Os hábitos de Marcelo

António José Alçada - Orelha - Capeia Arraiana

Hoje vou imaginar uma estória passada em Belém. Com este Presidente, acredito que até arranja tempo para ler estas minhas crónicas. Acredito que o mês de Agosto para ele deve ser horrível. Nada se passa e tudo está fechado. Neste dia, chegado ao palácio presidencial, pede logo ao chefe de gabinete o despacho. Mas pouco havia. Com a crise dos combustíveis os ministros andam todos num corrupio a controlar os postos de combustível para que a tão preciosa gasolina não falte e com o parlamento de férias, o despacho são cinco minutos.

Os hábitos de Marcelo

Os hábitos de Marcelo

O Presidente (Marcelo) começa então a olhar para o chefe de gabinete. O despacho foi feito em segundos: «Pode promulgar, sem problemas», disse com o seu ar sempre seguro e confiante. Agora? Que fazer? Detestava férias e já nem queria falar com o Primeiro-Ministro que andava sempre com carro na reserva, e as queixas eram sempre as mesmas.

Lembra.se então de arranjar uma bicicleta presidencial. Chama novamente o Chefe de Gabinete: «Veja se na lei o Presidente pode ter uma bicicleta. Se for possível ligo ao Centeno e digo-lhe que com a crise dos combustíveis o presidente tem de se deslocar e ainda para mais com o motorista de férias. E, caramba, uma bicicleta não vai estragar as contas.»

Depois de horas de espera, com pareceres jurídicos e a análises ao protocolo de estado, lá chega o dito documento a dizer que o presidente tem autonomia financeira para comprar a bicicleta, desde que, não ultrapasse os 100 euros. O IVA já está incluído neste valor e a fatura tem de vir com o NIF da Presidência.

«Belo trabalho já me poupa a sonolência do Centeno e a ladainha que se anda a gastar muito!»

Um dos assessores de Marcelo, entretanto liga: «Tenha cuidado senão põe toda a gente a andar de bicicleta no governo. E alguns podem não achar graça. Ainda arranjamos uma crise política.»

Efetivamente em vésperas de eleições não convém surgirem tricas institucionais. Já basta esta situação e provavelmente devem vir outras a caminho. Resolve então arranjar um disfarce.

«Um disfarce Sr. Presidente? Mas de quê? E como fazemos?» O Chefe de Gabinete era sempre cauteloso, mas Marcelo tinha sempre resposta pronta: «De turista. Arranjem um maquiador, ponho uns bigodes, patilhas, como em Hollywood. Vá, despache-se.!»

Aquela hora conseguiram apanhar um maquiador de um filme que estava a ser rodado em Lisboa, com a ajuda dos Serviços Secretos. As filmagens pararam, mas por pouco tempo. Marcelo não era homem de pormenores se o bigode estava curto ou as patilhas não alinhadas. O maquiador lá pediu a selfie e pela primeira vez não pode ser. O Presidente mascarado na primeira página do Correio da Manhã não convinha, de todo!

A bicicleta foi comprada numa loja de conveniência, custou 70€, portanto tudo pronto.

Ao sair do Palácio de Belém, Marcelo depara-se com uma fila enorme em frente a uma pastelaria: «Pastéis de Belém?» Efetivamente com o corrupio das saídas e entradas no palácio nunca se lembrou dos famosos pastéis de Belém, mesmo ali ao lado. Há quantos anos não saboreava tal iguaria.

Mantendo os óculos escuros, encostou a bicicleta à parede e lá se meteu na fila. Esperou uma meia hora, mas contentou-se com 2 e um café, acompanhado do ruido dos cafés lisboetas de tanta azafama, hoje com cantar de outras línguas que visitam o nosso país.
Deliciou-se com o ambiente, o sabor e deixou o tempo passar. Falando sempre bielorusso, nunca ninguém se apercebeu que o nosso Presidente, mirava o seu povo e convidados, num dos sítios mais encantadores de Lisboa. E mesmo ao lado do Palácio!

Depois de uma pausa longa e reconfortante, resolve ir de bicicleta para o passeio marginal. Tinha de abater as calorias.
Quando sai do estabelecimento fica atónito. Roubaram-lhe a bicicleta, património do estado. Efetivamente esqueceram-se dos cadeados: «Ai o Centeno!»

Resolve ir a pé até ao palácio a uns escassos metros. Ia tão distraído que entrou, mas o guarda chamou-o e impediu a entrada: «Desculpe, mas o Senhor não pode entrar aqui. A zona turística é aqui ao lado no museu da Presidência!»

Efetivamente o disfarce estava bem conseguido. Mas agora, como entrar no palácio?

Volta para trás a pensar em ligar ao Chefe de Gabinete. Mas depois pensa melhor…

«Vou aproveitar e conhecer Lisboa. Andar de «tuck tuck», no elétrico 28, ir aos miradouros… isso mesmo. Se o Costa ligar digo-lhe que não tenho motorista nem gasolina. Se quiser que me venha buscar!»

Atravessa a praça e apanha logo o primeiro «tuck tuck»: «Hello. Do you want a tour? Where do you came from?»

«Bielorussia!»

Será Bielorrusso?

Será Bielorrusso?

Lisboa, 18 de agosto de 2019

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«No trilho das minhas memórias», crónica de António José Alçada

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