O último pastor urbano

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

É genuíno de Aldeia de Joanes – Fundão. Ali nasceu, cresceu e vive há mais de cinquenta anos, apenas se ausentou durante três anos para o cumprimento obrigatório do serviço militar, com uma comissão em Angola.

O nosso homem tem saudades do seu rebanho

Vive em territórios históricos, já foram de muitos povos, com vestígios da passagem romana e moura. Perto da sua residência, um local paisagístico por excelência, ainda há quem se lembre e faça memória de ouvir dos seus antepassados que na Fonte do Mergulho surgiam ais de mouras encantadas, que desencantavam os cristãos. Também por aqueles arrabaldes passaram peregrinos a caminho de Santiago de Compostela, como confirmam sinais religiosos e toponímicos.

O mundo rural tradicional está em vias de extinção. Uns partem, cada vez mais debilitados, e a Agricultura Familiar, um dos grandes suportes humanos e sociais, está por um fio… Os terrenos agrícolas onde viviam e tiravam o sustento estão a desaparecer, e lembremos que os campos em Aldeia de Joanes sempre foram viveiros de famílias, comunidades e solidariedades. Todos nascidos, baptizados ou casados nos conhecíamos e convivíamos na sequência do calendário da vindima, do tratar e fazer a prova do vinho, da apanha da azeitona, das matanças do porco… Era na Festa do Natal e na Páscoa, eram as sementeiras, as ceifas, as malhas, a colheita de diversos produtos agrícolas. Por exemplo, em fins de Setembro, na Festa de São Miguel, fechava-se o ciclo das colheitas e fazia-se um balanço conjunto. O calendário dos Homens confundia-se com o calendário rural. As pessoas, as máquinas e os animais eram colectivos, eram partilhados.

Também muitos agricultores se dedicavam à criação, tratamento e cuidado de animais de raça caprina, ovina e bovina. Actualmente, em Aldeia de Joanes, é uma raridade existir a profissão de pastor. O último pastor urbano – Norberto Paulouro Neves – mais conhecido por todos como o Betinho, que durante décadas foi guardador de um rebanho, viu-se forçado a cessar as suas funções pastorícias. Diz-me que quem acabou com os pastores foram os aramados, a partir daí deixou de existir a transumância.

Alguém lembra que, quando se quis fazer uma festa da transumância, surgiram imensas dificuldades para se arranjar um rebanho de ovelhas que soubesse percorrer longas distâncias, porque já não o fazem à procura de pasto. Agora parece só existir a transumância motorizada, recorrendo-se a sistemas electrónicos ou computorizados. Dizem-me que já há países onde os drones são programados para serem os pastores do futuro.

O amigo Betinho confessa que gostava imenso de ser pastor porque tinha um especial carinho pelos animais. Ser pastor dá uma sensação de liberdade, porventura como nenhuma outra profissão. Também se aprende muito com os animais, mais fáceis de entender que muitos homens.

O nosso homem olha para trás com saudade e tristeza por não poder acompanhar o seu rebanho urbano. Hoje vive encostado a um velho cajado de pastor.

As doenças, que a todos atingem, uns de uma forma, outros de outra, não nos permitem prosseguir o trabalho de sempre.

O meu amigo Norberto Paulouro Neves com as suas debilidades físicas já precisa de dois “cajados” para vencer as vicissitudes com que a vida nos surpreende.

No meu pequeno território agrícola já não ouço o balir das ovelhas nem os sons dos chocalhos. Já não ouço os seus chamamentos…

Dizem que é a lei da vida…

:: ::
«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

Deixar uma resposta