O meu amigo Miguel

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Conhecemo-nos desde 1981, e praticamente desde o início da década de 90 que não o vejo. No entanto mesmo sem a presença física hoje ainda mantemos uma relação de amizade. Ainda me recordo, por volta de 1995, chegar a casa e ter uma carta de correio. O Miguel estava em Inglaterra a doutorar-se e nunca se esqueceu do tempo que privámos em comum. E eu, na altura a trabalhar na Brisa, com um trabalho «non-stop», nem tive tempo de lhe responder. A crónica de hoje pretende mostrar que os amigos, não se esquecem, e normalmente não são usados para pedir favores ou fazer negócios, palavras sábias do meu saudoso avô materno.

O meu amigo Miguel Monjardino

O meu amigo Miguel Monjardino

É difícil escrever sobre esta minha amizade com o Miguel. É uma encruzilhada de tanta coisa no passado que nem sei como começar.

Talvez o que mais me marcou foi começar a correr. O Miguel corria quase todos os dias, e fez a proeza de correr toda a Ilha Terceira, sua terra Natal, em «non-stop». Não era amante de futebol, tal como eu, refugiava-se no jogging, como dizíamos na época, e de facto eu durante muitos anos corri, só que hoje faço caminhadas porque já não tenho pressa em chegar a lado nenhum. Conseguiu levar-me às primeiras corridas «Ponte a pé» onde passávamos a Ponte 25 de Abril, e íamos até aos Jerónimos. Uma vez levou uma boa delegação do Colégio e ficámos em terceiro lugar por equipas. Hoje é uma equipa de luxo. Os distintos Manuel Serrão e Francisco Duarte Lopes, entre outros, faziam parte dessa «dream team». Infelizmente o Pires Preto já não está entre nós, mas a sua contribuição foi decisiva. Era pojante a correr.

Outro episódio inesquecível foi uma tentativa de assalto ao Miguel. Verdade que se vivia a crise no início dos anos 80 e ocorriam imensos assaltos em Lisboa, principalmente em zonas pouco movimentadas como nessa altura era a cidade universitária. O assaltante esqueceu-se que a vítima era corredora, e a imagem que retenho é a do coiote atrás do «bip bip», desenhos animados da época onde a presa não dava hipótese ao predador.

A política externa sempre era um dos temas preferidos entre nós. E sempre com base económica. O pai do Miguel ou foi aluno, ou assistente, de Paul Samuelson, 1.º Prémio Nobel da Economia. E muitas vezes os motes da conversa era os «Keynesianos» e a Escola de Chicago, do Milton Friedman, Prémio Nobel em 1976, que desenvolveu a Teoria Monetária. Com recordação guardo um livro que me ofereceu quando fez a cadeira de direito económico, e que já viajou de Lisboa para Setúbal, depois Lisboa, Leiria, Setúbal novamente e agora na Covilhã. E provavelmente quando estudante de Lisboa para a Ilha Terceira.

Porém, um dia consigo levar ao Colégio para uma palestra, o distinto Comandante Virgílio de Carvalho, comentador da RTP para assuntos internacionais. A proeza foi de tal forma que mereceu notícia no jornal da instituição, com um agradecimento à minha pessoa, tendo posteriormente recebido um telefonema do meu Pai, preocupado em que acabasse Engenharia Civil, em vez de andar envolvido em outras atividades. Felizmente o meu primo Miguel era antigo aluno, tendo um currículo brilhante, sendo atualmente Presidente de uma instituição financeira. E dei logo a volta insistindo num lapso: «Pai, foi o Miguel, acha que eu percebo alguma coisa de política internacional?»

Mas o facto é que a política externa marcou bastante o Miguel, e mesmo tendo optado pelo ramo de jurídico-económicas, acabou por estudar as relações internacionais, doutorando-se e atualmente sendo, Professor da Universidade Católica e comentador de conflitos (internacionais) em algumas televisões e rádios. No entanto, pessoalmente, o mais prestigiante é ser colunista do semanário «Expresso» há, pelo menos, 15 anos.

Numa das suas crónicas resolveu falar deste seu amigo. Envia-me um sms e fiquei em «pulgas». Na realidade estava lá a nossa conversa, como testemunho de décadas de tertúlia sobre o que se passa, ou não passa, neste mundo cada vez mais complexo, imprevisível e provavelmente bacoco, palavra muito usada no Norte mas que se encaixa bem no texto.

Sem dúvida que hoje o trabalho do Miguel é muito difícil. A velocidade dos acontecimentos, o envolvimento dos mercados financeiros na política externa, o uso do terrorismo que muitas das vezes não serve os objetivos que julgamos, a irracional distribuição da riqueza, como nunca aconteceu, e provavelmente obter informação credível e validada para esclarecer os leitores.

Um grande abraço deste teu amigo. E continua a ser como és!

Um lutador!

Bem hajas meu amigo!

Colégio Universitário Pio XII, 24 de agosto de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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