinha de cumprir o protocolo de Estado. Deveria de ir com uma fatiota de cor cinzenta, gravata discreta e devidamente barbeado, penteado e com perfume. Sim perfume dos caros, porque o aroma tem de se manter. Nem sei bem quem seriam os noivos. O código era «j+m».

Casamentos... e casamentos

Casamentos… e casamentos

Trabalhar no protocolo tem destas coisas. Mas na realidade a nossa missão é servir. Enquanto esperava pelo motorista, não me podia esquecer do pequeno embrulho para oferta. Tudo como mandam as regras.

A viatura do Estado chega, mas com uma motorista e não o habitual Sr. Júlio. Como vou sempre no lugar da frente mantive o hábito e fiz os cumprimentos da praxe. Sem grandes conversas lá fomos para a catedral sem de olhar de vez em quando para o lado, disfarçadamente: «Que mulher interessante!»

Tendo chegado a tempo (um alívio!) mas em cima da hora, procurei ver caras conhecidas. Subitamente surge um Senhor de fraque e questiona-me quem sou. Identifiquei-me e pediu para o seguir. Os lugares eram marcados. Pertencia à ala «abrunheira do campo». Discretamente comecei a procurar caras conhecidas e vi o Tarantino, o Spielberg, o George Lucas e o Almodovar. A «porcaria» do protocolo não me deixava mexer como um curioso. A postura tinha de ser o mais discreta possível. Reparei, no entanto, numa orquestra com violinos e violas e um coro. Este casal «j+m» deve ser importante!

Tocam as 16 horas e 30 minutos na torre do relógio da catedral, e entra o noivo escoltado por um grupo de amigos, como Gary Grant, ou a linda Rita Hayworth – «só posso estar a sonhar!» – ele era um jovem alto com um sorriso invulgar. Fez-me lembrar o Sarkozy. Mas efetivamente não o conhecia.

Minutos depois entra a noiva. Com um lindo vestido creme, e igualmente acompanhada de gente conhecida, como a Madonna, o Justin Timberlake, ao som da música «I ‘ve Got a crush on you», do George Gershwin, muito bem interpretada e com todos de pé.

O Reverendo Padre acolheu-os, abraçando-os, dando o mote para o início da missa.

Efetivamente estava surpreendido. A própria celebração foi com os noivos virados para a comunidade, sentindo-me pela primeira vez na vida um Padrinho. Mesmo com a descontração e o à vontade dos noivos, o curioso, é que a cerimónia não perdeu classe e distinção.

Reparei, entretanto, nalguns distintos diplomatas de outros países, o que me deixou apreensivo. Tudo menos ficar ao pé do Embaixador do Reino Unido. Já não há paciência para o Brexit, valha-nos Deus!

Voltei a mim com o som extraordinário do coro e orquestra a tocar a música «When you Believe», onde na versão original é cantada pelas divas Mariah e a falecida Whitney, onde as oitavas tocam nas nonas, e até comoveu a própria Madonna.

Aproveitei e enviei um sms ao chefe: «Tenho de ir ao copo de água?» A resposta foi pronta. Era melhor esquecer o jogo do Vitória.

Após a celebração houve um compasso onde os convidados cumprimentavam o jovem casal. Trazia no bolso a oferta e quando chegou a minha vez cumprimentei com postura cerimonial tendo entregue ao jovem o pequeno embrulho.

Pensando que seguiria para que o próximo convidado cumprisse o ritual, o jovem pediu-me para esperar. Abriu e pelo que vi era um rolinho de papel.

Abraçou-me com tanta força que de repente ouvi uma voz ao longe:

– António José, homem, acorda! Sabes que horas são? Já chegamos à Igreja de São Francisco. Vá ainda nos atrasamos!

Maldita medicação que me dá uma soneira…

Peraboa, 14 de setembro de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

2 Responses to O casamento n.º 142

  1. Alex diz:

    Gostei.👏 Muito colorido… Mas eu já sabia que estavas a sonhar 😉

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