Circunvalação

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Circunvalação é acima de tudo uma via rápida, que circunda total ou parcialmente cidades, vilas, aldeias, permitindo o escoamento do trânsito sem necessidade de passar pelo interior das mesmas.

Estrada de circunvalação

Há anos, numa histórica aldeia situada no interior deste país, moveram-se inúmeros esforços para se construir uma estrada de circunvalação, que não atingia dois quilómetros.

A concretização desta via era importante para o bom funcionamento do trânsito ligeiro e principalmente o de maior tonelagem, que todos os dias atravessava as ruelas da aldeia.

Também trazia grandes benefícios ambientais e patrimoniais, uma estratégia fundamental para a vida das pessoas e dos bens públicos (estes de interesse regional) e privados.

Unidas forças e vontades, meteram-se mãos à obra para a sua concretização. Com dificuldades financeiras o poder autárquico apelou aos pequenos proprietários de umas courelas para cederem o terreno gratuitamente ou a um preço simbólico. Todos concordaram, com excepção de um “senhor feudal”, que tinha mais terrenos que todos os outros proprietários juntos.

O Município, atendendo ao gesto altruísta dos donos, recompensá-los-ia num futuro Plano Urbanístico para venda de espaços para construção.

Contactado o “grande senhor feudal”, pediu mundos e fundos pela passagem da via alternativa, apesar da valorização urbana de que, conjuntamente com os outros, iria beneficiar. Estava convencido que tinha ali ganho o euro milhões.

Perante tantas barreiras económicas e também políticas a construção da circunvalação não avançou.

O “senhor feudal” naquela época vivia no mundo do dinheiro, deslumbrado com o vil metal, que muitas vezes ajuda a cometer injustiças e disparidades, termina com amizades, criando ódios e incertezas…

Neste caso concreto, quando se cruzam duas viaturas e se dá o caso de uma ser pesada, então é um rebuliço dos diabos, que se agudiza quando são duas de igual ou superior tonelagem.

São manobras sem fim para a direita e, ultimamente com a geringonça, mais para a esquerda, para se sair de ruas apertadas, estreitas, de uma aldeia com muitos anos de história.

Quando acontece um cortejo fúnebre tem o morto a vantagem de estar mais alguns minutos no meio dos vivos sem descer à terra e sem direito a reclamar.
Descaracterizada, sem o bairrismo de outros tempos, ainda há revolta em muitos rostos, pela não concretização de tão benéfico projecto.

E quem acreditaria que os terrenos desse “senhor feudal”, com tantas ambições, acabariam de dar em insolvência total?

Na minha aldeia há um ditado que me ensinaram: “quem tudo quer, tudo perde.” Quem tudo quer na vida, acaba na maior parte das vezes a perder.

Na finalização da história, nestes casos de ambições pessoais, quem ficou a perder foi o Povo, é sempre o Povo que se lixa, quando o mar bate na rocha.

Todos lá continuam a passar muito devagar e com redobrada atenção por ruas tão estreitas, feitas para passar carros de bois.

Talvez um dia se arranje um meio aéreo…

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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

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