Infernos

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

A palavra inferno deriva do latim infernum e, para os Romanos, relacionava-se com «o mundo inferior», isto é, «um local subterrâneo onde habitavam os mortos». Como sabemos, a civilização romana recebeu muitas influências da cultura grega, incluindo boa parte dos mitos e lendas da Grécia Antiga…

Inferno. Livro de Horas do Duque de Berry (cerca de 1415)

Inferno no Livro de Horas do Duque de Berry (cerca de 1415)

Ora, segundo a mitologia helénica, no «Mundo Inferior» reinava o deus Hades (Plutão para os Romanos). Depois da morte, todos seriam conduzidos por Hermes (Mercúrio, o mensageiro dos deuses) ao Mundo de Hades. Como tinham que atravessar o rio Estige, os mortos deveriam levar uma moeda na boca (o óbolo) para pagar ao barqueiro, Caronte. À porta encontrava-se um cão monstruoso, com três cabeças, Cérbero, cuja missão não era impedir a entrada mas sim a saída do Mundo Inferior. A maioria dos mortos permanecia num local neutro, nem bom nem mau, a Planície dos Narcisos, uma espécie de limbo. Mas alguns deles, raros, os heróis e os virtuosos, podiam ascender aos Campos Elísios, um local paradisíaco. Outros eram condenados ao Tártaro, local semelhante ao Inferno cristão.

Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo (Vila Franca do Campo, Açores). Purgatório (nave do Evangelho: capela das Almas).

Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo (Vila Franca do Campo, Açores). Purgatório (nave do Evangelho: capela das Almas).

Segundo a religião cristã, os bem-aventurados, piedosos e benevolentes, são recompensados com o Paraíso (o Céu). As almas pecadoras, isto é, as daqueles que morreram em «pecado mortal», serão inapelavelmente condenadas ao Inferno e submetidas a penas eternas. Segundo alguns dos rituais cristãos existe também o Purgatório, um processo de purificação, ou seja, um castigo temporário em que as almas daqueles que morrem em estado de graça são preparadas para ascender ao Reino dos Céus.

Em 1999, numa entrevista ao jornal L’Osservatore Romano, o papa João Paulo II procurou clarificar estas questões afirmando:

«Através de imagens, o Novo Testamento apresenta o lugar destinado aos pecadores como uma fornalha ardente, onde existe “choro e ranger de dentes” […] As imagens com que a Sagrada Escritura nos apresenta o Inferno devem ser interpretadas de maneira correcta. Elas indicam a completa frustração e vazio de uma vida sem Deus. O Inferno é, mais do que um lugar, a situação em que se vai encontrar quem, de maneira livre e definitiva, se afasta de Deus.»

E, do mesmo modo, a concepção do Purgatório como um lugar físico não é aceite pela moderna teologia católica, mas sim como «uma condição de existência».

Ilustração de Gustave Doré para uma edição de 1861 da Divina Comédia. Dante e Virgílio atravessam o rio Estige, o Quinto Círculo, povoado pelos irados e os rancorosos.

Ilustração de Gustave Doré para uma edição de 1861 da Divina Comédia.
Dante e Virgílio atravessam o rio Estige, o Quinto Círculo, povoado pelos irados e os rancorosos.

Uma das obras emblemáticas sobre esta temática, verdadeira obra-prima da Literatura universal, é a Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), um longo poema épico e teológico dividido em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, inspirado na Eneida, do poeta romano Virgílio. Aliás, Dante é acompanhado e guiado por Virgílio na sua viagem ao «Mundo dos Mortos», em busca da sua amada Beatriz, uma sua conterrânea florentina a quem dedicou um persistente amor platónico, que ele acabará por encontrar no Paraíso.

Baixo-relevo do portal central da catedral de Notre-Dame, em Paris (séc. XIII). O arcanjo São Miguel e Lúcifer “pesam” as almas (com um maléfico diabinho a tentar desequilibrar a balança).  À esquerda, os bem-aventurados, à direita, dois outros diabos conduzem um grupo de condenados ao Inferno, entre os quais reis, cavaleiros e um bispo

Baixo-relevo do portal central da catedral de Notre-Dame, em Paris (séc. XIII).
O arcanjo São Miguel e Lúcifer «pesam» as almas (com um maléfico diabinho a tentar desequilibrar a balança).
À esquerda, os bem-aventurados, à direita, dois outros diabos conduzem um grupo de condenados ao Inferno,
entre os quais reis, cavaleiros e um bispo

A Divina Comédia foi tema para inúmeros artistas e músicos, ao longo dos séculos, como Botticelli, Delacroix, William Blake, Auguste Rodin, Gustave Doré, Salvador Dalí, Tchaikovsy ou Liszt. A primeira parte da Divina Comédia é sobre o Inferno, e divide-se em trinta e quatro Cantos. Dante segue uma concepção medieval de Inferno, descrevendo vários círculos de sofrimento (mais exactamente nove). No Vestíbulo do Inferno, as almas são logo prevenidas: «Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate!» («Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!») Depois, a prodigiosa imaginação do poeta desenvolve-se na narrativa dos castigos infligidos aos culpados de grandes pecados: ira, luxúria, gula, ganância, heresia, violência, fraude, traição.

Purgatório. Livro de Horas de Catarina de Clèves (c. 1440). As orações dos crentes são apresentadas por um anjo como “alimento” para libertar as “benditas almas do Purgatório” e fazê-las ascender ao Paraíso. Na segunda imagem, um anjo conduz uma dessas almas ao Céu

Purgatório. Livro de Horas de Catarina de Clèves (c. 1440). As orações dos crentes são apresentadas por um anjo
como «alimento» para libertar as «benditas almas do Purgatório» e fazê-las ascender ao Paraíso.
Na segunda imagem, um anjo conduz uma dessas almas ao Céu

As representações artísticas do Inferno são de uma riqueza e variedade extraordinárias. A ilustrar este texto procuramos mostrar algumas dessas obras, tão sugestivas e imaginativas. Os «Livros de Horas», por exemplo, são uma fonte iconográfica inesgotável sobre este tema. Vejam-se, por exemplo, o Inferno do Livro de Horas do Duque de Berry e o Purgatório do Livro de Horas de Catarina de Clèves. Também os baixos-relevos das grandes catedrais góticas europeias mostram cenas do Juízo Final, com Anjos e Demónios a pesar as almas e a conduzi-las ao Paraíso ou ao Inferno, como é o caso da catedral de Notre-Dame, em Paris. Finalmente, incluímos aqui uma ilustração de Gustave Doré representando Dante e Virgílio a atravessar o rio Estige, por entre condenados pelo pecado da ira.

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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

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