Ardente dia

António Emídio - Passeio pelo Côa - © Capeia Arraiana

Não há água, não há verde, não há caminhos com poças de chuva, simplesmente um Sol inclemente qual aguarela fúnebre pintada com lágrimas e suor.

Ardente dia

Ardente dia

Através da janela aberta ouço o chocalhar do rebanho que caminha na negra paisagem vazia e queimada por um vento escaldante impregnado de longínquas areias ardentes do deserto, as flores dos caminhos estão ressequidas, vergadas pela sede e pela inclemência de um Sol infernal, as jovens árvores procuram a sombra dos ramos dos ainda virentes carvalhos, o ribeiro está agonizante, as suas águas deixaram de correr, simples charcos sujos e lúgubres são o que dele resta, os troncos carcomidos de seculares castanheiros são refúgios de aves que voam até ás margens do Côa para se dessedentarem, já não cantam sobre os ramos das árvores que o vento embala, anoitece sobre uma ígnea paisagem, a branca ermida vai empalidecendo, os casebres velhos e pardacentos desapareceram levados pela negridão da noite, ao longe, uma imensa bola de fogo mistura-se com o clarão do poente iluminando a serra e as estrelas, fechei a janela, o pano caiu sobre o cenário de mais um dia que morreu.

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«Passeio pelo Côa», opinião de António Emídio

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