Sopro antigo na moderna urbanidade coimbrã

Fernando Capelo - Terras do Jarmelo - © Capeia Arraiana

Sempre achei que, em Coimbra, os encantos coexistem com surpresas. A cidade dos estudantes medeia caminhos entre Interior e Litoral não parecendo, às vezes, ser muito zelada por quem manda.

Cidade de Coimbra

Da Guarda fluem duas autoestradas. Ambas ignoram Coimbra preferindo encontrar o mar. Uma procura-o em Aveiro ou facilmente o disponibiliza, logo ao lado, com ajuda da A1, no Porto. A outra converge igualmente com a A1, mais a sul, e oferece o mar, do lado oposto, em Lisboa.

Para Coimbra as viagens ainda são de pouca autoestrada, de itinerários (pouco) principais e de estradas nacionais.

Nesta amálgama pouco apropriada a modernas mobilidades perdem as Beiras e perdem muito ambas as cidades.

Há quem diga que a evidente insuficiência de ligações se deve a sucessivos relaxes de subsequentes governos mas, também se fala de desinteresses propositados.

Pois seja. Verifica-se, concerteza, prejuízo para duas urbes que o não merecem.

Mas voltemos, então, aos encantos e à surpresa.

Há dias, ainda Coimbra se ensolarava pela manhã e já o ar esquentava e acariciava sons urbanos.

Subitamente brotou do fundo da avenida uma ténue melodia soprada numa gaita antiga. A musicalidade expandiu-se e foi enchendo a rua, entrou-me em casa e tocou-me o ouvido. Reconheci nela um dos sons mais familiares da minha infância.

Instintivamente procurei a janela e dei com o insólito. O amola tesouras empurrava com a mão direita a artilhada bicicleta e com a esquerda levava à boca a sua gaita de beiços.

Tal como se, num sonho, tivesse encontrado um tesouro gritei o achado para dentro de casa. Acorreram, incrédulos, minha esposa e meu filho que se dispuseram a procurar uma tesoura, uma faca ou qualquer coisa que pudesse ser amolada. A ideia era ver obrar o artista e interpelá-lo enquanto trabalhava.
Contudo, no decurso da precipitada procura a música esvaiu-se, primeiro pela Avenida Fernando Namora e depois pelo Bairro Norton de Matos. Tal como haviam surgido, homem e melodia acabaram por desaparecer no espaço e no tempo.
Talvez o amolador tivesse encontrado um freguês e, claro, “enquanto se capa não se assobia”.

Esperei, curioso, mas nada, nem mais um som, nem mais um sinal do obreiro ambulante.

Ora, estes momentos vividos na expectativa apenas puderam conter a surpresa, o rasto da difusa imagem do artífice/tocador, a recordação da mítica melodia e, não tendo chegado à fala com o amolador, só o sopro antigo na moderna urbanidade da manhã coimbrã conseguiu aliviar o sabor a quase nada!
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«Terras do Jarmelo», crónica de Fernando Capelo

One Response to Sopro antigo na moderna urbanidade coimbrã

  1. Rui diz:

    Que legal esse relato! Aqui em Belo Horizonte também há a tradição do amolador, que anda pelas ruas de alguns bairros com seu apito/canto, prolongado, inconfundível: aaa-mo-la-dooor.

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