Até parece mentira!

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Hoje, vou dar à caneta para estampar nesta crónica uma peripécia inusitada.

O parquímetro não deu o talão

Numa manhã guardense, em meados do passado mês de agosto, o relógio marcava onze horas. O sol já queimava e um homem de passo acelerado enxugava duas gotas de suor que lhe escorriam no rosto. Tinha acabado de estacionar o carro e procurava, agora, o porta-moedas na bolsa que lhe escorregava do ombro. Precisava de uns cêntimos para introduzir no parquímetro.

Até aqui tudo bem mas, nada disto indiciava o que viria a suceder nos instantes seguintes.

A moedinha acabou por perpassar, tilintando, os labirintos da máquina. Contudo, quando os dedos tatearam a saída do talão, não encontraram coisíssima nenhuma.

O homem olhou o parquímetro de alto a baixo como se uma estranha miopia o tivesse assolado. Especado por dentro do seu espanto, esperou alguns segundos e, nada!

Ainda incrédulo, rodopiou noventa graus e, do outro lado da rua, enxergou um policia. Dirigiu-se-lhe e pormenorizou-lhe o sucedido. Respondeu-lhe o agente:

– Isso é com a Câmara, meu amigo. Nós apenas fiscalizamos a legalidade do estacionamento.

O homem, visivelmente, arreliado repostou:

– Só me faltava mais essa. Ó senhor guarda eu já sabia que os parquímetros plantados por todos os becos da cidade não dão recibos. Mas esta de não darem talões de estacionamento? Então sacam-me o dinheiro e deixam-me sujeito a multa? Nem o diabo de um papel para avisar que a máquina está avariada?

Mas o policia suavizou:

– Vai demorar-se muito? Resolva lá o seu problema quanto antes porque enquanto eu aqui estiver talvez não seja multado.

– Talvez, sr. guarda?! Mas que sorte do caraças!

Enquanto isto, de um banco de jardim, ali ao lado, percebia-se opinião diversa. Uma velhota de voz roufenha ia debitando pouco mais que em surdina:

– Mal agradecido! O polícia a ajudá-lo e ele cheio de azia. Não pode ser grande rês. Para que é que ele quer o raio do recibo? Isso de quitações é lá no Código Civil e por via dos impostos. De resto é pagar e desinchar. Bufar para o polícia? A multinha vinha-lhe mesmo a calhar para aprender a ser educado. Só lhe faltava agora ir incomodar os da Câmara.

A bizarria da situação posicionou-me, algures, entre o pasmo e a irritação e dei comigo a matutar sobre a hipótese de haver quem adquira direitos de soberania para inferiorizar o cidadão.

Escapou-se-me, por fim, um único comentário:

– Bolas! Até parece mentira.

:: ::
«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

Deixar uma resposta