Ir a Sortelha em 1970

António Gonçalves - Colaborador - Orelha - Capeia Arraiana

As preocupações com roupas, calçado e higiene estavam sempre presentes nas idas a Sortelha. Parecia que íamos a uma festa. Tratava-se de um dia diferente!

Dirão da Rua – 2019

Independentemente da hora da missa a casa agitava-se para todos irem com o mínimo de decência. A preparação começava na véspera. Ia-se à fonte buscar água para a todos cuidarem da sua higiene, preparavam-se as melhores roupas e sapatos.

No dia da missa, funeral ou acompanhamento, a preocupação dos progenitores era que todos estivessem prontos para o evento em devido tempo. Chegar atrasado à missa era impensável!

Tomava-se banho numa banheira de plástico, com água aquecida num caldeiro pendurado nas cadeias, isto no Inverno, no Verão, por vezes, era suficiente aquecê-la ao sol. Vestiam-se as melhores roupas, mas até à Vila levavam-se botas velhas, próprias para caminhar onde as pedras abundam. Se fizessem o percurso com os melhores sapatos corriam o risco de à chegada estarem impróprios para a cerimónia, sendo motivo de vergonha perante os da vila!

A caminhada era longa! Partia-se cerca duas horas antes da missa. Uns de burro e outros a pé, lá ia a maioria dos habitantes deste pequeno povoado. Por horas só ficavam os velhinhos incapazes de suportar tão sagrada jornada.

Sortelha servia para ir à missa, conversar com familiares e amigos das aldeias vizinhas, ir à mercearia do senhor Alcides, que também era então o dono do táxi, comprar petróleo para o candeeiro e motor de rega, massa, esparguete, etc. Os alforges não tinham muito espaço, parte já estava ocupado com o farnel, só se trazia algum bem essencial porque o dinheiro era escasso.

A pequenada aproveitava para subir às muralhas e à Torre de Menagem, apesar do difícil acesso e consequentes perigos que representava.

Os rapazes e raparigas lançavam olhares em todas as direções avaliando a possibilidade de encontrarem um(a) parceiro(a) ou a oportunidade de concretizaram novos conhecimentos e namoricos!

Independentemente das condições climatéricas, homens e rapazes não desperdiçavam a oportunidade para visitar a taberna do senhor António dos Santos, beber um copo de vinho e fumar um cigarro. Era uma forma de recuperar as energias despendidas com a viagem, tirar a sede se estivesse muito calor ou aquecer se estivesse frio; para os jovens fumar era como que uma forma de afirmação perante os adultos. Se a missa acontecesse ao meio dia levavam o farnel: um pedaço de pão centeio, cozido no forno da povoação, acompanhado de um pedaço de toucinho retirado da salgadeira, de chouriço ou uma fatia de queijo de fabrico caseiro. Acomodavam-se com o que levavam de casa! Na vila não existiam restaurantes e os seus habitantes não eram generosos a convidar para confortar o estômago.

Preparados para o regresso, repetiam as orações nos mesmos locais (quando se tratava de acompanhamentos) e relatavam-se os encontros e as conversas tidas na vila com familiares e amigos das aldeias vizinhas. Alguns vinham um pouco ruborizados, era uma forma de se desvanecerem as amarguras da vida! Para esta gente, que trabalhava de sol a sol, os deveres religiosos acabavam por ser também uma distração, uma fuga à rotina do quotidiano e um pouco de repouso para o físico.

Ao chegar a casa a primeira preocupação era vestir uns andrajos próprios para o mundo rural. A vestimenta domingueira para ir à missa e à vila era necessária para as próximas idas, não se podia desperdiçar. Para se estar em casa, brincar e tratar dos animais tinha que ser com botas de campo ou tamancos e trapos velhos.

Estes comportamentos domingueiros eram comuns a todas as anexas de Sortelha, exceto a Quarta Feira que tinha missa dominical.

:: ::
«Memórias de Sortelha», por António Augusto Gonçalves

Deixar uma resposta