Velha e saudosa janela

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Minha velha e saudosa janela, lembro ainda os efémeros primórdios de Felicidade quando criança via através dos teus vidros as pétalas de neve bailando no ar e caindo nas pedras da rua nos dias de Inverno. Lembro os escaldantes verões quando se aproximava a sonolenta aurora. Lembro as doces primaveras e o orvalho da manhã, essas lágrimas da natureza. Lembro os tristes outonos de Céu cinzento que traziam as primeiras águas da chuva.

Velha e saudosa janela

Velha e saudosa janela

E as andorinhas! Num esvoaçar estonteante moldavam os seus ninhos no telhado da escola e do velho cinema à luz de uma bela manhã primaveril, esses ninhos eram como ventres fecundos prontos a parir assim que chegasse a hora da vida. Lá vinha a esguia velhinha com a côdea de pão, tangia um burrinho pachorrento, ambos tinham fome, ambos sofriam, ambos choravam, ambos já só são recordação. Ouvia-se o chocalhar dos primeiros rebanhos. Os sinos da Igreja arremessavam badaladas sonoras e exigentes, as primeiras mulheres vestidas de negro saíam de casa, iam afugentar a morte. Onde estão as árvores da minha Saudade? Não as voltarei a ver floridas das mais belas cores, ouvia o som do regato cantar aos maravilhosos dias, lá dizem os poetas, a Primavera é irmã da beleza.

Depois, a Primavera foi-se afastando, enquanto o Sol trazia o Verão de poentes côr de fogo e do ondear das searas. Verão de noites maternais, os pobres dormiam cobertos somente com a terna e doce aragem. Verão da foice e do mangual que destroçava a espiga para lhe arrebatar o grão, som cavo às horas do silêncio, Verão de suor e de cansaço. A tarde agonizava, ouvia-se ao longe o chiar da nora, era a Mãe Terra a saciar a sede, bebia através das veias que o lavrador lhe ia abrindo com um sacho.

Um vento frio fez estremecer as cortinas da janela, uma chuva miudinha sussurrava ao bater nos vidros, a Vila dormia ainda, já não era o raiar sereno do Verão, era o Outono a anunciar-se, o vento batia a todas as portas e trazia até mim o ruído sonolento das rodas de um carro de vacas ao saltitarem nas pedras da calçada. Outono de folhas caídas bailando à fúria do vento. Outono de Sol envergonhado, de horizontes negros e tristes, de noites sem luar e de nuvens cavalgando o negro Céu. Quando o luar já caía sobre a Vila, passou o mesmo carro, puxado pelas mesmas possantes vacas, e as rodas fazendo o mesmo ruído nas pedras da calçada, o lavrador trazia um cigarro ao canto dos lábios, vinha cansado, trabalhou todo o dia a apanhar o pão dos pobres, castanhas. Dia de vindima, dia de alegria, colhiam-se as uvas debaixo de um sol tépido e envergonhado. Vinho, fruto da videira e do trabalho do homem, néctar dos deuses!

Não me esqueci de ti amado Côa! Via-te da minha janela nos dias de Inverno , via-te nas invernadas chuvosas deixares de ser prisioneiro das tuas margens, vingavas-te! Corrias loucamente, inundava-las, depois, já cansado, voltavas a ser prisioneiro… Outras águas corriam e cantavam, eram as das fontes, águas que no silêncio das noites frias o seu canto embalava até ao sono mais profundo.

Inverno, o vento era cortante, fustigava o rosto daqueles que o enfrentavam, dobrava os valentes pinheiros, e a essa hora da noite, das chaminés das sonolentas casas saía um fumo branco e lento. O vento silenciou-se e adormeceu de cansaço. O lusco-fusco matutino trouxe uma surpresa… Oh neve imaculada que tudo cobrias de branco! Paisagem Edénica, paisagem gelada, o tempo adormeceu, nada se movia, o silêncio era quebrado pelo ladrar dos cães, então a esguia velhinha passou com o seu jumento, não se queixavam do frio nem da fome, estavam habituados às moribundas noites e aos sofredores dias, o jumento de regresso trazia um minúsculo feixe de lenha, desolada pobreza, desolada solidão, o exemplo vivo do sofrimento que nem o Natal conseguiu fazer um «Suave Milagre».

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

2 Responses to Velha e saudosa janela

  1. Fernando capelo diz:

    Cheguei à emoção, amigo Nabais.
    Aquele abraço.

  2. António Emídio diz:

    Amigo Capelo :

    Também eu ao escreve-lo.

    Um abraço do Nabais.

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