Ecos do «Pensamento de J. Pinharanda Gomes»

Isidro Alves Candeias - Orelha - 180x135 - Capeia Arraiana

A recente partida do Ilustre Sabugalense Pinharanda Gomes suscitou os mais rasgados encómios, quer quanto ao Homem, que partia, quer no concernente à vasta e riquíssima obra deixada.

Jesué Pinharanda Gomes

Longe de mim a pretensão de vir acrescentar algo a quanto me foi dado conhecer, aprender e meditar, no percurso de leituras havido, neste “Capeia Arraiana”, passando, também, pela edição do “Amigo do Sabugal”, in “Amigo da Verdade”, semanários “A Guarda” e “Jornal do Fundão”, mensário “Cinco Quinas” e Página da Presidência da República, para citar apenas aqueles que de mais perto me foi dado ver debruçarem-se sobre aquele que, segundo as suas palavras e repescando do sábio tratamento do “Cinco Quinas”, já “se apresentou perante Deus, no céu, depois da morte” e que “já não tem saudade porque ficou deiforme”.

Entendo, porém, que não deveria calar um Eco, que vem de 1971, decorrido, portanto, quase meio século, que particularmente me tocou, tem permanecido no meu foro privado e sinto o dever de partilhar.

Foi, na altura, lançada uma profunda reforma do ensino em Portugal, que ficou conhecida, como é sabido, como a “reforma Veiga Simão”, nome do seu autor, José Veiga Simão, natural da Guarda e último Ministro da Educação Nacional antes do 25 de Abril.

A dita reforma do sistema educativo vinha constituir um marco importante no sentido da democratização do ensino.

Embora só viesse a ser consignada em lei no ano de 1973, através da Lei nº 5/73, de 25 de julho e do Decreto-Lei nº 524/73, de 13 de outubro, a verdade é que previamente foi anunciada e foram distribuídos documentos que seriam a base da sua estratégia, cabendo ainda referir, nesse âmbito, os Decretos-Lei nº 162/71, e nº 178/71, de 24 e 30 de abril, respetivamente.

Terá sido nesse âmbito, que, encontrando-me, em comissão de serviço militar, na Guiné, atual Guiné-Bissau, me foi dado ali apreciar, num “Jornal do Fundão”, de 1970 ou 1971, um artigo de Jesué Pinharanda Gomes sobre a Reforma do Ensino.

O teor do artigo tocou-me particularmente, pela matéria em apreço e pela pertinência dos aspetos nele tratados, a que não deverá ter sido alheio o facto do seu autor ser um conterrâneo, de uma grande aldeia, Quadrazais, vizinha da Torre, pequena aldeia onde me foi dado nascer.

O Jornal do Fundão era, já então, a par de, entre outros, a “Gazeta do Sul”, do Montijo e o “Comércio do Funchal”, ao que retenho, uma grande referência do jornalismo de intervenção, quiçá oposição, ao regime político vigente.

Tanto assim que, tendo enviado um pequeno artigo para o “Jornal do Exército” – Lisboa, com referências à missão na Guiné, acompanhado de modesto poema, que adiante se transcreverá, publicaram o artigo, calando o dito poema, que não foi ali publicado.

Voltando ao “Jornal do Fundão#, trata-se de um semanário que amiúde passei a comprar e de que sou presentemente assinante.

Estranhei que no seu Nº 3807, do dia 1 do passado mês de agosto, tenha noticiado, com considerável relevo, o falecimento do filósofo e historiador Jesué Pinharanda Gomes, o qual apresenta como tendo sido “ensaísta, pensador, filósofo, historiador e investigador, autodidata por opção, e autor de um vasto elenco de obras”, acrescentando “sendo ele um dos expoentes máximos da cultura do Sabugal e um dos maiores a nível nacional”, estranhei, dizia, que, tendo noticiado o seu falecimento nos termos, que antecedem, tenha ficado por referir o facto de ter sido colaborador do Jornal.

Procurarei, logo que possível, indagar e obter uma cópia do artigo, então ali publicado, do ora saudoso e sempre Ilustre Pinharanda Gomes, que me atraiu para o tema e me proporcionou ter feito a divagação, que segue:

ESTUDANTE
                       e
                           ESTUDIOSO

Se durante anos estudaste
E amor aos livros tomaste.
Se devaneios vãos desprezaste
E em bulícios não andaste.
Se a matemática equacionaste
E a física experimentaste.
Se a história decoraste
E rios e serras localizaste.
Se os verbos conjugaste
E a natureza retrataste.
Se sempre bem declinaste
E a lógica sempre adotaste.
Se a estética apreciaste
E da moral não te afastaste,
Então podes ter a certeza,
Que o Mundo tem mais riqueza.
E esta Pátria Portuguesa,
Que por ti muito se preza,
Caminha para o ideal.
E a Reforma Educacional,
Com uma alteração tal,
Que a tornasse mais moral,
Podia ter mais equidade,
Dando ao estudante a Universidade
E ao estudioso a possibilidade
De exercer uma atividade
Depois de provar seu saber
E sem necessário ser
Ter de voltar a ler
(Digo ler e não aprender)
Nos bancos da Faculdade.
Ele é, muito, de verdade,
Merecedor que a sociedade
O diplome sem vaidade.
Pois se as pestanas já queimou
Sobre os livros que estudou
E o saber já demonstrou,
A defendê-lo aqui estou.

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Isidro Candeias

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